Aos olhos de alguém
31 Impondo-me
Começo a soluçar, não quero chorar, mas não consigo segurar, só queria saber o que eu fiz.
– O-oque eu fiz – minha voz falha entre os soluços e lágrimas
– Primeiro se acalme – Konor enxuga minhas lágrimas com as costas dos dedos dele – sabe, nunca pensei que a garota que iria tentar fazer com que meu melhor amigo perdesse o pacto para um demônio fosse tão fofa, eu esperava alguém mais... má. Porém até que faz sentido, Alinpç nunca sentiria atração por uma garota de pensamentos ruins, teria mesmo que ser alguém tipo você, fofa, pura, alegre... ou pelo menos é quando não está chorando.
Me acalmo, ele realmente não vai me contar enquanto estiver chorando.
– O que Natacha queria que precisa do tempo congelado?
– Encontrar o irmão e invadir sua mente – Konor me coloca no chão e se ajoelha a minha frente, mesmo assim o mais extremo fio de cabelo ao norte meu fica na direção de seu abdome definido – Apesar de tudo, Alinpç é nível dois, se o tempo parar ele congela como qualquer um. Iknpa esperou por um kirian nível três durante séculos, recrutando muitos deles mentalmente.
– Então eu não sou a única – sussurro a mim mesma – mas o que ela quer com seu irmão?
– Controla-lo, Iknpa está a muito tempo presa naquele caixão, mas nunca conseguiu descobrir onde exatamente ele fica, Ernesto deu um jeito dela nunca poder descobrir nem pela mente de outros kirians. Mas Rafagh sabe onde ela está enterrada, se ela conseguir desbloquear a mente dele, além de descobrir o local poderá controla-lo, assim se vingaria de Isabel, matando sua última reencarnação pelas próprias mãos do amado, depois disso estaria livre para retirar seu corpo do caixão e só Kelloire sabe o que ela faria livre. Se a um milênio atrás, em quase sã consciência matou toda uma nação, agora, despedaçada como ela está mentalmente, seria capaz de qualquer coisa, até muito além da ilha.
– E a culpa vai ser minha – tento segurar novas lágrimas
– Não! Você não sabia branquinha, fora que Alinpç é forte, não será a primeira vez que ela tenta entrar na mente dele, só a primeira que ele não pode se defender totalmente.
– Mas, Konor, porque Natacha precisaria sair do caixão para matar Isabel e os outros? Ela já demonstrou conseguir matar quando...
– Quando deu um empurrãozinho para Leonardo matar Lavine? – ele me interrompe, porém sabe exatamente de quem eu ia falar – Branquinha, ouça-me, a irmã de Alinpç influenciou grandes nomes da ilha, mas ela apenas consegue em mentes perturbadas.
– O que quis dizer com “grandes nomes”? – fico confusa, quem mais ela matou?
– Conhece a história do estado Wolf, não é? – confirmo com a cabeça, um arrepio percorre minha espinha – E acreditou mesmo que uns escravos e uma mulher grávida souberam, magicamente, de um lugar, o qual estariam seguros? Eles não conheciam a ilha, seriam só mais um grupo como tantos que tentaram fugir e foram mortos, mas de repente, essas pessoas que mal sabiam a localização do próprio casarão viram GPS humanos – diz Konor com ironia – enquanto Natacha não consegue ser um deus, ela gosta de brincar de demônio, sussurrando coisas nas mentes humanas e de outros seres, ela estava entediada e viu naquela fuga a oportunidade de se divertir, então ela os salvou, dizendo-lhes o caminho, porém Iknpa queria mais ação, após um tempo ela sussurrou o mesmo caminho para o coronel, deixou que eles tivessem livre arbítrio para ver como desenrolariam a história.
– Depois das mortes, ela fez com que criassem o estado Wolf
– Quase isso, o homem realmente queria voltar o tempo e salvar sua amada, porém, a ideia de transformara aquela vila em um grande império, diferente de qualquer um que Natacha soubera ou vira no mundo exterior, foi dela. Um escravo, por mais que estudado, nunca saberia tanto sobre a era medieval do mundo exterior, tampouco administraria tão bem, a ponto de impedir a destruição por um estado já bem formado e fortemente armado como o Maikle. Nada nessa ilha acontece por acaso.
– “Nada nessa ilha acontece por acaso” – repito as palavras em um sussurro, como um sopro prolongado – Tenho que ir Konor
– Espera – diz ele antes mesmo que me virasse – como vai fazer para que ninguém tente matar Yasmim novamente? Tem que executar a missão por completo, não?
– Vou colocar na mente de todos, menos você e Tayler, a aceitação da decisão de deixa-la na mansão e não matá-la. Depois entrarei na mente da própria caçadora para ela não matar nenhum membro real e concretizar a ideia de ela não poder sair da mansão.
– Espertinha – Konor se levanta e eu finalmente saio de sua mente.
Todos ainda estão paralisados, me estabeleço em um canto qualquer da sala, fecho os olhos e digo como se rezasse “Volte, por favor”. Ao abrir de meus olhos, Tayler corre até Sofi e agarra o braço em que ela segura a adaga, minha irmã se vira rapidamente e quase o acerta, ela tenta se soltar ou acerta-lo, porém vai enfraquecendo-se na medida em que o Mystic começa a sugar mais rápido sua força vital, ela então desmaia, Leonardo avança até perto do bruxo, o pai dele também segue na mesma direção, ambos calmamente, analisando os passos como em um jogo de xadrez.
É minha vez de agir, entro na mente de todos ao mesmo tempo, menos Konor, Tayler e a pequena sereia – a mente de Sofi ficou mais vulnerável com ela inconsciente – faço com que todos aceitem a ideia de não matar Yasmim. Leonardo se estabiliza a poucos centímetros de Tayler, consequentemente Jackson também para.
– Espera, em que momento foi dito que não iriamos mais matá-la? E como, eu não quero mais fazê-lo? – Sofi começa a se levantar, permanecendo apoiada aos cotovelos e com uma das mãos na testa
Providencio que Yasmim nunca consiga matar nenhum membro das realezas – foi até fácil entrar em sua mente, assim, amarrada.
– Por que eu quis que fosse assim – decido me pronunciar, ouço alguns gritos surpresos, ninguém tinha percebido a minha presença na sala e parece que uma pequena forma quase totalmente branca, com olhos vermelhos feito rubis contrastando a pele, não é algo muito convidativo
– Essa fantasminha de novo – resmunga Henrique
– Não a chame assim – diz Ramon pelo canto da boca, baixo e diretamente para o Maikle
– Davina? O que está acontecendo... deve de ter haver com essa dor de cabe... – Sofi trata a situação como um delírio
– Não! – grito, chega de ser imparcial, Henrique tem razão, eu sou um fantasma, uma criatura esbranquiçada, a qual vive nas sombras, apenas observando a vida alheia – Eu entrei na mente de todos vocês, ninguém vai matar a garota e ela por sua vez não vai matar nenhum membro das quatro realezas.
– Davina – Ramon diz calmamente, se aproximando, até se ajoelhar a minha frente, ele é bem menor que Konor, mesmo assim mais alto que eu até mesmo ajoelhado – sei que não gosta de que pessoas sejam mortas, mas me ouça, não podemos deixar a caçadora a solta, estamos salvando vidas com essa morte.
– Papai, ela não vai matar – tento não olhar para ele, ninguém sabe que voltei a enxergar e a maioria dos seres presentes na sala, não precisam saber – ela não pode sair da mansão, tampouco matar vocês.
A sereia parece prestar mais atenção, pelo canto do olho a vejo de olhos arregalados, ignoro o impulso de olhar diretamente para ela.
O que essa peste disse? Ela não pode... não, ela pode. — Yasmim consegue se soltar das cordas.
Meio tropeçando naquilo que a amarrava, Yasmim consegue chegar até a porta, Sânia grita o nome da sereia, Raiane corre até ela.
– Deixem-na – ordeno – ela só quer ter certeza.
Vic e Ramon parecem não acreditar no que veem, Tayler sorri.
– Então, reunião encerrada. – Aurora bate uma mão na outra, mordendo o lábio inferior, encerrando a reunião.
– Como assim? – Leonardo aponta para mim de mão em concha – ela entra em nossa mente, muda o que queríamos e tudo bem?
– Sim! – digo, ainda fingindo um olhar perdido – Exatamente isso Leonardo, está na hora de eu começar a me impor nesse lugar, sou uma kirian nível três, apesar de aparentar pouca idade, sou mais poderosa do que todos vocês juntos – calmamente viro minha cabeça em direção a minha irmã, a encaro de olhos perdidos – inclusive ti, cara irmã, e seu amiguinho.
Yasmim chuta a abertura da porta de entrada. Qualquer um, acertaria o ar, mas ela sente algo muito mais consistente, uma barreira mística, a qual só ela acredita, a qual, graças a mim, é sentida por ela.
Espera, onde estão Jacques e Leticia se não na sala? – Sânia percebe que seu pai, acaba de sumir também – Não!
Não, Jacques!
O garoto está em um dos quartos vazios da mansão, com Leticia, ela acaricia seu rosto deitados na cama.
– Eu te amo – Cecilia sussurra para Jacques
O garoto hesita um pouco, depois diz a ela
– Eu também – ele queria completar com um “também te amo”, mas não conseguiu, se obrigou a calar-se – precisamos voltar
– A não! – ela sorri de orelha a orelha
Ela o beija, porém ele se mantém de olhos abertos, perdidos como os meus eram, em pensamentos.
– É sério, precisamos sair daqui – Jac retira o lençol de cima dele – não olha, por favor, de novo não.
Ao corpo magricelo de Jacques, além das costelas, marcas roxas e amareladas o demarcam. O garoto esquelético, não tem vergonha dos ossos aparentes, tampouco de seus braços flácidos, ele só não queria que Leticia visse seus machucados, hematomas profundos e cortes ainda não coagulados. Ela o abraça por trás, de joelhos afundando na cama.
– Não é melhor nos vestirmos primeiro – Leticia diz e sorri, Jacques se vira finalmente para olhar em seu rosto, rindo também – Amo te ver sorrir Jacques
– Eu também amo seu sorriso...
A porta se abre, é Jackson. Ambos ficam de boca aberta, Jacques tenta se justificar, Jackson reage da pior maneira, permanece em silêncio e segue para a saída. O vidente se veste rapidamente, enquanto Leticia permanece imóvel. Jac para ao batente da porta, fecha os olhos e sussurra:
– Adeus Leticia.
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