Aos olhos da guerra
2 Capitulo 2 - parte 1: Perdidamente doce
Notas iniciais
O por do sol enfeitava o céu de cores mágicas e denunciava a calma que lhes faltava.
Apenas admiravam, em silencio, o espetáculo armado apenas para eles. Não conseguiam aplaudir com sorrisos e apenas deixavam os olhos inundarem de um mar salgado.
Ela repousava a cabeça no peito do marido e este, por sua vez, a tinha envolvida em seus braços. Brincava com cada cacho definido dela. Sua diversão entre pensamentos assombrosos. A ruiva mantinha uma das mãos na direção do coração dele e desejava com toda a sua força que pudesse sempre o sentir batendo acelerado por ela.
Mergulhou novamente nas lembranças que destruíram seu dia e tentou impedir ao máximo as lágrimas de caírem.
FLASHBACK
–Mais isso é um absurdo! E um descabimento!
–Acalme-se Epaminondas. – a madame tentava, em vão, tranquilizar o marido a distância ja que os filhos estavam agarrados a suas saias.
–E a minha convocação senhores? Onde está?
–Epaminondas!!- Ela forçou ainda mais o chamado. Não acreditava que ele realmente estava esperando ir para guerra e exigindo isso.
–Não Catarina...eu entendo muito bem como isso funciona...e eu irei para o campo de batalha com meu filho.
–Eu sinto dizer senhor mas a convocação tem um limite de idade que não lhe cabe.
–Como isso? E vocês querem levar o meu filho? Pois me levem no lugar dele...eu tenho muito mais experiência nesse assunto.
–Meu pai.- o rapaz engoliu em seco e largou a mão da esposa. Direcionou-se para frente dos comandantes e agiu com a tranquilidade que não tinha mas que arranjou no momento.- o senhor deixa que eu resolvo isso.
–Mas meu filho...
–Quando embarcaremos senhores?- o rapaz perguntou simplesmente.
Gina estava confusa...não entendia o que estava ocorrendo. Só sentia que algo muito errado estava acontecendo.
–Nando.- ela tentou chama-lo mas a voz saiu tão fina que até ela duvidou que tinha dito alguma coisa.
–Na próxima semana. Nesse mesmo horário. Haverá uma escolta para leva-los ao acampamento que ficarão.
–Não...- Ela mais uma vez deixou escapar algo entre um suspiro e uma palavra. Não tinha folego. A informação assimilada agora parecia um soco no estomago que lhe tirava todas as forças. Os olhos ardiam com a proximidade das lágrimas.
–Pois eu estarei la.
–Não perai rapaz vamo conversar...- o coronel se aproximou dos militares e direcionou a conversa para eles.- Quem sabe a gente não consegue uma liberação afinal eu sou político, ao menos tentei ser, tenho amigos nesse setor talvez eles possam nos ajudar e...
–Senhor...o excelentíssimo presidente afirmou que não haveriam exceções.
–É meu pai...e o senhor sabe...que eu não sou homem de arrepiar carreira...- o engenheiro tentou um sorriso confiante mas sabia que seus lábios tremiam.
–Pois se ocê vai eu vou junto- com a mesma velocidade que entendeu a situação a ruiva anunciou a sua decisão.
–Não! Absolutamente não!- o olhar do engenheiro voou na direção da esposa.
–A decisão não é sua Ferdinando! Eu vou e pronto ja disse!- a postura desafiadora que ele tanto amava agora lhe trazia preocupação. Ela tinha as mãos na cintura e o ar altivo. Seria difícil convence-la do contrário.
–Madame. É meu dever informa-la que mulheres não são aceitas no campo de batalha.
–Mas eu sei atirar! E posso atirar melhor do que todo mundo que anda por essas terras tudo.- seria um erro não a aceitarem. E ela faria de tudo para provar isso.
–Sinto muito madame. Como eu ja havia dito. Sem exceções.
–Gina...- ele não precisou falar mais nada...a voz firme dele e os olhos suplicantes pediam que a moça aceitasse a situação no momento e ela o fez ja que outra ideia ja lhe habitava a mente.
Os visitantes voltaram a afirmar o calendário e confirmar a presença do engenheiro no dia marcado.
–Então esperamos o senhor na semana que vem. Passar bem.
Saíram na mesma calma com que entraram e deixaram a mansão em um silêncio sepulcral.
–Eu vou fazer umas ligações...haverá de ter um jeito.
–Meu pai...o senhor sabe muito bem que não terá.
–Mamãe....o mano Nando vai pra guerra?- Pituca mal conseguia falar. Estava entalada com soluços e lágrimas. Era uma criança esperta...as vezes esperta até demais.
Serelepe mantinha os olhos baixos e, juntamente com Catarina, tentavam acalmar Pituca mesmo demonstrando seus próprios nervosismos.
Ferdinando fechou os olhos e tentou se concentrar em não derramar nenhuma lágrima. Guardou a convocação em algum bolso da calça e foi tentar falar com a irmã.
–Pituquinha...minha querida...ouça...eu prometo que no final de tudo você terá muito orgulho desse seu irmão aqui.
–Mas eu não quero que você morra Nando.
–Pituca! Não fale besteira!.- A mãe não sabia se ralhava ou se chorava junto com a filha.
–Ora essa mas ninguém aqui falou isso não foi?! Agora vamo parar com essa choradeira e venham aqui me dar um abraço. Ocês sabem que eu vou precisar de muitos desses para que eu fique bastante forte e derrote todo mundo que tentar chegar perto de vocês.
Os pequenos se aninharam nos braços do irmão. Pituca ainda chorava copiosamente como a mãe já Serelepe tinha puxado para o choro silencioso do pai.
Ferdinando beijou a cabeça de cada um deles e os deixou aos cuidados da madrasta. Agora viria a parte realmente difícil. Não sabia qual seria a reação da esposa e o coração apertava só de pensar que ela poderia estar sofrendo.
No momento em que seus olhares se encontraram ele teve certeza. Seria capaz de tudo para varrer as lágrimas que começavam a se acumular nos lindos olhos castanhos dela. A ruiva era valente, corajosa e não admitia revelar nenhum traço de fragilidade. A postura ereta e as mãos na frente do vestido revelavam uma calma que não transparecia em seus olhos. Ele se aproximou dela e manteve-se em silencio. Não sabia o que dizer.
A moça por sua vez, fez o que jugava certo no momento. O envolveu em seus braços. Não deixou que as lágrimas caíssem mas demonstrou a vontade de nunca abandona-lo na força que aplicava no abraço.
Ferdinando se deixou relaxar ao contato do corpo dela. E quando ela se afastou ele manteve as mãos em sua cintura assim como ela passava as mãos do pescoço para o rosto dele. O segurava delicadamente para que ele não desviasse o olhar mesmo sabendo que ele não o faria.
O engenheiro pegou uma das mãos da esposa e depositou um beijo doce na palma da mesma. Sorriu. Precisava que ela o visse sorrindo. Precisava demonstrar uma certeza que não era dele mas que deveria criar.
Ela apenas o observou até ele a conduzir para fora da casa.
Ninguém se pronunciou contra a saída do casal. Sabiam que eles precisavam digerir a noticia sozinhos. Do próprio e único jeito deles.
FIM DO FLASHBACK.
Nunca o local havia testemunhado tamanha tristeza. As palavras não se faziam necessárias apenas o calor da proximidade os fazia mais brandos.
O vento da noite começava a balançar os longos fios de trigo. O fim de tarde marcava mais um traço no calendário de poucos dias que lhes restavam.
Ele sentiu as mãos dela fecharem sob seu peito e as envolveu com a sua própria. Ela tremia levemente e ele sabia que precisava dizer alguma coisa. Algo para acalma-la sem incitar algum tipo de vulnerabilidade.
–Ei...- o rapaz a chamou calmamente. Ela o olhou ainda com os olhos assustados porém sem derramar lágrima alguma. – Eu vou ficar bem...eu lhe prometo isso. Eu prometo que voltarei pr’ocê.
–Ocê não pode prometer isso...- ela desviou o olhar do dele. Queria acreditar em suas palavras mas sabia que seria um erro.
–Tudo bem...então eu lhe prometo...que vou tentar.
Eles deixaram o silencio falar acompanhado do barulho da plantação se chocando graças a ação do vento.
Ela engoliu o choro mais uma vez e confessou.
– Eu acabo de lhe encontrar...eu não posso te perder Nando...
–Ocê lembra do que eu falei pr’ocê logo no começo...que eu iria lhe proteger sempre? Pois é isso que eu vou fazer menininha...sempre.
–Mai....eu não quero que ocê me proteja ! Eu quero que ocê fique a salvo comigo!
A voz quase falha dela denunciava uma derrota próxima contra a vontade de chorar.
–Gina...- ele levantou levemente o queixo dela e a moça involuntariamente deixou uma lágrima espessa rolar de seus olhos. Ele não resistiu e deixou as suas próprias também passearem sob seu rosto.- Eu lhe amo de um jeito impossível de descrever...e eu prometo que sempre estarei lutando para ficar ao seu lado. Eu prometo que eu darei o meu máximo porque a minha recompensa esta além de qualquer guerra, de qualquer motivo ou riqueza. A minha recompensa é você. São seus lindos olhos castanhos em que eu me perco- ele pausou apenas para beijar os olhos fechados da moça . O engenheiro passou a cobrir cada local citado com um beijo terno.- É a sua pele macia que me da calor, são esses cachos vermelhos que me atraem tanto, o seu cheiro que me enlouquece, e essa sua boquinha doce...Você, menininha, é muito mais do que eu esperava ter na vida. E eu agradecerei eternamente a Deus por ter me dado a oportunidade de ser seu marido.
–Ara Nando...ocê não me faz chorar agora.- Tarde demais. As lágrimas agora rolavam sem propósito de parar e ela tentava aparar todas com as mãos. Enxugava o rosto repetidas vezes e tentava se acalmar tomando longos goles de ar.
Ele a abraçou novamente e não lutou contra o choro preso na garganta.
O resto do dia passou no mesmo silencio que foi selado com a partida dos militares. Na mesa de jantar apenas os tintilares da louça eram ouvidos e mesmo assim poucas vezes. O apetite havia sumido e ninguém conseguiu terminar as refeições. Epaminondas passou o dia trancado no escritório. Fazia ligações até para desconhecidos mas sabia que o destino do filho já estava resolvido. Ao fim do jantar o coronel se trancou no local novamente. Não mais ligava...apenas tentava entender e lutar contra a realidade dura.
Catarina não ligava para o rosto inchado e os olhos vermelhos e tentava entreter os filhos de alguma forma para que , ao mesmo tempo, pudesse retirar os pensamentos dos acontecimentos.
Não se ouviu a risada dos pequenos Napoleão pela casa aquele dia. Ambos estavam calados e comiam apenas quando estavam sendo observados. As mentes mirabolantes travavam uma batalha entre pensamentos negativos e positivos.
O jovem casal da casa manteve-se em silencio. Voltaram do trigal abraçados e permaneceram juntos o resto do dia.
Ao se recolherem para o quarto repararam o quanto os momentos em que chegavam batendo a porta, quebrando algo ou rindo sem parar pareciam distantes.
Gina se pos na frente do espelho da penteadeira e começou a retirar os adornos que tinha aprendido a usar. Foi deixando um por um na caixa aberta em cima do móvel. Quando colocou o ultimo brinco do par no local sentiu as mãos do marido desfazerem o laço do vestido que se prendia por trás. Ao terminar o trabalho o engenheiro afastou os cachos ruivos para o lado e passeou pelo pescoço livre dela. A moça fechou os olhos e tentou relaxar a cada toque das mãos dele em sua cintura, a desfazendo dos botões do vestido, e a cada beijo depositado em sua pele.
Como ele adorava despi-la. Deixava cada pedaço de tecido, cada barreira que o mantinha longe dela, desfazer-se em suas mãos. O vestido logo caiu revelando a imagem magnifica dela em apenas uma longa blusa branca quase transparente.
–você não sabe o quanto é linda ...- ele sussurrou em seu ouvido e admirou seu reflexo no espelho.
Ela segurou as mãos dele que agora a agarravam pela cintura e suspirou quando sentiu a respiração quente do marido em seu pescoço.
Percorreu as mãos pelos braços dele que a enlaçavam e deixou um sorriso tímido enfeitar lhe a face.
–Eu te amo.- eram poucas as vezes em que ela admitia. Que ela falava em voz altas. Mas todos os momentos em que ela escolhera falar eram os certos. E a verdade na afirmação o enchia e felicidade e amor. – Eu não vou saber viver sem você.
–Mas você não vai precisar. Por que eu sempre vou estar ao seu lado mesmo que não fisicamente.
Então- a moça virou-se e envolveu o pescoço do marido com seus braços. Forçando ainda mais o corpo na direção dele.
– Vamo aproveitar cada segundo que a gente tem junto- ela estava sendo direta e ele adorava isso. A ruiva depositou um beijo longo e demorado no rapaz para logo depois chama-lo docemente do titulo que lhe cabia.- meu marido.
O jovem engenheiro sorriu como ainda não tinha feito desde a noticia. A tomou nos braços e a carregou em direção a cama deles.
Deixaram as mãos encontrarem o caminho certo. A pele respirar longe das roupas, o pulmão forçar a entrada de ar e as cordas vocais liberarem sons deliciosos. Viveram como nunca em uma única noite de amor.
Ja no dia seguinte Ferdinando acordava com as chamadas da esposa...porém o convite que ela fazia era um tanto quanto inusitado.
–Vem frangotinho levanta...vamo logo que a gente tem muito trabaio pela frente.- Ela dizia enquanto espalhava beijos rápidos no braço descoberto dele.
–Ara menininha...mais o que diacho de coisa que a gente tem que fazer tão cedo que não pode nem esperar o galo Bené cantar.
Ele virou-se com o sorriso malicioso nos lábios e pensamentos impuros na mente. Nunca se cansaria de te-la só pra si. Abraçou a mulher que ainda estava deitado do seu lado e sussurrou em seu ouvido.
–Hoje é ocê que ta querendo me acordar é?!
Ela se afastou ainda rindo da proposta mas tinha que se concentrar. Sua missão não era a das mais fáceis.
–Não é nada disso que ocê ta pensando frangotinho...vamo logo se vestir é que é. A gente tem que passar la na casa da mãe e do pai primeiro antes de começar o treinamento.
Ela ja estava na frente do ármario e escolheu o conjunto de calça e blusa que usava até mesmo antes do casamento.
–Treinamento? Do que ocê ta falando meu amor?
–Ara... se ocê ta cismando que quer ir pra essa tar de guerra e ja que eu não posso lhe acompanhar...ta craro que eu vou lhe treinar! Afinar...quem sabe atirar aqui nessa casa sou eu.
–Ocê nunca me viu atirando aliais você nunca viu ninguém dessa casa atirando.
–É por isso mesmo que sou eu que tenho que lhe treinar. Toma- ela jogou as roupas do marido em sua direção e despareceu de sua vista quando entrou no banheiro da suíte que dividiam. Ela buscava se esconder da realidade ou ao menos não demonstrar o quanto isso a estava afetando.
O engenheiro permaneceu sentado na cama. Riu da dedução dela mas admitia que quanto mais tempo passasse com a esposa mais seus dias seriam proveitosos não importava o que estivesse fazendo.
Seguiram para a casa dos Falcão sem nem mesmo tomar o desjejum e foram recebidos pelo maravilhoso cheiro do café da dona Tê.
–Filha! Amigo Ferdinando! Mai que alegria ter ocês aqui! Entrem, entrem! — O senhor sempre transparecia uma alegria contagiante e cumprimentava a filha com um abraço e o genro com um aperto de mão e tapinhas nas costas.
–Bom dia meu sogro...como tem passado?
Bem..bem..na medida do possível.- o senhor estranhou a ausência da mulher curiosa que tinha e resolveu chama-la. Com certeza essa uma estava ocupada com o café.- OHHH mãe! Corre que nós tem visita!
A senhora apareceu rapidamente na sala e abriu um largo sorriso.
–Minha fia! Doto Nando! Mai que felicidade! Inté parece que eu tava adivinhando que oces vinham...- ela abraçou a filha e conduziu a mesma até a cozinha sendo seguida pelo genro e pelo marido.- ocê nem sabe o que eu acabei de fazer...
Gina se concentrou ainda mais no cheiro que vinha da cozinha e salivou.
–Cural!!Mãe a senhora fez Cural?!
– E é craro que oces vão tomar café com nós. Vamo logo que eu acabei de passar o café.
Todos se sentaram a mesa e saborearam o delicioso café da manhã da senhora Falcão. Por um minuto esqueceram o por que de terem ido la. Até que a realidade fez questão de mostrar sua presença.
–Mai me diga filho como anda as coisas la na fazenda?
–Ah Seu Pedro nós tamo tendo uma colheita que a muito tempo não se via igual.
–É sim pai...o senhor precisa de ver como que ta bonito aquilo tudo lá.
–Mai eu não duvido...caso de que esse meu genro é o melhor engenhero gromo que ja passou por essas terra tudo.
–A que isso... bondade sua Seu Pedro.
–Ara..não seja modesto sô...oce sabe o belo trabalho que fez aqui nas minhas terras...alinhais acho que semana que vem nós podemo começar aquele troço la que oce me falo. De colocar aqueles adubo novo na terra.
O silencio invadiu o local. Gina largou os talheres automaticamente e Ferdinando baixou o olhar. A ruiva engoliu em seco e levantou-se rapidamente.
–Fia ...o que aconteceu? Não gostou do bolo?
–Não é isso mãe...é que nos ja estamos atrasados...não é Ferdinando?
O rapaz colocou o guardanapo, que estava usando, na mesa e levantou-se a fim de seguir a mulher.
–Muito obrigado pelo café Dona Tê. Estava delicioso como sempre.
Gina encontrou o objeto, motivo de sua visita, no mesmo local de sempre. Acariciou o ferro trabalhado em rosas e coberto de força. Sabia que um dia iria usa-la...mas esperava que o contexto fosse diferente...como assustar mais um politicozinho de meia pataca.
Voltou para a sala com a arma nas mãos fazendo com que os olhos atentos de dona tê refletissem aflição.
–Mai o que que oce vai fazer com isso minha filha.
Seu Pedro a olhou assustado e entendeu o que estava acontecendo.
–Ocê não vai me atirar em ninguém menina!
–Eu não vou tirar em ninguém mãe e se atirasse é porque tava merecendo.
Antes que a senhora pudesse falar alguma coisa o senhor da casa entoou uma voz amarga para poder perguntar a resposta de sua certeza.
–Ocê também foi convocado fio...
–Sim Seu Pedro.- Ferdinando engoliu o medo e apenas confirmou a noticia.
O sogro balançou a cabeça e olhou para o chão.
–Misericordia!- A reação da sogra não podia ser outra. A viu levar as mãos a boca e abafar o choro.
–Eu...eu esperava que, com as influencias do seu pai, ocê não fosse convocado.
–Não existem exceções Seu Pedro. Mais que mal lhe pergunte...o senhor disse também...quem mais foi convocado?
–Ocê não tá sabendo fio?
O engenheiro balançou a cabeça negativamente e a ruiva colocou-se imediatamente ao seu lado.
–Quem mais foi convocado Seu Pedro?
–O vosso segurança.... o Zelão.
*
Juliana havia liberado os alunos naquela semana. Seriam dias difíceis para todos. Alguns alunos se despediram dos pais. Outros diriam suas ultimas palavras aos irmãos e ela...bom..ela não queria pensar no que faria sem ele.
–Minha frô...por favor não fique assim.
O homem sentava-se ao seu lado no sofá da casa deles. A abraçou e arrastou os dedos em caminhos aleatórios pelos braços da esposa.
A moça de cabelos cor de rosa ja havia feito de tudo. Primeiro chorou copiosamente, depois tentou arranjar argumentos, se informou, estudou, pediu ajuda a alguns colegas seus em sua antiga cidade mas todos a garantiam que não havia exceção. Não havia escapatória. Eram os viés de um regime tão atrasado como o que viviam. Então ao final de tudo, resolveu calar. Pedia a deus pela vida do marido em rezas mentais. O choro voltou dessa vez silencioso. E a dor que se alastrava sobre seu peito criou raízes profundas.
O homem por sua vez, tinha uma expressão que remetia tranquilidade....não por estar realmente calmo...mas por confiança e um desejo inumano de não demonstrar fraqueza. Tinha que ser forte por ele...tinha que ser forte por ela.
Permaneceram abraçados aquele dia. Apenas fazendo com que o tempo capturasse cada essência deles...e fizesse com que vivessem mais momentos juntos.
*
–Não frangotinho!! Esse ja é o quinto alvo que oce erra.
–Mais eu não to errando menininha...eu to acertando a cerca.
–Não...oce ta deixando a cerca alejada. Ocê tem que matar a cerca Ferdinando!
Para alguém que nunca tinha matado uma mosca...matar uma cerca estava se provando ser uma missão impossível.
Matar...uma palavra que sempre teve um significado forte demais para Ferdinando. Sempre foi fã das conciliações diplomáticas...afinal quem tem argumentos não precisa de mais nada. Tinha como exemplo o encontro com o diretor da companhia de ônibus...não se atreveu a usar a arma e ganhou usando o cérebro. Como o homem estudado e sábio que era.
–Amor...ocê não acha que a gente devia visitar a Juliana?- ele colocou a arma no chão e caminhou em direção a esposa.
–Ainda estamos no treinamento Ferdinando...concentra.
–Tudo bem...mas depois disso aqui ...o que oce acha de nos irmos la convida-los para almoçar ? — Ele a abraçou e lhe deu um beijo no pescoço.
A moça sorriu e ao final concordou. Sabia que a amiga estava precisando dela. E no ponto em que estava...admitia que precisava da professorinha para apoia-la. Eram duas fortalezas que sozinhas podiam aguentar muitas coisas...mas que juntas eram ainda mais invencíveis.
–Eu acho uma ótima ideia meu marido.- Ela lhe deu um breve beijo e voltou sua atenção para o treinamento.
–Agora eu quero ve oce matando algumas cercas.
Ele revirou os olhos e se pos novamente na posição de atirar e ouvir os conselhos e ensinamentos da mulher. Atirava bem...só não tão bem quanto ela...e não tão bem para uma guerra.
*
–Olá meus amigos...mais que bela surpresa.- Juliana abria a porta e convidava os amigos a entrar. Gina não pode deixar de reparar na rouquidão da voz dela e nos olhos vermelhos e inchados. Tinha certeza que a moça tinha passado a noite e metade do dia chorando. Não sabia o que dizer e agradeceu aos céus por ter um marido que sabia escolher bem as palavras.
–Minha querida...como esta? – engenheiro perguntou enquanto envolvia as mãos da grande amiga com as suas próprias.
–Ai meu amigo...eu nem sei na verdade. Acho que ja não sinto mais nada a não ser essa dor enorme no meu peito.
Ouviram passos pesados e observaram o marido da professora se aproximar com os olhos baixos.
–Ins tarde amigo Ferdinando, Gina.
–Zelão!- os dois amigos apertaram as mãos e Ferdinando tratou logo de fazer o convite que os levará até la.- Eu e a Gina viemos convidar ocês para almoçar. O que acham?
–Mai almoça lá na casa grande?
–E onde mais seria meu caro?
–Mai e o senho vosso pai vai concordar?
–Não se preocupe com isso meu amigo. Ocê sabe que oces são muito bem vindos.
–Obrigada Ferdinando. Nós aceitamos sim.
–Bom então vamos que logo mais a Amancia serve o almoço.
Os casais se retiraram e caminharam a pequena distancia que separava suas casas.
Ferdinando e Zelão conversavam sobre amenidades. Não ousavam tocar no assunto que mais os assustavam.
Ja Juliana e Gina iam mais atrás. Ambas caladas. Um silencio que nunca existiu em épocas passadas mas que as estava atormentando no momento.
–Gina?
–Hm...
–Como é que você...como é que você ta conseguindo assimilar tudo isso?
–Como que eu to conseguindo o que?
–Aii Gina...como é que você ta lidando...por que eu...eu ja não sei o que faço da vida. Eu amo muito o Zelão e agora...- ela pausou e deixou os olhos brilharem com as lágrimas que se formavam.- Agora eu tenho que ver ele ir embora e não posso fazer nada.
–Isso é você que pensa.
–Como assim?
–Nada não...é besteira minha...
Juliana suspirou e deixou o silencio abraça-las novamente.
–Eu vivo um dia de cada vez.- a ruiva disse depois de algum tempo.
–O que?
–Ara ...oce me perguntou como eu to lidando não foi?! Então...eu vivo um dia de cada vez. Pensar no futuro é a certeza de ter preocupações desnecessárias. Eu aproveito todos os segundos que eu to com ele. Por que são essas lembranças que vão me manter viva até ele voltar.
A professora riu da verdade proferida pela amiga. Não cansaria de aprender com ela e com a simplicidade com que ela vivia e enxergava as coisas.
–Você está certa minha amiga.
Aproveitaram um almoço agradável e tentaram novamente esquecer o mundo la fora. Após se despedirem dos amigos sentiram que a energia fora renovada e a ruiva usou isso como uma arma para completar as tarefas do dia.
–Vamo que oce deixou aquela cerca toda manca mas n matou a coitada. Deve de ta agonizando até agora.
A moça puxava o marido em direção ao local e ele admitia que por mais que o objetivo fosse terrível ao imaginar que as cercas seriam pessoas em um futuro próximo...tudo aquilo era muito divertido e não podia negar que as ordens e comparações da esposa o faziam ainda mais apaixonado por ela....se é que aquilo era possível.
Passaram a semana assim...com tiros cada vez mais precisos, circuitos de obstáculos montados por ela e ultrapassados com sucesso por ele. Gina estava se mostrando uma verdadeira treinadora e ele não tinha o que reclamar...se não fosse a insistência da esposa...ele ainda estaria tentando lembrar de como se atirava.
É claro que no final sempre arranjavam um tempo para discutir e as discussões sempre levavam a reconciliações intensas.
Lutavam com armas pela manhã e contra os lençóis pela noite. Sempre teriam energia para gastar um com o outro e isso era um acordo silencioso em comum entre eles.
E assim se seguiu a semana até a véspera da convocação.
O sol não dava nem sinal de sua existência quando Gina sentiu a trilha de beijos em seu pescoço.
–Meu amor acorde...
–Mas o que é isso Ferdinando...a gente acabou de dormir.- ela estava confusa. Tinha certeza que tinha apenas piscado e o cansaço parecia ter se acumulado e não ter sido completamente curado.
Ele riu e tinha que admitir que, acorda-la apenas algumas horas depois de tudo o que tinham feito no quarto beirava a crueldade. No entanto, os planos ja haviam sido traçados a semanas atrás e não seria uma guerra ou qualquer outro motivo que o fariam desistir de comemorar aquela data tão especial.
O engenheiro a viu se aconchegar ainda mais no seu peito e mergulhar no sono novamente.
–Vamo menininha...eu tenho uma surpresa pr’ocê.
A palavra chave para que ela esquecesse todo o sono e o encarasse com os olhos atentos.
–Surpresa? Mas do que oce ta falando frangotinho?
Ele simplesmente beijou-lhe a testa e a convidou a sair da cama.
–Oce se arrume que nos vamo sair.
–Mas Nando...ta tudo escuro la fora.
–Eu sei...- ele se aproximou dela e tomou o rosto da amada em suas mãos. – Ocê confia em mim?
–Oce sabe que sim.
–Então faça o que estou lhe pedindo sim?! Eu prometo que oce não vai se arrepender.
Ela o olhou desconfiada mais seguiu para o armário a fim de colocar qualquer coisa confortável mas ao mesmo tempo elegante. Sabia que, do marido, poderia esperar tudo mas reconhecia aquele tom de voz de sedução e resolveu retribuir igualmente com a roupa que escolhera.
O rapaz jurava que poderia viver anos mais a imagem da esposa se despindo seria sempre uma de suas mais belas lembranças.
–Oce ta me bisbilhotando é seu frangote...?- ela estava de costas mais sabia que ele não resistiria. Riu e logo apos mordeu os lábios ao lembrar-se que ainda estava de madrugada e poderia acordar alguém. Deslizou a mão pelo tomara que caia da camisola e o olhou sedutoramente por cima do ombro.
–Oce sabe que não pode me provocar agora..
–A é? E por que não- Deixou a camisola encontrar o chão e não se atreveu a virar. Apenas fingiu uma concentração absurda na procura do melhor vestuário.
Ferdinando sentiu o corpo formigar e engoliu em seco. Respirou algumas vezes e repetiu para si mesmo que não poderia se atrasar.
–Por que ...por que a surpresa não vai esperar ...é isso..- a voz estava falha e rouca...mas um resultado do poder que ela tinha sobre ele.
–Hm...quer dizer que essa tar de surpresa tem hora é...
–Ara...eu ja entendi o que oce ta fazendo ...- ele se aproximou da moça enquanto esta terminava de colocar a roupa.-oce ta querendo tirar informações sobre a surpresa n é?
–Oce que ta falando isso...eu n to dizendo é nada.
Esperta....muito esperta.
O engenheiro a ajudou a fechar o vestido azul bebe que colava no corpo e deixava novamente os ombros desnudos. Algumas pequenas perolas adornavam a cintura da saia de poucas anáguas o que o tornava mais leve e quase inocente se não fosse o decote discreto.
Não resistiu a proximidade e mordeu-lhe o lóbulo da orelha e logo depois espalhou pequenos beijos entre o pescoço e a nuca da esposa.
–Essa era a surpresa? Oce me arrumou...pra tirar a minha ropa foi?
–Não...mas até que não seria uma má ideia.
Eles riram novamente. O rapaz lhe deu um ultimo e longo beijo na bochecha começou a se arrumar como devia.
Ela o ajudou a colocar o colete que ele usava por cima da camisa estampada e viajou naquele céu azul dos olhos dele. Também não sabia lutar contra seus desejos e acabou por puxa-lo pelo colete e joga-lo no armário em um beijo forte. Ferdinando esqueceu do mundo e se deixou levar pelos lábios dela. A agarrou pela cintura e lhe puxou uma das pernas. Virou-se rapidamente e agora era o corpo dela que encostava no móvel. A prendeu entre o armário e seu próprio corpo e a fez perceber a influencia que ela exercia nele. A ruiva sentiu as mãos do marido buscarem todos os botões que ele mesmo havia acabado de abotoar...e lembrou do por que de estarem vestidos, no quarto e no meio da noite. O afastou como fazia quando brigavam e antes de começarem a namorar.
O jovem foi pego pelo choque do ato e pela falta do calor do corpo da esposa.
–Oce não disse que tinha uma surpresa?- a moça falava enquanto depositava as mãos na cintura e tentava recuperar o folego.
–Oce vai me matar Gina...oce, um dia, ainda vai me matar...- ele próprio tentou recuperar a razão perdida enquanto puxava, de forma acelerada, o ar para dentro de seus pulmões.
A moça, ainda risonha, voltou sua atenção rapidamente para o espelho e organizou os cachos.
O costume tinha feito do ritual algo automático mas não menos precioso. Ela adorava ser aquela responsável tanto por abotoar quanto por desabotoar as roupas dele e ele não desejaria outra função na vida que não fosse a de despi-la ou enfeita-la.
–Vamos?- ele conferiu o relógio mais uma vez e descobriu que ainda tinham tempo...mas preferia não arriscar. Ele ofereceu a mão que ela aceitou prontamente.
–Vamo.
Os passos foram cuidadosamente dados em direção a saída. Gina logo sentiu o cheiro de mato da fazenda e descobriu o quanto a noite estava linda. Andaram de mãos dadas e apenas com uma lanterna.
–Mai pra onde oce ta me levando frangotinho.
–Ara...eu não lhe disse que é uma surpresa..?!Se eu falar agora...não vai ser mais surpresa...
–aH...mas é que eu fico curiosa
–Gina...meu amor...você nem desconfia que dia é hoje ne?!
–Não..eu parei de contar os dias a algum tempo.- a voz dela saiu fina e ele sabia exatamente o por que ela tinha feito questão de esquecer o calendário.
O rapaz parou de caminhar e a olhou nos olhos segurando suas mãos fortemente.
–Então eu faço questão de lhe lembrar. Hoje faz um mês que eu fiz a escolha mais certa da minha vida. Um mês que eu tenho a mulher mais brava, mas valente e mais linda como minha mulher. Foram os melhores 30 dias da minha existência. E eu quero que oce saiba que meu amor por oce só aumenta a cada dia que passa.
E que eu sou o homem mais feliz desse mundo por ter oce do meu lado.
Gina não podia acreditar que tinha esquecido...seu primeiro mês de casada...como ela esqueceu uma data tão importante?! Era verdade que era meio avoada para as coisas mas o dia do seu casamento foi o dia mais feliz da sua vida e sem duvidas estar casada com Ferdinando era um sonho diário que ela não queria acordar.
–Eu não acredito...e hoje?!
–É sim...e eu entendo porque oce não quis olhar o calendário mas...eu lhe prometo que vou fazer de hoje o melhor dia das nossas vidas...para que possamos sempre lembrar e nos agarrar a ele caso um de nós nos falte
–Ara Nando...oce para de falar assim..oce vai voltar...vai voltar pra mim!
–Eu sei. Eu vou. Eu lhe prometi isso não foi?! Mas enquanto eu estiver longe...a gente fica lembrando dos dias maravilhosos que tivemos...como o que vamos ter hoje...preparada pra primeira surpresa?
–É mais de uma surpresa?
–O dia todo será uma surpresa meu amor...
Ela sorriu e o beijou docemente. Andaram mais alguns metros e chegaram na maior clareira da fazenda.
Gina não podia acreditar em seus olhos quando o viu. Um enorme tecido colorido que ficava balançando de acordo com o vento que batia e o ar quente que lhe servia de alimento. Se prendia numa cesta na qual cabiam claramente 3 pessoas. Um senhor estava calmamente esperando o casal e acenou quando viu o engenheiro.
–Ferdinando....o que é isso?
–Isso meu amor...é um balão. E hoje ocê vai ver o nascer do sol comigo. De la de cima.- ele apontou para o céu e ela ficou meio confusa com tudo. Nunca tinha visto um objeto tão...diferente e a alusão de estar no céu e ver o nascer do sol a deixava perturbada.
–Mai...como é que a gente vai fazer isso...
Ele não disse nada, sorriu e a puxou para que ela corresse junto com ele na direção do objeto flutuante.
–Ola seu Tonho!
–Dia Doto Nando!
–Tonho essa é minha esposa..Gina...meu amor...esse é um grande amigo meu...o Tonho.
Ambos trocaram um aperto de mãos. O senhor tinha um olhar simpático mas a ruiva ainda estava assustada com o tamanho e o poder que emanava do balão.
–Esta tudo pronto Tonho?
–Ta tudo certo doto ! eu e o Blum ja estamos preparados.
–Blum?
–É sim senhora...é o nome do Balão.
–Ta certo Tonho então vamos...ele logo entrou na pequena cesta e ofereceu a mão pra mulher que ainda olhava pro balão com ar de dúvida.
–Gina...meu amor..ta tudo bem...vem...eu prometo que oce vai gostar.
–Mai o que vai acontecer?
–O Tonho aqui vai jogar um pouco de ar quente no balão. Isso vai fazer com que as moleculas de ar fiquem mais agitadas deixando um espaço livre entre elas e diferenciando o ar daqui de dentro para o ar dai de fora. Isso tudo porque essa tar mudança vai fazer com que o ar de fora fique mais pesado que o ar de dentro. E assim flutuamos.
Ele a viu piscar algumas vezes e tentar assimilar o raciocínio um tanto quanto complexo. No final o que interessava mesmo era apenas uma pergunta.
–Mai a gente não vai cair?
–Oce fique tranquila dona...que o Blum aqui nunca deixou cair ninguém.
–Eu estou identificando receio nessa sua voz linda? Gina Napoleão está arrepiando carreira é isso?!- o engenheiro não podia perder a chance de provoca-la...sorriu debochadamente enquanto ainda esperava o contato da mão dela na sua.
–Oce pare de bestagem Ferdinando que oce sabe mtu bem q eu n sou dessas coisa. O frangote aqui é oce.
Ela se negou a precisar da mão dele e entrou no balão sofrendo imediatamente da instabilidade do veiculo e se agarrando as bordas do mesmo com as mão tremulas.
O céu ja denunciava que logo mais os primeiros raios do sol banhariam o local e Ferdinando se recusava a perder esse espetáculo...ainda mais na mais bela das companhias.
–Então vamo logo que o sol não espera Tonho!
–Pode dexa doto!
A subida devagar e tranquila a fazia duvidar de que realmente estava flutuando. Parecia que ainda estava no chão apesar da vista das montanhas ,que acabavam surgindo com a distancia que tomavam da superfície ,claramente indicassem o contrário.
Nada no mundo poderia apagar a bela imagem da vila de santa fé, ainda dorminhoca com seu cobertor de névoa sendo despertada delicadamente pelos raios de sol tímidos que surgiam pouco a pouco.
O medo logo foi abandonado e deu lugar a esperança. O desejo mais inocente do ser humano. O de ser feliz. O de acreditar que esse simples ato da natureza é a prova de que sempre haverá uma saída, uma resposta, um amanhã. A certeza de que tudo ficará bem e que mesmo as dúvidas mais angustiantes e os medos mais profundos irão desaparecer um dia. Como o sol acordando as montanhas, expulsando a nevoa e dando lugar a magnifica cor da luz da manhã.
Ela não percebeu mas os olhos já estavam brilhando com a proximidade das lágrimas. Sentiu as mãos do marido envolverem sua cintura e relaxou no corpo dele.
Ferdinando aproveitou a cena de vê-la deslumbrada. Nada a encantava mais que a natureza e nada o maravilhava mais do que ela. Sua esposa. Ela se aconchegou nos braços dele e o rapaz a viu fechar os olhos e aproveitar o vento que agora os envolvia. Sorriu ao reparar no sorriso iluminador dela e prometeu para si mesmo que faria de tudo para voltar a ver aquele sorriso incontáveis vezes.
Abriu os olhos apenas para acompanhar o nascer mais belo que ja havia visto na vida. O sol despontou majestoso, como se ja nascesse pronto e pulasse tds os estágios da vida. Surgiu adulto, magnânimo e poderoso no horizonte. A ruiva pode identificar as pequenas casas, o trigal que varria a região a tornando uma paisagem de quadro bucolioco.
Deixou a empolgação falar mais alto e começou a pontuar os lugares que conhecia.
–A venda do Seu Giaco! E aquela ali é a escolhinha da Juliana! Ferdinando!! Aquela ali e casa do pai e da mãe! O pai! O mãe...olha nos aqui!- ela dava pequenos pulinhos acenava para o nada enquanto o marido ria da animação da amada e tentava segura-la com força para que ela não se desequilibrasse.
–Eles não podem ouvir a gente daqui meu amor.
–Ara...mai então quem ta bisbilhotando agora é a gente é?
Ele riu e sussurrou em seu ouvido
–Então quer dizer que oce tb fica bisbilhotando é?
A moça deixou os olhos fixarem em suas próprias mãos seguras na cesta do balão e um sorriso tímido se revelar. Ferdinando pode observar as maças de sua face se cobrirem de rubro. Como amava ve-la enrubescer.
O engenheiro passeou os lábios pela orelha da esposa e declarou-se pela milésima vez em sua vida. Não cansaria nunca de dizer que a amava.
–Eu te amo menininha. E esse amor é pra sempre. É além de nós...é além da vida.
A ruiva deixou uma lágrima se desgrudar de seus olhos e aproximou o rosto do dele para logo depois se entregar a um beijo calmo e apaixonado coroado pela linda imagem do céu de misturas de cores vibrantes e adormecidas.
Aproveitaram o passeio entre carinhos e declarações até pousarem novamente no solo.
–Muito obrigado Tonho.
–Agradecida Seu Tonho.
–Que isso...o doto e a dona tenham um bom dia.
Eles se afastaram ainda abraçados. A mágica do momento tinha ficado entranhada e parecia que não sumiria nunca. Assim eles esperavam.
–Pronta pra próxima surpresa meu amor?
Ela balançou afirmativamente a cabeça e completou.
–Eu espero que seja uma surpresa com comida causo de que eu tô faminta frangotinho.
Ele sorriu...conhecia muito bem a esposa para esperar esse tipo de resposta dela. E como a conhecia...planejou a próxima supresa do jeito que ela desejava.
Logo chegaram ao belo local preparado com uma grande toalha e uma cesta cheia de comidas.
–Pronta para o banquete minha esposa?
Os olhos da moça brilharam ainda mais e ela o puxou para um beijo delicado.
O rapaz foi envolvido pelo doce dos lábios dela e, logo depois, pela pressa que a fome lhe causava. Ela ja o estava puxando apressadamente em direção a toda aquele delicioso desjejum.
Passaram a maior parte da manhã naquele conviver tranquilo de recém casados. Entre brincadeiras, risos, carinhos e lembranças.
–Ai frangotinho..mas a gente comeu tudo o que tinha nessa cesta?
–Nem me fale que eu acho que eu não como mais hoje.
–Ara..não...almoçar eu acho que não consigo não mas acho que até o jantar ja vai me da fome de novo.
–Que bom...pq eu também tenho surpresas para o jantar.
Ela saiu da posição em que estava repousada sobre o peito dele e o olhou nos olhos.
–E tem mais surpresa é?
–Eu não lhe disse que hoje o dia ia ser nosso? E coberto de surpresas?!
–Disse sim.- ela lhe deu um breve selinho e ele continuou
– Então vamo pra próxima?
–Vamo!
Eles se levantaram e Gina começou a arrumar o local quando foi interrompida por ele.
–Menininha o que oce ta fazendo?
–Ara...oce acha que isso aqui vai se limpar como?
–Da mesma maneira como surgiu. Ja combinei tudo com a Amancia e com o Roda.
–Mai oce pensou em tudo mermo ne?
–Claro...por que hoje...oce é so minha.- ele se aproximou e lhe deu uma mordida no pescoço a fazendo sorrir.
–Então...vamos buscar a sua surpresa agora?
–Então bora logo que eu ja to que num me aguento mais de curiosidade.
Andaram apenas alguns metros até o caminho de terra que contornava o trigal. Lá. Perto da cerca que dividia a fazenda da estrada ela pode enxergar um emaranhado de ferro preso a duas rodas. Também tinha uma cestinha mas essa era bem menor do que a do balão e se prendia na frente do estranho objeto.
– Ferdinando isso é o que eu to pensando?
–Se ocê ta pensando que essa é a sua mais nova bicicleta...então oce ta certa minha bela esposa.
–Mai eu nunca que tive uma bicicleta na vida Nando.
–E é por isso que eu estou lhe dando uma. Eu sei o quanto oce gosta de andar por essas terras, o quanto lhe faz bem...e eu quero que oce não pare de fazer nada do que mais gosta. Além disso oce pode apostar que quando eu voltar...nos vamo sair por essas terras fazendo uma trilha só nossa...como a que vamos fazer hoje.
–Oce promete?
–É claro que eu prometo! – O engenheiro beijou as duas mãos da esposa e convidou- Agora vamo testar o seu novo brinquedo?
–Mai eu não sei andar nisso Nando.
–Não tem problema meu amor...eu lhe ensino..- ele ofereceu a mão a ela e a ajudou a subir na bicicleta. Lhe deu uma aula rápida sobre os componentes do veiculo e o que deveria fazer. Após a breve explicação a moça ja estava pronta para dar suas primeiras pedaladas.
–Ferdinando...eu vou cair.
–Tudo bem cair meu amor...todo mundo so aprende quando cai. E além disso eu vou estar aqui para espalhar vários beijinhos nos seus dodóis.
Ela riu e respirou fundo.
–Preparada?
Ela não falou nada apenas acenou afirmativamente com a cabeça.
–Então pode ir.
A moça fechou os olhos e começou as pedaladas cambaleantes. Sentia que o marido ainda a estava ajudando empurrando a bicicleta como forma de apoio para que ela não caísse. Sentiu-se mais confiante e começou a acelerar cada vez mais a força que fazia nos pedais. Até que sentiu o vento a abraçar e a bicicleta planar em direção ao nada da estrada.
–Eu consegui Nando!- A ruiva gritou de onde estava. Sentia as pernas tremerem um pouco mais não podia parar de pedalar. Freiou como ele a tinha ensinado e na hora que ia saindo da bicicleta tomou um tombo.
Ele apareceu rapidamente para ajuda-la...mas ainda coberto de orgulho nos olhos e um riso debochado no rosto.
–Me diga como ocê consegue pedalar sem cair e depois levar o maior tombo com a bicicleta parada?
–Ara frangotinho cala boca e me ajuda aqui.
Ele não conseguia para de rir e ela viu o ato como uma afronta. Aproveitou que ele a mão dele na sua e forçou um encontro entre ambos no chão.
O rapaz caiu por cima dela e ambos começaram a rir da infantilidade do ato.
Deixaram se levar pela proximidade e pela calma que o ambiente proporcionava e se entregaram a um beijo profundo e sincero.
–Oce é o melhor marido desse mundo sabia?!
Não poderia dizer que ficou chocado com a confissão por que no fundo sabia que ela o amava mais ouvir da boca dela que a sua missão de faze-la feliz estava sendo completada com sucesso o deixava emocionado.
–Ocê é que me faz ser assim...por que oce é a esposa mais perfeita que eu podia imaginar pra minha vida.
Eles se beijaram mais uma vez antes de retornarem para as aulas de bicicleta. Passaram o resto da tarde fazendo trilha. Explorando os campos e aproveitando a tarde para um longo passeio de bicicleta. Ferdinando sabiamente trazido a sua própria e pedalava ao lado da esposa que agora ja sabia até conduzir com as mãos longe do guidom e abertas no ar. Sentia realmente que podia voar. Um voo em dueto com o marido ao lado.
As horas passam rápido quando não deveriam passar. É uma relatividade cruel em que ao mesmo tempo que você constrói ...você perde.
Chegaram em casa cansados mais ainda sorridentes.
–Pela alegria de ocês...eu devo presumir que deu tudo certo...?
–Esta dando minha cara Catarina.
–é o dia tem sido muito bom mermo.
–E eu devo parabenizar oces dois pelas bodas...1 mês...quem diria...- a voz ressecada mas orgulhosa do pai do rapaz ressou pela casa. Ele acabava de sair de seu escritório com grandes olheiras e várias rugas novas que poderiam ser contadas e multiplicadas pelo número de vezes que chorou.
–Agradecido meu pai.
– Eu penso licença a você Gina mas eu gostaria de dar uma palavrinha com meu filho.
–Meu pai é que a gente combinou de..- ela não o deixou continuar.
–É claro meu sogro.
–Mas Gina a gente.- ela novamente não o deixou concluir o pensamento.
–Oce vai com o seu pai enquanto eu vou tomar um banho..- ela se aproximou ainda mais e sussurrou em seu ouvido.- e oce não se preocupe que eu vou ta lhe esperando.- a ruiva corou com a própria fala. Palavras tão minunciosamente ditas que nem ela tinha certeza que tinha ouvido o que havia falado. Deu um longo beijo na bochecha do marido e se retirou.
Chegou no quarto com um sorriso de orelha a orelha até reparar nos uniformes dispostos em cima da cama.
Cada traço de alegria se esvaiu em um único olhar. E as lágrimas que ela tanto lutava para não caírem inundaram de vez toda a extensão de seu rosto.
A realidade havia voltado...dura e imponente...em formato de farda.
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