Ao meu anjo do elevador.
1 Carta a uma desconhecida.
Era 17 de junho de 2014 quando eu acordei mais cedo que todo mundo em casa, o relógio da sala marcava 05:21 AM. Extremamente frustrada pelo meu relógio biológico ter me negado mais uma hora de sono resolvi tomar uma xícara de café para despertar de vez e começar logo o dia, apesar de ser uma terça-feira e eu não precisar ir ao curso de inglês naquele dia, eu só teria que ir trabalhar às nove horas, então eu tinha três horas de vários nadas a fazer.
Apertei o botão do elevador umas quatro vezes seguidas enquanto tentava manter os olhos sonolentos abertos. Quando o marcador de andar iluminou o numero cinco a porta se abriu e eu me arrastei para dentro do elevador, ao me encarar no espelho noto certa beleza matinal no rosto sonolento e mal humorado. Os cabelos loiros e lisos presos sem jeito num rabo de cavalo jogado por cima do ombro direito e os olhos castanhos tristes. Um bipe avisou que eu tinha uma nova mensagem, levei a mão ao bolso do moletom, tirei o celular de lá e o destravei. Esfreguei os olhos com a mão coberta pela manga do casaco cinza e lembro que preciso dos meus óculos, que por algum acaso eu havia esquecido no apartamento. Bufei soprando a franja loira para fora do rosto e apertei os olhos para ler a mensagem. Quando minha visão se focou era como se algo entalasse na minha garganta e me impedisse de respirar.
“Por favor, volta logo.”
Voltei a travar o celular e o guardei no bolso, meu olhar se focou no nada tentando pensar no que significava aquilo. Era normal que ele sentisse minha falta como eu sentia a dele, éramos melhores amigos afinal. Mas parecia tudo diferente depois que eu resolvi ir embora da minha cidade natal, e falta que eu sentia dele era quase uma dor física.
– Porque tão triste menina bonita? – a voz que me tira dos meus devaneios é a mesma que me faz tomar o fôlego de susto.
– Desculpa, não vi a senhora ai. – sorri sem graça para a senhora no canto do elevador, ela acenou com a cabeça num sorriso compreensivo em seguida repetiu sua pergunta. – É só a saudade, ela anda me torturando ultimamente.
– Nunca diga “é só isso” ou “é apenas aquilo” – ela balançou a cabeça – Um furacão nunca é apenas um furacão. E parece que um passou pela sua vida, não é?
– Acho que sim – dei de ombros o mordi a parte interior da bochecha – Mas já estou arrumando tudo.
– Não adianta arrumar o guarda-roupa se o coração continua uma bagunça. Precisa de alguém para arrumar pra você.
Inconscientemente o rosto dele me invade a mente, na época eu não via outra pessoa na minha vida, mesmo que eu sentisse que nenhuma força na terra nos fizesse parecer certo, mesmo que eu tentasse encaixar nossas mãos sabendo que elas não pertenciam umas as outras. E eu sabia que minhas noites em claro estavam sendo desperdiçadas, assim como minhas lágrimas, ele já tinha outro amor, e naquela época eu disse para ele ser paciente, em outra manhã eu estaria com ele apenas de um jeito diferente, eu precisava mais dele do que ele de mim e isso não era certo. Eu não podia deixar que fosse.
– Eu não preciso – disse em voz alta – Eu não preciso de ninguém.
– Todo mundo precisa de alguém que precise de nós – ela sorriu e segurou em minhas mãos – Mas pra ser feliz você só precisa de um amor, o seu próprio. – Ela soltou minhas mãos, e passando uma das mão pelos meus cabelos desarrumados perguntou: – Você acredita em milagres, menina bonita?
Apertei os lábios em e balancei a cabeça, no momento em que chegamos ao térreo e as portas do elevador se abriram me distanciei dela.
– Hoje não. – respondi sem olhar para trás. Às vezes me pergunto se deveria ter dito que sim, mesmo não acreditando em milagres.
Pelas próximas semanas eu visitei cada apartamento daquele prédio, do primeiro ao oitavo andar. Mas eu nunca mais achei a sábia senhora do elevador.
Queria poder dizer a ela que as coisas estão diferentes agora, eu não acordo mais as 05h21 AM, nem pego o elevador para tomar café na padaria do saguão. Nem moro mais no quinto andar daquele prédio. Mudei a cor do cabelo, mas já estou pensando em mudar de novo, ele também não é mais comprido como costumava ser, mas acho que isso não faz diferença. Ah, e o garoto da mensagem? Nós não nos vemos mais, ele tem uma nova amiga, e parece que ela o ama melhor do que eu fiz. Eu não moro mais naquela cidade onde sempre estava nublado, e não preciso mais usar moletom também, mesmo que minhas mãos estejam sempre frias. Eu ainda não arrumei a bagunça do guarda-roupa, mas encontrei alguém que está arrumando a bagunça do meu coração. Eu o amo, mesmo sabendo amar. E ele me ama mesmo que eu não me ame. E eu serei eternamente grata por isso. Agora quase dois anos depois eu acho que a te devo uma resposta digna: Eu acredito que ninguém nasce crendo, e quando a inocência nos é roubada perdemos a magia de acreditar. Até que aparece alguém e te mostra um lado diferente da vida, e você passa a ver o mundo melhor, você começa a se ver melhor pelos olhos desse outro. Então, sim, meu anjo do elevador, eu acredito em milagres. Porque ele é o meu milagre.
Atenciosamente, e eternamente grata, a menina bonita do quinto andar.
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