Aos Seus Olhos
2 Sensação
Você não sabe como é
A sensação que você deixou em mim
O medo que me causou a sensação da perda.
Estou sentada na varanda nas escadas enquanto sinto o cheiro do perfume exagerado da minha mãe. Ela sorri para mim no tempo em que me observa pelos cantos dos olhos, analiso as crianças jogando bola no meio da rua na esperança de nenhum carro atrapalhar a diversão. Ela segura minha mão apertando levemente e pergunta calma:
— Você irá me dar netos? — sorri de canto.
Abaixo meus olhos para o chão no tempo em que fico a pensar em sua pergunta, examinando cada detalhe, desde momento que eu descobrisse ao final quando eu visse o pequeno rosto tentando me olhar, sentisse aquela confusão de sentimentos dentro de mim. Relembrando dos carinhos na barriga, das conversas, das risadas e dos momentos tensos que desejaria não estar passando por. As dores nos pés, nas costas, nos peitos. Pensando em cada detalhe. Respirei fundo analisando o rosto da minha mãe formando-se uma preocupação no tempo em que balança sua perna apreensiva pela minha resposta:
— Claro que irei mãe. — sorrio.
Volto meus olhos para as crianças tentando não reparar o tempo se fechando o meu peito querendo me afogar no mar, o relógio atrás de mim badalando sem parar está cada vez mais próximo do medo. Levanto-me da varanda e ajudo-o a colocar os pratos na mesa, quando você aparece pela cozinha fumigando fogo pelos olhos, sinto meu peito latejar enquanto observa minha mãe. Respiro fundo vendo-o partindo em direção a lugar nenhum. Desejando que não gritasse mais uma vez, não quero dormir chorando mais uma vez.
Estou no canto da parede tentando ignorar toda a barulheira em minha volta não quero estar aqui, não quero ouvi-los e nem vê-los. Deslizo meus dedos pela parede caminhando em direção ao banheiro quando você aparece a minha frente sorrindo de canto educadamente e tenta iniciar um papo comigo, e novamente eu sinto meu rosto avermelhasse pela vergonha enquanto ela ri da situação dizendo o quanto boba estou sendo:
— Oi novamente.
Sorrio abaixando meus olhos para o chão de piso marrom sentindo você cada vez mais próximo de mim, percebo seu tênis preto com uma listra branca em volta dele e eu rio baixo respondendo, finalmente, o seu oi:
— Olá.
— Olha, olha. Ela fala.
Você chega perto de mim me olhando com seus olhos chamativos, que pegam fogo e quase saltam para fora. Eu abaixo meu rosto para o chão sentindo seu hálito ruim e minha mãe segura minha mão e com uma voz falha pergunta o que você quer com nós. E de repente tudo se torna um furacão destruindo tudo a nossa volta, você se tornou o furacão destruidor e diferente dos normais que deixam rastros para trás, você não deixou nada para trás nem um rastro, nem uma migalha para eu poder juntar e tentar concertar. Levou tudo com a tempestade, tirou tudo que era bom e só deixou os pedaços que nunca se concertarão.
Estou sentada na beirada da escada no tempo em que vejo você andando para lá e para cá com lágrimas nos olhos tentando não chorar enquanto seus olhos me vislumbram por alguns segundos. Você pousa sua mão em meu rosto e carinhosamente me abraça dizendo para eu perdoá-la pelo que fará e eu fico sem entender nada quando você me solta dos seus braços, pega suas coisas que estão dentro de bolsas pretas e com seus olhos tristes você me observa pelo ombro e parte me deixando plantada na porta e eu quero correr aos seus braços, quero correr em sua direção e vê-la me pegar em seus braços e me encher de beijos. Mas apenas fico parada na porta vendo-a partir para lugar nenhum, você nunca mais voltou por mim e depois de alguns anos eu soube; você desistiu de nós, desistiu de seus futuros netos partiu para algum lugar nesse mundo gigante sem mim. Você deixou a sensação do medo, a sensação de um coração partido em milhões de pedaços.
Sua cabeleira loira balança com a forte brisa do vento no tempo em que analiso você de costas observando o mar a sua frente e o por do sol se pondo, lágrimas grossas descem por seus olhos azuis céu. Você se encontra perigosamente no baixo penhasco da praia, eu vejo você fechar seus olhos no tempo em que me visualiza, talvez pensando em um futuro próximo onde sua vida não há dor. Onde sua vida caminha com a forma que você gostaria ou detalhando-me em sua mente, pois um sorriso forma-se em seu rosto e eu apenas continuo minha trajetória vendo que, minha parte eu já fizera. Eu aliviei suas dores, seguro sua mão da mesma forma que eu queria que alguém tivesse segurado a minha. Quando o mar vagarosamente afundou meus pés e depois terminou de me afundar como uma areia movediça, me afogando completamente no escuro, nos medos, na dor profunda que se instalou ao meu peito de forma lenta.
Estou caminhando passo a passo querendo adiar ao inevitável, adiar a dor que me espera em casa. Adiar ver os olhos que me causam medos e me perturbar com um turbilhão de pensamento pelo que você fez comigo, por que me deixou aqui, por que decidiu voar deixando o seu ninho. Move-me para trás envergonhada vendo seus lindos olhos pretos marcantes e novamente ouço sua voz:
— Olá novamente. — sorri largo.
Eu reviro os olhos e volto a caminhar lentamente ignorando você ao meu lado tentando puxar assunto comigo:
— Não vai me dizer seu nome? — olha-me. — Você é tão tímida devia falar mais, parece ser uma menina tão legal. — sorri discretamente pensando em alguma coisa.
— Só pareço mesmo. — respondo apressando meus passos tentando não olhá-lo sobre ombro.
Fale com o autor