Konor me encara, de algum modo ele sabe que estive em sua mente, que li seus pensamentos, deve ser mais uma das habilidades que meu ancestral deu a ele – Tecnicamente Alinpç é o ancestral de todos os kirian, mas a maioria não por sangue, como no meu caso provavelmente – mas o que Konor vai fazer com essa informação? Dizer a Sôfi? Provavelmente não, ele deve me achar uma criança inocente assim como todos.

Nenhum kirian, por mais jovem que seja é inocente branquinha – a mente de Konor quase diz a frase para a minha, sem que eu tivesse buscado saber de seus pensamentos.

Você também tem o poder de ler pensamentos? – pergunto a ele, invadindo sua mente novamente

Não, mas em meio milênio de existência ao lado do maior dominador kirian, acabei aprendendo alguns segredinhos e técnicas para lidar com sua espécie.

Assim como lida com Sofi? O que você quer aqui Konor?

Eu sei lidar muito bem com sua irmãzinha, pode deixar. Já a respeito do que faço aqui, só estava entediado mesmo.

Mentira, é mais do que só tentar atrapalhar o romance entre minha mãe e um Mystic, você veio para ficar perto de mim, se estou certa, Alinpç te deixou para melhor se esconder do inimigo e seu amigo só vai sair das sombras quando achar Isabel.

E o que exatamente acha que tem com as reencarnações de Isabel?

Com a última você quis dizer, sou a garota feita pelo pacto. Konor você é um dos poucos seres existentes que já esteve na mente de Alinpç, ele te pôs lá, posso ver trancas por entre suas lembranças, qualquer kirian pode entrar em sua mente, mas nenhum pode ultrapassar a barreira entre suas lembranças e as lembranças de seu amigo. Assim como ele, você sente que sou a garota albina que tentará separar Rafagh de Isabel. E por intermédio do próprio pacto que “me fez”, Isabel terá sua última vida nascida próxima de mim.

Muito bem, você é esperta, suponho que já saiba em quem Isabel irá nascer, porém não sabe que eu, por ser quase que uma criação de Alinpç, também sinto algumas coisas, como por exemplo, deixe me ver.... só faltam nove meses para Isabel voltar.

***

Vou até a mente de Raiane, ela está em sua casa, em seu quarto, porém além dela mais uma pessoa está em sua cama, braços fortes a envolvem, abraçando-a como se fossem um só.

Volto o acontecido nas memórias deles.

O pai de Leandro não estava em casa, como sempre resolvendo todos os assuntos do reino com seus subalternos, Reiley pintava as unhas de roxo, com um dos esmaltes apreendidos de uma garota que os trouxe do mundo moderno para usar e vender a uma fronteira Wolf-Maikle de distância. Leandro aproveitou-se da situação e fugiu de seu reino, se transformando em plena tarde e pulando a enorme muralha entre os reinos dele e de sua amada.

A casa Maikle não foi construída muito longe da fronteira, mesmo assim é quase impossível de um lobisomem atravessar a primeira cidade sem ser morto, ele poderia simplesmente voltar ao estado humano, seu poder de alfa lhe permitia que se transformasse quando quisesse – os membros da família real, assim que ativam a maldição, são obrigados a matar um alfa para se tornarem um – porém havia um grande problema, a cor da pele de Leandro não condizia com a dos cidadãos do estado Maikle, apenas com a dos escravos. Foi então que ele teve a ideia de se passar por um, o príncipe do estado Wolf não era orgulhoso, pelo contrário, sua vontade de encontrar-se com Raiane era muito maior do que um orgulho de sangue azul.

O lobisomem então se passou por um escravo, e como não era humano, conseguiu facilmente se passar por um dos escravos reais voltando de alguma tarefa bem executada, de cabeça erguida, logo após comprar alguns trapos. O mordomo não reconheceu ele como um dos escravos, mas Leandro disse ser novo, recém capturado do estado Wolf, que poderiam confirmar com Raiane Maikle, o mordomo e outros empregados temiam a garota, não perguntaram. Ele agora estava junto aos outros escravos em uma espécie de senzala.

– Uau, que lindo esse novato – uma escrava disse analisando o príncipe de cima a baixo – tu não é daqui né?

– Não – se limitou a dizer o lobo, enquanto planejava uma maneira de pular a janela do quarto de Raiane sem ser visto

O quarto da sucessora Maikle tinha uma janela, com tela contra insetos, direcionada para a senzala, para que crescesse forte e aprendesse que aquilo era normal naquele reino.

– Sabia, é muito bem cuidado para ter nascido escravo, então deve de ter nome, qual é? – a mulher insistia em tentar falar com Leandro.

– Leandro... se nasceste escrava, como sabe a língua da ilha? – disse ele, olhando-a pela primeira vez, para alguém que nem nome tinha, ela até que era bonita

– Sou uma das escravas de companhia da dona Raiane – os olhos do lobisomem brilharam ao ouvir a frase – os senhores selecionam anualmente os mais belos escravos para serem os únicos “diferentes” a andar pela casa. O senhor Maikle gosta de belas escravas...

– Poupe-me dos detalhes, sei muito bem como funciona a escravidão. Só me responda, pode entrar e sair do quarto dela quando quiser? – perguntou-a

– Não, apenas quando a princesinha Raiane chamar um de nós doze – a moça parecia ter ficado confusa – o que você quis dizer com “sei muito bem como funciona”? Pois não tem jeito de ser escravo, não parece um apesar dos trapos que veste.

Leandro olhou para sua veste, estava realmente horrível aquele tecido.

– O nome Leandro Wolf não lhe diz nada? – ele perguntou, esperando um susto, ela balançou a cabeça como que não, inconformado por uma lobisomem da ilha não saber quem ele era continuou – eu sou o príncipe do estado Wolf.

Ela riu

– E como veio para aqui vossa majestade? – disse ela ironicamente – ainda mais com esses trapos

– Me transformei para pular a muralha, então tive de arranjar roupas para me fingir de escravo – ela ainda não acreditava na palavra do príncipe – não roubei se é o que pensa, trouxe em minha boca um diamante de meu reino.

Ela começou a rir mais alto

– Quer dizer que vossa majestade comprou algo que vale menos do que um saco de batatas com um diamante?

– Sim – disse ele sem entende-la – Não tem ninguém nesse lugar que saiba sobre o filho de Leonardo Wolf?

– Tem o velho Will, ele está aqui a apenas três anos, foi capturado aos 37, é um dos poucos que sabe a idade que tem, pois ele conta cada dia riscando a parede de sua “sela” desde que chegou. Agora deve estar cortando lenha para aquecer as majestades daqui, o inverno chegou forte esse ano... mas Leandro, se é tão rico assim e se é o herdeiro do trono, por que se sujeitar a isso?

– Por um amor impossível... e irresistível – um arrepio subiu pela espinha de Leandro, levando a ele uma sensação boa, enquanto ele imaginava Raiane em seus braços.

O lobisomem mordia os lábios inferiores enquanto olhava para baixo, seus olhos miravam um dos braços da escrava, mas o que sua mente projetava era bem diferente disso, ele imaginava Raiane, não poderia esperar mais, a queria naquele momento.

– Se me ajudar a entrar naquele quarto agora eu juro que te liberto e a levo para o meu reino – ele disse a ela, sem pensar nas consequências de suas palavras.

A garota achou que ele estivesse delirando, que fosse algum louco, disse que a senhora Raiane iria gritar, mas acabou aceitando, pela, provavelmente falsa, esperança de ser livre.

A escrava se arriscou, entrando na mansão e logo após no quarto de Raiane sem ser chamada, a loura se vestia, mas mesmo com uma intrusa em seus aposentos, ela não gritou apenas encarou a outra garota.

– Senhora... – disse a escrava, a voz tremula – t-tem um homem, tipo eu, mas bem cuidado, ele diz que quer te ver

– Leandro? – os olhos azuis claros da garota refletiram mais a luz da lâmpada

– Nunca tinha ouvido a senhorinha falar assim, parece até tom de gente apaixonada daqueles filmes que passam na sala de estar.

– E não é para ouvir mesmo – o semblante de Raiane mudou, de uma garota apaixonada, para uma comandante, fria e dura

A escrava fez um gesto curto de reverência e se virou

– Espera! – a garota voltou sua atenção para a loura – não deixe que ninguém saiba, terá suas recompensas.

A garota sem nome sorriu, nunca tinha se sentido tão importante.

Com a ajuda da quase não mais escrava, Leandro conseguiu entrar no quarto de Raiane sem ser visto.

E depois...

A porta não tinha nem sido fechada e, mesmo na frente da subalterna, Raiane pulou nos braços de Leandro, que a segurou e se beijaram, depois de fechada a porta, a escrava voltou para a senzala, a esperar pelo príncipe que a libertaria após ter seu tempo com a princesa.

Leandro trancou a porta atrás dele e deitou Raiane sobre a cama, rasgando suas roupas

– Está louco? – sussurrou a garota – como vou explicar as roupas rasgadas

– Do mesmo modo que vai explicar uns trapos de escravo e a cama desarrumada – sussurrou no ouvido da Maikle enquanto riam

– Não consigo raciocinar nada Leandro

– Então deixe tudo para depois.

***

– Davina? – a voz de Ramon parecia preocupada, ainda estou na mesa de jantar e nada comi

Percebo que passei alguns segundos afastada do mundo real, bisbilhotando a vida alheia, ou melhor, a vida dos pais de minha... inimiga?

– Está bem maninha? – diz Sofi, como se realmente se importasse comigo

– Eu... posso subir? – pergunto, Konor me encara.

Ramon e Vic balançam a cabeça como que sim, desço da cadeira e afasto-me da mesa

– Quer que leve mais tarde um pedaço de pizza para você? Não comeu nada, tem certeza que está bem? – Ramon parece bem preocupado comigo

Me limito a balançar a cabeça indicando que estou e subo as escadas.

Como vou impedir que Sofi mate Yasmim?

Não posso simplesmente chegar para ela e dizer “Ei, maninha, não mata a caçadora, uma mulher de mil anos enterrada em um caixão me disse que não pode”

Por que ela mesma não salva sua neta? Ela pode fazer o que ela quiser com a mente de Sofi, dos Deathless, com a minha... mas mesmo assim ela quer que eu tente salvar a caçadora, “sua tarefa”.

Acho que só me resta dormir e pedir conselho para a própria Natacha.

A vida dos pais da minha... inimiga? — a voz da irmã de Alinpç ecoa por minha mente

– Natacha! – grito sem ao menos enxergar, tudo ainda permanece em total escuridão

Ela não me responde

– Me diga ao menos como posso impedir que matem Yasmim – digo, começo a me desesperar, nada enxergo, é como se estivesse acordada, só que sem poder entrar em nenhuma mente, sem poder ver nem que seja pelos olhos de outra pessoa.

– Ainda tem que aprender muitas coisas Joaninha – ouço-a, mesmo assim não a vejo – como por exemplo o que acontece com herdeiros que tem filhos misturando o sangue de outras famílias

– O que? Pare de mudar de assunto, eu sei que foi você quem realmente matou Lavine. – meu desespero aumenta – Por que não vejo nada Natacha?

– Pois foi você quem me chamou. Já está na hora de começar a enxergar por conta própria.

Se ela quer que eu jogue seu jogo, não me resta outra alternativa a não ser tentar zera-lo.

– Quem misturou o sangue de dois estados dessa vez? – pergunto, tentando me acalmar, até que a escuridão não é tão ruim se for por pouco tempo

– Sabe... o rei do estado Maikle tinha se encantado por uma das escravas – meu coração quase para

Ela matou a garota que ajudou Leandro a se encontrar com Raiane, logo após eu saber de sua existência... mas como? Natacha realmente pode fazer tudo que quer?

— Quase tudo, mas está certa pequena, foi exatamente ela. – sinto em seu timbre uma felicidade amarga, como se ela se divertisse em matar – quando o jovem lobo conheceu a escrava sem nome, eu juro que senti algo, como se tivessem um parentesco mais próximo do que pensava, porém seria muito improvável ela ser da família real, aja visto que nascera escrava. Mas sabe pequenina, ainda me surpreendo com esse mundo.

– Quer dizer que ela era filha do rei Leonardo Wolf?

– Não. Ele nunca foi fiel, nascera e fora criado em um estado que em pleno século vinte e um, literalmente vive na idade média, porém que eu saiba nunca teve nenhum filho fora do casamento que chegou a nascer. A escrava era filha do pai dele, porém a mãe dela nunca disse ao falecido rei, foi pega tentando usar o reino Maikle para chegar ilegalmente ao Vicely, ela e a bebê, assim que nascera, foram escravizadas.

– Mas isso tudo não explica... – estou a muito tempo ouvindo historinhas que comprovam o poder de Natacha, tenho que acordar logo – deixa eu adivinhar, Henrique Maikle não resistiu a bela escrava, tiveram um caso, disso nascera uma pobre criança, deixada para os empregados cuidarem na mansão como se fosse filho de um deles e apenas Henrique sabe de sua verdadeira identidade. Ao descobrir que a mãe da criança era uma Wolf, a toda e poderosa Natacha decidiu matá-la antes mesmo que Leandro cumprisse sua promessa.

– Vou ignorar a ofensa a minha pessoa... você tinha que ter visto a cara de jovem lobo quando voltou para a senzala e achou a garota deitada no meio de uma multidão, morta, por uma simples gripe que não tinham percebido. Escravos morrem das mais simples doenças, ela não era especial, ela não ia ser feliz, muito menos tirar o filho, chamado apenas de Lorenzo, da mansão.

– O que você quer com a criança? – achei que entendesse Natacha

– Agora, nada, ele tem apenas três anos.

– Não foi isso que pergun...

– Não tinha que ir? O tempo não para, tic, tac, tic, tac – o som de um relógio se junta a fala de Natacha

Ela para

Ele continua.