Aos 16
17 Capítulo XVI - Biblioteca
Notas iniciais
A expressão da minha mãe era de pura preocupação.
– Lise, o que aconteceu?
– Eu cai. – menti. Imagina que eu ia contar a verdade.
– E porque não me ligou, teria vindo buscá-la.
– Não precisava mãe, foi só uma queda boba, não queria perder aula por causa disso. — disse virando a cara e olhando pela janela. Sorri porque vi Cassandra correndo atrás de Ian, enquanto o mesmo andava sem dar-lhe atenção. Essa garota não se manca não?
– Como boba? Abaixo do seu olho está tudo roxo. – disse ela pegando em meu queixo e virando meu rosto para ela, tocou o hematoma, gemi de dor.
– Mãe!
– Desculpe querida.
– Não se preocupe, a enfermeira já me deu um analgésico, estou bem, só preciso colocar gelo e daqui a alguns dias vai melhorar. — a tranquilizei.
– Tudo bem, mas da próxima vez, me ligue. — me repreendeu.
– Não haverá próxima vez. – murmurei.
– O quê?
– Nada, só que não irei cair novamente.
– Espero.
Minha mãe deu a partida e formos para casa, naquela noite fui para a minha primeira aula de direção e não tinha maquiagem certa que cobrisse o roxo no meu rosto, o jeito foi se render e ir assim mesmo.
***
Entrei na sala para a aula de literatura, sentei ao lado de Monique e esperei o professor Erico chegar.
– Está doendo? – perguntou Monique preocupada com o soco que levei no rosto, mas a minha atenção estava em um casal a frente, onde a garota estava praticamente agarrando o garoto pelo pescoço e o beijando, enquanto o garoto a ignorava completamente. Fiquei curiosa.
– Por que Ian tem que se sentar na frente? – perguntei ainda os olhando.
Monique riu.
– Ano passado ele fugiu pela janela e desde esse dia o professor Erico o mantém bem abaixo de seus olhos.
– Por que ele faz isso? – olhei para ela. – Sério? O cara é bonito, rico e pelo que pude perceber não é burro.
Monique estava pensativa quando olhou para Ian e falou:
– Dinheiro não compra amor, muito menos felicidade Lise, Ian está perdido no mundo, infelizmente.
– Vocês são muito amigos, não é?
– Amigos de infância, ele foi o único que ficou do meu lado.
– De quê? – perguntei curiosa, mas não teve tempo para resposta.
– Bom dia turma. – o professor entrou na sala. – Hoje faremos uma atividade surpresa e passarei um trabalho para ser entregue segunda valendo nota.
***
Como precisava do ponto de literatura, acabei indo para a biblioteca fazer o trabalho que consistia em uma análise textual detalhada sobre um poema de Emily Dickinson. Comecei a lê-lo.
Afraid? Of whom am I afraid? (Ter medo? De quem terei?)
Not Death – for who is He? (Não da morte – quem é ela?)
The Porter of my Father's Lodge ( O porteiro de meu pai)
As much abasheth me. ( Igualmente me atropela)
Of Life? 'Twere odd I fear [a] thing (Da vida? Seria cômico)
That comprehendeth me (Temer coisas que me inclui)
In one or more existences – (Em uma ou mais existências– )
At Deity decree – (Conforme Deus institui)
Of Resurrection? Is the East (De ressuscitar? O oriente)
Afraid to trust the Morn (Tem medo do madrugar)
With her fastidious forehead? (Com sua fronte subtil)
As soon impeach my Crown! (Mas me valera abdicar)
Estava tentando me concentrar quando Clara me encontrou, pensei que ela estaria chateada pelo que aconteceu comigo e com o Nate, mas pelo seu enorme sorriso me enganei.
– Está matando aula? – perguntou se sentando ao meu lado.
– Mais ou menos.
– O que você está fazendo?
– Trabalho de Literatura.
Ela puxou meu caderno e viu o texto.
– Ah, o professor Erico já passou esse texto pra gente, se quiser eu posso...
– Não obrigada, prefiro fazer.
– Ok. – deu de ombros. — Você ainda vai a festa, não é?
– Ainda estou convidada? – a olhei apreensiva.
– Claro, porque não? Estou louca para ver a cara de Cassandra. – disse com um sorriso maligno, suspirei. – Como está seu hematoma?
– Roxo e dolorido.
– Imagino.
– Vai matar aula também? — perguntei voltando a minha atividade.
– Não estou afim de saber sobre a Revolução Francesa.
Sorri, Clara podia ser doidinha na maioria das vezes, mas era uma pessoa legal e divertida. Ficamos ali sentadas conversando e eu fazendo o trabalho, até a hora de ir para a educação física, minha matéria preferida, só que não.
Coloquei a roupa para a aula que consistia em uma calça de corrida e uma blusa branca larga, todo o primeiro ano estava reunido no ginásio, enquanto a professora Marta se apresentava e nos separava em times, ao todo eram sessenta alunos, que foram divididos em grupos de dez e adivinha em que time eu cair? Parecia que o universo estava conspirando contra mim e eu sabia, esse jogo de vôlei não iria dá certo.
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