Ao infinito...
8 Capítulo 8 - Patience.
Notas iniciais
Não vou descrever a briga que se sucedeu após o encontro do com o gatinho, porque foi realmente desnecessária. Ele xingou o bichano de tudo quanto é nome da nossa língua e mais alguns outros que não consegui identificar.
Porém, depois de muitas ameaças da minha parte de que não iria mais alugar o quarto e que só ficaria se o gatinho ficasse, o maldito finalmente cedeu. Por causa do preço absurdo que eu pagava, é claro. Ele só ligava para dinheiro, obviamente. Mercenário desgraçado, miserable de um higo!
― Pois bem, aqui estão as regras —disse ele, entregando-me uma folha de caderno. Ele nem retirou as rebarbas.
― Que garrancho, hein. O que está escrito aqui? — resmunguei, lendo em voz alta: ― “O bi... bifano? Ah, bichano. O bichano não poderá trans... transitar? O bichano não poderá transitar pelo apartamento, nem deitar no meu sofá, nem respirar, nem miar...”
Tommy-essa era absolutamente insuportável. E não, não digo isso só porque ele me matou. Imaginem, eu, com remorso?
Digo isso porque, nas primeiras duas semanas que convivi com ele, esse maldito me fez passar um inferno! E eu, como uma anjo da guarda exemplar, aguentei tudo calada.
É sério.
Tá, ok, nós discutíamos praticamente todos os dias, comigo ameaçando acertá-lo no nariz e, nas brigas mais hardcore, nas bolas.
Ele era um babaca!
― Esse gato. Tira essa carniça daqui. Gato sujo, imundo, maldito ― resmungava ele, empurrando o pobrezinho com o pé.
― Tira esse pé fedido de perto do Hantaro ― rosnei.
― Você não vai pra faculdade não, garota? Já deu a sua hora já.
Mantive a calma e lembrei a mim mesma de que eu tinha uma missão, portanto deveria me focar nela.
― Cai dentro! ― respondi, levantando os punhos cerrados, numa posição de ataque extremamente profissional
Tommy-essa revirou os olhos e bufou, levantando as mãos em rendição.
― Você é ridícula.
Dito isso, virou as costas e saiu pisando firme.
Babaca.
Xinguei-o baixinho enquanto me abaixava para pegar Hantaro no colo. Ele me olhava assustado, com seus olhinhos verdes remelentos.
― É, vou te dar um banho agora, Hantaro ― disse, sorrindo com o novo nome.
∞
A música realmente foi criada para nos transportar. Seja emocionalmente ou cronologicamente falando.
― Você não adora esse lugar? ― indagou Dana, com o tom de voz elevado para que sua voz sobressaísse o barulho da música que ecoava alta no pub.
― Rockabilly, baby! ― berrei de volta, sendo puxada por uma mão desconhecida, sendo rodopiada duas vezes antes de balançar no ritmo da música.
Sim, eu realmente adorava aquele lugar.
A decoração retrô anos 60 me atraía, assim como as pessoas e o ambiente em si. Pessoas dançando, drinks gostosos, hambúrgueres e games.
A mão desconhecida que havia me puxado pertencia a um amigo meu, que gargalhava alto devido ao nível de álcool que havia ingerido.
― Você está linda, Angeles! ― exclamou, puxando-me junto a ele e logo me afastando, conforme o ritmo nos conduzia. Dançar Rockabilly era realmente muito divertido.
― Obrigada, Elvis! ― brinquei, referindo-me ao topete e jaqueta de couro que ele usava naquela noite.
Meu vestido se agitava conforme o álcool que eu havia inserido fazia efeito e meus movimentos tornavam-se mais rápidos e elaborados.
― Mais perto ― murmurou ele, puxando-me pela cintura.
Meu amigo estava claramente bêbado, com os olhos semicerrados e um sorriso maroto.
― Você viu o Benjamin por aí, Marcel? ― indaguei, sentindo-me um pouco incomodada com o jeito que meu amigo passava a me olhar.
― Não... ― resmungou, esbanjando um sorrisinho de lado. ― Mas ele obviamente não nos viu!
Marcel gargalhou alto da própria piada.
― Haha ― ri, sem humor algum.― Chega de dançar com você por hoje, bonitão.
Saí andando, um pouco chateada com o comentário de Marcel, mas acabei relevando por conta da quantidade de álcool que ele havia ingerido.
Esbarrei em alguns casais que rodopiavam pela pista, ficando um pouco tonta ao olhar para as luzes que piscavam no local.
De repente tudo me incomodava. As luzes, as pessoas rindo alto, os esbarrões, a música ensurdecedora.
Sentia-me sozinha naquele lugar cheio de gente.
Um nó se formou na minha garganta quando me lembrei do Gabe. Andei rapidamente até a saída, respirando fundo e sentindo o ar frio da noite adentrar meus pulmões.
Tentei mentalizar os momentos bons que tive com o meu irmão, assim como sugeriu Dana numa conversa que tivemos dias atrás. Porém, a culpa que eu sentia pela morte dele não permitia que eu sentisse uma felicidade genuína.
Eu ria, mas no fundo me martirizava por não me sentir merecedora desse simples ato.
― Ôô, que broto¹ legal... Garota fenomenal... Fez um sucesso total... e abafou o festival. ― Sorri fracamente ao ouvir a voz de Ben cantarolando.
Fiz questão de me manter quieta conforme virava o rosto para procurá-lo. Observei-o caminhar calmamente pela calçada, batucando sua bengala.
―Eu logo que entrei... O broto focalizei... Ela sorriu, eu pisquei... E pra dançar logo tirei ― continuou a cantarolar, parando no meio da calçada e procurando algo no bolso de sua calça jeans, provavelmente seu celular.
― O broto então, se revelou! Mostrou ser maioral. A turma toda até parou, no rock androll demos um show ― cantei baixinho, vendo Benjamin rir e fazer um gesto com a mão para que eu me aproximasse.
― Puxei o broto pra cá ― cantou ele, se aproximando e puxando-me pela cintura. ― Virei o boto pra lá.
Ben virou-me de um lado para o outro, largando a bengala e fazendo-me rodopiar, gargalhando alto.
― Ei, eu estava te procurando! ― Ouvi Marcel exclamar, andando rumo a nós.
― Eu vim tomar um ar e procurar pelo Ben ― expliquei, ainda abraçada nele.
― Eaí, Benjamin ― saudou Marcel, parecendo mais sóbrio do que há instantes atrás.
― Oi ― respondeu Ben secamente.
― Vamos entrar, gente, lá dentro está uma loucura! Quero dançar com você de novo, Angel!
Senti Ben se enrijecer e percebi na hora que ele havia ficado bravo pelo fato de eu ter dançado com Marcel.
― Estamos bem aqui, Marcel. Dana estava te procurando, melhor você entrar ― menti, torcendo para que ele acreditasse.
― Tá, então ― rebateu desconfiado, mas sorrindo logo em seguida. ― Até mais.
Ben só relaxou a postura quando não se era mais possível ouvir os passos de Marcel.
Meu coração batia forte diante daquele silêncio. Eu tinha certeza que Benjamin estava magoado, porém o medo de dizer algo e piorar ainda mais a situação era maior do que minha vontade de pedir desculpas.
Um suspiro baixinho saiu pela boca de Ben e bateu morno no meu rosto.
Seus braços me rodearam mais forte, num abraço que demonstrou exatamente o que me fazia amá-lo cada vez mais.
Compreensão. Humildade. Amor.
Tê-lo comigo era quase como um sinal divino de que a vida ainda podia ser colorida.
Perder alguém que amamos torna tudo seco e esfarelado, os dias ficam repetitivos, o organismo trabalha apenas por sobrevivência e você não enxerga graça em realizar qualquer atividade. É exaustivo.
― Me desculpa. Não fiz por mal ― consegui resmungar, com a voz abafada pelo peitoral do meu namorado pressionado no meu rosto, naquele abraço esmagador.
― Eu sei... ― murmurou. ― Mas não me sinto bem sabendo que você dançou com aquele japonês inconveniente. Posso não enxergar, mas tenho meus contatos. As pessoas me dizem que ele é louco para ficar com você.
― Como você sabe que ele é japonês?
― A Diana me contou.
Revirei os olhos.
― Não precisa se preocupar, você sabe que o que eu sinto por você supera qualquer coisa, corazón ― declarei, levantando o rosto para encará-lo.
Ele sorriu e eu juro que senti nossos corações baterem juntos naquele momento.
Éramos um.
∞
Após dar um belo banho no Hantaro, decidi tomar um também e comer alguma coisa, pois já estava anoitecendo.
Adivinhem? Não tinha absolutamente nada nos armários da cozinha do Tommy. Eu senti pena da pobre garotinha que vivia com ele, porque, poxa vida! O cara era um largado.
Balancei a cabeça em negativo, discando o número de uma pizzaria qualquer. Fiz meu pedido, sentando-me no sofá logo em seguida, olhando fixamente para a tela desligada da televisão e pensando oque diabos estava fazendo naquele apartamento.
Quando “desci” para a terra, vim totalmente no escuro, sem saber por onde começar para dar início à minha missão. O primeiro passo de conseguir o quarto já foi dado. Porém o que eu supostamente devia fazer naquele momento?
Pensei no maluco do meu instrutor e no que ele deveria estar fazendo. De repente bateu uma saudade da face raivosa que ele fazia quando eu o irritava e das bochechas coradas. Ah, Enziel, o que eu devo fazer?
Ouvi um pigarro e me assustei com a silhueta do meu assassino apoiada no batente da porta.
― Você disse que não usava drogas ― declarou.
Olhei pra ele com a expressão confusa.
― Faz mais de quinze minutos que você está sentada estática nesse sofá, olhando para a TV desligada.
― Eu só estava pensando numas coisas.
― Em drogas?
Trinquei o maxilar, já irritada. Sim, ele exerce esse poder sobre mim.
― Onde está a Rô? ― indaguei.
― Ela não mora aqui, ela mora com os meus avós, no térreo.
― Hum, ela disse que brincaríamos a tarde toda. Ela passa muito tempo aqui?
Tommy-essa revirou os olhos e entrou no apartamento, trancando a porta.
Hantaro apareceu saltitante na sala, ronronando e fazendo gracinhas.
Assim que colocou os olhinhos verdes na figura do Tom, paralisou. Os dois ficaram se encarando, e, para minha surpresa, Tommy-essa arreganhou os dentes pra ele. O pobrezinho soltou um miado estridente e num rompante, desapareceu do cômodo.
― Eu não vi isso! ― exasperei, balançando a cabeça negativamente.
O moreno empinou o nariz e saiu andando para seu quarto como se nada tivesse acontecido.
Homens... Vai entender o que se passa na cabeça deles!
∞
Após minha pizza sabor portuguesa chegar e o maldito do Tommy-essa comê-la quase inteira, decidi tomar um banho e ir dormir, pois no dia seguinte teria faculdade bem cedinho. Estava ansiosa, pois mesmo quando era... bem, como posso dizer? Viva? ... Isso, mesmo quando era viva, nunca havia chegado a cursar alguma coisa.
Deitei na cama, que era extremamente confortável por sinal, e logo caí no sono.
― Angel? ― Ouvi uma voz suave me chamar.
Abri os olhos assustada, contudo sabia que não estava acordada.
Olhei ao redor, deliciando-me com a visão do meu paraíso e sorrindo genuinamente.
Havia se passado apenas um dia, contudo a saudade que eu sentia daquele lugar esmagava meu peito.
― Ezazel... ― sussurrei de volta.
Uma mão quente tocou meu ombro nu, fazendo-me reparar que estava com meu vestidinho branco como de costume.
Uma risada suave acariciou meus ouvidos.
― Você está fora apenas um dia, mas mesmo assim foi o dia mais repleto de paz que eu já tive.
Fechei a cara e me virei para encará-lo.
― Ei, é assim que me recebe, mocinho? Pode dizer que estava m-o-r-r-e-n-d-o de saudades, baby!
Ele jogou a cabeça pra trás e riu, balançando a cabeça.
Sua mão tocou minha bochecha e ele piscou.
― Nunca.
Ri também, segurando sua mão.
― As coisas estão fluindo bem, eu acho. Sabe, lá embaixo, na Terra... Ou, sei lá, no outro plano espiritual, no outro planeta, onde estão os humanos vivos e...
― Calma, senhorita Angeles! Você está muito afobada. E eu sei tudo que acontece lá. Quando te batizei, ficamos interligados... Sinto tudo que você sente. É como se fôssemos um.
Engasguei diante daquela situação e comecei a ter uma tosse linda de cachorro louco.
Enziel me olhou preocupado e sem graça, dando tapinhas nas minhas costas.
― Vo-você vê tudo que eu vejo também?
Agora quem fechou a cara foi ele.
― É, eu vi o jeito que você olhou aquele moço loiro na rua. E sorriu pra ele. Foco na missão! ― bronqueou ele
― Ei, eu sou humana! E o que é belo, serve para ser admirado, corazón. ― Pisquei pra ele.
― Você não tem jeito, né? ― Sorriu.
Sentamos na grama e eu me espreguicei, olhando para o céu. Começava a anoitecer e algumas estrelas, brilhantes e pequeninas, pipocavam por aquela imensidão negra.
― Eu estou com medo, Enziel... Tenho medo toda vez que olho pra ele, tenho medo de fracassar, tenho medo de algo acontecer, sabe? ― desabafei, suspirando pesadamente logo em seguida.
― Eu sei, Angel... Sinto como fica apavorada perto dele. Não é uma tarefa fácil, não é mesmo? Mas, quer saber de uma coisa? Se você foi designada para uma missão tão dolorosa e difícil, significa o quão forte você é interiormente. Você pode estar com medo, contudo, está lá, firme e forte para fazer o bem para quem lhe tirou a vida. O Pai te escolheu porque sabia do amor extraordinário que você guarda no peito, apesar de tudo que passou. E eu te admiro muito por isso.
Meus olhos lacrimejaram ao ouvir palavras tão lindas e puras como aquelas.
― Obrigada... ― sussurrei sinceramente.
― Acredito que pessoas que sofrem na terra são as que têm a maior quantidade de amor dentro delas. São pessoas escolhidas para servirem de exemplos àquelas que não têm forças para continuar. Mostram como a dor e o sofrimento podem ser superados.
Deitei-me na grama, com meu mentor ao meu lado, e mirei o olhar para o céu escuro. As estrelas brilhavam, como se me desejassem sorte.
Fechei os olhos lentamente, sentindo uma brisa morna acariciar minha pele, trazendo-me uma sensação maravilhosa de paz e conforto. Minha respiração tornou-se mais calma e regular e meus músculos relaxaram.
― Linda, como um anjo... ― ouvi Enziel sussurrar, antes de cair no sono.
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