Aos Olhos De Cherry
3 Solidão + Cherry = Ousadia.
Fui deixada sozinha após ser transferida a um quarto, tive fraturas nas costelas, cada vez que “tentava” me mover sentia minha pele em minhas extremidades se rasgando. Meu rosto, mal podia respirar, todo o lado esquerdo de meu rosto estava ralado, não conseguia abrir o olho esquerdo devido a isso. Sozinha lá é que eu tive consciência do que realmente havia acontecido, foi um acidente grave, ficaria três dias no hospital em observação. As visitas eram curtas, e não dava para ser aproveitado, pois minha mãe passava toda a visita preocupada com meu rosto. “Oh! O que será de minha filinha se ficar desfigurada?” foi o que mais ouvi durante esses três dias.
A ideia que receberia uma visita dela já estava esquecida, mas bem que ela devia, não acha? Poxa, eu fui atropelada por culpa dela, ninguém mandou ser gostosa e ficar com aquela cara de quem sabe. Mas no que estou pensando? Um hospital não é um lugar propício para sonhar, durante a noite eu escutava os enfermos nos corredores, como associar o dança do quadril de Cherry com aqueles barulhos horripilantes do lado de fora? Impossível.
Eis que a hora da visita matinal chega, meu último dia lá e no horário do almoço minha mãe viria me buscar, já me sentia livre para andar pelo quarto, exercitar minhas pernas que bambeavam, não tinham forças para me aguentar. Não esperava minha mãe, ela só viria para me buscar, então estava apenas ajeitando as coisas na minha mente. Queria saber como ia ficar tudo depois disso, se minha mãe iria querer processar a mãe de Cherry e acabar com meus planos de fazer a velha gostar de mim.
– Cherry! Sua infeliz! – Resmunguei alto, enquanto roía as unhas andando de um lado para o outro.
E foi nesse momento que a porta se abriu, oh não, era Cherry. Fiquei completamente sem cor, sem me mover, com aquela cara de puta-que-pariu enquanto ela entrava.
– Cherry não é um nome muito comum por aqui. – a voz da loira saiu tão doce que pude sentir minha diabete atacando, o sorriso então? Parecia tão natural que eu nem conseguia corresponder mesmo sendo a mais sincera possível.
– Não mesmo, mas como sou especialista em entrar em situações incomuns. – contornei e já me sentei na beira da cama.
– Sua namorada se chama Cherry também?
“Ela sabe!” pensei, na verdade gritei por dentro. Mas o que? Até o gato de estimação do meu vizinho sabia. Sim, eu contei para ele quando batemos um papo muito sério, ele estava tentando comer meus sapatos esses dias.
– Nos meus sonhos sim. – respondi de forma ousada.
– E na vida real ela é o que sua? – perguntou, por incrível que pareça no meu ver, acreditando mesmo que havia outra Cherry.
Eu flertei com ela, deixei meus olhos penetrarem fundo no azul infinito daquele olhar, e então respondi me levantando e andando até ela, que não estava nem um pouco longe.
– Colega do grupo de desenho.
Os olhos amendoados dela se arregalaram, era uma resposta tão óbvia, porém só pra mim. Sua boca ficou entre aberta enquanto os olhos tremiam indecisos, pois não sabiam onde se focarem.
E eu? Não permiti que ela refletisse, por que sempre fui assim, e só porque ela parecia mais indecisa que bissexual tentando ser hétero eu não ia deixar de atacar, de agir como Chelsea age. Mesmo sem possibilidade alguma de me mover de forma ágil eu agarrei a loira, enlacei sua cintura com a canhota e puxei seu rosto pela nuca com a destra.
Meus lábios úmidos de desejo tocaram os dela rapidamente, se afastaram nem sequer dois centímetros, dava pra sentir a respiração afobada dela, o desejo dos carnudos dela nos meus, uma espiada apenas para ver sua reação e percebi seus olhos delicadamente fechados. As mãos delicadas de Cherry passaram por meus ombros. Selei seus lábios novamente e então pedi passagem, induzi a um beijo, ela não negou, retribui, mas ao tocar de nossas línguas quentes senti seu corpo recuar como impulso, fui firme e a segurei em meus braços, ela se entregou facilmente, deixou que nossas línguas se entrelaçassem e que o beijo acontecesse.
Um beijo rápido? Não de duração, foi intenso, parecia que estávamos prontas para se jogar no leito do hospital e nos amar ali mesmo. Ela tinha sede, e eu mais ainda. Ao que minha canhota deslizou para frente senti o corpo da loira tremer, abusada passei minha mão por sua cintura e cheguei a seu seio, ela imediatamente recuou e desta vez não consegui segura-la.
Ela me olhou assustada, tampou seus lábios com as pontas dos dedos, era bem típico, já tinha visto esta cena, e eu sempre levava um tapa no final.
– Co-como pode? – indagou ela, como se não tivesse correspondido.
– Me parecia o melhor a se fazer, apenas. – respondi seca.
– Mas não foi!
– Olha, foi o que senti vontade de fazer.
– Todos nos temos vontades, Chelsea.
– Então posso ao menos botar a culpa em meus sentimentos?
– Adolescentes tendem a ter sentimentos um pouco mais intensos às vezes, mas isso não significa que você pode colocar isso em prática!
Foi a ultima frase dela, depois disso ela simplesmente saiu da sala, não bateu a porta, não saiu zangada, saiu confusa. E eu fiquei lá, pensando se valeu mesmo a pena ter feito algo tão impulsivo assim.
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