Aoi Tori
2 Falta
"Obrigada por rir comigo, obrigada por chorar comigo
Ficará tudo bem, eu me esforçarei ao máximo para não sentir a sua falta"
RSP, Tabidatsu Kimi He
Hinamori simplesmente não podia acreditar como o destino era irônico. Irônico até demais— ela perguntava-se se não havia alguém em um lugar qualquer rindo dela enquanto assistia com cada uma das confusões em sua vida.
Ele, justamente ele, a última pessoa que gostaria de ver, e que andava evitando nos últimos meses, agora estava a sua frente, e lhe ensinaria sobre luta com espadas pelos próximos meses.
O nervosismo tomava conta do seu ser. Ela sentia suas mãos suarem frio, seu coração batendo mais rápido, borboletas no seu estômago — não importa quantos clichês Momo listasse, ela estava sentindo tudo e mais um pouco.
Mas, mesmo com tal bagunça em sua mente, não deixou transparecer nada. Permaneceu inexpressiva — algo que aprendera ao passar tanto tempo com ele.
— Um shinigami porta uma zanpakutou. Essa não é uma simples espada, ela é parte da nossa alma personificada, com um nome e pensamento próprios que nos empresta sua força quando necessário...
Ela observou o capitão recitar incessantemente o seu monólogo, completamente alheia ao que ele dizia. Provavelmente Hitsugaya tinha escrito isso ele mesmo, e passara semanas gravando as falas. Na verdade, Momo tinha certeza que ele fizera isso. Esse era o tipo de homem que Hitsugaya Toushiro era — planejador, organizado, preparado para tudo.
Por mais que Hinamori não tivesse dúvidas de que o que ele falava era realmente interessante, ela não conseguia prestar atenção. Tudo o que fazia era se focar na corrente elétrica que percorria o seu corpo toda vez que aquele par de olhos turquesa a observava.
Ela foi capaz de detectar confusão em seu olhar, e talvez tristeza? Não, provavelmente todo esse tempo que passou longe dele a fez esquecer-se de como ele era. Oh, sim. O peso que ele carregava nos ombros por ser uma criança prodígio. Capitão, e agora professor. Ele era bem capaz de ter aceitado o cargo só pelo prazer de ser chamado de Histsugaya-sensei.
— Seus nomes. — pediu, enquanto parava em pé perante a ponta oposta da fila onde Hinamori estava. Momo só despertou do seu transe quando escutou uns três estudantes próximos a ela falarem os seus nomes:
— Hinamori Momo. — apresentou-se desnecessariamente, sua voz tremendo. Ela pensou ter visto diversão misturada à tristeza nos olhos de Hitsugaya, mas isso era impossível — ela se lembrava com se fosse ontem de quando cortou todos os laços que tinha com Toushiro, deixando-o sozinho e recebendo a solidão de braços abertos.
Hitsugaya assentiu, afastando-se dela e começando a andar paralelamente a fila.
— Para vocês, eu sou Hitsugaya-sensei ou Hitsugaya-taichou, nem mais nem menos. — informou, e era possível detectar uma nota de irritação em sua voz. — Começarei com vocês me mostrando o quanto sabem lidar com as espadas. — determinou, sua voz esbanjando autoridade. — Elas estão disponíveis na estante no fundo da sala. — gesticulou, e com isso os alunos desfizeram a fila para conseguirem as suas espadas.
Hinamori olhou ao redor, uma expressão desamparada no seu rosto. Seus olhos foram de sua zanpakutou, embainhada na sua cintura, aos futuros-shinigamis, ansiosos para conseguirem a sua primeira espada.
Ela sentiu aquela presença tão familiar próxima a ela, virando-se para deparar-se com Hitsugaya lançando-lhe um olhar atento e silencioso. Momo observou novamente a diversão tomar conta do mar turquesa, deixando-a particularmente confusa. Ela se lembrava como se fosse ontem do ataque de raiva que ele tivera diante da notícia do abandono dela. Então o que mudara?
Sem dizer nada, o garoto de cabelos brancos passou por ela, indo interceptar a confusão que começara por uma competição pela escolha de espadas. Em menos de um minuto Hitsugaya já tinha resolvido tudo, os alunos organizados novamente em filas.
— Quem será o primeiro? — perguntou, erguendo a sobrancelha esquerda num tom desafiador.
Momo teve que segurar para não deixar o seu queixo cair. Hitsugaya queria que eles lutassem contra ele? Ela tinha certeza absoluta que nenhum professor da Academia Shinigami usava tal método. Quando ele pediu para pegarem as espadas, ela supôs que iriam treinar entre si, aluno contra aluno.
Realmente, Hitsugaya Toushiro era muito presunçoso. Sempre querendo exceder os limites, destacar-se em meio à multidão. Orgulhoso, à parte Hinamori ainda esperava o dia em que ele se afogaria na própria dignidade, e morderia a língua, arrependendo-se de tudo o que já falara.
Um dos alunos deu um passo à frente, separando-se do grupo de estudantes. Ele era moreno, os cabelos curtos, e portava de um físico digno dos shinigamis do décimo primeiro esquadrão. Ele segurava a espada com confiança, e postou-se perante Hitsugaya com um sorriso quase que malicioso.
Hinamori conseguia, sem esforçar-se muito, imaginar aquele garoto passeando a noite com Yumichika, Ikkaku e outros bebendo saquê e arrumando brigas simplesmente "porque ele podia".
A espada do futuro-shinigami bateu contra a de Hitsugaya, indicando o início da luta. Hyourinmaru estava selado, obviamente. Momo perguntou-se se, depois de algumas aulas, ele ousaria lutar contra os estudantes com a zanpakutou liberada. Bom, ela não duvidava de nada, Hitsugaya era capaz de forçar as pessoas ao máximo.
A luta foi concluída em poucos segundos. Hinamori não prestara atenção, então não sabia quais golpes eles usaram. Porém o jovem capitão não deixou um sermão passar:
— Ansiedade e afobação são capazes de mata-los numa luta. É preciso pensar com clareza e calma não importa em quanta pressão você estiver sob. — disse, passando uma das mãos pelo cabelo branco, um gesto que Momo reconhecia como um costume dele de quando via algo que não o agradava. — Próximo? — perguntou, fitando cada um dos alunos.
Novamente, o frio tomou conta do corpo de Hinamori, e ela cruzou os braços, desconfortável. Outro estudante voluntariou-se, e dessa vez Momo estava tão distraída que ela nem se deu ao trabalho de ver quem era.
Olhou através da janela ao seu lado — o pátio da Academia Shinigami estava vazio, uma vez que todos estavam tendo aula agora. Hinamori chegou a pensar na hipótese de ver a aula de Haicai de Kira, só para agradar o seu amigo.
Porém antes que pudesse decidir algo, seus olhos focaram-se novamente na imagem a sua frente, despertando. Hitsugaya estava apontando a sua zanpakutou em direção ao pescoço de uma garota com longos cabelos vermelhos. A expressão dela estava tomada de medo, e ela parecia estar desesperada, sem saber o que fazer.
Exasperação penetrou no corpo de Momo em ondas esporádicas, seus olhos estreitando diante de tal cena, e ela não conteve a sua raiva. Como era possível ele fazer isso? Ameaçar uma garota indefesa? Ah, mas claro, a desculpa dele era provavelmente algo como "é preciso aprender na prática".
De repente a dor da Hyourinmaru atravessando-lhe à tona, e ela passou inconscientemente a mão no centro do seu peito, e mesmo através do tecido do uniforme, ela ainda era capaz de sentir a cicatriz que não saíra de forma alguma, não importando o quanto Unohana-taichou se esforçara para assim fazê-lo.
Como a luta estava claramente terminada, Hinamori decidiu dar um passo para frente, fitando Hitsugaya de forma que ela transmitisse toda a sua irritação somente pelo seu olhar. Sua raiva queimava feito fogo dentro de si, quente, em comparação com a reiatsu congelante que o capitão de cabelos brancos possuía.
— Ei, Hinamori. — ela estranhou o tom tão informal que Toushiro usara para chama-la.
— Sim? — ela respondeu distraidamente, sem se dar ao trabalho de virar-se para vê-lo, reprimindo um suspiro cansado. Não, ela não queria lidar com isso agora. Deuses, por que eles nunca facilitavam as coisas para ela?
— Ei, Hinamori. — repetiu, envolvendo o pulso da tenente com a sua mão direita, fazendo-a, assim, parar de andar para olhá-lo.
— Eu estou ocupada. — declarou Momo. Ela estava mentindo, é claro — ela já tinha feito todos os relatórios necessários, e verificado a papelada do dia.
As sobrancelhas pálidas franziram-se de frustração, Toushiro lançando-lhe um olhar duro, ficando ainda mais irritado ao perceber que a menina não estava realmente vendo-o. Aquilo simplesmente o matava — assistir, impotente, Hinamori afogar-se em más recordações, sem aceitar nenhuma das mãos estendidas para ela. A garota estava em pé a sua frente, mas somente de corpo — sua mente estava em outro lugar — um lugar provavelmente doloroso.
Ela sentiu um prazer secreto ao perceber que surpresa agora era exibida nos olhos turquesa que um dia ela admirara tanto a sua beleza. Então a melancolia engoliu tudo dentro de Hitsugaya, e a única razão que Hinamori notara isso foi por conhecê-lo há tanto tempo.
Não importa o quanto você tente esconder o que está sentindo, eu sempre serei capaz de fazê-lo contradizer-se a si mesmo, pensou Momo, sua cabeça tombando levemente para o lado enquanto analisava o fato que Hitsugaya ainda não levantara a sua guarda, sua postura relaxada.
Ela desembainhou Tobiume, afastando-se mais da fila de alunos, até ficar frente ao — agora — seu professor de Zanjutsu. Murmúrios e sussurros podiam ser escutados vindos dos alunos. Hinamori escutou alguns — Eles são amigos, não são?; Ela é tenente, então não precisa fazer isso; ou Ela já tem shikai, o que ela está fazendo aqui?—, mas decidiu ignorá-los. Isso podia ser um pensamento convencido, mas eles não eram dignos de sua atenção.
Sim, agora a única coisa na qual Momo podia se concentrar era em estudar na Academia Shinigami, para poder manter o seu esquadrão, tornar-se mais forte. E também tinha que focar-se no capitão à sua frente.
Por um instante ela viu uma breve preocupação passar pelos olhos de Hitsugaya, para logo ser substituída pelo olhar que ele dava quando estava diante de um dever. Momo e Matsumoto costumavam rir da expressão que Toushiro fazia quando organizava a papelada do décimo esquadrão — suas sobrancelhas se franziam, deixando o seu rosto tomado por uma careta que transmitia todo o foco que ele tinha dirigido ao dever.
Hitsugaya tinha um forte senso de profissionalismo. Talvez tivesse sido ele que sugerira a renumeração do cargo de Momo, notou ela.
— Hinamori. — sua voz agora estava dura, séria. Já fazia semanas que ele presenciava isso, e já estava ficando cansado de fazê-lo. Afinal de contas, paciência nunca fora uma de suas virtudes.
— Toushiro. — ela disse fracamente o seu nome, e sua expressão facial dava a impressão de que ela era tão frágil quanto uma boneca de porcelana. — Por favor. — pediu em um murmúrio, o desespero claro nas duas palavras ditas.
A sua mão no pulso dela deu um leve puxão, de forma que Hinamori ficou frente a frente com o capitão, sendo incapaz de fugir do seu olhar preocupado.
— Momo... — um suspiro escapou por entre os lábios do garoto de cabelos brancos. — Por que você insiste em recusar a nossa ajuda? — seus olhos estavam recheados de pena, e a garota simplesmente detestava isso. Ela não queria aquilo — que as pessoas a chamassem de coitadinha, ou tentassem, em vão, confortá-la, quando na verdade faziam isso por pura educação.
— Não. — ela balançou a cabeça, tentando esclarecer a confusão em sua mente. Hinamori tirou sua mão de dentro do aperto gentil de Toushiro. Essa era a última vez que isso aconteceria. Ela estava farta disso, já tivera o suficiente.
Hinamori flexionou os joelhos, aumentando o espaço entre eles, seus olhos estreitos enquanto observava o seu professor fazer o mesmo. Eles deram um passo para frente ao mesmo tempo, para cruzarem suas espadas. Momo sentiu uma corrente quase que elétrica passar por si enquanto Tobiume reconhecia Hyourinmaru, a zanpakutou com a qual lutara ao lado em diversas guerras, com quem treinara várias vezes.
O barulho de metal contra metal reverberou pela sala de treino, o tremor das lâminas percorrendo pelo corpo de ambos os adversários. Os estudantes estavam com os olhos abertos em expectativa por uma luta entre dois shinigamis que já possuíam os mais altos cargos no Gotei 13 e eram mais experientes do que eles.
Diferente com como fora nas outras lutas com os alunos, nenhum dos dois avançou após o início ter sido determinado. Hinamori sabia por experiência própria que afobar-se numa luta não adiantava nada — eram tolos os que pensavam que os que dão o primeiro golpe sempre vencem.
Invés disso, eles trocaram olhares, um lendo a postura do outro, tentando determinar qual seria o próximo movimento feito. Porém Momo conhecia muito bem a impaciência de Hitsugaya, e sabia que ele não aguentaria aquilo por mais tempo. Tendo noção disso, relaxou-se, ficando despreparada para a luta que estava por vir.
Os olhos do capitão estreitaram-se de suspeita, tentando compreender as intenções da garota. Logo sua expressão endureceu-se ao perceber que ela estava provocando-o. Com isso, a Hyourinmaru girou em suas mãos, antes de atravessar sibilando o ar, usando shunpo.
Hinamori foi capaz de bloquear o ataque simplesmente levantando a sua zanpakutou, o barulho metálico novamente tomando a sala. Ela deu um passo para trás, recuperando o equilíbrio que perdera devido à força exagerada que o capitão usara no golpe.
Aquilo tudo era simplesmente inacreditável. Momo achava que depois de todos os erros que Hitsugaya cometera, ele tinha aprendido algo. Afinal, ela tinha que admitir que ele era uma pessoa competente. Ela achava que ele estaria mais relutante com seus ataques, mas não, parecia que o seu senso de dever falava mais alto.
Hinamori sentia pena dele por isto. Pena e raiva.
Liberando toda a fúria que sentia, ela empurrou sua espada contra a Hitsugaya tentando pressioná-lo. Em resposta ele usou o shunpo para ataca-la pelas costas — que covarde, pensou ela, e deu um passo para o lado. Hyourinmaru assobiou enquanto cortava o ar, parando exatamente onde, momentos antes, estava a lateral do pescoço de Momo.
— Por que você não nos deixa ajudar você? — ele continuou divagando, sua mão levantando-se para afagar a sua maçã do rosto, mas Momo afastou o seu rosto no último instante. — Não faça isso. — ela percebeu que ele tentava ser delicado com suas palavras, mas, por sua vez, estava falhando completamente. — Hinamori — sua voz endureceu novamente -, Aizen não merece o seu pesar. Não vale a pena desperdiçar a sua vida arrependendo-se por aquele homem. — foi cortante.
— Meus problemas com a traição de Aizen-taichou não concernem a você. — Momo tinha sido tomada por pura frieza. Por que as pessoas não entendiam que ela queria ficar sozinha? Isso era pedir muito?
Sim, de fato talvez fosse. Era só observar as pessoas a sua volta. Ela não conhecia uma pessoa que fosse genuinamente feliz. Principalmente os que escondiam todas as suas tristezas detrás de um sorriso falso. Ela sabia muito bem que não importava como você era — seja descontraído feito Matsumoto ou uma pessoa seca como Kira -, todos tinham problemas. E nunca alcançariam a felicidade completa — tanto Matsumoto quanto Kira eram assombrados pelas suas lembranças com Gin.
Estendendo rapidamente o braço com o qual segurava Tobiume, ainda de costas para Toushiro, apontou a sua zanpakutou em direção a barriga dele. Diante da ameaça, o capitão de cabelos brancos relaxou, saindo da sua postura de luta.
Eles dois sabiam muito bem que aquela briga era meramente figurativa — Toushiro não usara o seu shikai, Momo não recitara nenhum kido —, e por experiências passadas eles também tinham consciência de que o placar entre si estava empatado.
Ela afastou-se dele, voltando para o seu lugar na fila. Aquela ação fora carregada de gelo e indiferença, tão fria quanto a reiatsu do seu "professor".
Hinamori sabia que vingança não levava a lugar algum, mas ela não conseguiu impedir o contentamento que tomou conta de si.
Ignorando os sussurros dos outros estudantes, voltou sua atenção para Hitsugaya. Ele, por sua vez, mostrava-se apático com o que acontecera instantes antes, mas Momo o conhecia bem o suficiente para saber quando ele ficava abalado com algo.
A garota sorriu internamente com isso.
— Hinamori, nós só queremos ajudá-la. — agora a expressão de Toushiro estava rígida, ao ter consciência da seriedade da situação. Momo estava no seu limite, percebera ele. A garota notou como ele falava no plural — ajudarmos, queremos. Então aquilo tudo não era em si uma questão de amizade, e sim o seu amigo cumprindo os seus deveres como capitão.
— Por que diabos eu estenderia a mão para a pessoa que me esfaqueara mais de uma vez? — a voz de Hinamori era ácida enquanto ela dava a última cartada. Sim, magoar as pessoas próximas a ela era uma método eficaz para ficar, enfim, em paz.
Toushiro deu alguns passos para trás, perplexo. Seus olhos estavam arregalados, e internamente a garota ficara orgulhosa de si mesma por fazer o capitão quebrar a sua máscara impenetrável.
— Com licença, eu tenho alguns formulários para preencher, Hitsugaya-taichou. — e foi assim que Hinamori parou de chama-lo de Shiro-chan. E foi assim que a amizade entre eles dois terminou.
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