Apóstolos de Pedra

3 O despertar do Apostolado


A chuva caía devagar quando os três, já pela madrugada, cruzavam as ruas do centro da cidade. A movimentação era pouca, geralmente de pessoas envolvidas com o submundo humano corrupto, doente e defeituoso: usuários de drogas, prostitutas, ladrões de carreira medíocre, pequenas gangues de traficantes e cafetões, seres que muitas vezes nem eram considerados humanos por alguns, transitavam por ruas molhadas e mal iluminadas; e muitas delas cruzaram com o trio. Camile insistiu que precisavam se disfarçar um pouco, convencendo os dois protetores a invadirem uma loja de roupas para encontrarem algo; ela se contentou com uma calça jeans preta, blusa branca e jaqueta de um tecido mais grossa, para aguentar o frio, além de pegar um guarda-chuva pequeno, para não se molhar muito; Salém e Niciel, por sua vez, limitaram-se a pegar um sobretudo e um chapéu, afinal tinham pressa em concluir aquela parte da enorme missão contra o tempo.

No longo percurso ao ponto de invocação, a imortal contou sobre o encontro com o Apóstata, revelando que ele foi o líder de toda a Apostasia quem fez a visita; e contou sobre o blefe que eles fizeram por séculos. A influência deles era maior do que deveria, estando presente em diversos eventos e acontecimentos, orquestrando o mundo para aquele momento, que culminaria numa invasão em escalas inimagináveis; e a destruição dos templos era algo que não estavam nos planos, por isso fariam o possível para impedi-la de ajudar o Apostolado.

— Como não percebemos isso? — questionou o homem de pedra, desapontado.

— A Apostasia fez o que sabia: apenas deu ao homem o que ele precisava. Moldou uma crença ilusória, despertando o que havia de pior. Vocês e eles sempre brincaram com o poder de crer, seja para o bem ou para o mal. Quantas religiões, hoje chamadas de mitologias, não se ergueram nesse jogo de fé que ambos os lados forjaram? O que os impediria de continuar isso, sem que vocês soubessem? Arrisco a dizer que, em algum momento, os Apóstatas brincaram com vocês também, metamorfos, assim como brincou com a aparente derrota que tiveram.

Salém rosnou, mas nada disse.

— Por que demoraram tanto para agir? — perguntou Niciel.

— Estavam esperando o líder ficar fortalecido, acho. Ou algum evento que ainda não sabemos. Talvez o fato de vocês quererem destruir os templos tenham acelerado as coisas, obrigando-os a aparecerem logo. Aliás, ainda não sei como você ficou sabendo sobre os planos deles de se apossarem dos templos.

— Embora os metamorfos e demais clãs e ordens nos olhem com desconfiança, existem algumas alianças e tratados que nos mantêm informados sobre o mundo. Todo o Apostolado sobrevivente prometeu combater as ameaças vindas de outros mundos, sejam quais forem; isso ajudou a termos informações sempre atualizadas. Foi na semana passada, quando eu viajava pelo Canadá, que eu soube sobre uma agitação num antigo templo congelado ali próximo; reuni um pequeno grupo de metamorfos esquimós, famosos por se transformarem em ursos polares e lobos-polares imensos, e parti para lá, afinal não era uma construção de fácil acesso para que houvesse visitantes assim.

— Era aquele templo com os totens?

— Sim, Camile.

— Ajudei a construir, na época em que estava em minha busca — disse ela, num tom saudosista, quando os três passaram por um grupo de viciados injetando uma mistura de porcarias diretamente na veia. — Fiquei impressionada mais com aquilo do que com as pirâmides dos povos mesoamericanos ou egípcios, pois ali estavam construindo monumentos para os metamorfos que protegiam o mundo, sem qualquer ligação com o Apostolado ou a Apostasia. Era algo natural, ainda que envolto naquela energia forte que eu sentia correr pelas árvores, pela neve e pelos animais. Era como se houvesse, de fato, magia. Espero um dia, se morrer, ser enterrada lá.

Niciel arfou; não queria estragar aquele momento sublime de alguém que dia após outro perdia o interesse pelas coisas da vida e do mundo; provável que a visão que a garota tinha sobre tudo era parecida com a que ele tinha: monotonia depois de alguns milênios.

— Estamos quase chegando — falou, encarando um mendigo que terminava de secar uma garrafa de cachaça.

— O que aconteceu com o templo? — perguntou Camile, notando o desvio de assunto.

— Quando chegamos, os Apóstatas estavam usando um veículo estranho, um tipo de extrator de minérios que usávamos bastante, antes de virmos para a Terra, mas não extraíam minérios ou qualquer coisa que fosse sólida; estavam, na verdade, sugando a energia vital do planeta, a mais profunda e primitiva, a que descobrimos quando viemos para cá e usamos para moldar a realidade, a que deu origem não apenas ao metamorfos, como também quaisquer outras criaturas que não pertencem nem ao nosso lado nem ao dos humanos. E aquilo não poderia continuar acontecendo!

— Eles destruíram o templo?!

Salém identificou aquele tom de voz; era pesaroso, triste demais, cansado demais; era o mesmo que ela usava quando chorava o dia inteiro, amargando as lembranças que tanto queria esquecer num velho baú; era a mesma tonalidade de quando queria apenas ficar abraçada com ele, afagando os pelos negros e macios, contemplando o vazio ou a chuva caindo, como faria naquela madrugada, se não tivesse fugido de casa, perseguida pelos Apóstatas. Não viu, contudo, sequer uma lágrima escorrer, apesar de seus olhos negros estarem marejados.

— Lamento — respondeu o Apóstolo. — A luta contra eles me custou mais da metade dos aliados, mesmo os mais preparados para combates, que se transformaram em lobisomens de pelo branco e ursos duas vezes maiores do que os reais; lutamos com fervor, mas não pudemos salvar o local da destruição.

— E a energia?

— Foi resgatada e libertada, unindo-se ao mundo.

A imortal suspirou; algo doía em seu peito.

— Eu realmente queria, um dia, ser enterrada lá — foi tudo o que disse, secando uma lágrima solitária que desceu pelo olho esquerdo.

O metamorfo cogitou acolhê-la, mas se controlou; não era o momento para aquilo.

∞

A invocação consistia numa sequência precisa de palavras e gestos, empregando um código de origem antiga e desconhecida por quase todos os povos, de todos os mundos habitáveis; Niciel e os outros seis, que seriam despertados, conheciam-no por pertencerem ao “povo das estrelas”, como também eram chamados. Ele só não estava acostumado a invocar todos os companheiros de uma vez, quando o normal era um a cada fim de ciclo; geralmente, pouco antes de se estabelecer num refúgio seguro e inacessível, em alguma parte do mundo, o Apóstolo acordado recitava as palavras e realizava os gestos sequenciais, chamando pelo nome daquele que iria acordar; feito isso, adormecia até que o último dos seis seguintes completasse o tempo de peregrinação. Despertar todos num ritual só exigiria muito mais tempo e esforço.

O ponto escolhido era um terreno baldio, no bairro menos habitado, o que significa menor chance de aparecer não-iniciados no submundo sobrenatural ou alguém que pudesse atrapalhar a realização; Salém, por ter os sentidos mais apurados, ofereceu-se para montar guarda, garantindo avisar se aparecesse, no pior dos casos, um grupo de Apóstatas como a dupla abatida horas antes; e Camile encostou-se na parede velha de um prédio abandonado, observando com curiosidade algo que desconhecia. A chuva já havia passado, restando apenas a friagem típica da madrugada e as nuvens pesadas, que alertavam sobre outras tempestades.

Os poderes tanto do Apostolado quanto da Apostasia vinham de uma energia mais bruta do que a existente na Terra: artemagia. Era um princípio que andava lado a lado com o conceito conhecido pelos humanos como “magia”, porém era imprevisível e altamente mutável; para aqueles seres feitos de pedra, por exemplo, era tanto as almas que os mantinham vivos quanto a energia que lhes dava os dons que tinham. Quando entraram em contato com a versão mais filtrada dela no planeta que se estabeleceram, notaram que foram se enfraquecendo, deixando de serem metafísicos para se tornarem físicos, o que representava uma perda imensa de artemagia; a solução, ainda que desesperada, foi concentrar seus corpos em um material resistente — material de um meteorito —, adotando a aparência de estátuas, e suas almas em pedras preciosas coloridas ou transparentes, que impediriam perder suas essências, e nas armas escolhidas para usarem.

No caso de Niciel, o tempo empregado para se completar foi longo: primeiro aceitou uma forma, algo que causasse medo nos inimigos, passando gerações até se fixar no estilo otomano, algo relativamente recente, visto que o auge do império foi do século XV ao XVII; viveu durante esse período adotando armas temporárias que aquele povo poderia oferecer, mas sem jamais entregar a alma para nenhuma delas, descartando-as a cada ciclo, sempre reiniciando a procura pelas lâminas perfeitas. Foi na Turquia que o líder o invocou, num caráter emergencial, apresentando-lhe três espadas distintas: a saif, oriunda do norte da África, a yataghan e a quama, ambas de origem turquesa, e o ajudando a endurecer infinitamente os materiais que as compunham; foram meses de metalurgia bem trabalhada para que ficassem perfeitas. Quando foi despertado para assumir o turno, dedicou algumas décadas aperfeiçoando suas técnicas de manejo, testando formas de usar, se precisasse, as três lâminas ao mesmo tempo, feito realizada apenas uma vez, contra guardiões de uma antiga armadilha da Apostasia.

Para a invocação, a primeira espada a ser parcialmente cravada no solo foi a maior, a yataghan, mantendo o gume afiado voltado para o Norte; a saif foi cravada no lado oposto, com o fio direcionado ao Sul; e a quama no centro, com os lados cortantes apontados para Leste e Oeste. O Apóstolo recitou algo naquela língua que fascinava Camile durante o processo, aumentando o ritmo e o tom de voz quando fincou a última arma, puxando um pedaço de carvão e desenhando no ar um símbolo que se materializou como se queimasse em contato com o oxigênio; gesticulando, fez o signo dançar, erguendo-se e ficando sobre sua cabeça, para logo a seguir se desfazer, caindo milhões de fragmentos incandescentes ao redor, formando agora um círculo perfeito, iluminando-o e aquecendo os metais das espadas.

— Gostei do truque — sussurrou Salém, que estava em cima do prédio, possuindo a melhor visão de todo o ritual.

Vociferando, Niciel moveu os braços no ar, girando os dedos cada vez que se voltava para um dos quatro pontos cardeais marcados pelos gumes; era uma combinação estranha de movimentos, revelando que, mesmo sendo uma estátua, ele era bastante ágil e flexível. E aquelas palavras, ainda que em um idioma antiquíssimo e desconhecido, soou reconfortante e familiar aos ouvidos das duas testemunhas, como se fossem uma cantiga de ninar que ouviram quando ainda bebês ou um poema recitado com paixão por alguém; na verdade, era como se todas as línguas faladas tivessem suas origens naquela que o guerreiro pétreo pronunciava com fervor e ritmo crescente. Cada nova entonação tornava o círculo mais intenso, mais ígneo, iluminando tudo ao redor e dando ao invocador um aspecto tanto respeitável quanto assustador, sobretudo quando a luz refletia o brilho turquesa dos olhos e marcas nos braços.

Num instante o ápice foi atingido, estremecendo todos os sentidos; no outro, trevas, silêncio e um vazio imenso e incompreensível.

∞

— Agora é esperar — falou Niciel, terminando de limpar a quama. — Eles irão nos encontrar conforme formos percorrendo o mundo. Estão espalhados pelos continentes, mas irão nos achando de acordo com as informações que forem recebendo de mim.

Camile olhava o círculo de carvão e cinzas, ainda sob o efeito do que testemunhou.

— Consegue localizar um templo aqui, no Brasil? — perguntou o Apóstolo, ao se aproximar dela. — Sei que existem um ou dois aqui.

— Senti, em minhas viagens pelo país, dois pontos de energia bem forte chamaram bastante a minha atenção — respondeu ela, ainda analisando o desenho artemágico. — Um é o mais próximo de nós, pois fica a Leste, no Rio de Janeiro, onde os fenícios estiveram, muito antes de Cabral; o outro, no Norte, numa tribo esquecida, que já nos leva para fora do país.

— Outros templos pelas Américas do Sul e Central, além das que conheço e cuidei de inutilizar sem causar muitos danos?

— Na América do Sul, acredito que não, pois os templos ocultos foram feitos em lugares distantes o bastante dos expostos e mais cultuados. Na Central, contudo, existe um apenas, mas falarei sobre após irmos nos dois brasileiros, certo?

— Certo.

— Tulpas e kylkhors? — indagou Camile, sorrindo.

— Sim.

— Eu sabia fazer isso. Aprendi com os lamas tibetanos.

— Sabia?! — espantou-se Salém, que até então estava quieto, sentado sobre um velho tambor enferrujado, afiado as garras numa pedra.

— Sim.

— Mas isso não é algo mais dos Apóstolos e artemagos?

— Aham, mas não é complicado repetir esse feito, se treinar bem a mente, sabe? Nunca tive inclinação para grandes feitos, exceto o de possuir boa memória e sentir a energia que emana do mundo, porém conheci os lamas na época de minha busca e eles me ensinaram bastante sobre tulpas, levitação, meditações e outros segredos; nunca entendi o motivo disso, mas pareciam enxergar algo em mim, uma coisa que eu não conseguia sentir nem explicar.

— Por que deixou de fazer tulpas? — questionou Niciel, sentando-se ao lado do metamorfo, que se afastou um pouco, cedendo mais espaço.

— Porque nunca precisei, mesmo quando Hitler resolveu testar os limites de minha imortalidade. E também porque acreditava que era algo mais para relaxar do que para ser usado como arma ou defesa, sabe?

A imortal relatou alguns acontecimentos envolvendo tulpas: um lama, após um mês de meditação, conseguiu materializar um colosso de jade, que durou uma semana e ajudou na construção de um templo; outro, mais experiente, animou toda uma tapeçaria diante de mensageiros de um rei de uma terra distante, fazendo inúmeras miniaturas de animais saltitarem pelo salão — era o kylkhors —; e um grupo de lamas, para deter um exército, criou milhares de arqueiros, que mataram centenas de soldados, e alguns monstros do folclore local, que afugentaram os demais, garantindo longos anos de tranquilidade e uma semana ininterrupta de cerimônias aos mortos em combate e purificação pelo uso da violência, ainda que em defesa própria. Ela compreendeu, após o último caso, que aquele dom não era para fins violentos, e sim de concentração e aprimoramento mental.

— Os lamas protegiam o templo — observou Salém —, então há chance de outros serem igualmente protegidos, não?

— Certamente — admitiu o Apóstolo. — Havia guardiões nas pirâmides egípcias, o que causou aquela onda de “maldições” e mortes aos seus exploradores e invasores; veneno cuidadosamente usado para causar morte por um curto período, quando liberado. Chequei o local várias vezes e a energia contida por lá foi dispersada, não restando quaisquer vestígios para que a Apostasia possa usar.

— Venenos, armadilhas, criaturas, artemagia para animar objetos... há uma lista imensa de possibilidades de proteções e guardiões nos templos ocultos — completou Camile —, o que torna os locais perigosos para nós, se formos desatentos.

Niciel levantou-se.

— Precisamos partir — disse. — Logo amanhece e fica difícil transitar pelas ruas com nossas aparências, metamorfo. E creio que Camile precise de roupas extras, dinheiro e alguns itens antes da viagem longa que enfrentaremos até Rio de Janeiro.

— Roupas, sim, mas bem poucas; dinheiro, tenho parte em casa, se pudermos voltar lá, e parte pelos bancos do mundo; e quanto a longa viagem, não será tão longa, afinal tenho meus contatos também.

Os dois a olharam, surpresos.

— Tenho milhares de anos, oras — falou ela, indiferente. — Fiz muitos negócios com famílias e empresas, sendo sócia de grandes nomes do comércio e cultura. Não é complicado conseguir transportes para qualquer canto, desde que eu saiba para quem recorrer.

— Bem que me disseram que você tinha grande influência no mundo — replicou Niciel, pegando o sobretudo e o vestindo.

— Uma mulher precisa ser independente e precavida nos tempos atuais.

O metamorfo ronronou, achando graça.

— Vamos passar em sua casa — sentenciou o Apóstolo otomano. — Dez a quinze minutos apenas, para não darmos oportunidade ao azar, entendido?

— Perfeita e claramente.

∞

Salém farejou e fez uma série de voltas pelos quarteirões, buscando a presença, ainda que escondida, de alguém da Apostasia; nada rastreou, exceto vestígios de sua passagem pelos arredores. Ao relatar aos dois companheiros, ouviu de Niciel que era provável que os Apóstatas tivessem ido atrás de reforços para as buscas aos templos escondidos ou faria o que sabiam: espionar, enganar, esperar e agir no momento que julgassem adequado.

A casa de Camile estava quase como ela a deixou ao fugir; estranhamente, ninguém aproveitou a porta entreaberta para furtar nada.

— Garota de sorte — comentou o metamorfo, sentando-se no sofá, esticando a cauda e agarrando uma almofada.

— Dez a quinze minutos apenas — repetiu o Apóstolo, com ar impaciente.

— Já entendi.

Enquanto a imortal foi para o quarto arrumar uma mochila com algumas roupas e objetos, os dois protetores ficaram na sala, em silêncio. Salém estava se divertindo como um gatinho com a almofada, arranhando-a e sorrindo de maneira boba; o outro se manteve estático, honrando o apelido de “Estátua” que tinha ele e seus companheiros de Apostolado tinham recebido de diversas ordens e clãs de metamorfos e artemagos. Vez ou outra se olhavam, mas preservavam suas posturas.

— Pronto! — exclamou a garota, voltando com uma mochila com apenas uma alça presa às costas. — Peguei tudo o que preciso. E me despedi dos livros que li e dos que não lerei.

— Ainda há livros que você não tenha lido, mesmo tendo vivido tantos anos? — perguntou o rapaz, visivelmente surpreso, pois sempre a via devorar até vinte livros por semana, sobre quaisquer assuntos e em todos os idiomas possíveis.

— Livros são algo que beiram sutilmente o infinito, Salém. Mesmo que eu vivesse mais cem mil anos, acredito, não leria tudo o que já foi escrito em cinco mil.

— Quando tudo isso acabar, você poderá terminar de ler esses que ficaram.

Camile assentiu, apesar de pressentir outra coisa.

— Vou desenhar alguns símbolos pelas paredes, para garantir que ninguém de nós adentre até nosso retorno — falou Niciel, pegando um carvão e caminhando até a janela de vidro.

Ele encheu a casa de desenhos esquisitos, amálgamas de culturas diversas, algumas que apenas entidades com milênios de existência sabiam que um dia houveram no mundo; espalhou-os pela sala, cozinha, quarto, banheiro e demais cômodos, rabiscando paredes e chão, criando um intrincado sistema de proteção que nem mesmo o líder da Apostasia conseguiria atravessar. Ao concluir, guardou o tição, olhando para os dois, que estavam sentados no sofá; a garota acariciava a cabeça felpuda do metamorfo, que ronronava.

— Passaram-se quarenta e sete minutos — comentou ela, sorrindo meigamente.

O Apóstolo gargalhou ruidosamente, e sua voz potente era como duas enormes pedras se chocando. Era a primeira gargalhada que ele soltava em séculos.