Podia ser quinta ou sexta e uma voz no fundo dizia que já era sábado. Ao certo ele não sabia mais todas as tardes eram iguais e não tinha nada de muito útil pra fazer assim como ontem ou anteontem.

Não demorou muito pra que chega-se ao bosque. O lugar não era o mesmo que se lembrará haviam árvores ausentes e o que antes era um descampado tinha uma porção de fabricas. Mais uma vez se permitiu odiar o capitalismo desenfreado e o desmatamento legalizado.

Contudo Orion respirou fundo deixando que o céu azul perdesse o tom claro e apagando aos poucos as nuvens alvas Fechou os olhos puxando o arco sobre o instrumento e não podia sair nada de diferente. O tom era suave, simples e as vezes complicado carregando uma melancolia de quem daria tudo pra voltar no tempo e ter mais cinco minutos.

Aquela foi a primeira música que aprendeu a tocar e o motivo pra ter aulas de violino. Ele podia ouvir o eco das cordas ruindo em seu ser evaporando as lágrimas que um dia cairiam.

Quando abriu os olhos ela estava lá. Sentado em sua frente. As pernas juntas ao corpo enquanto apoiava as costas em uma árvore.

— Eu não sabia que tocava... - Foram as primeiras palavras que traziam um pouco de paz de quem precisava pensar. — É a primeira vez que te vejo aqui... - A frase terminou sem vida e por pouco não ficou sem sentido. Havia algo de estranho nela que não permitia que fosse lida como um livro.

— Você vem muito aqui? - Aos poucos foi escorrendo no tronco que estava apoiado a árvore estava morta porém mesmo assim parecia mais viva e menos mórbida que suas irmãs caídas.

— Só quando preciso pensar... - Ela respirou fundo, como se isso fosse lhe esvaziar um pouco. — Por que não toca outra? — Os olhos pendiam ao chão mesclado em um clarão obscuro enquanto os lábios esboçavam um meio sorriso forçado.

— Eu só sei tocar clássicos e algumas outras músicas. - Desviou os olhos da menina e focou no horizonte tingindo de vermelho, alguns tons radiantes de amarelo e da estranha mistura um violeta sútil surgia acrescentando magia ao entardecer.

— Sabe tocar Stay das Back Pinks? - Talvez o K-pop a preenchesse e fosse uma parte da sua alegria enquanto a ele não passava de uma única música.

— Só se você cantar. - Ele a encarou procurando algo que não via em si mesmo. Uma dose tão letal de felicidade que ofuscaria qualquer escuridão.

Kassia negou com a cabeça baixa procurando uma resposta que ainda não tinha e sorriu ao encontra-la.

— Eu não sei a letra...

Parte dele sabia que era mentira enquanto outra parte só não queria acreditar na pequena verdade.

— Não seja por isso. - Tirou o celular do bolso e foi buscar a música em suas plays list. Quando encontrou sentou ao lado dela deixando em suas mãos. — Quando quiser...

Ela ficou em silêncio e algo nele queria apressa-la, mas recordou de um conselho de seu falecido pai:

A perfeição exige o seu tempo

Quando a primeira nota surgiu dos lábios da moça ele puxou o arco. A música estava fora de ritmo e nem por isso deixou de ter sua beleza na voz doce e melodiosa, dela.

Algo nele ou no instrumento o fazia continuar estendendo acordes e diminuindo o tempo. Havia muita coisa errada, coisa das quais não queria falar. Ante de acabar uma lágrima rolou o rosto deixando um rastro quente e como um pequena gota de chuva molhou o chão que agradeceu pela porção extra de vida.

— Você quer conversar? — Os olhos dela buscaram o dele despejando um duvida que por pouco não atingia o medo.

— Só se você quiser... - Ele sabia que não era o único que precisava falar. Por tudo que sentia em ordem. E com todo egoísmo foi cavaleiro — Primeiro as damas.

Mais uma vez contemplou o breve sorriso, deitou o violino no colo e girou o anel de seu colar.

— bem... eu terminei com meu namorado e agora... meio que quero voltar. Eu sinto falta dele.

— Por que terminou com ele? - A curiosidade estava estampada no rosto do menino que não conseguiu segurar a pergunta em seus pensamentos.

— Ele me fazia feliz, mas sabe não tinha vida era quase como se fosse meu amigo e não o amor da minha vida... — Ela entregou o celular o a ele e fitando a foto da ruiva na tela de bloqueio mudou de assunto. — Quem é ela?

— Alice... minha ex namorada - A memória o atingiu feito um raio arrepiando o corpo enquanto os nervos eram queimados.

Aquele não era o momento mais mesmo assim escorriam lentas,felizes e de alguma maneira dolorosas demais pra suportar. Ela não precisava da covardia, do medo que acompanhava cada batida do coração e sobre tudo do desespero de perde-la.

Agora que tudo era real pensava se valia apena amar, por que doía tanto e a dor parecia não ter limites. De alguma maneira tentava fugir de tudo.

Mais aquele breve sorriso trouxe a esperança que fugia e a certeza que se morresse estaria com ela no tumulo pra sempre.

Eu sabia tão pouco mais a conhecida tanto. Eram tantas contradições na pequena frase que dizia que as lagrimas começaram a rolar silenciosas e densas.

Sentia a frieza de sua pele, a fragilidade de seus osso quase expostos e o rosto pálido esboçando um sorriso gentil, medroso e desesperado por mais um pouco de vida.

Os lábios tocaram sua testa para então se juntar aos seus, maciez e suaves.

— Eu também... - A frase escorria com mais vida do que deveria e o receio sútil de nunca mais vê-la só crescia conforme o tempo passava. — Me amo. — Informou com um sorriso enquanto a torturava ao não dizer as palavras que tanto desejava ouvir.

Seria egoísta pedir que não morresse, Alice sofria tanto e lutou mais ainda. Era errado demais implorar que não tivesse seu merecido descanso mesmo que isso o destruísse, amaria o quanto pudesse.

—O motivo da minha insônia... - Concluiu ele se levantando. Como um bom covarde fugia sem deixar suspeita colocando um pé afrente do outro diante do medo. — Só por que não esta namorando não quer dizer que não possa conversar com ele ou ser amigos. Não é errado se apaixonar por alguém, mas é quando usa apenas pra tapar um buraco.

Orion já estava longe quase dobrando a esquina quando viu os olhos cansados, a roupa preta ambulante e sobre tudo os cabelos enrolados.

— Então foi você que fez ela fugir de casa! - Havia ódio em cada palavra escondendo o medo de perder algo precioso e por isso vieram acompanhada de um soco.

Orion sentiu a raiva inundando seu corpo e de soslaio seus olhos procuravam os delas Culpados e profundamente acuados e não pode deixar de sorrir em meio a dor.

Com o silêncio o segundo soco atingiu a lateral do rosto e quando percebeu estava no chão com o sabor ferroso na boca. Era estranho mais precisava demais, precisava de um motivo pra lutar e outro pra provar que ainda estava vivo.

Quando o primeiro chute veio abraçou a barriga e ainda que muito longe ouviu os gritos. A última coisa que viu foi o violino sendo pisado e aos poucos tudo ficou embaçado para então dar lugar ao breu.