Aoi Tori
6 Hoje
"Tudo o que eu passei me fez quem eu sou hoje
Justamente por não ser fácil que continuo seguindo em frente"
YUI, Rolling Star
— Shiro-chan... — a sua voz falhou por ter acabado de acordar.
— Sim, Momo-chan? — levantou a cabeça de onde estava deitado, no assoalho de madeira.
— Que horas são?... — perguntou, piscando os olhos algumas vezes, tentando adaptá-los à claridade.
Totalmente desperto, Hitsugaya levantou, ajeitando o seu quimono e cabelo, que estavam meio desarrumados devido ao sono. Só então respondeu Hinamori:
— Devem ser por volta das seis, eu tenho uma reunião em menos de meia hora. — ajoelhou ao lado de Momo, lhe dando um rápido beijo. — Eu realmente queria ficar, mas se eu me atrasar... — seu rosto contorceu-se em preocupação só de considerar a ideia.
— Tudo bem, Shiro-chan. — sorriu, sentando de forma que apoiasse o seu queixo nos seus joelhos dobrados à frente ao rosto — Eu vejo você mais tarde. — seu coração bateu mais rápido.
— Eu te amo. — disse, assentindo brevemente antes de dar impulso e sair do quarto pela porta da sacada.
Momo suspirou, feliz. Isso era simplesmente incrível — num instante ela estava lutando sozinha contra os seus fantasmas, e tudo o que ela precisou fazer foi aceitar a ajuda de seu amigo. Da pessoa que mais amava.
Ela sorriu em meio às lembranças da noite. Por um instante Hinamori suspeitou que estava assim devido à grande quantidade de saquê que bebera no dia anterior, mas ela sabia muito bem que aquilo tudo fora causado pelo próprio Toushiro; ela ainda era capaz de sentir os seus toques frios sobre a sua pele.
Virou o rosto, vendo um montinho de pano verde. Levou as mãos até os cabelos. Ah, sim, eles estavam soltos. Apanhou o tecido, guardando-o numa das dobras do seu shihakusho, não querendo ajeitar o seu cabelo no momento.
Suas costas tocaram no chão, deitando ali mesmo. Certamente havia uma montanha monumental de papelada a esperando sobre a sua escrivaninha. Decidiu esquecer-se disso, aproveitando aquela breve folga.
Então, menos de cinco minutos tinham se passado quando ela escutou um estrondo semelhante a uma explosão. Momo levantou no ímpeto, os olhos arregalados, e sua mente já divagava, criando teorias para a razão do barulho. Sem pensar duas vezes, foi até a sacada, seu cenho franzindo com a cena à sua frente.
— Uma barreira de kido... Em Seireitei? — pensou alto, com esperanças de que fazendo isso algo seria esclarecido. Por ser mestre na arte de kido, Hinamori reconhecia esta arte, tendo certeza que a parede laranja transparente que via era algo da mesma espécie. — Por quê?... — deu um rápido pulo, pousando no telhado do prédio da divisão para ter uma vista melhor.
— Hinamori-fukutaichou! — escutou chamarem-na do pátio. Ela baixou o seu olhar, vendo um grupo de oficiais do seu esquadrão aglomerarem em frente ao prédio. Momo deu um passo à frente, descendo diretamente do telhado, e pousou no chão com leveza.
— Ainda não sei ao certo o que é aquilo. — informou — Eu vou procurar outros tenentes para saber o que houve.
— Mas aquilo não é um kido? — perguntou um dos oficiais.
— Sim, é... Eu acho que é uma barreira. — balançou a cabeça. — Nós temos que... — foi interrompida pela visão de uma borboleta infernal aproximando-se. Estendeu o dedo indicador da mão direita, permitindo que o inseto pousasse ali.
Ela fechou os olhos e abaixou a cabeça enquanto escutava a borboleta negra sussurrar a mensagem. Tão rápido quanto aparecera, ela voou.
— Uma reunião geral, agora no pátio principal. — começou a andar, alguns dos shinigamis seguindo-a brevemente — Estão esperando o quê?, vamos! — exclamou, aumentando o passo enquanto via mais oficiais do seu esquadrão caminhando ao seu lado.
Inspirando fundo, Momo adentrou no pátio lotado. Diversos shinigamis de todas as divisões estavam ali reunidos. Percebeu que à frente de cada pequena multidão estava o capitão e tenente de seu respectivo esquadrão. Somente ela, Kira e Hisagi que não tinham nenhum capitão, ficaram sozinhos.
Logo Sasakibe, o tenente da primeira divisão, tomou a frente, dirigindo-se ao centro do pátio, o único lugar vago. Em suas mãos havia uma carta, e ele começou a ler o seu conteúdo:
— "Como já devem saber, uma barreira de kido foi formada em volta de Seireitei" — todos assentiram diante da informação. — "Fui eu, o capitão-comandante, que a formei" — declarou, sucinto. — "Hoje, durante a madrugada, o ex-capitão da quinta divisão, Aizen Sousuke, escapou da sua prisão, localizada nos subterrâneos do primeiro esquadrão." — o pátio foi tomado por exclamações de surpresa diante de tal informação. — "Para impedi-lo de sair de Seireitei e pôr em risco a vida dos outros habitantes da Soul Society, eu conjuguei esta barreira de kido, prendendo-o na área do Gotei 13. É o dever de vocês como shinigamis de derrotar este traidor. Capitães, tenentes, façam planos com os seus oficias, e não meçam forças para derrotar o inimigo. Qualquer indivíduo suspeito de aliar-se ao mesmo será julgado pela jurisdição determinada pela segunda divisão".
Soi-Fong assentiu com tal declaração. Ao fundo alguns escutaram um comentário feito em voz baixa por Kyouraku — Mas e se a pessoa estiver sob hipnose?—, mas decidiram ignorar tal hipótese.
— "Está na hora de provarem que merecem os cargos que assim lhes foram oferecidos. Se Aizen Sousuke sair do nosso perímetro, não só a Soul Society como o Mundo Real correm alto risco. Não falhem, senão morrerão. Assinado, Genryuusai Shigekuni Yamamoto". — Sasakibe dobrou o papel, terminando de lê-lo. — Creio que isso tenha deixado tudo muito claro, ou alguém ainda tem alguma dúvida?
Soi-Fong deu um passo à frente:
— Eu contatarei os membros do Onmitsukido para fazerem uma busca em cada canto de Seireitei. — informou, e só então decidiu perguntar: — Devo fazer algo a respeito de possíveis traidores? — disse, com o nariz erguido de um modo presunçoso. Hinamori trincou os dentes, escutando o que a capitã implicara.
— Todos são inocentes até que seja provado o contrário. — recitou o ditado, ganhando uma expressão exasperada de Soi-Fong. — Mais algo? — ergueu uma sobrancelha. Quando ninguém fez menção de perguntar, Sasakibe assentiu, com isso voltando à área do seu esquadrão.
— Hinamori-fukutaichou, o que faremos? — os seus oficiais perguntaram, ansiosos.
— Pensar feito Sousuke. — respondeu com facilidade, virando-se para os shinigamis. Alguns arquejaram ao escutá-la chamá-lo pelo seu nome com descrença. — Nós temos uma vantagem sobre os outros esquadrões: o inimigo era nosso capitão. Logo, nós o conhecemos mais do que eles.
— Então devemos procurá-lo nos lugares que ele gostava de ir? — um shinigami perguntou, hesitante.
— Por exemplo, na biblioteca? — sugeriu outro.
— Sim, isso mesmo. — o sorriso de Momo alargou-se com a competência deles. — Vamos nos dividir em grupos e iniciar a busca. — começou a andar em direção à quinta divisão. — Chamem os outros oficiais, nós nos reuniremos no pátio em cinco minutos. — determinou.
Hinamori passou meia hora com os shinigamis, organizando a busca. Ela não podia negar que sentia certa melancolia em lembrar dos costumes do seu antigo capitão. É pelo bem da Soul Society, confortou-se.
Sentou à beira do gramado onde eles treinavam. Observou o seu esquadrão vazio, com todos empenhando-se em encontrar o inimigo.
Então a realização acertou-lhe num baque, seus olhos arregalando-se. Levantou rapidamente, erguendo os olhos para a sacada onde ficara mais cedo naquela manhã. O quarto onde ficara com Shiro-chan.
Usando o shunpo, rumou para os aposentos de Aizen. Seu estômago parecia uma montanha-russa, dando voltas dentro de si. Por favor, que eu não esteja certa..., suplicou.
Infelizmente, lá estava a razão de todo o seu tormento, sentado no meio do quarto, de pernas cruzadas e olhos fechados. Exatamente onde Hinamori ficara de manhã.
Um sorriso desenhou-se nos lábios de Aizen ao sentir a reiatsu da sua antiga tenente. Abriu os olhos, estes mostrando o profundo divertimento que ele sentia.
— Exatamente como se é esperado de um subordinado meu — disse, e calafrios atravessaram pela espinha de Momo ao escutar a sua voz aveludada. —, encontrar-me antes dos outros. O que você fez? Tentou pensar como eu? — ergueu uma sobrancelha, e levantou-se lentamente, sorrindo ao perceber os olhos da morena percorrerem por todo o seu corpo.
— Sim, afinal, você me ensinou assim. — fez um gesto de desdém com a mão direita, tentando não mostrar como ele a afetava. — Enfim, agora... — começou a falar, mas foi interrompida por Aizen:
— Por que está com os cabelos soltos? Pensei ter dito que prefiro mulheres que usam coque. — observou.
— Resolvi inovar. — disse, os dentes trincados. — Como será agora? — seu tom foi levemente petulante, mas Hinamori já levava uma mão até a sua zanpakutou, temendo um ataque. — Você se renderá ou resistirá?
— Tsc, tsc, tsc... — estalou a língua em desaprovação. — De onde tirou toda essa autonomia, Momo-chan?
— Não me chame assim. — retrucou, sua voz áspera.
— Então eu perdi esse direito? — franziu a testa, parecendo inabalado pela sua raiva. — Pois bem então. Caso você queira saber o que eu pretendo fazer... Bom, eu contarei. — balançou a cabeça — Como você já deve ter percebido, eu perdi uma quantidade considerável de poder.
Só então que a garota parou para sentir a reiatsu do homem. De fato, ela ainda era bastante poderosa, muito maior do que a reiatsu de Momo ou de um tenente, porém não era poderoso o suficiente para derrotar um capitão do Gotei 13.
— Como eu não serei capaz de fugir daqui com esse baixo poder espiritual, eu precisarei da sua ajuda, Hinamori-fukutaichou. — Momo odiou como a sua voz soou respeitosa. Não, ele está dissimulando-o, Hinamori!, pensou.
— O que o faz pensar que eu o ajudarei? — fracassou em dar uma risada irônica.
— Momo-chan... — Aizen aproximou-se alguns passos, estendendo a mão em sua direção. — Depois de tudo o que passamos, você vai me tratar assim?
— Sim, Sousuke. — deu um sorriso zombeteiro. — Eu tenho que cumprir os meus deveres antes de tudo.
— Hmm, Sousuke? — disse num tom que parecia estar ronronando. — Durante a minha ausência você passou a me chamar pelo primeiro nome? — sorriu, divertido, e aproximou-se mais dela, meros metros entre eles. Ele curvou-se sobre ela, para sussurrar no seu ouvido, como costumava fazer: — Que pena, eu achava "Aizen-taichou" muito mais sexy.
— Argh. — fez um ruído de nojo, levando uma das mãos onde ele estava, afastando-o. — Assim está melhor. — murmurou.
— Como você ficou forte enquanto eu estava fora, Momo. — o ex-capitão parecia admirá-la. — Estou orgulhoso.
— Não me faça lançar um kido restritivo em você. — rebateu, impaciente. — Me responda, você se renderá ou tentará fugir?
— Eu já lhe disse. Você me ajudará a fugir daqui. Ponto final. Não é algo tão difícil de compreender. — fez um movimento desaprovador com a cabeça. — Agora, venha aqui. — estendeu-lhe a mão novamente.
Hinamori não foi capaz de entender o que acontecera a seguir. Tudo o que ela viu foram pétalas rosas de cerejeira avançarem sobre Aizen, fazendo-o recuar para sacada. Momo virou-se, vendo Kuchiki Byakuya aparecer na soleira da porta, segurando o punho da sua zanpakutou no modo shikai.
— Kuchiki-taichou! — exclamou, surpresa. O capitão não pareceu reconhecer presença da tenente, sua atenção totalmente voltada para o traidor ali presente. Ele deu mais uma investida, fazendo com que Aizen pulasse da sacada para o pátio, fugindo.
Sem dizer nada, Byakuya segurou o pulso de Hinamori num aperto de ferro, começando a usar o shunpo para atravessar o quarto. Momo esforçou-se para acompanhar o ritmo do capitão.
— Onde estão os seus oficiais? — perguntou, apressado.
— Eu os enviei para diversas áreas de Seireitei em busca de Sousuke... — respondeu.
— Melhor assim. — assentiu Kuchiki, e por mais que isso parecesse ser um elogio da parte dele, aquilo soou apático, como usual. — Eu reuni todos os capitães no mesmo lugar que Sasakibe fizera. Também pedi para que eles impedissem que membros de seus esquadrões avançassem. Nós, sozinhos, iremos encurralar Aizen. Não será algo tão difícil de fazer, uma vez que o seu nível de reiatsu diminuiu drasticamente por causa da prisão. — e com isso eles pararam no pátio principal da área em que todas as divisões se encontravam.
Aizen já estava lutando contra alguns capitães, porém os únicos ataques que fazia eram a base de kido, uma vez que ele não tinha mais a sua zanpakutou. Talvez o Hougyoku esteja adormecido, supôs Momo.
De forma depreciativa, Aizen afastou-se dos seus oponentes ao ver Hinamori entrar no seu campo de visão. Soi-Fong foi reprimida por Ukitake, impedindo-a de atacar o inimigo pelas costas.
— Momo-chan, que bom que você finalmente juntou-se a nós! — Num instante ele usou o shunpo para parar em frente à ela e Byakuya. Ele virou-se para o capitão, com uma expressão divertida no rosto. — Eu vou roubá-la por um instante, tem algum problema? — antes que o capitão da sexta divisão pudesse avançar, Aizen já estava com Hinamori no centro do pátio, cercados pelos demais capitães.
— Sousuke... — tentou soar ameaçadora. Invés de sentir abalado, o traidor simplesmente colocou-a à sua frente.
— Momo-chan, o que você acha de prender o seu cabelo agora? — perguntou, enigmático.
— O quê? — franziu o cenho. — Você realmente acha que nos confundir lhe dará alguma vantagem? — ela o encarava com determinação. — Você perdeu, aceite. — murmurou, e escutou algumas exclamações de surpresa pela forma como o enfrentara.
— Você não entendeu, Momo-chan. — sussurrou no seu ouvido. — Eu nunca perco. — Hinamori podia sentir a tensão aumentar entre os capitães. Provavelmente eles não escutavam o que Aizen sussurrava. Ele então se afastou alguns metros dela. — O que eu quero está aqui. — apontou para a cintura de Momo.
Ela deu um suspiro de impaciência, começando a desembainhar a sua zanpakutou.
— Chega de joguinhos psicológicos. — Ela nunca tinha se sentido tão destemida como estava agora. — Explique logo.
— Eu quero um objeto que você escondeu no seu uniforme. — explicou de forma subjetiva.
Os olhos de Momo arregalaram-se ao finalmente compreender. Hesitante, ela levou uma de suas mãos ao decote do seu shihakusho, tirando de lá o tecido e fita verde-claros.
— Por que você quer isso? — estreitou os olhos suspeitosamente. Seus dedos apertaram-se, protegendo o pano. Porém, antes que o ex-capitão pudesse responder, ela sentiu uma pulsação atravessá-la. Um sorriso brotou em seus lábios, e ela viu alguns oficiais encararem-na, duvidando da sua sanidade. — Então você quer minha ajuda... — comentou, num tom quase brincalhão.
Agora foi Sousuke que estreitou os olhos, parecendo estar genuinamente preocupado. Ela começou a sussurrar o encantamento, virando o seu rosto para que o traidor não pudesse vê-lo. Só então o finalizou em voz alta, fazendo os gestos rapidamente para impedi-lo de fugir:
— Bakudo número 9, Geki! — ela observou a energia avermelhada fluir de seus dedos até Aizen, envolvendo a sua silhueta e paralisando-o.
— Você realmente acha que isso me segurará por muito tempo? — revirou os olhos.
— Claro que não. — respondeu num tom falsamente doce, começando a observar o tecido verde-claro em suas mãos. — Porém você perdeu o seu passe de alforria. — avisou, levantando a cabeça para o céu azul-celeste, e levou sua mão de forma que o pano pendesse acima da sua cabeça. Deixou-o cair dentro da sua boca sem pensar duas vezes, e baixou o rosto para ver a expressão desesperada no rosto de Aizen.
Dentro da sua boca, ela sentiu o tecido dissolver-se numa força refrescante que tomou conta do seu interior. Hinamori sentiu a reiatsu extra crepitar pelo seu corpo, dando-lhe um leve brilho prateado.
Momo virou-se para ver a reação dos outros integrantes do Gotei 13, encontrando-os de boca aberta, incrédulos. Os capitães pareciam estarem se controlando para não fazerem o mesmo. Ela não sabia ao certo o que fazer, então agradeceu quando viu Hitsugaya tomar a iniciativa, dando um passo a frente:
— O que estão esperando? O inimigo está amarrado e sem forças — esse é o momento perfeito para atacar.
E sim, de fato é errado ver beleza na guerra. Mas Momo não conseguiu reprimir um sorriso de alegria ao admirar a cena de todos os capitães gritando bankai em coro.
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