Aos teus pés

1 Você é um sonho


- Você é um sonho.

- Se sou um sonho, por que me abandonas?

- Não te abandono, e você sabe.

- Sei? Ah, verdade, você não me abandona por que não me escolheu em primeiro lugar.

- Ora, não seja dramática.

- Você que começou. “Você é um sonho”. – acendeu o cigarro.

- Será que dá para parar de fumar? Sabe que o cheiro me incomoda.

- É o meu quarto, eu gosto de fumar aqui.

Um suspiro.

- Eu sou teu sonho?

Uma risada triste.

- Você sabe que é.

- Então, por que não vem para mim?

- Eu já estou aqui.

- Pode ser, mas daqui a pouco você vai embora. Devo lhe lembrar da sua aliança lindamente dourada?

- Não seja sarcástica e eu lembro muito bem. – levantou-se da cama e começou a procurar suas roupas descartadas no chão.

- Se ficar, eu paro de fumar.

Uma risada. Olhos verdes brilhando.

- Seria bom. Você não morreria tão cedo.

- Você não quer que eu morra?

- Não se vive sem sonhos.

- Você vive bem.

- Você é o meu sonho e você vive.

- E mesmo assim, você vai embora.

- Eu vou voltar. Sempre volto.

- Não gosto de te dividir.

Um suspiro. Terminou de abotoar a blusa social branca.

- Você é um sonho... E não se pode viver em sonhos.

- Eu posso ser sua realidade.

- Não pode. Você nunca será de uma só pessoa e sabemos disso. Você quase me destruiu uma vez, meu doce sonho. Agora, não posso mais.

- Eu posso mudar.

Um triste sorriso.

- Não pode.

- Você nunca me deixou tentar.

- Sempre temos essa discussão. Você sempre promete mudar, mas amanhã vou te ligar e você vai estar em outros braços.

- Você nunca liga.

- Só um idiota coloca a mão na tomada, sabendo que vai tomar um choque, mas com esperanças de não tomar. Eu já tomei muitos choques na minha vida.

Silêncio. A mulher na cama se encolheu mais nos lençóis brancos que a cobriam. O cigarro queimava no cinzeiro em cima do da pequena cômoda.

- Por que não podemos viver em sonhos?

Braços quentes a envolveram e lábios acariciaram seus cabelos.

- Não sei.

- O que tem de tão interessante na realidade? – fechou os olhos.

- Nada. Mas ela é segura. Os sonhos mudam sempre e às vezes tão radicalmente.

- E você gosta de segurança?

- Todos gostam, sonho. É bom chegar em casa depois de dia cansativo e encontrar alguém nos esperando com um sorriso satisfeito no rosto. Todos gostam de ter um corpo quente para nos aquecer nas noites de inverno ou para brigarem por quem ficara na parte fria da cama quando chegar o verão. Ao contrário, ninguém gosta de se questionar todo o tempo se quando chegar em casa, haverá alguém lá e se não houver, ficar se questionando onde ela estará, nos braços de quem...

- Se é você, eu jamais procuraria outros braços.

Um riso.

- Sabemos que isso não é bem verdade.

- Aquela situação era diferente.

- Era?

Não houve resposta. O relógio digital brilhava: 18:40.

- Tenho que ir.

- Já?

- A minha realidade me espera. Prometi assistir um filme com a minha filha hoje.

- Por que não foge comigo? Podemos leva-la junto. Seríamos uma boa família.

Os braços sumiram. Sentiu um leve beijo na testa e depois nos lábios. Agarrou-lhe a nuca com o objetivo de aprofundar o beijo e quem sabe, adiar a partida por mais algumas horas.

- Não faça isso. – veio o sussurro.

Suas mãos voltaram para a cama e seus lábios ficaram frios.

- Nós seriamos uma boa família. Eu seria uma boa mãe para ela.

Um sorriso terno.

- Claro que seria. Você tem um bom coração.

- Então, vamos fugir?

- Não podemos. Você é o meu sonho, mas...

- Não sua realidade.

- Eu abandonei minha realidade uma vez por você, meu sonho e no final, era eu quem ficava numa cama chorando.

- Ninguém te ama mais do que eu.

- Eu sei, assim como ninguém te ama mais do que eu. Só que, infelizmente, amor não é o suficiente.

- Quanto mais quer me machucar até que se sinta melhor?

- Não estou fazendo isso para descontar.

- Não é o que parece...

- Antigamente, eu abandonaria tudo por você, mas agora eu tenho uma filha. Se nós fugirmos juntos e você for embora...

- Eu não vou!

- Isso vai magoá-la muito e vai me destruir. Ela precisa de quem possa cuidar dela.

- Eu não fugiria se tivéssemos uma família.

- É muito arriscado.

- Se eu parar de fumar, de beber e de sair, podemos tentar?

- Não quero que você mude por mim.

- Quero mudar por mim, para poder te ter.

- Talvez... Vamos conversar sobe isso depois? Com calma? Não é algo para se decidir assim.

- Seu casamento é falso. Você não quer ir para casa por que sua casa é aqui.

- Sim, e você é o meu amor. Mas minha filha está em outro lugar.

- Traga-a aqui, podemos ver o filme juntos.

- Eu não acho que a minha realidade irá aceitar isso.

- Por que não podemos tentar? Só uma vez, só um filme, só um jantar.

Um suspiro.

- Semana que vem. Quarta-feira, iremos ao cinema. Você vai estar sóbria até lá?

- Claro que sim, eu vou te ver. Só fico ruim quando não posso te ver.

- Não faça isso.

- Sábado você vai voltar?

- Sim, claro. É o único dia em que eu durmo em paz.

- Então, eu te espero.

A despedida era sempre a pior. Por mais que sempre se viam de novo, o adeus é doloroso para quem não deseja ir.

Notas finais
Thank you /o
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.