Aos olhos de alguém
33 Insônia
Volto a realidade. Tenho que seguir as ordens da irmã de Alinpç. Me sinto como em um jogo, tentando completar uma das missões.
Não parece certo, “brincar de casinha” com vidas reais, como ela. Mas... não estou fazendo para me divertir, e sim para salvar uma vida. Exatamente. Essa vai ser minha desculpa.
De acordo com a vontade de Natacha, tenho que acrescentar mais alguém...
Procuro mentalmente pelo castelo. Na biblioteca, Sânia observa a cena do quarto por uma bola de cristal. Suas lágrimas congeladas inundam o roxo batom. Ela.
Tento controla-la sem ter que entrar inteiramente em sua cabeça. Forço minhas pálpebras contra os olhos novamente, as unhas das mãos se apertando contra a palma das mesmas, sinto a pulsação na superfície de minha pele, o começar de gotas de sangue escorrerem. Apesar da dor, todo o esforço é preciso. Desde que comecei a enxergar por mim, meus poderes se limitaram, a concentração quase se extinguiu de meu corpo. Justo agora.
A mente de Sânia, abalada como agora, não exige de mim tanto quanto pensava. Consigo controla-la, seus olhos observam atentamente a bola de cristal – onde Jackson mantêm os punhos levantados, para um próximo golpe.
O tempo volta a correr. Os mecânicos ponteiros do relógio da biblioteca de magia, apontam onze horas, onze horas e um segundo, e dois, três...
“Empresto” meus poderes a Sânia. Faço-a desejar que firmes cipós espinhosos nasçam abaixo dos pés de Jack, eles quebram a madeiram e envolvem o bruxo, o qual surpreso, tenta se livrar do estranho obstáculo. Entretanto, a medida em que ele se movimenta, os finos espinhos perfuram sua pele, penetrando-a, junto a um veneno inventado. O liquido entra em sua corrente sanguínea, se espalhando por todo o corpo.
– Bastardo! Como você está... – Paralisado, Jackson apaga. Assim, cumpro todos os desejos de Natacha, tomara que ela tenha gostado da cena.
Entro na mente do Mystic. Tudo em branco, sem sinal da kirian de mil anos. Começo a caminhar pela vastidão de vazios, quando encontro um pequeno livro jogado ao chão, parece um pouco desgastado, mal cuidado. Ao abri-lo, um cenário ao meu redor começa a se formar, a sala do castelo Mystic. Jackson brinca com o pequeno Jacques ainda com cinco anos – parece que um dia, a muito tempo, ele já fora um homem descente – Jack carrega o menino e o trata como se fosse um de seus filhos.
Várias lembranças começam a passar cada vez mais rápido, de Jack com o garotinho naquele ano, entre uma e outra lembrança, Jackson e Carolyne tentam investigar sobre o paradeiro de Mariane, a mãe de Jacques, com base nas informações que tinham. Até que as lembranças param, sinto um bloqueio, familiar, mas fraco demais para ser de Natacha. Familiar, família... Sôfi.
Consigo quebrar a barreira, não é recente, minha irmã era bem menos poderosa quando a fez. Vejo então, uma última lembrança do antigo Jackson, do qual desconhecia a existência.
Ele e Carolyne estão em frente a um notebook, usando a internet do estado, eles descobrem uma notícia abafada pela imprensa. “Um helicóptero, com um milionário e sua amante, cai, matando-os carbonizados. A identidade da mulher, é Mariane Poll, uma conhecida dançarina de uma das boates de strip do estado Maya, conhecida não apenas por sua bela aparência, mas também por ter sido amante de muitos milionários do estado da família Mystic”.
A reportagem também dizia, que o empresário Ayato Nosh, até então noivo de Sofi Deverron, era a nova “vitima” da humana, após ela ter perdido tudo, ao se apaixonar pela primeira vez, por um homem chamado Jacques Voltre, o qual a tinha deixado sem seu emprego, sem dinheiro e grávida de oito meses. Ela estava sendo procurada por não ter pago os impostos, ia ser banida para o subsolo, porém, o empresário a contratou como serviçal, seu único pedido, era que a mulher abandonasse qualquer filho que estivesse em sua barriga.
Ao ler a reportagem, um vulto passou por trás do casal Mystic. Ao se distraírem com o movimento repentino, uma mulher apareceu à frente do notebook, minha irmã.
– Bom dia – disse Sofi, com um sorriso insolente – Por obséquio, poderiam retirar essa reportagem da internet desse estado?
Jackson se levanta abruptamente, apontando uma varinha que tinha em seu bolso para a kirian.
– Saia do castelo! Se não você vai... – Carolyne era quem dizia, permanecendo sentada
– Uma varinha? – riu Sôfi – Que bruxo ainda usa tal? – ela se aproximou, tocando no objeto, ao fazê-lo, a varinha derreteu em chumbo líquido
– O que é você? – Carolyne se levantou, aproximando-se de minha irmã
Jackson permanecia calado, mas foi a ele quem a Deverron dirigiu a palavra.
– Acha mesmo que Jacques é filho de uma mulher chamada Mariane — Sofi olhava diretamente nos olhos do bruxo
Ele respondeu sem mal se mexer, como se fosse uma naja, e minha irmã alguém que sabia muito bem como usar a flauta:
– Tenho minhas dúvidas...
Carolyne estava pasma, sem conseguir dizer nada, ou ao menos se mover. “Ele é um bastardinho, filho de sua mulher”, disse Sôfi. Jack concordou com a cabeça. Depois, Sofi se voltou para a bruxa.
– E você queridinha. Acredite, é ele quem manda nessa família agora.
Ambos os bruxos balançaram a cabeça em afirmativa. Sofi sorriu, satisfeita, e seguiu andando pelo castelo, distraindo os empregados com sua saia curta e seu decote longo, e atiçando a inveja das escravas com seus luxuosos sapatos de salto e joias que elas nunca poderiam ter, mas principalmente, despertando a curiosidade de todos, sobre quem era e como conseguira entrar e sair do castelo sem ser abordada por alguém da segurança.
Fora minha própria irmã quem começara tudo. Apesar de que, Jack também tem uma grande parcela de culpa, Sofi só disse para ele que Jacques era filho de Carolyne, para afasta-los de descobrir que ela fora quem matara Mariane. Em nenhum momento, Sôfi pediu que o maltratasse, tudo o que ele fez, foi apenas por acreditar que Jac era bastardo. Aurora deve de ter descoberto a verdadeira história um tempo depois e contado para Carolyne, porém, Sofi a fez ser submissa ao marido, então nada pôde fazer.
Talvez, tendo desbloqueado a lembrança, de hoje em diante, tudo possa ser diferente.
***
O sangue ainda escorre dos ferimentos dos corpos de ambos, bruxo e vidente, quando Sânia abre a porta. Em lágrimas, a bruxa se ajoelha em frente ao irmão adotivo e o abraça. Jac, porém, permanece na mesma posição de quando os cipós venenosos envolveram o corpo de Jackson, paralisado, olhando fixamente para o bruxo. Sânia ajuda-o a levantar, com dificuldade, Jacques segue, ainda com um olhar vazio, em direção ao padrasto. O garoto levanta o queixo do Mystic com o indicador, uma de suas trêmulas mãos se afasta, voltando fechada para o rosto desacordado do bruxo.
– Não! – diz a bruxa em vão. Ela tenta impedir Jacques, mas acaba sendo empurrada pelo irmão adotivo, e caí ao chão, apoiando-se em um dos braços.
Pasma, a Mystic olha para as mãos, molhadas em sangue, tanto do braço de Jac, quanto do rosto de seu pai. Ela então volta seus olhos para eles, a frágil figura magra batendo nos olhos desacordados de seu pai. Direcionando o olhar um pouco mais para baixo, Sânia percebe graves ferimentos nas costelas de seu irmão. Entretanto, nada a atinge mais do que ver o sorriso ensanguentado de Jac, apesar de todos os machucados no rosto e gengiva do vidente, ele ainda sorri, ao devolver o sofrimento na mesma moeda para o bruxo. A garota deixa o cômodo, e corre pelos corredores do castelo, até voltar para seu quarto.
Penso em intervir, mas não parece correto fazê-lo novamente, não posso simplesmente coordenar cada passo das pessoas de acordo com minhas vontades. Fiz o que era preciso, talvez tenha até salvado a vida de Jacques, agora só me resta esperar que tudo se resolva, tomando o rumo que for, sem mais nenhuma intervenção minha.
Após um tempo, Jacques se afasta do padrasto e cambaleia até seu quarto, desligando-se do mundo, ao deitar em seu lençol de seda; Desfaço os cipós do outro quarto, Jackson Mystic caí ao chão, adormecendo sem ao menos ter aberto os olhos.
Sânia Mystic, por sua vez, bebe um copo de vinho tinto em seu quarto, enquanto ouve música em seu fone de ouvido, como se ela nunca mais precisasse ouvir depois daqueles três minutos, como se nunca mais precisasse existir ao termino da canção. A bruxa começa a rodar com o copo na mão, dançando em seu quarto, sem a vida para lhe atrapalhar. Não mais sentia, até ver seu reflexo no espelho.
– Como fez aquilo? – indaga, ao grande pedaço de vidro – Por que não o fez antes? – ela suspira – Olhe para você, a bruxa louca conversando com o espelho de novo... Sânia Mystic Lóvac! Me responda!
A garota grita com o próprio reflexo, depois suspira e se acalma “Por que pai?” “Por que maninho? Mãe? Por que fazem isso com suas vidas?”
– Por quê!
A bruxa joga o copo de vidro no espelho, partindo sua imagem em vários pedaços irregulares, banhados de vinho.
– Qual é o meu problema? – sussurra a garota, perdendo-se em meio aos cacos de reflexos – Talvez...
Por um instante, a pior ideia possível passa por sua cabeça, aqueles pedaços de material cortante brilham em seus olhos. A bruxa segura um deles com a mão direita, esticando o pulso esquerdo à sua frente. “Horizontal para aliviar a culpa, vertical para...”, Sânia rasga sua pele com o pedaço de vidro.
– Como em meu filme preferido, Sala Samobójców, “Mundo fechado, feridas abertas” – ela solta o pedaço de vidro, e começa a juntar com os demais, colando-os de volta na moldura do espelho com magia – Mas... não, eu ainda não posso morrer. Quem iria cuidar de Cles?
Por fim, a garota sussurra em tom quase inaudível:
– Faria qualquer coisa por você, meu irmão.
***
— Eu não posso ser uma aberração! – A voz de Yasmim ecoa por meus ouvidos, impedindo minha tentativa de dormir
– Não? Então como explica todas as vezes em que controlara os homens antes de os matar?
Konor e Yasmim estão sozinhos em um dos largos corredores da mansão.
“Charme?”, supõe a sereia sorrindo, incrédula de ser um monstro. Konor leva as mãos à cabeça e ri impaciente. Ele agarra os braços da pequena sereia, apertando-os.
– Encaixe logo nessa sua cabecinha, você é uma sereia! Um monstro, uma aberração da natureza, nascida somente para matar homens.
Uma lágrima escorre pelo rosto indígena de nariz empinado da garota, percebendo-a, Konor se afasta.
– Não quero ser uma aberração – sussurra a caçadora, olhando fixamente para o piso do corredor – minha mãe morreu quando eu era pequena. Ela e meu pai eram um casal apaixonado, sempre juntos. Ele, ela e eu, éramos a família perfeita... até que aquela maldita aberração aparecer – Yasmim ergue seu olhara para Konor. A temida caçadora, naquele momento, mais parecia uma frágil boneca de porcelana.
Uma boneca prestes a cair da prateleira e se dividir em cacos, como o copo de Sânia. “Você não entenderia”, continua a garota:
– A sensação de ver com meus olhos, ainda infantis, minha própria mãe ser decepada por uma aberração de presas brancas. Eu nada pude fazer na época, mas depois, quando eu cresci... me vinguei de cada aberração que cruzou meu caminho. – Konor, que fitava a parede tentando desviar do olhar da garota, a encara com compaixão – Por isso Konor, eu não posso ser uma aberração, muito menos aceitar que minha mãe era uma.
O homem de tempos passados, encosta suas mãos no rosto de Yasmim, tentando reconforta-la. A garota de olhos, atualmente, castanhos, deita seu rosto no ombro do metahumano, o qual permanece sem reação, enquanto ela o abraça. Em todos os séculos vividos por Konor, nunca alguém chorara em seus ombros. Mesmo que pouco, Yasmim possuía sentimentos, derramando algumas rasas lágrimas na pele de Konor. Ele então, pôs seus fortes braços, delicadamente nas costas da jovem indígena e deitou sua cabeça sobre a dela.
– Acredite peixinha, eu entendo – sussurra Konor
– Você me chamou do que? – se afasta a garota, encarando Konor, porém, algo atrás dele chama muito mais sua atenção.
Konor abre a boca para dizer qualquer justificativa, mas percebe que a garota não mais prestava atenção. Yasmim olha pela janela, a lua cheia por cima da piscina da mansão. “Eu nunca tive uma piscina, meu pai dizia que era perigoso e nunca me deixou entrar em uma”, a caçadora se aproxima da janela.
– Quer nadar nessa? – Pergunta Konor
Yasmim se vira para ele abruptamente e sorri, balançando a cabeça em confirmação.
Ambos saem da parte interna da mansão e param a frente da piscina. Konor logo tira a camiseta e entra na água.
– O que está esperando?
– Eu não sei... eu não sei nadar
Ele começa a rir. “Uma sereia que não sabe nadar”, diz ele, saindo para a superfície e empurrando ela para a água, “não me faça rir”. Ele pula de volta. A garota começa a se debater e acaba afundando, ela aperta os olhos, como se esperasse pela morte, mas logo percebe que não sente a falta do ar. Ela abre os olhos, ainda submersa, e encara a lua acima dela. Konor também afunda, ela o encara e sorri, a indígena percebe que consegue pode abrir a boca e os olhos, sem nenhum dano ao corpo.
Mas Konor não perde a oportunidade e se aproxima da bela dama, ainda embaixo d’agua, ele a beija – o antigo amigo de Alinpç, por efeito do colar, não pode morrer afogado. Ela retribui, subindo com ele para acima da linha d’agua. Sobre o luar de uma lua cheia, os olhos de Yasmim começam a se avermelharem, Konor a puxa mais para perto, na medida em que o beijo se intensifica, as pernas da pequena índia começam a balançar cada vez mais perto, começando a se fundirem e movimentarem em uma mesma direção. Cortes laterais começam a marcar seu pescoço, uma pele frágil cobre parte do espaço entre os dedos, seus dentes se afiam – enquanto outros já nascem de tal modo –, e escamas tomam conta de metade de seu corpo.
Ela, já com olhos vermelhos feito rubis, morde o pescoço de Konor, sugando sua essência e afundando com ele para o chão do buraco de concreto, plástico e água. Ele sorri, parecendo gostar da sensação, mas logo percebe a situação e empurra a sereia. Ela nada em direção a ele novamente, levando um soco perto de seus dentes. Ele nada para a borda e rapidamente sai da piscina.
– Desculpa Yasmim, mas depois de tantos séculos, eu não vou ser morto por uma mulher – ele procura sua camisa no gramado e a coloca de volta – Yasmim...?
Ele se aproxima da água transparente, perto da borda, a figura de uma sereia indígena enfeita o fundo da piscina. Konor se preocupa, mas ao se aproximar ainda mais, a sereia salta, agarrando seu pescoço. Tão perto, qualquer um que não tivesse força sobrenatural seria puxado de volta para a água, porém, Konor consegue voltar para o gramado, com a pequena sereia ainda agarrada ao seu pescoço. Ele observa os olhos de Yasmim, após retira-la completamente da água, seus olhos voltavam ao castanho, e seu corpo à aparência humana.
– Konor... – a garota diz cansada, se esforçando para abrir os olhos e encara-lo – não sei o que aconteceu, mas... você vai se arrepender pelo que disse.
– Sobre não ser morto por uma mulher? Se nem Ernesto me matara, como uma garota... – Ele começa a falar, mas é interrompido pelo suspiro de impaciência de Yasmim
– Vou te mostrar do que uma garota é capaz. – diz ela, saindo de cima dele e deitando ao seu lado na grama – mas amanhã. Por enquanto, eu só queria entender o que aconteceu.
– Fácil, você se transformou pela primeira vez, falando nisso, sua calça deve estar um pouco rasgada... – konor olha para as estrelas, enquanto a garota, envergonhada, se arruma.
“Pronto”, diz ela com um sorriso de lado, esticando a mão para o homem de cabelos castanhos. Ele se levanta sem aceitar a ajuda dela.
– Você é teimoso – Diz ela, voltando para a mansão
– Como você. – Ele sorri, e os castanhos de seus olhos se cruzam uma última vez sobre o luar daquela noite.
***
Acho que agora finalmente posso encerrar o dia.
Apago a luz de meu quarto e deito em minha cama. Entretanto, começo a me debater, virando de um lado para outro. Não consigo dormir. Uma sensação ruim de estar sendo observada sobe por minha espinha, um terrível medo toma conta de todo meu corpo. Olho para a janela ao lado direito de minha cama, é como... se estivesse enxergando um focinho medonho ao outro lado dela.
Lembro daqueles filmes, em que sempre nessa hora um trovão ou relâmpago clareia o cômodo e o personagem principal ou a próxima vítima enxerga uma entidade maligna.
Não devia ter pensado nisso! As vezes me esqueço de que sou um kirian.
Um relâmpago caí ao longe no horizonte, mas “perto” o suficiente para clarear meu quarto pela janela. Por um instante, vejo a figura de um homem ao outro lado da janela, me observando. Um homem que, no lugar de um rosto humano, tem a cabeça de um lobo, com uma boca cumprida, dentes amostras e um olhar de descolorir qualquer chapeuzinho.
Meu coração quase para, sinto algo dentro de meu peito, um medo estremo de morrer por algo como aquilo. Corro em direção ao interruptor, acendendo a luz, esperando que ele desapareça e eu o veja só outra hora, como em um filme.
Porém, o pior acontece. A coisa não desaparece, pelo contrário, aquele metamorfo de rosto peludo começa a andar em minha direção. Fecho os olhos e tento gritar, mas acabo imaginando aquela figura perturbadora em minha mente e ao abrir os olhos, uma cópia feita pelo meu cérebro começa a andar ao lado dele, simplesmente paraliso.
Lágrimas começam a escorrer de meus olhos, eu não queria morrer assim.
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