Após o Apocalipse
2 Meus Primos: Os Winchesters
Notas iniciais
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— Segundo Hely Lopes Meirelles, “Direito Administrativo é o conjunto harmônico de princípios jurídicos que regem os órgãos, os agentes, as atividades públicas tendentes a realizar, concreta direta e imediatamente os fins desejados do Estado.” — Dizia o Sr. Baudelaire, professor que lecionava direito administrativo no campus de Direito da Universidade; estava quase na hora do almoço e Lucífer e Alice esperavam ansiosamente pelo término da aula — Agora, alguém pode me dizer como, na lição de Celson Antônio Bandeira de Mello, essa mesma área aplica-se? — Passado alguns instantes, o moreno ergueu a mão — Senhor Thompson?
— Direito Administrativo é o ramo do Direito Público que disciplina o exercício da função administrativa. — Respondeu de modo eloquente.
— Excelente, Lucian! — O homem grisalho lhe sorriu. Poucos minutos depois, o sinal enfim soou, anunciando o fim do segundo bloco de aulas do dia. Rapidamente, os jovens se levantaram e rumaram em direção a saída da faculdade.
— Muito bom, Sr. Thompson; devo parabenizá-lo pelo fantástico desempenho em minha disciplina... — A moça realizava uma imitação exagerada do professor; não era surpresa para nenhum dos estudantes que Lucian era o melhor e mais aplicado dos alunos, sendo constantemente elogiado pelos mestres. Ambos riam — Como consegue ser tão inteligente?
— “Só sei que nada sei”... — Justificou-se com a famosa frase de Sócrates.
— Exibido! — Falou num tom divertido após lhe dar um leve tapa no braço — Almoça comigo?
— Claro; precisa de ajuda com alguma revisão? — Perguntou, repleto de expectativas; adorava passar as tardes estudando ao lado da namorada. Sentavam-se próximos e, vez ou outra, ele aproveitava para roubar-lhe um ou outro beijo; e, em meio a carícias, assim ficavam, e a matéria era esquecida. Porém, para sua decepção, a mesma balançou a cabeça numa negativa e completou com um sorriso malicioso:
— Você é tão prestativo... Mas eu realmente preciso terminar os meus resumos, então terei de recusar a sua oferta. — O mesmo fez um muxoxo, arrancando uma nova gargalhada por parte de Alice — Sabia que fica uma gracinha quando está emburrado? — Sussurrou-lhe bem próxima, para depois afastar-se depressa e correr — Aposto que não me alcança! — Gritou, já distante.
— Detesto quando ela faz isso... Argh! — Murmurou para si mesmo, saindo em disparada atrás da garota.
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— Dean, quer por favor me dizer o que está acontecendo?! — Sam estava irado; seu irmão o fizera dirigir por dois estados para que, depois de ter chegado há quase duas horas, estar cansado e com fome, o loiro nada lhe contasse a respeito do suposto caso e tivessem de ficar de tocaia, sob um Sol escaldante de primavera, em frente a Universidade que lhe trazia tantas recordações ruins: os amigos tão queridos, como Brad, que descobrira serem nada mais do que demônios de Azazel lhe vigiando, o tempo em que esteve afastado do pai, a morte de Jéssica, a única mulher por quem apaixonara-se perdidamente... Bom, talvez não a única, mas a outra que um dia amara nunca poderia ter, então, o melhor a se fazer era esquecê-la.
— Cala a boca, Sammy! — Berrou irritado — Olha só, talvez não seja hoje, nem amanhã ou na semana que vem, mas, um dia, você vai me agradecer por isso; confie em mim. — Disse com grande segurança, o que só atiçou ainda mais a curiosidade do caçula.
— Vem cá, do que você ‘tá falando? — Indagou, arqueando uma de suas sobrancelhas num gesto onde demonstrou-se confuso. Dean o ignorou, até que a figura de uma jovem de vermelho correndo, enquanto seus cabelos negros e compridos estavam soltos ao vento, chamou-lhe atenção.
— Daquilo! — Disse apontando. A cara de espanto do irmão não foi nenhuma surpresa, pois já esperava uma reação do tipo.
— Alice? — Balbuciou, de olhos arregalados, fixos na menina.
— É, eu sei; aí, ela ficou uma gata! — Comentou, rindo. No entanto, o outro permanecia perplexo.
— Dean, você ligou dizendo que tinha um caso, me fez atravessar o país, só por causa dela? — Questionou indignado.
— Ah, fala sério: vai dizer que não gostou de se encontrar com ela depois de todos esses anos? — Ele nada respondeu-lhe, fazendo com que o sorriso de triunfo em seu semblante apenas se alargasse — Não vai falar com ela?
— Hã... Claro. Você... vem comigo? - Pediu num fio de voz.
— O que?! É lógico que não, mané! Quem gosta dela é você, não eu; a garota é sua: se vira! — Sam lançou-lhe um olhar desgostoso para depois deixar o automóvel, e seguir a passos largos e pouco vacilantes, até onde a menina dirigia-se. — Vá pegá-la, Tigrão! - Bradou ainda no carro; o irmão preferiu fingir que não ouviu e continuar a andar. “Sou melhor que o cupido!” Pensava “E olha que nem preciso andar por aí abraçando as pessoas peladão pra espalhar o amor no mundo...” Foi quando notou o rapaz que vira acompanhado de Alice pouco mais cedo caminhando rapidamente, mais atrás da morena, indo também ao encontro da mesma, porém, pelo caminho oposto que o outro Winchester tomara. “Isso vai ser divertido.” Riu alto, imaginando a cena que estava por vir.
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— ALICE! — Gritaram os dois ao mesmo tempo. A jovem já ia atravessar a rua, sem prestar atenção no automóvel que vinha na direção contrária; estava ocupada demais em fugir do namorado, que sequer percebera que o semáforo liberara a circulação de carros na avenida.
TAAAAAAAMMMMMMM!!!! Fez a buzina. Só então a garota percebeu o conversível azul aproximando-se veloz. Abriu a boca, surpresa e assustada, mas continuou ali parada. Por sorte, Sammy a puxara bruscamente pelo braço, tirando-a do caminho; coincidentemente, isso acontecera no mesmo momento em que o carro parara, de supetão, freando bruscamente. Lucífer tinha o olhar fixo no mesmo. Ao notar a presença do estranho, franziu a testa. “Quem é esse?!” Se perguntava.
— Hã... — Alice e Sam se encaravam intensamente. Depois do susto, um pequeno sorriso dançava nos lábios de ambos — Obrigada. — Ela sussurrou — Se não me engano, essa já é a segunda vez que salva minha vida.
— Por aí. — Os dois riram. O rapaz ainda segurava o braço da jovem, e encontravam-se muito próximos; perto de mais, na opinião do terceiro, que assistia a cena com ódio. Cerrava os punhos fortemente, tentando se controlar para não obedecer os impulsos que o mandavam assassinar o Winchester naquele exato momento. “DESGRAÇADO!” Olhou ao redor e logo percebeu o Impala estacionado na outra calçada. Dean saltava do mesmo, para ir ao encontro dos três, na mesma hora em que seus olhares se cruzaram. “Hm, então o seu irmão também está aqui?! Perfeito; assim me livro dos dois de uma vez por todas!” Seu semblante era frio.
— Senti sua falta! — Dizia, enquanto se abraçavam, ignorando a confusão que se estabelecera na avenida; agora o trânsito estava um caos e o motorista do conversível também descera do carro e despejava uma torrente de ofensas e reclamações aos outros motoristas, apontando Alice acusatoriamente.
— Você está bem, Alice? — A voz de Lucian, a fez voltar à realidade; separou-se de Samuel, que encontrava-se igualmente constrangido, para encarar o namorado, que trazia uma expressão aborrecida.
— Aham... — Murmurou com um meneio de cabeça positivo.
— Hm. — Este deu de ombros — Vocês já se conhecem, é? — Estava decidido a descobrir até que ponto aquilo iria chegar e, para isso, fingiria ser o jovem que possuía; a partir dali, teria início o confronto entre ambos.
— Já, e... Quem é você? — Sam perguntou, sem entender o que se sucedia. Dean chegou sorridente, exatamente nesse momento, parando ao lado do rapaz de cabelos negros, que o observou com desdém pelo canto do olho.
— Eu sou o namorado dela. — Disse, referindo-se a menina, frisando bem o “namorado”. O loiro engoliu em seco, pra depois sorrir amarelo. Sam lançou-lhe um olhar, que podemos interpretar como um inquisidor “Você-já-sabia-disso-não-é?”; ao que seu irmão mais velho respondeu com um “Fazer-o-que?Foi-mal!”- Mas eu quem devia perguntar: quem são vocês? — Fitou Dean como se exigesse uma resposta imediata.
— Ér... Nós somos primos dela! — Respondeu depressa. Sam voltou a mirá-lo reprovador, como se perguntasse “Qual-é-você-sempre-usa-essa-desculpa!Somos-primos-até-da-nossa-própria-mãe”, o que foi retorquido pelo outro com um “Seria-primo-até-do-Led-Zeppelin-se-precisasse”, para continuar logo em seguida — Alice! Que bom te ver, garota... E que incrível coincidência nos encontrarmos: meu irmão e eu, vocês dois... Que maravilha, né não, Sammy? — Este estava pouco escarlate com a situação em que Dean lhe envolvera. Sem outra alternativa, resolveu seguir com a mentira.
— É, é sim, Dean. Incrível... — Os quatro estavam nervosos. Permaneceram calados, enquanto ouviam o caos instalando-se na avenida. Até que Lucífer decidiu aproveitar para divertir-se um pouco às custas dos irmãos Winchesters.
— Primos, é?! — Os três assentiram rápido — Vocês nem parecem irmãos... Você é alto, tem cabelos e olhos castanhos, e sua pele é meio morena. — Apontou para Sam — E você, — Voltando-se desta vez para Dean — é loiro, tem uma pele um pouco mais clara e orbes verdes. — A cara embaraçada e pouco indignada dos outros dois foi demasiada hilária na opinião do mesmo.
— É que... — O mais velho tentava formular uma boa desculpa — Eu puxei o lado da nossa mãe e ele o do nosso pai. Genética! — Disse, rindo, enquanto fazia uma expressão alheia.
— Ah, é mesmo? — Lucian tentava não rir — E qual o grau de parentesco das suas famílias? — Aquela seria difícil de responder. “Filho da mãe!” Foi o que Dean pensou enquanto trocava um olhar hostil com o rapaz.
— O nosso pai era irmão da mãe dela. Eu estou na cidade e, quando vi a Alice, pensei em fazer uma visita... — Falou, recebendo outro olhar triunfante do loiro que significava “Pelo-visto-minhas-desculpas-não-são-tão-ruins-ou-você-não-usaria”, ao que foi correspondido com um “Cala-a-boca!Você-me-meteu-nisso” por parte do outro. A partir daí, Dean e Lucífer travaram uma batalha de perguntas e respostas, as quais o Winchester respondia ligeiro:
— De onde vocês são?
— Kansas.
— O que fazem na cidade?
— Eu moro aqui e ele está à trabalho.
— Ah, é?! Qual o ofício de vocês?
— Cuidamos dos negócios da família.
— Como nos encontraram? — Essa era boa!
— Estávamos dirigindo e vimos a nossa priminha correndo; puro acaso. — O moreno não pareceu convencer-se, mas como ele havia sido satisfatório no “quiz”, teve que se conter. “Qual é; minhas desculpas são boas!” Dean aproveitou a oportunidade para sair daquela situação embaraçosa — Mas então, ainda estamos conversando no meio da rua. Que tal se a gente fosse a uma lanchonete comer alguma coisa, hein?
— Na verdade nós íamos almoçar agora. — Disse Alice, que se pronunciava pela primeira vez até então. Estava muito nervosa pra pensar em qualquer coisa e não queria mentir para o namorado, apesar de estar ciente de que não podia contar a verdade — Que tal se fôssemos todos juntos? — Convidou-os, animada.
— É uma ótima idéia! — Concordou — Vão indo na frente que eu alcanço vocês, preciso ligar pra minha esposa e avisar que vou demorar pra chegar.
— Você se casou? — Parecia surpresa e feliz ao mesmo tempo — Meus parabéns!
— É, muito obrigado, viu? Mas vamos ter tempo de conversar sobre isso daqui a pouco. — Sorriu.
— É... — Os outros dois murmuraram em uníssono, com um visível tom de desgosto.
— Tudo bem então... Vamos, rapazes! — Alice puxou o namorado pela mão, enquanto seguia ao lado de Sam. — Nos vemos no restaurante à dos quarteirões daqui, 'tá? — Dean assentiu; esperou os três estarem a uma boa distância para desabar numa gargalhada. Encostou-se no Impala. Após recompôr-se, apanhou o telefone no bolso e ligou para Lisa.
— Alô? Ah, é... O Sammy apareceu e a gente encontrou uma pessoa que não via a muito tempo; não, é uma amiga. O Sam sempre foi a fim dela. Eles foram almoçar, já já vou encontrar com os dois e o namorado dela... É, eu disse mesmo namorado. Eu sei: vai ser divertido! — Uma vez mais riu — Tudo bem, okay! Eu tenho que desligar; mas já quero avisar: vou demorar pra chegar...
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