Após a morte
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Novamente acordei, agora com uma sensação boa. O vento batendo no meu rosto, o cheiro de rosas no ar, e o cantarolar dos pássaros. No momento não me lembrei pelo o que tinha passado tempos antes. Tudo parecia bem.
Abri os olhos e vi que estava em uma cama. Uma cama feita de folhas e flores macias e cheirosas. Eu estava em uma praia, muito bonita por sinal. Quando me levantei, vi que tinha uma casinha toda colorida ao fundo. E que era a única coisa que eu podia ver, além do mar, algumas árvores e um canteiro de flores.
Olhando em volta, me veio a mente a lembrança do que tinha acabado de acontecer. Os insetos me devorando e tirando cada pedaço de vida que havia em mim. O mais pavoroso deles tinha retirado meu olho esquerdo, e ficava sorrindo.
Olhei para meu corpo e tudo estava normal. Podia mexer a cabeça, abrir e fechar a boca, mover os dois braços e não tinha machucado algum. Minhas roupas estavam limpas. Minha pele cheirava a flores. Meu cabelo estava penteado e macio.
Eu estava completamente perdida naquilo tudo. As coisas mudaram de um cenário para outro muito rápido. Aquilo estava embaralhando meus pensamentos e me fazendo delirar.
Resolvi relaxar naquele lugar que era tão bonito. A primeira coisa que faria seria ir até a casinha colorida e ver se morava alguém por lá.
Eu fui. Chegando lá, bati na porta e esperei. Ninguém atendeu. Como eu estava sozinha naquela praia, resolvi entrar, pedindo licença.
O interior da casa era muito bonito. Mesmo sendo uma casinha pequena, sua decoração era linda e os móveis pareciam caros. Na sala havia uma TV, dois sofás e uma mesa de centro. As janelas eram cobertas por desenhos muito bonitos de flores. Na mesinha de centro tinha um aquário. O peixinho estava vivo, o que significaria que foi alimentado a algum tempo.
A casinha só tinha um quarto. Era pequeno, mas confortável. Cheirava a flores também. Tinha uma cama de casal, um guarda-roupas e um um abajur. O banheiro era normal. A cozinha, pequena mas muito limpa, continha tudo o que uma cozinha deve ter, e mais um pouco. Haviam vários faqueiros, inclusive um na porta.
Já que alguém tinha alimentado o peixinho, eu fiquei lá aguardando. Tentei ligar a TV, mas não funcionava. Fui até a cozinha tão bem arrumada, para matar a fome. Abrindo a geladeira, tive uma surpresa. Não havia nada lá dentro. Eu fiquei espantada porque uma casa tão limpa e organizada daquelas não tinha comida. Procurei no armário, e nada. Procurei no freezer, e nada. Era algo bem estranho.
Voltando para a sala, encontrei um papel em cima do sofá. Ele não estava lá antes, eu tenho certeza.
"Se está com fome, coma peixe! :)"
Era a única coisa escrita no papel, com uma letra caprichada, bem afeminada.
Eu nem precisei pensar para entender.
– Não vou comê-lo, peixinho! Fiquei tranquilo. — Eu disse e me abaixei para vê-lo mais de perto.
Quando olhei para dentro do aquário, o peixinho estava morto. A água que antes estava limpinha, continha gotas de sangue. O peixinho não parecia ferido. Talvez não tenha sido alimentado tão recentemente e morreu... Mas o fato de ter sangue na água, era um mistério.
Eu sabia que peixe morto deixa um cheirinho desagradável depois de um tempo. Não queria acabar com o perfume de flores da casa, então peguei o aquário e fui até o banheiro.
– Sinto muito, peixinho. Descanse em paz...
Levantei a tampa do vaso e joguei o peixe. Pus o aquário na pia para lavar, e dei descarga.
Fiquei observando o peixinho indo embora, quando levei um susto.
– VOCÊ VAI SE ARREPENDER, VADIA!
O peixe morto, subiu até o vaso e falou comigo em uma voz gutural. A mesma voz de sempre. Depois disso, ele pareceu morto novamente e desceu pelo vaso.
Assustada, eu corri do banheiro e fui para a sala. Chegando lá, na mesinha de centro havia um aquário. Um aquário com um peixinho dentro. Que parecia bem alimentado.
Aquilo já era loucura demais para minha cabeça. Coloquei as mãos na boca, sem acreditar no que estava acontecendo comigo e saí correndo da casa.
Do lado de fora, tudo tinha mudado. Eu estava de baixo d'agua. Incrivelmente eu conseguia respirar, mas essa era a menor das minhas preocupações. Logo quando saí, dei de cara com um peixe gigante, idêntico ao peixinho que tinha acabado de jogar fora. Idêntico ao peixinho que falou comigo. Idêntico ao peixinho que surgiu na mesinha de centro da sala da casinha colorida... Só que muito, muito maior.
Desesperada, eu tentei correr, mas na água, é praticamente impossível. Quando percebi que o único jeito de sair de lá seria nadando, já era tarde de mais.
Eu comecei a bater os braços, mas o peixe pegou meus pés. Com dentes gigantestos, ele foi mastigando cada osso meu. Cada parte da minha perna.
Eu gritei, gritei, gritei... Vi meu sangue se misturando com a água. Fiquei desesperada batendo os braços mais e mais rápido, tentando escapar.
De nada adiantou. O peixe foi mastigando mais. Mastigando e engolindo. Mastigando e engolindo. Quando me dei conta, a única coisa que sobrou de mim foram minha cabeça e meus braços, que eu ainda sacudia freneticamente.
A dor era insuportável, claro. Imagine você estar vivo só com a cabeça, o ombro e os braços. Eu perdi minhas forças. Minha visão foi escurecendo. Dei meu ultimo suspiro quando minha cabeça foi brutalmente mastigada e engolida.
Eu não sabia se estava morta ou não, mas ainda conseguia pensar e ainda sentia as dores. Eu não via nada, nem sentia meu corpo. Não sabia se aqueles restos mastigados e engolidos ainda seriam capazes de sentir dor e pensar. Eu estava chorando mentalmente. Pedindo para que tudo aquilo acabasse. Pedindo para que eu morresse logo, não que tivesse sempre algo após a morte. Era horrível. Sufocante. Agoniante. Pavoroso... Insuportável.
Enquanto ainda podia pensar, fiquei esperando acabar. Uma hora algo teria que acontecer. E aconteceu. Finalmente aconteceu.
Acordei com o sol no rosto, totalmente determinada naquela manhã. Pela primeira vez, não enrolei na cama. Levantei, me espreguicei e fui escovar os dentes. Me olhando no espelho, vi que tinha uma pequena espinha crescendo perto da minha bochecha. Tratei logo de tomar um banho e depois passei os produtos para acnes.
Naquele dia, nem arrumei minha cama. Fui tomar café da manhã na casa dos meus pais, coisa que eu não fazia a bastante tempo.
– Que bom que você veio, filha! — Disse mamãe me recebendo na porta.
Eu entrei toda contente e fui dar um beijo no papai. Fomos todos tomar café na mesa da cozinha. Vários assuntos foram tocados naqueles poucos minutos, e fiquei bem informada do que tinha perdido no tempo que estive fora.
Dei um beijo nos meus pais e voltei para casa.
Botei uma roupa mais social, peguei todas as folhas que estavam sobre minha escrivaninha e saí.
De carro novo, lá fui eu. Escutando uma música relaxante e aproveitando o momento. O dia estava lindo. Ensolarado, sem uma única nuvem no céu. Os passarinhos e borboletas enfeitavam o céu como confetes enfeitam um bolo.
Estacionei o carro, peguei a pasta com as folhas e entrei no prédio.
– Bom dia, Thania! — Disse o porteiro do prédio.
– Bom dia, seu Paulo! Como vai?
– Estou bem, graças a Deus, filha!
Entrei sorrindo no elevador e apertei o quinto andar. No caminho, um casal muito gentil apareceu. A mulher devia ter a mesma idade que eu. Tinha uma voz muito delicada e fofa. O homem, tinha uma voz tão grossa... Era muita bonita.
Saí do elevador e me despedir do casal. No corredor, passei por uma planta muito bonita. Olhando bem perto, pude ver uma minhoca sendo devorada por insetos. Era meio nojentinho, mas faz parte da cadeia alimentar.
Entrei na porta 167. Tive que ficar esperando em uma salinha. Sentei no sofá e fiquei observando o peixinho do aquário à minha frente até ser chamada.
– Oh, Thania! Quanto tempo! — Disse Carlos.
– Pois é! Sentiu minha falta?
– Mas é claro! E então... O quê temos aí? — Ele perguntou quando viu a pasta na minha mão.
Fomos até a sala dele e eu abri a pasta. Botei as folhas sobre a mesa e disse:
– Esse se chama "Após a morte". A história de uma mulher que morre várias vezes, tendo sempre uma pós morte. Espero que goste!
– Tenho certeza que é cheio de aventuras... — Ele disse sorrindo.
– Ah, você não viu nada!
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