Aos olhos da guerra
14 Cap 10- Celebrações - parte III
Notas iniciais
#Fic — AOS OLHOS DA GUERRA- Cap 10- parte III-
Olha ai quem voltou!
Promessa feita é promessa cumprida!!
Sem mais delongas...vamos aos últimos capitulos de #AODG
Boa leitura!
p.s: estamos em fase final então por favorzinhooo me deixem saber a opnião de vcs!!!
Cap 10 -Celebrações- parte III
Juliana estava extremamente satisfeita com a bandeja de café da manhã que havia preparado.
Um verdadeiro milagre ao seu ver, ja que cozinha nunca foi uma especialidade e a falta de alguns mantimentos essenciais limitava as possibilidades.
Ela tinha passado a semana arquitetando um dia perfeito...afinal não lhe restava muito a não ser se agarrar na lembrança do que o dia 01 de cada mês a fazia sentir.
Com ele vinham novas esperanças...esperanças de que pudesse passar o próximo aniversário de casamento em casa, preocupada com o primeiro Natal com a sogra, ou ouvindo a amiga teimar em achar um desperdício esperar até meia noite para que pudesse comer.
A professora riu de lembranças que jamais aconteceriam. Não enquanto essa maldita guerra ainda lhe tirasse o sono, não enquanto a amiga não lembrasse de quem realmente era e principalmente, não enquanto o marido insistisse em afasta-la. Tornando real a possibilidade desse ser o ultimo primeiro dia do mês que a faria feliz.
Enquanto isso, Zelão observava o vazio da rua. Os destroços continuavam ali, como se tivessem sido esquecidos pelo tempo.
Uma cidade fantasma assombrada pela lembrança da tragédia que vivenciara.
–Amor?!- a voz doce da esposa estava especialmente açucarada aquela manhã. Mesmo assim, os olhos negros dele não se afastaram da janela até que ele, por um breve momento, sentisse um formigar nas pernas.
Prendeu a respiração e olhou espantado para a bandeja que ela havia acabado de colocar na sua frente.
Ele viu o olhar de Juliana se espremer. Sem duvidas, ela reparou que algo havia acontecido.
–Eu te assustei?
–Na...Não...- ele balançou a cabeça e arranhou a garganta para que a próxima frase saísse mais confiante. – Não assustou.
–Certo.- ela ainda estava desconfiada e ele podia ler isso no seu olhar. Mas como sempre, ela resolveu que não provocaria nada. Iria agir como se nada estivesse acontecendo. Como se seu conto de fadas não tivesse virado uma novela mexicana.
*
Gina estava fascinada. O café posto em meio as rosas que ele havia feito crescer naquela terra que antes não abrigava nada além de melancolia.
Cada uma das perfeições que ele havia cultivado estava ao alcance de suas mãos mas a mais bela delas repousava do lado da sua xícara de café.
A moça segurou a pequena rosa branca em suas mãos e fechou os olhos ao sentir o aroma.
–Eu me lembro que um dia oce prometeu que não ia mais me dar frôr nenhuma...- ela falou ainda rindo. Os lampejos de memória vinham, vez ou outra, visita-la.
Ferdinando pareceu entender que seria assim e continuou a estimular a lembrança.
–Mas eu não lhe dei flor alguma meu amor...eu lhe dei um jardim.
Ela sorriu ainda mais e decidiu que merecia, assim como ele, lembrar-se cada vez mais de como era ser feliz.
*
Renato andava de um lado para o outro. Ja deveria esperar que as coisas demorassem a chegar devido ao estado caótico que se encontrava o país, mas a espera pelas ambulâncias ja o estava deixando desesperado.
Não iria suportar mais um dia naquela casa sem revelar a todos que os amigos estavam vivos.
– E essas ambulâncias que não chegam...-
–O doto disse algum argo?
Renato se surpreendeu com a voz desconhecida que o chamava com tanta delicadeza.
–Ah não ..me desculpe...eu só estou preocupado com a demora das ambulâncias.
Renato reparou nas vestes simples de luto, o cabelo longo e negro amarrado com uma fita e as expressões tristes.
–Esta certo
A jovem assentiu com a cabeça e ia se retirar quando foi chamada pelo médico novamente.
–Me desculpe senhorita, mas posso pergunta-la o que esta fazendo aqui?
–Eu estou no grupo de novas enfermeiras doto. Assisti suas orientações hoje pela manhã e agora estou a procura da Mãe Benta para combinarmos a reza da tarde.
–A sim.. claro.
Ambos olharam para o chão.
–O doto me descurpe mas...- a jovem apertou os olhos, juntou as mãos em forma de prece e tremeu a voz.- O senho não tem noticias nenhuma de sobreviventes?
O médico engoliu em seco. Viu os olhos amendoados se afogarem em lágrimas não derramadas.
Seu coração, que ja estava despedaçado, tornou-se pó. O sofrimento de muitas pessoas podia acabar se ele, ao menos , revelasse algumas verdades escondidas.
–Me desculpe senhorita...
– Felicia.
–Me desculpe senhorita Felicia mas não tenho autorização para revelar tal informação.
–Ara!! Por favor doto!! Não me deixe agonizar a morte de quem eu amo! Me mate de vez ou me cure desse destino infeliz!
– Eu...eu..
–Oce por um acaso não perdeu ninguém nessa guerra doto? Não sabe o que é ter a certeza de nunca mais amar?
–Senhorita ..eu..
– Pois eu lhe peço doto! Eu lhe suplico! Acabe com essa duvida que só me dilacera todos os dias! – a moça ajoelhou –se diante do médico e permaneceu com as mãos juntas como se estivesse orando em frente a uma imagem divina.
–Se acalme senhorita! Por favor levante.
Ele a ajudou a levantar e encontrou, nas profundezas daquele olhar tristonho uma ponta de esperança que se revelava em forma de brilho. Caberia a ele manter o brilho ou extingui-lo de vez.
*
A professora havia cansado de falar sozinha. Em algum ponto das tagarelices sobre assuntos irrelevantes, ela sentiu que não faria diferença entre continuar a falar ou ficar calada. Tentava se ater na supresa que tinha montado para não esmorecer.
–Agora que ja acabamos o café..Eu tenho uma surpresa pra você meu amor!
Isso era novo e Zelão pela terceira vez naquela manhã retirou seus olhos da rua para poder olha-la nos olhos.
–Mai do que oce ta falando Juliana?
–Você acha que nós íamos comemorar o nosso dia só com o café da manhã?
Nananinanão! Venha...vou te levar até a nossa supresa..
Zelão ficou tenso. Não estava esperando surpresa alguma...mas admitia que se ela realmente fizesse o que ele esperava...talvez não fosse necessário tomar a decisão que deveria.
Ela o ajudou a se troca e a sentar na cadeira de rodas para que pudesse conduzi-lo para sala.
O capataz encontrou a mesa arrumada com taças de cristal . Todas elas continham água mas em níveis diferentes.
–Mas o que é isso Juliana?- o rapaz indagou quando ela se posicionou com ele na frente das taças. Sentou- se ao seu lado e respondeu tranquilamente.
–Isso é uma harmonia de taças...eu sempre brincava com elas quando era pequena.
–Mas pra que isso agora?
–Por que, meu amor, hoje é o nosso dia...e eu andei pensando...sabemos muito sobre o nosso presente, temos incertezas sobre o nosso futuro mas desconhecemos boa parte do nosso passado...então por que não comemorar o nosso dia aprendendo um pouco mais da nossa essência?
Ele sorriu...sorriu verdadeiramente como a muito não fazia. Ela estava ali. Havia voltado a ser a “perfessora” que ele tanto amava. Só restaria saber se essa perfessora iria finalmente encarar a realidade junto com ele.
*
A falta de ar nos pulmões, as lágrimas que se acumulavam e corriam soltas e um som a muito não escutado ecoava pelo lugar... Fazia tempo que não riam tanto e com tanta vontade.
As risadas dela o faziam rir ainda mais. Era extremamente contagiante aquela leveza empregada no simples ato de conversar e se entender.
E tudo por que Ferdinando nunca foi muito bom me preparar refeições.
–Oce sabe que eu poderia esperar um erro desses até de mim merma...mas colocar pimenta no café... é demais até pra mim!- a moça tomava pausas grandes para que pudesse recuperar o ar entre as risadas e as frases.
Já Ferdinando não se cansava de admira-la. Poderia até ter ficado embaraçado com o erro infantil de confundir açúcar mascavo com pimenta, mas só o fato desse deslize ter desencadeado uma situação que o lembrava tanto do passado, ja o deixava mais feliz do que irritado.
–Isso é por que não foi c’oce sua porqueira! Isso tem o gosto pior do que aquelas pingas da venda do Seu Giaco!
–A..mas eu bem sei que oce ia pra la mais o pai pra ficar bebericando...eu só nunca entendi por que q oces continuavam a tomar se sempre faziam essas caretas ai que oce acabou de fazer...
O rapaz riu ainda mais da lógica extremamente correta da esposa.
–Oce sabe que isso faz muito sentido?Mas é que a gente faz isso pra socializar mais..
–E não pode socializar com vinho? Esse sim tem um gosto bão demais.
–Eu lembro que oce gostou bastante!
–Claro que eu gostei! E ocê ainda tentou roubar a minha taça!
–Mai é que eu tava com medo d’oce gostar por demais e acabar esquecendo de mim naquele almoço...
A moça apenas sorriu, baixou os olhos e falou automaticamente
–Isso seria impossível.
Ferdinando parou de sorrir e apenas observou as bochechas da esposa se cobrirem de um vermelho escarlate.
E, como se fosse um reflexo da mente ainda doente, ela se arrependeu do que tinha falado.
–Quero dizer...
–Eu sei ...- o rapaz se aproximou apenas para roçar os dedos no queixo dela- Eu sei que no fundo, no fundo, essa afirmação ta correta. Oce não precisa se preocupar com nada meu amor...só me prometa que vai se permitir lembrar...
Os olhos da ruiva refletiam uma mistura de confusão e desejo...desejo de lembrar uma parte da vida que havia esquecido. Era uma intensidade tão forte de sentimentos que ela resolveu manter só para si, então fechou os olhos e apenas aproveitou os traços quentes que os dedos dele deixavam ao deslizarem do queixo para o seu pescoço.
Sentiu a mão forte dele alcançar a sua nuca e respondeu, com um suspiro abafado, ao beijo dado na base entre o pescoço e a orelha.
Entreabriu os olhos para encontrar o azul profundo dele a admirando em cada detalhe.
O viu se aproximar ainda mais e tocar seu nariz com o próprio. E, foi durante essa proximidade, que ele percebeu que um pouco de geleia de framboesa havia encontrado refugio bem no canto da boca dela.
–E eu acho.- a voz sussurrada arrepiava de uma maneira que ela não conseguia explicar.- Que eu não sou a única criança nesse café.
O engenheiro riu e retirou o resto de geleia de forma delicada.
Nesse mesmo instante a moça teve mais uma breve viajem ao passado. Um deja vu que incluía a cidade em que estavam, política e um delicioso sorvete. Ela observou, atentamente, ele repetir os mesmos gestos do passado e então lembrou-se de uma conversa estranha sobre se tornar primeira dama.
O rapaz entendeu que ela ainda precisava digerir os acontecimentos quando notou as sobrancelhas dela se arquearem. Adiantou-se a voltar a conversar sobre coisas boas. Sabia que estava indo pelo caminho correto, pelo menos ja eram quase 10 da manhã e ela ainda não o tinha ameaçado.
–Que tal a gente trocar o café pelo chá?
Ela balançou a cabeça e se situou na realidade a sua volta. Sorriu ainda tímida e concordou.
–Eu acho meior mermo.
*
–Esta melhor?- o medico ainda acalentava a jovem de rosto de boneca e olhos intensos.
–Sim. Agradecida e me desculpe doto! Eu fui infantil e anti profissional.
–Não se preocupe senhorita Felicia. Eu entendo que todos estamos passando por situações difíceis.
A jovem riu levemente e continuou a conversa no batente da cozinha. A mesma que dava acesso ao coreto.
–Eu nunca pensei que entraria aqui na casa grande. Meu pai me proibia até de olhar para cá com medo de que eu também resolvesse trabalhar pro coronel.
Interessante essa troca absurda pois até ontem eu julgava passear pela vila e não colocar meus olhos nesse casarão uma situação muito difícil. Nada se compara com o agora.
–Então seu pai também trabalhou por esse trigal?
–Não...- a jovem trazia consigo um sorriso saudoso que fez Renato sorrir também.- Meu pai era o barbeiro do coronel. Um profissional e tanto pois o Seu Epaminondas so confiava a ele sua barba. Seu Aristides, meu pai, sempre foi um homem muito correto...tanto que não recusou seu destino em nenhum momento na vida...nem quando foi chamado para essa maldita guerra.
–É ele quem você procura?
–Não...
Por um momento Renato sentiu um frio na barriga lhe tomar o corpo. Por que temia que ela procurasse alguém mais ? Acabara de conhecer a moça e ja estava desejando que ela não sofresse tanto...isso era um tanto incomum para alguém como ele.
–Meu pai...eu enterrei. Saiu da vila com um sorriso enorme e voltou em um caixão igualmente grande. Quem eu procuro doto...é a razão pela qual eu ainda vivo....Eu procuro meu irmão que me foi tirado dos braços no auge dos seus 16 anos. Foi arrancado de mim como um foragido. Pobre criança...mal sabia pegar na enxada e hoje não sei nem se teve tempo de aprender a pegar em arma.
–E você não tem noticias dele?
–Não...nada me foi dito até hoje...e eu sofro todos os dias com a culpa de não ter sido forte o suficiente para impedir com que ele fosse embora.
–Você não tem culpa. Nada que você fizesse poderia impedir isso.
–O que importa é que ele foi...e eu nem sei se ele vai voltar...
–Senhorita...
–Pode me chamar só de Felicia doto...não deveríamos nos preocupar com formalidades ja que há tantas outras coisas para nos preocupar...
–Muito bem então...Felicia.. eu prometo que se eu encontra o seu irmão...eu o trarei de volta pra você.- Após ter dito a frase, Renato logo estranhou a certeza empregada na mesma. Faria de tudo para conhecer o verdadeiro sorriso daquela alma que se parecia tanto com a sua e nem sabia direito por que.
Foi abraçado pela moça e permaneceram longos minutos um nos braços do outro até que ela se desvencilhou e ele pode ver o brilho, que ela sustentava, ganhar mais força.
–Obrigada doto!
–Mas me diga...qual o nome do seu irmão?
A jovem deixou algumas lágrimas escorrerem e falou o nome que deixou Renato pálido.
–É Firmino.
*
Zelão e Juliana ja haviam derrubado metade das taças e esvaziado a outra metade em uma competição de quem bebia água mais rápido.
Pareciam que tinham voltado a ser crianças quando ambos olharam para a ultima taça na extremidade mais distancia da mesa.
Na adrenalina da situação Zelão pensou ser capaz de alcançar o objeto mas percebeu que não conseguiria assim que as pernas não obedeceram o comando e ele acabou caindo da cadeira...levando consigo a taça em questão.
–Meu amor! Meu amor você esta bem?
A moça se adiantou a socorre-lo , tomando cuidado com os pedaços destruídos da peça.
–Estou bem Juliana...- ele estava se sentindo tão impotente...não conseguia nem passar minutos felizes com a própria esposa...seria assim sua vida para sempre?
–Venha..eu vou lhe ajudar – ela o ajudou a retornar para a cadeira e percebeu que um corte havia sido feito em sua mão esquerda. – Eu vou buscar um curativo...não vá a lugar nenhum...- ela disse ainda sorrindo.
–Como se eu pudesse...- ele disse seco e ela se arrependeu da frase mal empregada.
–Certo eu ja volto.- o tom havia voltado a ser o de conformidade. E ela se odiava por isso.
*
–Doto?
Renato piscou algumas vezes até focalizar o belo rosto da jovem a sua frente.
–Si...sim..?
–O doto esta bem? Ficou aéreo...
–Eu estou sim Felicia...me desculpe...e pode me chamar apenas de Renato.
–Ta certo então ...mas o doto...- ela olhou para ele novamente e balançou a cabeça como se lembrasse de uma promessa esquecida. — quer dizer...oce vai me descurpar mas eu tenho que ir atrás da mãe Benta.
–Ah sim...claro...
Ambos se levantaram e cumprimentaram-se com um aceno de cabeça. Renato observou a moça desaparecer pelos corredores do casarão e resolveu que deveria fazer algo que ainda não tinha feito desde que chegara...com isso...dirigiu-se para o pequeno cemitério de Santa Fé.
*
O curativo havia sido feito em silencio. A amargura tinha, mais uma vez, caído sobre o ar..tornando- o mais pesado do que de costume.
–Juliana...
–Pronto..isso deve bastar...
–Juliana..
–Não precisa se preocupar com a taça certo?!
–Juliana me escute
–Diga...
–Nós precisamos conversar
–Eu entendo...mas...mas por que não conversamos durante o almoço? Por falar em almoço...acho que vou preparar o nosso ja que Gina e Ferdinando ainda estão entretidos no café da manhã.
Ela se despediu dele com um breve beijo nos lábios e seguiu apressada pela cozinha. Sabia que deveria conversar ..mas ainda estava nervosa com o ocorrido e sabia que não aguentaria uma conversa daquelas sem pelo menos uma taça de vinho.
*
Gina estava mais leve quando retornou ao seu quarto de origem. O café da manhã que virou almoço ocupou metade do dia e agora ela voltava ao quarto apenas para descansar e se preparar para o jantar dali a algumas horas.
O sorriso que havia se fixado em seus lábios e que, pelo andar da carruagem, não iria sair tão cedo, a fazia repensar muitas de suas atitudes.
Como poderia não ter se apaixonado por esse Ferdinando tão diferente daquele que se lembrava?!
Sentia o coração ser embalado por esse bem estar provocao por ele. Essa confirmação de que nada no mundo poderia abalar uma coisa tão pura.
A mente estava tão absorta nas memórias recentes, que ela se deixou desabar na cama ainda desfeita. Aquela que ela tentava ,em vão, adormecer toda noite mas que abandonava na madrugada.
Passou a admirar os detalhes do teto de madeira de lei. Uma riqueza, que ela tinha certeza, havia visto apenas em um lugar: na grande mansão Napoleão.
Um lugar pitoresco em sua variedade de detalhes e enriquecido de vaidades e nobrezas.
Será que realmente teria conseguido viver ali, como Juliana havia dito que fazia?
Nunca imaginou-se sendo uma das moradoras daquela casa e a ideia de que, a grande mansão Napoleão, era sua também a deixava nervosa.
Como teria sido a convivência com o terrível coronel, seu suposto sogro?!
Teria tido paciência para as frivolidades de Madame Catarina?
Teria se acostumado com o ritmo da casa e as etiquetas exigidas que ela fazia questão de não acompanhar?!
Entre as indagações veio uma lembrança. Um almoço temido e o nervosismo que ela sentiu no dia, se fazia presente no momento. Em cada poro da pele que insistia com o suor frio.
Como sorriu aquele dia e se surpreendeu com as atitudes de todos. Um porco a pururuca que ela ensinou a todos a comer com a mão e bem ali...no fundo da memória...guardado com cuidado e claro como água... estava a recordação que fazia seu coração se acelerar.
Um pedido. Um aceite. Um brinde.
Levantou corpo da cama em supetão. Permanecendo sentada e com as mãos posicionadas na região onde o coração fazia rebuliço. Ela havia aceitado casar e, agora, lembrava-se muito bem disso.
*
Renato não conseguia entender o que estava vendo em sua frente. A lápide de pedra tinha o nome e o sobrenome do seu melhor amigo. A sua frente algumas flores deixadas sempre pela irmã Pituca, pela madrasta Catarina ou pela sogra Dona Tê.
Um símbolo forte que ele sabia que não significava a atual situação do amigo.
–É meu amigo...eu bem sei que poderia acabar com isso...mas sei também que isso te colocaria em risco...não só você como a todos.
–Oce fala como se pudesse reviver os mortos- mais uma vez a voz doce que ele gostaria de se acostumar. Ele se virou e a encontrou com as mesmas roupas de luto e um ramo de gerânios roxos.
–A senhorita Felicia está em seguindo?
–Não...e suponho que seja o doto que esteja me rondando ja que eu mesma disse que iria participar da reza da tarde.
–Tarde?
–Isso...a quanto tempo esta aqui?
–Eu nem me lembro mais...
Ela apenas sorriu e proferiu.
–É incrível como os mortos recebem mais visitas quando estão mortos do que quando estão vivos. Passamos mais tempo nos lamentando em cemitérios do que aproveitando os momentos em que eles estiveram conosco.
–Você diz algumas verdades que assustam, sabia?
–É por que são verdades... e verdades sempre assustam.
Ele sorriu e resolveu acompanha –la pelo cemitério.
–Era seu amigo? O doto Ferdinando?
–É....quero dizer...era sim...
–Sinto muito..
O rapaz apenas acenou em forma de agradecimento.
–Esta indo visitar o seu pai antes da reza?
–Sim...sempre venho aqui antes de falar com deus... quero ter a certeza de que meus recados chegarão de uma forma ou de outra.
Os jovens caminhavam enquanto a fila de lápides aumentava... Renato pode ver a de Zelão e a de vários outros conhecidos até chegar na lápide de seu Aristides.
–Bom eu vou lhe dar privacidade...
–Não...- a moça o tocou no cotovelo impedindo que ele se afastasse.- Não precisa ir...
O medico viu uma solidão imensa ser refletida nos olhos dela e teve certeza de que era a mesma que se refletia em seu olhar. Poderia continuar ali tentando se achar ainda mais naquela alma despedaçada mas ela resolveu voltar a atenção para a sepultura do pai.
Ele a ouviu conversar despreocupadamente, com se o pai estivesse ali e nada tivesse mudado.
Foi quando ela falou do irmão que Renato tremeu e teve certeza de que botaria tudo a perder.
–Ele foi levado de mim meu pai...e eu fui tão fraca em deixar com que o levassem! O nosso garotinho! Mas o senhor fala pra mãe ai no céu que eu prometo meu pai..que eu vou acha-lo e vou traze-lo de volta!Ele é tudo o que eu tenho nessa minha vida! Ele é tudo o que me resta..- Felicia ja estava soluçando quando Renato se ajoelhou ao seu lado e a tomou nos braços. Deixou com que a veste fosse molhada pelas lágrimas salgadas dela. Não suportava ver uma dama chorar...principalmente quando sabia que podia dar algum tipo de acalento.
Ela pareceu lembrar-se de onde estava e quem a estava abraçando e voltou a se afastar.
–Me desculpe doto..
–Renato..- ele a lembrou
– Me desculpe Renato.. é que é tudo muito recente...e é difícil lidar com as situações quando se está sozinho no mundo.
Ali estava...uma alma tão perdida quanto a sua...sendo consumida pela dor.
–Felicia...eu preciso lhe contar uma coisa...
*
Ferdinando reavaliava a arrumação da mesa mais uma vez. O dia estava sendo perfeito demais e ele não queria nada atrapalhando a fluidez dos acontecimentos.
Infelizmente a culinária não uma de suas grandes habilidades...mas ele tentava contornar desviando a atenção dos pratos simples para uma arrumação de mesa estonteante.
Havia encontrado castiçais de prata no armário da dispensa, guardanapos delicadamente bordados em fios metálicos que combinavam perfeitamente com o jogo de talheres, taças de cristal milimetricamente esculpidas e pratos de porcelana pura.
Os achados indicavam a herança de uma família que, um dia fora bem abastada, mas que na atual conjuntura lutava para manter os requintes do passado. Se um dia os moradores reais voltassem, Ferdinando faria questão de ajuda-los a reformar a casa, pintar as paredes e o que mais fosse preciso. Afinal, aquelas pessoas, indiretamente o estavam salvando.
Esticou a toalha de mesa branca mais uma vez, acendeu as velas do castiçal e respirou fundo. Precisava confiar que tudo iria continuar a dar certo. Foi então que ouviu os passos leves que tanto amava escutar.
Virou-se para encontra-la e sentiu o coração parar naquele momento...assim como todo o resto do seu mundo.
Os olhos azuis mergulharam na majestosa figura que ela representava. Uma verdadeira deidade e ele fez questão de gravar cada detalhe dela, fazendo com que seus olhos bailassem de cima a baixo e vice- versa.
Reparou na delicadeza dos sapatos de princesa que ela havia achado no quarto em que estava. O vestido bordô de rendas negras transmitiam desejo e ele achou a escolha extremamente apropriada. Um clássico vitoriano composto de um espartilho com detalhes em renda preta e decote coração , o que a fazia uma verdadeira tentação. O modelo era preso pelos ombros e deixava os braços livres. O saia do vestido era enxuta, o que significava que ela, com certeza, havia tirado muitas das anáguas originais fazendo com que o tecido não ficasse tão afastado da carne.
E por fim, uma maquiagem leve, tal qual aquela utilizada no dia do noivado, e o camafeu pendurado e sofrendo os efeitos da respiração nervosa dela.
Ele estava completamente submisso ao poder que a presença dela remetia e agora o medo mudava de lugar. Não estava mais inseguro em relação a refeição que havia preparado, mas sim pelos atos que ele talvez não seria capaz de refrear.
Gina não queria admitir, mas o efeito que ele provocava nela era mais devastador do que poderia imaginar.
Ela engoliu em seco quando quando ele lançou aqueles olhos azuis sobre ela.
Sentiu cada pelo do corpo se arrepiar por onde os olhos dele passavam e as bochechas arderem em claro sinal de embaraço.
O rapaz estava elegantemente vestido com um conjunto de casaca e colete de cores escuras que faziam com que seus olhos azuis se acentuassem ainda mais.
Ela não podia deixar suas fraquezas aparecerem...não na frente dele. Pelo menos até lembrar-se mais dos acontecimentos.
–Ferdinando? Oce vai ficar ai parado me olhando?
–Me desculpe Gina mas é que...- ele falava enquanto caminhava na direção dela sem, nem por um segundo, desviar o olhar da perfeição a sua frente.- É que oce ta linda por demais.
A ruiva sentiu as bochechas queimarem ainda mais e , sem querer, sucumbiu a um deja vu.
–Ara Nando...até parece que oce nunca me viu de vestido.
Os olhos dele brilharam ainda mais e ele adiantou-se ao beijar-lhe a mão.
–E eu sei que eu nunca vou me recuperar cada vez que oce aparece assim pra mim.
A moça pareceu sem jeito pelo elogio ousado e resolveu adiantar- se a fazer comentários sobre a arrumação da mesa. Desvencilhou-se do esposo e seguiu em direção ao vaso com rosas vermelhas depositado em cima da mesa.
–Oce que preparou tudo isso?
–Foi sim
–Mas isso ta lindo por demais Nando!
A cada vez que ela o chamava pelo apelido ele se sentia mais vitorioso e não escondia a felicidade que refletia em seu sorriso.
Ele se aproximou da esposa e sussurrou em seu ouvido antes de puxar a cadeira para que ela pudesse sentar.
–Oce merece as coisas mais lindas desse mundo meu amor.
Gina sentou-se ainda zonza com a proximidade que ele havia imposto. Observou o marido sair apenas para voltar com o jantar.
–Lamento dizer que não teremos a maravilhosa comida da Dona Tê ou os quitutes igualmente deliciosos da Amância...
Ele foi surpreendido com um toque da mão dela na sua e um sorriso sincero e tímido que só ela sabia dar.
–Está ótimo!
A troca de olhares foi intensa o suficiente para que ela se amedrontasse novamente e voltasse aos comentários defensivos.
– So espero que oce não tenha temperado o macarrão com açúcar mascavo...
Eles riram em uníssono e voltaram a leveza de sempre.
*
Zelão voltou a inércia do quarto depois do almoço. Havia desistido de conversar...pelo menos por enquanto.
Juliana estava ao seu lado. Ela sabia que havia algo errado. Mas preferia ignorar, afinal varrer tudo pra debaixo do tapete sempre seria uma saída mais fácil.
Esperaria que ele a chamasse novamente. Que ele se abrisse...não queria invadir um momento tão dele. Apenas tinha medo de que esse tempo não chegasse. Ou que quando resolvesse agir...ja fosse tarde demais.
Ela ja havia lido um livro inteiro para ele. Ja haviam, ao seu ver, superado a queda da manhã. Ja haviam conversado mais...pelo menos mais do que nos dias em que ele se fechava para absolutamente tudo.
Mas foi na hora que ela ofereceu uma massagem que ele viu que não suportaria essa faca apontada para o próprio peito toda vez que ela o servia.
Observou a mulher se dirigir a cozinha para pegar água e nesse meio tempo refletiu.
O capataz listava na cabeça as coisas que amava...e não mais poderia fazer... e tudo piorou ainda mais quando ouviu a musica tocar na sala... espiou do lugar onde estava e conseguiu ver o casal de amigos dançando ao som das letras românticas.
Concentrou-se um pouco no ritmo e sorriu debilmente. Balançou o corpo em harmornia com a melodia que vinha do rádio..como gostaria de dançar com a esposa. Como gostaria de ser salvo de si mesmo.
Abriu os olhos e notou que o pé direito havia se mexido...e dessa vez não parecia ser uma ilusão.
Respirou novamente e tentou mais uma vez. Falhou.
Era isso...além de aleijado estava ficando louco. E a sua frôr definitivamente não merecia alguém em estado tão deplorável.
Estava decidido e nesse dia em que comemoravam o inicio da vida a dois seria também o que marcaria o fim de tudo.
*
Os olhos castanhos brilhavam e ele pode perceber algumas mudanças na forma como ela o olhava. Não tinha mais medo ou julgamentos presentes ali. Havia apenas um vácuo de dúvida que poderia acabar imediatamente...se ele ao menos conseguisse a permissão dela para que a trouxesse de volta do seu jeito, do jeito deles.
A música ainda tocava quando Gina fechou os olhos ao sentir o leve carinho na bochecha. Lembrava –se da música, do camafeu e de como dançaram naquela noite antes de tudo.É claro que haviam muitos buracos na memória , mas a única certeza que tinha e que interessava no momento, era a de ter vivido aquela noite com ele.
–Gina...- ele sussurrou ja próximo do rosto da moça
A ruiva apenas abriu os olhos para mante-los semicerrados. Estava absolutamente entregue a ele e ao momento em que viviam.
–Ja que foi me dada uma nova oportunidade...eu queria fazer tudo certo dessa vez...
Mas uma vez ele traçou o rosto dela com a ponta dos dedos e ela derreteu sob o seu toque.
–Eu não quero lhe roubar nada Gina...não mais...
O rapaz tocou o nariz dela com o próprio ..em um beijinho de esquimó que estavam acostumados..Tudo era feito com calma, sem pressa e sem agonia...estavam envolvidos naquele clima de suspense e de descobertas que a muito tempo não tinham.
O engenheiro beijou a ponta do nariz da esposa e seguiu delineando o rosto dela com pequenos beijinhos...A testa, os olhos fechados, as bochechas, a orelha, o inicio do pescoço e o queixo.
A observou esperar por ele...com a respiração de quem anseia, com o rubor de quem deseja e com os lábios entreabertos.
–E com o seu consentimento eu peço para ser digno de lhe dar o seu primeiro beijo...meu amor...- a frase saiu baixa e entrecortada. Uma mistura de emoções onde o desejo e o amor interagiam livremente.
O engenheiro percebeu que a esposa continuou com os olhos fechados e tomou isso como um convite. Notou que as mãos dela logo se fixaram ainda mais em seu pescoço e sentiu o coração acelerar. Parecia que nunca a tinha beijado antes ao mesmo tempo que sentia a falta que só os lábios dela podiam curar.
Não esperou mais nada e se permitiu afogar naquele amor imenso selando seus lábios com os dela em um breve toque quase explosivo. E que de fato foi eletrizante em todos os sentidos.
Gina afastou-se no momento em que sentiu a corrente elétrica lhe dar um pequeno choque.
Olhou assustada para Ferdinando que estava igualmente atônito. O choque do beijo poderia ser facilmente explicado pela física mas no momento o que vinha a tona eram as lembranças de um beijo roubado.
–Oce...- Gina sussurrou...desvencilhou –se de Ferdinando a medida em que se lembrava daquele dia.- Oce....oce me beijou a força! A força! Ferdinando!!
O engenheiro estava alarmado. De tudo o que podia esperar do primeiro beijo deles depois do trauma, isso era o que ele mais temia.
–Calma menininha...aquele beijo...ja ficou pra trás...não importa mais...o seu primeiro beijo foi dado agora...
–NÃO! NÃO Ferdinando...o meu primeiro beijo foi roubado! E foi roubado pelo frangote que oce é!
–Gina...não faz assim menininha...a gente ja superou isso lembra? A gente casou!
–Eu não sei o que eu tinha na cabeça para me casar com você!
–Gina..não era o que você tinha na cabeça...é o que você ainda tem ..ai..no seu coração...
–Não fale bobagem!
–Não é bobagem Gina! ocê me ama! Eu sei que ocê me ama! – O rapaz ja estava desesperado. Não podia deixar que seu dia perfeito acabasse assim... aproximou-se dela e a agarrou pelos braços- Olha pra mim Gina...olha pra mim e diz se oce não me ama!
–Ocê só pode ta louco! Como que eu posso amar alguém como oce?- os olhos dela fugiam do dele . Ela sabia que não seria capaz de batalhar contra aquele olhar azul- Como eu posso amar alguém que me roubou o meu primeiro beijo! Quer saber? – a moça conseguiu se desvencilhar dos braços do marido e se afastou o máximo que consegui- Eu lhe odeio Ferdinando!! Eu lhe odeio!
E com isso saiu apressada para o próprio quarto. Trancando-se novamente tanto em sua morada física quanto mental.
*
Juliana o encontrou na cadeira ao lado da cômoda. A lamparina deixava o quarto a meia luz. O casal que antes dançava no local ja havia se recolhido, o rádio estava mudo assim como o marido que brincava com a aliança em suas mãos.
–Amor? – a moça açucarou ainda mais a voz. Sabia o que a aguardava mas tentava contornar o obvio com a meiguice de uma vida sem problemas.
–Juliana...precisamos conversar.
Ela engoliu em seco e sentou- se ao seu lado.
–Sobre o que quer conversar meu amor?
–Oce sabe muito bem.
–Então diga....
Zelão parou de brincar com a aliança e a depositou na mesa ao lado da lamparina.
–Eu não mereço ser casado c’oce minha frôr.
– O que esta dizendo meu amor?! Que besteira é essa?
–Eu quero o divorcio Juliana.
*
Renato não conseguia dormir. Revia os flash do seu dia dolorido como um filme que não parava de ser reprisado.
FLASHBACK
A moça tinha ainda os olhos arregalados. Parece que a feliz noticia de que o irmão estava vivo batalhava com a ideia de que , se não fosse resgatado logo, provavelmente voltaria ao campo de batalha ainda com sequelas do machucado.
–Felicia...esta me ouvindo?- Renato agora se perguntava se havia sido uma boa ideia revelar tal informação.- So me faça um favor e não conte nada a ninguém...eu temo que os moradores daqui façam algo impensado como ir até la sem garantia nenhuma.
A moça apenas balançou a cabeça ainda perplexa e se retirou de maneira silenciosa.
O médico a seguiu e testemunhou uma das cenas mais tristes que vira na vida.
Ali perto, na capela de Padre Santo, famílias inteiras abarrotavam o pequeno local para rezar pela alma de seus mortos e para pedir pela salvação daqueles que ainda estavam vivos.
Reconheceu a família Napoleão, a família Falcão, Seu Giaco e a esposa Rosinha, Amância e outros empregados da mansão e uma grande quantidade de pessoas que ele nunca vira. Mas seus olhos se detiveram na figura pálida que rezava fervorosamente junto ao altar.
Precisava se certificar de que ela estava bem...nem que para isso tivesse que lidar com a dor das pessoas que mais amava sabendo que poderia salva-las do sofrimento.
Pareceu uma eternidade mas logo Renato observou as pessoas saindo em silencio.
Todos se respeitavam nesse momento de dor e nenhum se distinguia da outro por status ou posses...todos estavam unidos no único sentimento de perda.
Viu Catarina sendo amparada por Amância como se fossem amigas de infância. Identificou a mesma dor e camaradagem expressas nos semblantes de Pedro Falcão e Epaminondas Napoleão. Grandes rivais que agora faziam parte da mesma família e, portanto, da mesma tristeza. E no meio de tanta angustia ele a perdeu de vista. Sendo o ultimo a permanecer no lugar na esperança que ela voltasse.
No entanto a única pessoa que se deteve no local fora Mãe Benta que ainda estava com olhar fixo na vela que havia acendido para o filho.
–O doto ta fazendo um bem enorme estando aqui..- ele a ouviu dizer...ainda sem tirar os olhos da vela.
–Como poderia Mãe Benta?
Ele se aproximou e ajoelhou-se do lado dela.
–Por que oce trouxe um bem muito grande pra essa gente.
–Ainda não entendi.
A senhora, ainda coberta de luto, segurou firmemente a mão do médico e, como se aquilo ja não fosse tortura o suficiente para alguém que sabia mais do que deveria, o médico ainda teve que se segurar ao ouvir as palavras da benzedeira.
–Quando se é mãe fio...oce vive em função de uma única coisa na vida...o bem estar de alguém além d’ocê. Mai...quando se perde um fio...ocê deixa de ser mãe...e acaba que tudo o que lhe resta na vida é aprender a viver sem ser aquilo c’oce sempre soube ser na vida. Ié por isso que Deus não costuma deixar que os fio morram antes dos país....por que sem os fio...nós fica sem função na vida.
Renato engoliu em seco. Pediria a deus que o perdoasse por esconder a verdade de pessoas tão boas.
–Mai o doto trouxe uma função nova pra essa gente... trouxe a verdade que todo pai que perde um fio se recusa a ver... a de que há vida além daquela que se perdeu. E se noi perdemu a razão de viver...noi não podemo deixar que outras vidas se percam por causa disso...Ser mãe fio..te ensina a não ser egoísta..mai a dor da perda d um fio...faz com que esse ensinamento seja esquecido. E oce fica ali...remoendo a própria dor...mai oce nos salvo disso doto...oce nos fez ver que ainda existe o próximo...e que toda essa nossa energia pode se focar em prol de um bem maior...e eu lhe agradeço por isso fio...
–Por favor mãe Benta...não me agradeça...eu não mereço...
A senhora sorriu fracamente, apertou ainda mais a mão do médico como se garantisse que tudo o que lhe foi dito era sincero e verdadeiro. Logo depois ela o deixou sozinho na capela. O salvando de falar a verdade.
FIM DO FLASHBACK
Ele ja estava ja quase dormindo quando ouviu pedrinhas se chocarem contra a sua janela.
Abriu para que pudesse avaliar a origem de tudo e foi acertado por uma pedra voadora.
–Ai...
–Me descurpe!- ouvia a voz de Felicia se desculpar em algum lugar da escuridão.
–Felicia?
Ele a viu sair do esconderijo e resolveu descer.
–Como me encontrou aqui?
–A Amância disse que ocê sempre fica no Seu Giaco...e bom eu precisava falar c’oce.
–Diga.
–Eu fiquei tão abalada com a noticia de que meu irmão pode estar vivo e que o oce mermo que cuidou dele que eu não tive a oportunidade de lhe agradecer...
–Mas oce podia ter feito isso amanhã não podia?
–Sim mas...é que eu não ia conseguir dormir sem dizer o quanto oce foi essencial hoje.
–E eu ja lhe disse que não foi nada...apenas peço que não comente com ninguém..afinal não sabemos a real situação por lá..
–Eu sei ..eu sei...mas agradecida mesmo assim.
Renato não pode deixar de reparar no quanto os olhos dela brilhava sobre a luz fraca da lua minguante. Um brilho que havia retomado seu lugar de origem assim que ele confessou haver tratado do seu irmão.
–Renato...eu queria lhe pedir mais uma coisa..
–Diga...
–Oce me deixa ir ajudar a trazer os enfermos quando a ambulância chegar?
–Felicia..eu não sei se acho uma boa ideia...
–Por favor! Eu lhe prometo que não faço alarde! Eu sou uma das aprendizes mais competentes e oce sabe disso! Me deixe ir ajuda-lo a trazer de volta aquele povo! Por favo?!
O médico pesou os prós e contras e chegou a conclusão...que não faria mal algum leva-la...afinal...ela era mesmo uma das melhores enfermeiras que tinha.
–Tudo bem...assim que a ambulância chegar nós vamos até la...mas...Felicia...você vai ter que em prometer que vai ficar do meu lado e que vai tomar muito cuidado.
–Ta certo ! Ta certo!- Ela o abraçou pela terceira vez aquele dia e ele sentiu que havia encontrado um lugar naquele abraço. – Obrigada Renato!- e com um rápido beijo estalado na bochecha corada do médico, ela se despediu...desaparecendo na escuridão da noite.
*
–Você não pode estar falando sério...- ela sussurrou ainda sem acreditar no que ele tinha acabado de falar. – Você não pode estar falando sério...
–Juliana...eu estou.
–Por que?! POR QUE ?! Me diz?! Por que você ta fazendo isso comigo??- a moça tremia tanto que derramou metade do conteúdo do copo que carregava no chão.
–Por que? Por que eu não quero uma enfermeira na minha vida! Eu não quero te privar de fazer o que você gosta...eu não quero te dar um futuro rasgado, sem possibilidades, eu quero que você seja feliz Juliana!
–Mas eu sou feliz! Eu sou feliz ao seu lado meu amor!- ela largou tudo o que tinha na mão em cima da mesa de cabeceira e se ajoelhou na frente do marido para poder olha-lo nos olhos.
–Oce diz isso agora....mas eu vou ficar assim pra sempre Juliana! Eu não vou poder te dar filhos, eu não vou poder te levar pra dançar, eu não vou conseguir trabalhar... que tipo de marido eu seria se te obrigasse a viver comigo assim?
–Você sabe muito bem que essa não é uma escolha sua.
–Sim...mas se eu não te der opção...então você não terá escolha alguma a fazer...
–Mas por que ? Por que você ta fazendo isso comigo? Com a gente?
– POR QUE EU ESTOU ARRUINADO! Eu estou arruinado e oce não consegue ver ! Pare de fingir que esta tudo bem Juliana por que não está! Eu preciso que você entenda que eu NUNCA vou voltar a ser o que era! Que o nosso futuro juntos é um futuro de frustrações! Você não pode ignorar os fatos e viver se preocupando se seu prefiro manga ou maçã no café da manhã por que no final das contas eu não ligo pra isso! O que eu preciso Juliana é que você encare a realidade! Entenda que eu não vou mais andar! Que nós não vamos ter filho algum! E que amor nenhum sustenta uma ilusão. Por que é isso que você tem vivido até agora...uma ilusão de que está tudo bem quando na verdade não está tudo bem!
–E você espera que eu faça o que? Que eu me acabe de chorar? Que eu te abandone só por que é conveniente? Você acha que eu não estou preocupada com o nosso futuro?Eu estou SIM! Mas eu não me importo com as dificuldades que virão! Por que difícil mesmo vais ser viver sem você! Será que você me julga tanto e me conhece tão pouco a ponto de pensar que eu preferiria o conforto a uma vida sem o amor da minha vida? Isso chega a ser um insulto!
–Eu só não quero ser o responsável por arruinar sua vida também! Então faça o melhor para nós dois e saia desse casamento enquanto pode.
–Você só pode estar louco!
–Sim! Eu estou! Mais uma razão para que você se afaste! Eu estou lhe jogando um bote salva vidas Juliana...se agarre nele e não afunde comigo!
–Eu não vou te deixar afundar! Será que você não entende isso?!Será que você não acredita que eu posso te fazer feliz!
–Como vou ser feliz se ocê não tiver feliz? Se eu ver que oce, a pessoa mais independente que eu conheço, vai estar presa nesse casamento! Presa a um moribundo que não consegue nem vestir as próprias calças!
–CHEGA! Pare de se diminuir! Eu não admito isso!
–Mas é a verdade Juliana!! Pare de se iludir e olhe a sua volta! Eu não quero ignorar o meu destino! Eu não quero fingir que nada acontece! EU PRECISO viver a realidade Juliana!
A moça estava tão nervosa que mal conseguia se mover. Tentava conter as lágrimas e argumentar da melhor maneira possível. Até porque...era sua felicidade que estava em risco...não só a sua como a dele também. Afinal ela sabia que não se ama sozinha...e se ele estava tão abalado quanto ela...era por que esse amor vinha em intensidade igual.
–O que você não percebe... é que só o que eu tento é minimizar os estragos..eu não to querendo esquecer nada...eu não quero viver uma ilusão...eu só não quero mergulhar nessa depressão por algo que pode ser revertido...
–Não! não pode! Não se pode reverter o que aconteceu comigo!
–Para se reverter as coisas Zelão...basta estar vivo...só que você se esquece disso... não é? Você está vivo....e o que você faz? Fica se lamentando por isso...fica buscando mais motivos para desejar ter morrido...isso meu caro é egoísmo... afinal se você tivesse morrido seu sofrimento até poderia ter acabado...mas o meu, o dos seus amigos, o da sua mãe....seriam para sempre!
Ao mesmo tempo que ela percebeu que havia explodido e falado demais...ele entendeu que estava errado em muitos pontos.
Ele encarava apenas a realidade dele, as dificuldades dele, e se esquecia que a situação não estava sendo mais fácil para quem estava do lado de fora de tudo.
–Você precisa entender Zelão que pessoas reagem de formas diferentes a situações semelhantes. Não é por que não toco no assunto que não me importo. Assim como agora percebo que , talvez eu não tenha lidado com as circunstancias da melhor forma...
–É ..eu acho que no final...nós dois estávamos errados... e isso é mais uma prova de que precisamos de um tempo
A professora desabou na cama como um prédio que caia depois de ser implodido. Permaneceu sentada, digerindo o pedido da pessoa que mais amava. Mordeu os lábios fortemente e não refreou as lágrimas que caiam.
Ambos estavam machucados. Machucados pela realidade que explodiu em forma de desabafo.
–Se você prefere assim...- a moça enxugou as lágrimas que insistiam em lhe inundar a face. Nunca pensou que o silêncio prolongado poderia machucar tanto e trazer consequências tão absurdamente dolorosas. No entanto, não lhe restava outra opção senão a de respeitar a vontade do marido e lutar para que ele enxergasse que tudo aquilo era um erro tremendo.
Levantou da cama apenas para mudar de lugar e se preparar para dormir porém, seus olhos estavam tão embaçados com lágrimas, que ela não percebeu a poça de água derramada, escorregando assim que seus pés tocaram o local.
–JULIANA! CUIDADO!
E como em um milagre, a professora foi salva de um contato certeiro com o chão. Salva por mãos fortes que a seguravam pela cintura .E depois do susto só o que se podia ouvir era o som da respiração de ambos.
Dois pares de pulmão que trabalhavam de forma frenética travavam uma batalha intensa para continuarem a busca por oxigênio.
O nervosismo faz isso..nos deixa sem ar mesmo que não haja a falta do mesmo no recinto.
Juliana ainda estava nos braços dele e ele ainda não sabia dizer como havia conseguido se levantar da cadeira de rodas e apará-la da queda.
–Zelão?
Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo...apenas estavam ali tentando assimilar um fato inusitado: Zelão havia levantado da cadeira.
*
O travesseiro ja estava encharcado. Gina não lembrava quando fora a ultima vez que chorara tanto e foi assim com os olhos em chamas , lembranças desconexas e soluços doloridos que ela desmaiou de cansaço. Afogando-se no próprio pranto.
Já no quarto ao lado do seu Ferdinando não conseguia dormir. Os olhos azuis haviam se tornado vermelhos. A situação ja estava além do que a sua sanidade podia aguentar.
Estava convencido...não a teria de volta...por mais que tentasse...por mais que lutasse por ela...o amor da sua vida...obviamente não queria ser salvo...perguntou –se então se não era hora de desistir...foi então que viu o uniforme de guerra jogado em um dos cantos do guarda roupa.
Pesou a situação e se deciciu...agarrou o uniforme e respirou fundo...Ja estava morto de qualquer forma...
*
A manhã chegou para todos, inclusive aqueles que não queriam acordar.
Renato não despertou devido aos raios de sol e sim pelo barulho de carros se aproximando. Olhou pela janela e descobriu as ambulâncias ali e a sua espera.
Arrumou- se rapidamente. Deu instruções a todos e seguiu para sua missão.
Estava feliz. Finalmente faria algo de bom e necessário. Finalmente acabaria com toda aquela mentira.
Entrou em um dos carros e pediu que alguns homens dirigissem as outras unidades para, então , formarem o comboio que resgatariam os feridos.
Estava quase partindo quando ouviu a porta abrir e uma moça que conhecia bem, sentar-se ao seu lado no banco do carona.
–Pensou que ia me enrolar doto?!
Ele sorriu e apenas disse.
–Eu espero que não se arrependa Senhorita.
–Eu tenho certeza que não.
E com isso saíram...sendo observados atentamente pela população aflita da vila de Santa Fé.
*
Gina estava aflita...sua amiguinha de cabelos ruivos não parava de chorar. Ela ja havia tentado de tudo e a garota nem sequer havia olhado em seus olhos.
–Por favor...não chore! O que eu preciso fazer pr’oce parar de chorar?!
–ACORDE! – a garota finalmente desgrudou as mãos do rosto choroso e suplicou mais uma vez.
–ACORDE!!POR FAVOR ACORDE! ACORDE!
A moça estava assustada e despertou sobre os mesmos gritos ..so que dessa vez era a voz de Juliana que soava desesperada.
–GINA! ACORDE!!- os olhos translúcidos da professora pareciam saltar do rosto. Ela estava alterada e Gina começou a sentir um aperto no coração. Ja conhecia esse desespero e não gostava do som dele.
–Mas o que é isso Juliana?! O que ta acontecendo?! – A ruiva simplesmente segurou firme a mão da amiga e recebeu o golpe que parecia lhe rasgar o coração.
–É o Nando Gina! Ele voltou pra guerra!
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