Apóstolos de Pedra

2 A bigorna e a rocha


Notas iniciais
Este é o capítulo em que a ação começa de verdade. É também aqui que os aliados aparecem. E os perigos aumentam.

Andando por ruas mais escuras, protegendo-se com o guarda-chuva, Camile parecia uma criança ao lado daquele gigante robusto. O tempo corria normalmente, pois o efeito da paralisação era breve demais para estender a conversa num lugar tão público.

— A última vez que lhe vi, era uma sobrevivente do holocausto — comentou Niciel, num tom sério.

— Hitler estava obcecado pelo poder que descobriu. Tentou de todas as formas manipular aquilo para quaisquer fins que o fizesse vencer.

— E você sofreu as dores dessa obsessão.

— Sofri muitas dores, Niciel. Até mais do que uma mulher poderia suportar...

Camile respirou fundo, como se uma lembrança ruim retornasse de vez, gritando e arranhando.

— Mas não veio aqui para saber de minhas dores antigas, certo?

— Sei que não tenho o direito de fazer isso, contudo as circunstâncias exigem que eu o faça. Tempos difíceis se aproximam para este mundo que nos acolheu. E você é a única que pode nos ajudar a parar um mal que deseja a energia deste planeta.

— São eles?

— Sim, mas não apenas eles, e sim o que querem agora.

— Qual a treta?

— Você não é uma humana comum. Tem um dom. E não me refiro à sua imortalidade, e sim à extrema sensibilidade para sentir a energia que emana em abundância da Terra. Precisamos disso para ganhar essa guerra.

— Quer que eu localize os pontos em que a energia está mais forte para...?

— Há muito tempo, fomos deuses e demônios. Ergueram templos para nós, construções situadas em cima das emanações mais fortes, onde podíamos operar milagres e iludir. Você esteve em alguns deles durante suas peregrinações, tentando entender sua natureza e sua atração pela força desconhecida que este planeta produz. Lembra-se de perguntar aos oráculos sobre seu futuro ou sobre o motivo de nunca morrer?

A garota desviou o olhar, afinal não tinha como esquecer um segundo sequer, mesmo que desejasse desesperadamente que isso fosse possível. O baú em que mantinha as lembranças pessoais ficavam perto demais da mesa enorme dos recortes coletivos; e era inevitável não abri-lo sem perceber.

— Quando encontrar esses templos, o que pensam em fazer? — perguntou, fitando o rosto pétreo do interlocutor.

— Destruí-los. Um a um. E liberar a energia, impossibilitando que eles a usem.

— Vocês não podem achá-los sem mim?

— Os que conhecemos, sim. Mas têm outros, mais escondidos, ocultos de nossos olhos. Éramos numerosos antes das guerras e das perseguições. Hoje, somos sete contra dezenas ou centenas. São tempos complicados para os Apóstolos.

Ambos pararam numa ruela, onde a água caía mais lentamente, em gotas aqui e ali; era muito mal iluminada e não oferecia perigo para Niciel, cuja aparência poderia assustar alguém desacostumado com a pequena sociedade sobrenatural que transitava pelas cidades, florestas, desertos, céus e subterrâneos. Camile conhecia povos diversos, civilizações atualmente perdidas ou esquecidas, criaturas inimagináveis e segredos que teriam feito de Hitler um deus na Terra.

— Vocês sabem que não me meto em conflitos, sejam quais forem. Tanto vocês quanto eles me feriram muito, acreditando que eu era uma arma de guerra — falou ela, com seriedade. — Não me deixaram cicatrizes no corpo, mas na alma, e essas são as que ninguém pode ocultar com maquiagem. Ainda sinto aqueles instrumentos me penetrando fundo a carne; às vezes sonho com o sangue escorrendo, com a carne sendo queimada... a minha carne. Eu tento não pensar nisso, mas às vezes vem, escapa do baú que forjei para guardar as recordações ruins. A sua guerra é contra eles, mas não estão vocês se tornando cópias deles?

O Apóstolo não respondeu. Sabia que nada a faria esquecer ou perdoar as sessões de tortura e experimentos que foi submetida, séculos antes, quando as duas facções lutavam pelo pouco de soberania que ainda restava. Quando a humanidade começou a acreditar em Deus, os deuses antigos, fossem reais ou fantasiosos, tiveram seu declínio iniciado de forma vertiginosa. E o desespero obrigou tanto um quanto outro a agir de maneiras semelhantes. Foi o líder atual dos Apóstolos, horrorizado com aquelas barbáries, quem eliminou o antecessor e os fez jurarem jamais causar sofrimento a outro humano e sempre zelar pela segurança de Camile, algo que ela nunca aceitou nem quando os nazistas repetiram aquelas monstruosas experiências.

— Eu vou ajudá-los — continuou a imortal. — Preciso de uns dias para ajeitar as coisas. Salém não pode ficar sozinho. Dois dias bastam. Aí eu vou com você acordar os seis, e vamos salvar o mundo outra vez.

Niciel assentiu.

— Farei isso pelo seu líder, que matou aquele desgraçado — finalizou Camile, encarando os olhos turquesa do gigante de pedra —, pois nenhum de vocês fez nada para impedir que ele chacinasse uma civilização inteira em nome de uma ciência falaciosa. Lembre-se disso e avise aos outros, quando os encontrarmos, certo?

O Apóstolo tornou assentir, enquanto a garota se distanciava, dirigindo-se à rua mais movimentada ali perto. Embora fosse composto por pedras, não escapou de sentir um aperto no peito pela culpa dos crimes de seus companheiros — e pela incapacidade de nada fazer para impedir os massacres.

∞

Ela se lembrava; por mais que quisesse esquecer, não poderia. Era sua sina.

Os Apóstolos chegaram antes, ensinando ao mundo primitivo noções muito avançadas de ciências, de arquitetura a biologia, de geologia a astronomia; eles foram chamados de deuses e de mensageiros, de anjos e profetas. Foram os primeiros faraós, os nefilins das lendas, os heróis civilizadores que, a seguir, combateram suas contrapartes mal intencionadas, que os seguiram com a certeza de encontrarem um mundo ideal. Naquele tempo, nenhuma das duas facções era como os dias recentes; andróginos, eram dotados de asas ou não, numerosos e belos, poderosos e orgulhosos. Não imaginaram que a raça humana, sempre vista como inferior, conseguiria vencê-los em combates, fazendo uso do conhecimento vindo de outros planetas.

Por milênios, a Terra viveu sob as lendas derivadas de fatos. Foi o período em que os Apóstolos se reinventaram, fundido seus corpos aos de pedra celeste, tornando-se seres pétreos. Foi quando tentaram medidas de voltar às glórias de outrora, mas nada conseguiram além de exterminar povos inteiros. Após o antigo líder ser morto por um rebelde, passaram a ser guardiões do mundo, combatendo monstros e antigos irmãos de origem, conhecidos como Apóstatas. Rocha e metal se chocaram, pois os inimigos fundiram seus corpos com metais diversos de uma cidade que arrasaram; e assim a Apostasia quase venceu o Apostolado.

Camile se lembrava de um grupo de humanos diferentes. Eles eram chamados de magos, bruxos, feiticeiros, sacerdotes, profetas e druidas. Criavam monstros a bel-prazer, propagavam doenças, ofereciam curas, multiplicavam milagres, manipulavam elementos da natureza, previam coisas, mudavam de formas e tamanhos... e foram à luta, ajudando os Apóstolos a vencerem os Apóstatas, fazendo-os jurar nunca mais interferirem na crença, afinal a raça humana merecia viver seu curso sem intervenção alienígena. O líder recente dos que sobraram, contudo, prometeu permanecer em hibernação por eras e eras, mantendo apenas um acordado por um período de cem anos, que dormiria apenas depois de despertar o sucessor; e não hesitaria em retribuir a aliança enfrentando inimigos vindos de outros recantos do Universo.

A garota conheceu todos os sete restantes. Com exceção do que liderava o grupo, nunca teve simpatia por nenhum. E viveu sua vida sem se preocupar com eles por mais de três mil anos... até aquela noite.

As pirâmides pelo mundo, o enorme conhecimento de astronomia, medicina e biologia, as teorias sobre o mundo metafísico, as construções que resistiram ao tempo, cada coisa extraordinária do passado teve influência dos Apóstolos, que ensinaram aos homens a desenvolver suas capacidades criativas. Eles não construíram nem ofereceram meios físicos para as realizações; apenas disseram que seria possível, e a raça humana o fez. E teriam oferecido para a humanidade idades de prosperidades, se não fossem os Apóstatas, que corromperam impérios e reinos, amaldiçoando tudo o que era bom... inclusive alguns daqueles que eram a favor do Apostolado.

Com o desfecho dos conflitos, tudo parecia ser coisa do passado, assim como as boas lembranças de Camile. As civilizações humanas surgiam e desapareciam em ritmo acelerado, algumas se erguendo sobre as cinzas de outras; a ganância superou o legado deixado. Vieram guerras pós guerras, líderes e tiranos em todos os cantos, sangue banhando a terra, religiões pregando ódio, preconceitos, doenças sendo criadas por mentes perversas, a Apostasia sem fim. Tudo encaminhando para o retorno dos que desejavam governar o mundo.

A imortal deu um sorriso amarelo. As pistas estavam ali, o tempo todo, sob variadas faces, e ela nem notou nada. Um elaborado jogo de xadrez, com sacrifícios e blefes, jogadas ensaiadas e arriscadas. Eles conseguiram enganar os Apóstolos, alegando terem ido embora quando, na verdade, havia alguns poucos orquestrando os planos de domínio.

Quando chegou em casa, foi recebida por Salém, que miou num ritmo desesperado, andando entre seus pés, o rabo eriçado. Não teve tempo de perguntar nada e tampouco de enxergar a silhueta sentada no sofá, sob a penumbra.

— Quanto tempo, imortal — soou uma voz metálica, firme e profunda.

Aquele tom. Ela o comparava com ferro quente sendo batido por um martelo sobre uma bigorna medieval. Mesmo sem ver o semblante do interlocutor, conhecia aquela voz.

— Pensei que estivesse no espaço — replicou Camile, antes de acender a luz, que iluminou um rosto prateado e marcado por cicatrizes negras.

— Ah, sim. Desde que fui gravemente ferido por aqueles feiticeiros, há muito tempo, estive hibernando. Mas deixei meus companheiros por aqui, cuidando de vocês. E a vigiando.

— Vigiando-me?! Por quê?

— Porque você é uma anomalia, uma criatura que foge da normalidade humana.

— Apenas por isso?

O gato manteve-se próximo aos pés da dona, encarando com seus olhos amarelados aquela criatura que representava ameaça.

— Os Apóstolos possuem grande interesse em você — respondeu o Apóstata, levantando-se com movimentos corteses. — Foram eles quem a machucaram, e não eu ou um companheiro meu.

— Eles estavam desesperados, e o desespero muda qualquer criatura, até as celestiais.

O homem sorriu com malícia, revelando dentes alvos e marcados por veias douradas. Ele era alto e de porte atlético, sobretudo sob a luz fluorescente, que revelava a armadura estilizada que usava: cobrindo ombros e parte do peito, a pele de um réptil inexistente na Terra, cujas saliências formavam espinhos tão duros quanto metal, de coloração avermelhada, como se estivesse em brasa; usava um saiote de malha negra, que ia até abaixo dos joelhos, encontrando botas com bico pontudo. Era adepto de apenas uma espada, que repousava sobre o sofá, emitindo um brilho prateado intimidador; a arma era de um tamanho descomunal, revelando que seu usuário possuía grande forma e destreza.

— Niciel a procurou, não? — indagou, andando devagar.

Os passos ecoavam na sala; metal se chocante com cerâmica.

— Não faço parte dessa guerra de vocês — Camile recuou um passo, ciente de que era impossível escapar de um ser como aquele.

— Mas é uma chave para a vitória, seja qual for o lado que a tiver em posse.

Salém eriçou os pelos negros, rosnando e encarando o invasor, que o olhou com desdém, para logo voltar a atenção para a imortal.

— Você é uma imortal. Torturas, ameaças, nada disso funciona com você. Não há elos que a prendam a qualquer pessoa. Nem humanidade tem mais. Então, por que você não colabora e ajuda a gente a achar os templos? Posso lhe dar a morte que tanto anseia. Pensa bem nisso: morrer.

A garota estava familiarizada com aquela promessa; era uma via comum e falaciosa. Embora estivesse diante de uma entidade vinda de outro mundo, não acreditava que pudesse garantir uma morte; e se pudesse, não era o que ela queria, afinal estava acostumada com a imortalidade, apesar das perdas e da constante solidão.

— Lamento, mas terei que recusar a oferta — disse, com firmeza.

O Apóstata suspirou, cerrando os punhos; os dedos estalaram ruidosamente. As cicatrizes se incendiaram, brilhando perigosamente. Os olhos, que até então se mantiveram vazios, acenderam um fogo rubro intenso. Mas antes que ele pudesse fazer qualquer outra coisa, foi chutado no queixo por uma pata felina enorme; seu corpo foi de encontro ao forro de gesso, caindo desajeitado sobre o sofá, que ficou destruído. Agarrando a espada, ergueu-se, buscando quem o atacou, mas o metamorfo já saía pela porta, segurando Camile pelo braço.

Prendendo a arma na bainha anexada às costas por tiras metálicas, correu no encalço dos fugitivos, arrebentando o que encontrasse pela frente. Apesar de grande e pesado, era ágil o bastante para alcançar a rua a tempo de ver a figura esguia ser montada pela garota e seguir em disparada por um ponto mais afastado de movimento; a chuva facilitava o disfarce que os seres do submundo sobrenatural lutava para preservar. Ele olhou para o alto, onde duas pequenas naves, pouco maiores do que motocicletas, pairavam sobre sua cabeça.

— Matem o metamorfo! — ordenou, a voz soando como metal quente sendo martelado com violência. — E tragam-me a imortal!

∞

Salém não era um gato. Era, na verdade, algo que a natureza moldou depois da chegada dos Apóstolos, que estavam carregados de uma energia desconhecida: metamorfo, uma raça de criaturas híbridas, meio-homens, meio-animais; ou capazes de transmutar em alguns animais específicos. Lobisomens, vampiros, centauros, sátiros, tritões, minotauro... inúmeros monstros mitológicos se originaram do contato de seres humanos com tribos de metamorfos.

— Quando iria me contar? — gritou Camile, enquanto o enorme felino negro seguia para fora da cidade.

— No momento certo — respondeu a voz grave e ronronante do felino.

A garota sentiu um pouco de vergonha ao se lembrar que ele a viu nua diversas vezes; não que se incomodasse em mostrar o corpo para alguém, mas gostava quando sabia que o fazia para um ser humano, mesmo que fosse um híbrido.

— Niciel quem o mandou?

— Não, não sirvo os Estátuas.

O som ensurdecedor de motores fez o metamorfo deter os passos e vasculhar os céus, procurando os perseguidores. Farejou o ar, reconhecendo o cheiro forte de combustível fóssil e metal fundido a algo mais que era o corpo indefinido dos Apóstatas. Movendo o corpo esguio para a esquerda, galgou para uma construção abandonada, sentindo os dedos da imortal agarrar com mais força seus pelos abundantes, quase o abraçado pelo pescoço.

Os dois veículos rodearam o prédio, lançando feixes de luz pálida para as vigas, blocos cinzentos e treliças, ao mesmo tempo que pistolas eram apontadas para onde a luz passava. Um dos pilotos era feito de bronze, possuindo um visual de motoqueiro; o outro, lembrava um cowboy; e ambos estavam munidos de armas de fogo criadas pela criatividade humana.

— Espere aqui! — pediu o metamorfo, adquirindo uma aparência que mesclava características humanas e felinas, desaparecendo nas sombras.

Camile olhou em volta, enxergando com dificuldade o que deveria, algum dia, ser uma sala de reuniões. O odor desagradável de cigarro, fezes e urina era forte, obrigando-a a tapar o nariz e pensar na vez que passeou nos campos verdes e floridos da Europa, quando as lendas eram tidas como reais — e eram.

∞

O metamorfo escalou uma coluna inacabada com cuidado; foi algo fácil, visto que possuía as habilidades de um gato selvagem. Caminhou calmamente por uma viga, os pés almofadados não emitiam barulho ao tocar a trave metálica; e os sentidos eram apurados o bastante para não tropeçar em restos de cimento, baldes largados à sorte e quaisquer itens que denunciassem a sua presença ali. Os olhos amarelados, com pupilas negras dilatadas, não precisavam de muita luz para enxergar, então não foi complicado localizar um dos inimigos e segui-lo, esperando o momento oportuno para agir.

Na forma híbrida, ele alcançava quase dois metros de altura, ostentando um corpo forte e digno de um dos muitos guerreiros dos tempos gloriosos, relatados em lendas que se perdiam no inconsciente coletivo dia após outro. A cauda balançava com suavidade, enquanto as garras das mãos estavam grandes o bastante para causar danos até no mais rígido metal; talvez não conseguisse matar um Apóstata, mas garantiria alguma dor e tempo suficiente para concluir a fuga.

O Apóstata não iria descer da nave, que era uma engenhoca muito parecida com uma motocicleta quanto a função e manejo, mas funcionava por meio de sistema que anulava a gravidade abaixo do veículo; o jeito era obrigá-lo a sair dali.

Com um pulo poderoso, o metamorfo caiu sobre o oponente, que nem teve tempo de apontar a pistola para ele; no percurso, as unhas afiadas cravaram na fiação e tubos da máquina voadora, destruindo tudo e fazendo a nave rodopiar no ar, chocando-se com a parede do prédio, que estremeceu com os impactos. Durante a queda, a criatura socava a face rígida do piloto, às vezes arranhando superficialmente o metal; desarmando-o com destreza, apontou a arma para a testa dele e disparou até esvaziar o pente. Saltando para um buraco adjacente, escapou de uma pequena explosão, que eliminaria os vestígios.

Levantando-se rapidamente, pulou para a viga mais próxima, que ficava quase cinco metros acima do piso; repetindo os saltos, buscou com urgência o segundo adversário, que já deveria estar alarmado com os sons do breve combate. Correu sobre duas ou três vigas próximas ao abismo que era as paredes incompletas, com os sentidos aguçados para qualquer imprevisto; escalou algumas colunas, farejando o odor característico daqueles seres feitos de metal e algo mais. E detectou outro cheiro, mais agradável, ainda que forte e único: rocha e algo mais.

Não demorou para vislumbrar um vulto imenso se mover, com duas espadas em punho e uma presa na cintura; reconheceu-o no instante seguinte, freando os passos e apenas observando o desenrolar da ação. As pedras turquesas nos braços brilhavam com intensidade quando o segundo Apóstata apareceu e disparou; a lâmina maior o defendeu do projétil, que foi desviado para a esquerda, ficando cravada na parede sem reboco. A outra estava mais para baixo, quase tocando o chão cimentado, mas, quando ele andou três passos largos, o fio de corte foi certeiro na máquina que se aproximava, dividindo-a em duas partes, assim como quem a montava.

O metamorfo se jogou para cima, escapando de um dos pedaços, que quicou e se chocou contra uma coluna, ardendo em chamas; recuperando-se rapidamente do susto, vislumbrou o guerreiro de metal se desfazer em fragmentos que não pareciam mais resistentes do que vidro negro.

— Onde ela está, metamorfo? — soou a voz potente de Niciel, enquanto o par de turquesas rasgava a penumbra.

— Em segurança — respondeu o híbrido, rosnando como um gato selvagem. — E eu daria conta desse sem você.

— Leve-me até ela antes que eu esqueça que a salvou deles!

Apesar da aliança entre as raças, nem todos os clãs e ordens de descendentes dos antigos salvadores do mundo viam com bons olhos aqueles que trouxeram o mal, ainda que involuntariamente. Os metamorfos, por serem mais próximos da natureza do que os demais grupos, eram os que menos gostavam dos Apóstolos, embora nunca os tivesse enfrentado em combates.

— Siga-me! — pediu o rapaz, descendo da viga, assumindo a forma de jaguar e correndo até uma escada precariamente construída.

∞

Niciel seguia o estilo otomano: as roupas leves e folgadas, que consistia de calça folgada, em tom escuro, com bordados em ouro e prata, cintos e tiras espalhados pelo tronco sem camisa, que prendiam as bainhas, duas nas costas e uma na cintura, a barba, ainda que misturada à pele acinzentada e pétrea, era típica dos otomanos, com o bigode dando curvinhas singelas para cima; era, em tempos que pareciam cada dia mais distantes, um dos mais importantes guerreiros da causa apostolada e o mais habilidoso espadachim, o único a conseguir manipular as três espadas quase simultaneamente, apesar de ter apenas dois braços. Sobre as armas, as duas maiores ficavam às costas e a menor, mais acessível, na cintura. A maior delas era uma saif, originária do norte africano, do final do século XVIII, possuindo quase oitenta e quatro centímetros, com ranhuras no dorso da lâmina curvada para trás, cabo revestido de prata e guarda-mão feita de quatro correntes também feitas de prata; era a principal, usada em batalhas mais demoradas. A outra, apenas dez centímetros menor, era uma yataghan, que possuía lâmina curvada para a frente, cabo de madeira com detalhes em ouro maciço, sendo uma arma turca de meados do século XIX. E a menor, uma quama, com apenas sessenta e um centímetros, com dois gumes — ao contrário das demais, que possuíam apenas um gume cada — e cabo de prata com corais e turquesas incrustradas; também era da Turquia e do século XIX.

Foi iniciativa do novo líder — milênios antes — que cada um deles escolhesse um povo para aprender o estilo de se vestir, lutar e se comportar, criando, assim, armas com o que restava de recursos usados anteriormente para o erguimento de grandes civilizações agora reduzidas a lendas e pó. Madeira, ossos, metais e pedras preciosas selaram o que restava da energia, evitando que os Apóstolos fossem destruídos com a perda constante do poder original; enquanto um guerreiro possuísse sua arma e aquelas pedrinhas nos olhos e pelo corpo, seria mantido vivo. Uma sina que os Apóstatas adquiram ao imitá-los, crentes de que estavam se fortalecendo quando descobriram a fundição de rocha e corpos de matéria metafísica.

— Foi um erro deixá-la sozinha! — esbravejou o metamorfo.

Camile estava sentada sobre um enorme bloco de concreto, pensativa. Vez ou outra olhava-os com pouco interesse, familiarizada com aquelas discussões; mudavam-se os envolvidos e os assuntos, mas os tons e as posturas eram muito semelhantes.

— Não pensei que eles fossem aparecer justo agora — replicou Niciel, com a voz amena, terminando de olhar um pergaminho sob uma fraca luz da única lâmpada do local. — Eles sabem o que pretendemos fazer.

— E o que vocês pretendem fazer?

— Destruir os templos que foram construídos quando ainda éramos deuses e demônios de seu mundo, alguns os quais nem sabemos onde ficam, mas Camile pode nos ajudar a localizar.

— Hm. Plano de merda esse, não?

— Por ora, sim.

— Ainda não sei se o chamo de Salém ou o quê — cortou a imortal, levantando-se e olhando o garoto meio homem, meio felino.

— Você me chama de “Salém” há tanto tempo, de forma tão carinhosa, que não me importo de continuar sendo chamado assim — respondeu o metamorfo, ronronando como demonstração de afeição, como sempre fazia quando ela o afagava em noites frias ou em momentos de introspecção.

O Apóstolo deu alguns passos em direção à porta, parando antes do limiar.

— Precisamos despertar os seis — falou.

— E quanto ao Salém? — perguntou Camile. — Nada sei sobre ele nem suas intenções em me espionar e salvar.

— Os metamorfos são desconfiados quanto as nossas motivações desde que quando quase nos corrompemos pela ganância. Devem ter enviado esse aí quando era criança com a missão de garantir que nenhum dos lados tentasse nada, afinal todos os clãs e ordens restantes dos tempos antigos sabem de seu dom e vasto conhecimento histórico.

A garota olhou para o rosto felino do rapaz, que nada acrescentou ao que o Apóstolo havia apontado. Era verdade; milênios de existência e convívio com diversas pessoas, de inúmeras etnias, ensinaram-na a perceber detalhes de mentira e verdade; e ali estava alguém que não queria ou não precisava mentir.

— Vai nos acompanhar, então? — ela indagou.

— Sim, é minha tarefa.

— Aliado ou inimigo?

— Não indo contra os princípios que sigo, aliado.

Ela sorriu. Outra verdade.

Notas finais
Espero que a espera por este capítulo tenham valido a pena. Críticas são sempre bem-vindas. E até próximo domingo.