Aoi Tori
4 Lembranças
"Nós poderíamos nos perder nas lembranças infindáveis daqueles dias"
LIL'B, Orange
— Hinamori-san. — escutou uma voz baixa chamá-la. Ela quase deu um pulo de surpresa ao encontrar a tenente da oitava divisão em pé ao lado da soleira da porta do escritório.
— Nanao-chan, você quase me deu um susto! — exclamou, colocando uma mão no peito. Em seguida levantou-se da sua cadeira, para receber a shinigami mais educadamente.
— Desculpe-me por isso. — respondeu no seu jeito formal de sempre, empurrando mais os seus óculos na ponte do nariz. — Eu venho aqui por ordens de Kyouraku-taichou e Ukitake-taichou.
— Oh, claro. — assentiu. — Que tal nós falarmos sobre isso em outro lugar? — perguntou. Para Momo, a ideia de conversar em frente à cadeira de Aizen-taichou, soava errada.
— Sim, sem problemas. — deu um aceno com a cabeça, e Hinamori aproximou-se dela. As duas começaram a andar pelo segundo andar do prédio do quinto esquadrão, sem nenhum destino em mente. — Hinamori-san, creio que você tenha consciência de que os capitães da oitava e décima terceira divisão estão cuidando do seu caso.
Ela assentiu rapidamente, e com isso Nanao continuou:
— Você está cursando Hakuda, Hoho e Zanjutsu na Shinoreijutsuin, certo? — perguntou, enquanto lia as informações num dos papéis que segurava rente ao peito.
— Sim, todas somente de forma prática, no prédio de treinamento da academia. — disse. Ela sabia que quando se tratava de Ise, quanto mais ela cooperasse, melhor seria.
— Por acaso o seu tempo de permanência já foi determinado? — Nanao questionou, sempre prestativa.
— Hmm, não. — fez um movimento negativo com a cabeça. — Eu só estou ficando na academia durante as aulas práticas dessas matérias.
— Então você cumpre quatro horas e meia de aula? — ela fez rapidamente as contas mentalmente. Momo assentiu, querendo saber aonde isso chegaria. — O capitão-comandante determinou que sua estadia na Shinoreijutsuin será de mais um mês.
Momo quase engasgou-se de surpresa, virando-se para ver Nanao com os olhos arregalados de susto. Tão pouco tempo?, pensou. Não, definitivamente tem algo por trás.Temque ter.
— Os capitães se reuniram e decidiram que será necessária uma pontuação de sessenta estrelas para cada uma das matérias que você está cursando. — informou, pegando outro papel dentro da pasta que segurava.
No ímpeto, Hinamori parou de andar. Nanao voltou alguns passos para parar em frente a garota.
— Ah não. — disse, seu rosto enrugado em preocupação. — Quantas estrelas eu tenho? — seu tom de voz era hesitante enquanto reprimia uma careta.
O sistema de pontuação da Academia Shinigami baseava-se em ganhar uma estrela por exercício ou tarefa. Por só fazer aulas práticas, Momo não tinha dever de casa, porém isso lhe dava uma desvantagem para conseguir pontos, tendo que, durante as aulas, fazer os exercícios e movimentos quase próximos à perfeição para conseguir as estrelas.
A tenente do oitavo esquadrão revirou nos papéis:
— Sessenta estrelas em Hoho — Nanao lançou-lhe um olhar, e Momo quase suspirou de alívio. Ela era péssima no shunpo, tendo fracassado em diversos exercícios dessa matéria. Na verdade a tenente nem sabia como conseguira a média perfeitamente. Talvez sua sensei simplesmente fosse uma mulher generosa. — Setenta e três estrelas em Hakuda. — Hinamori assentiu diante da nota. Sua habilidade em combate mão-a-mão sempre fora de um nível aceitável. — E vinte e um em Zanjutsu. — concluiu.
Dessa vez Momo não reprimiu o seu suspiro de pesar. Ela tentou se lembrar de todos os exercícios e lições que fizera. Sim, suas habilidades com a espada não eram as melhores, mas também não eram tão ruins. Passou a mão pelos cabelos, e lembrou-se que eles estavam presos, como de usual. Franziu os lábios, sem saber como reagir com a notícia.
Nanao sentiu o estresse que sua amiga lutava contra. Não era como se ela sentisse prazer em vê-la assim, porém trabalho era trabalho, e, infelizmente, havia momentos em que isso aconteceria.
— Bom, eu a aconselho a falar com o professor para dar um jeito de, nas próximas aulas, conseguir trinta e nove estrelas. Eu acredito que se você conversar calmamente com... — ela baixou o seu olhar para o papel que segurava, provavelmente procurando o nome do professor. Hinamori observou o cenho de Nanao franzir-se de confusão. Claro, como poderia ela ter uma média tão ruim, uma vez que quem a ensinava era, supostamente, um amigo seu?
Na verdade era incrível como quase nenhum shinigami percebera que ela e Hitsugaya não conversavam mais. Ela tinha certeza que Rangiku e Kira sabiam, mas isso era por eles a conhecerem bem, uma vez que são seus amigos.
Ise lutou para manter sua voz estável:
— Então converse com Hitsugaya-taichou para saber como conseguir a média necessária. — por fim disse.
— Sim, eu farei isso. — Hinamori foi educada. De certa forma ela não estava mentindo para a tenente — ela realmente faria isso — depois de reunir toda a coragem que tinha. — Muito obrigada, Nanao-san.
— Disponha, Hinamori-san. — foi cordial. — Agora com licença, mas eu tenho que ir à décima primeira divisão distribuir alguns formulários de reclamações de barulho. — fez uma careta.
— Até mais. — Momo acenou enquanto a tenente atravessava o corredor segurando a pasta cheia de papéis, para descer a escada.
A garota ficou parada ali, com uma expressão incrédula no seu rosto. Isso era inadmissível. Ela nunca achara que Hitsugaya fosse uma pessoa infantil, mas não deixaria que algo como isso a impedisse de manter o seu esquadrão. Ela prometera fazer de tudo para permanecer no posto de tenente, e assim o faria.
Nem que isso a obrigasse falar com ele.
* * *
O ar escapou dos seus pulmões ao ser derrubada rápido demais. Sua cabeça bateu contra o tatame duro, e ela soltou um baixo gemido de dor.
— Seja mais delicado, Orikasa. — advertiu Hitsugaya, em pé próximo à Momo. — Lembrem-se, vocês não estão enfrentando os seus inimigos. — sua voz aumentou alguns decibéis — Ainda.
A garota sentou lentamente no tatame, corando levemente — ela era uma tenente, então não deveria ser tão fácilmente derrubada.
— Ei, Hinamori. — Hitsugaya ofereceu-lhe ajuda para levantar — Tudo bem?
Ignorando a mão estendida, Momo ficou em pé.
— Sim, sensei. — foi educada, lembrando-se de que em breve pediria um favor a ele. — Não foi nada. — deu um sorriso amarelo. Hinamori estava ficando boa nisso — sorrir falsamente —, mas não importava o quanto ela tentasse, Toushiro sempre veria através de suas mentiras.
O capitão estreitou minimamente os olhos antes de virar-se para observar os outros alunos, afastando-se. Diferente dos outros professores, que andavam segurando pranchetas para anotar o desenvolvimento de seus aprendizes, Hitsugaya simplesmente olhava todos com aquele par de turquesas intimidantes.
Hinamori virou-se para o aluno com quem fazia dupla na tarefa. Afastando alguns fios de cabelos que atrapalhavam a sua visão, Momo ficou na sua posição de luta:
— Vamos, mais uma vez. — pediu.
Na Academia Shinigami não havia um sinal para avisar o término de cada aula — de acordo com Yamamoto, gongos ou quaisquer objetos desta mesma espécie "perturbavam o foco dos futuros-shinigamis". Assim, os professores, cada um de sua própria forma, sinalizavam o final das suas aulas.
E quando Hitsugaya sentou-se na única cadeira disponível na sala de treinamento, Hinamori sentiu o seu nervosismo subir garganta acima enquanto os outros alunos iam embora.
O shinigami ergueu uma sobrancelha pálida ao ver-se sozinho na sala com sua velha amiga.
— Hitsugaya-sensei... — ela quis mostrar que estava ali por questões acadêmicas. — Eu gostaria de conversar com você sobre a minha pontuação.
O suor escorria da testa de Toushiro devido aos esforços para desviar-se dos ataques do reigai. Seu sangue estava quase em ebulição dentro de suas veias, e ele simplesmente odiava aquele calor.
Seus olhos estreitaram-se ao ver a sua adversária recuar alguns passos, parando de mover a sua espada.
O capitão de cabelos brancos sentiu algo dentro de si apertar-se dolorosamente ao escutar a garota tratá-lo tão formalmente. Ele observou suas mãos. Os dedos estavam entrelaçados, e eles tremiam de nervoso. O capitão não duvidava que ela também estava suando frio.
Hinamori baixou a cabeça, seu olhar encontrando o dele. Ela escondeu suas mãos atrás de suas costas, desconfortável.
— Sensei... — continuou ela — Por que eu tenho somente vinte e uma estrelas? — perguntou, sua voz levemente trêmula.
Hitsugaya podia ter uma forte aversão a temperaturas altas, mas isso não era nada comparado à fúria que ele sentia por ter que lutar contra um clone de sua melhor amiga.
Essa não é a Hinamori, essa não é a Hinamori, repetiu várias vezes em sua mente feito um mantra. Agora ele precisava cumprir o seu dever como capitão de uma das divisões do Gotei 13, e derrotar o inimigo.
— Hinamori. — ele levantou-se da cadeira, ficando a alguns passos da tenente da quinta divisão —, você tem muito potencial. — como ela insistia em manter a conversa impessoal, assim ele o faria — Mas, de cerca das sessenta lutas que eu organizei, você só conseguiu vencer treze. — ele soava feito um professor de verdade. — Pegue a sua zanpakutou. — pediu.
Momo desembainhou Tobiume, segurando-a na horizontal à sua frente.
Hitsugaya aproximou-se alguns passos, e seus dedos da mão direita correram sobre a lâmina prateada. Ambos sentiram a zanpakutou sibilar ao reconhecer o capitão.
— Você sabe manejar a espada. Você sabe relacionar-se com ela. — ele olhou no fundo dos olhos de Hinamori. — Mas algo falta aqui. — o dedo indicador de Toushiro roçou levemente onde ficava o coração de Momo.
— Você realmente seria capaz disso, Shiro-chan? — ele viu lágrimas falsas formarem-se nos olhos do reigai. Diante da falta de reação de Hitsugaya, continuou: — Seria capaz de me apunhalar novamente?
— Eu... — o shinigami de cabelos brancos hesitou, recuando alguns passos. Seus olhos arregalaram-se de choque com a declaração.
— Shiro-chan, você nunca me machucaria... Não é? — o reigai avançou, sua voz suave e macia imitando o jeito de Momo de falar. — Afinal, você prometeu me proteger para sempre. — acrescentou. Agora ela estava a cerca de meio metro dele.
Toushiro, atônito, lutou contra os seus músculos, que estavam tensionados devido à ameaça eminente, e com um golpe certeiro e seco, moveu sua zanpakutou por sobre a pele do reigai.
Calafrios percorreram pela espinha da tenente, e medo tomou conta do seu ser. Honestamente, nem Hinamori compreendeu direito o que aconteceu em seguida. Simplesmente, quando ela deu-se por si, Hitsugaya estava deitado no chão, e um dos pés de Momo pressionava o peito do capitão, impedindo-o de levantar-se. Tobiume estava a milímetros da jugular pulsante do capitão, com um ar ameaçador.
A tenente observou os olhos do capitão. Ela estranhou quando não encontrou nenhum traço de medo naquele mar turquesa. Invés disso, havia arrependimento. Pena.
— O que...? — sem entender nada, ela caiu no chão, uma poça de sangue formando-se ao lado do seu corpo.
— Eu cortei uma das artérias localizadas na sua perna. —Você sangrará até morrer. — concluiu.
Ela recolheu a sua zanpakutou, embainhando-a silenciosamente, e percebeu que Hitsugaya ainda não levantara do chão.
— Faça isso mais vezes na sala de aula. — disse ele, ficando em pé, parecendo indiferente com o que acontecera —, que você conseguirá suas estrelas — e com isso saiu da sala.
Toushiro deu as costas para o reigai derrotado, e então um par de olhos conhecidos entrou no seu campo de visão.
As lágrimas derramadas poressa Hinamori eram verdadeiras. E tudo o que restava para Toushiro era solidão, enquanto a garota corria para longe dele, assustada.
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