Ao coração que jaz despedaçado.

1 Ao coração que jaz despedaçado


Notas iniciais
Esta, infelizmente, não é uma história com final feliz. Eu nem diria que ela é feliz.

Mas, se você der uma chance a ela, entenderá que é um desabafo de uma pessoa cansada de estar apaixonada pela mesma pessoa há muito tempo.

Algumas vezes nos apaixonamos pela pessoa errada. Não se sabe se o destino é cruel, se o cupido é sádico ou se o coração é incrivelmente burro, mas a pessoa pelo qual nos apaixonamos é justamente a que não conseguimos evitar. É aquela que senta à sua frente, que mora ao seu lado ou que está em um cargo maior do que o seu e você precisa reportar tudo a ela.

Catarina se sentia um estepe e as vezes um espelho. Ela se apaixonou por um colega de escola que sempre estava por perto, sempre sentava na carteira a sua frente ou na detrás e sempre fazia questão de pegar o mesmo ônibus que ela quando queria ter certeza de que a paixão a queimava.

Todo ser humano que um dia fora amado, sabe que ser amado é viciante. Você deseja que a pessoa lhe dê atenção quando você chamá-la, deseja que ela lhe sorria e confirme que naquele dia você está bonita, deseja presentes bobos vindos sem motivos. Ser amado, ser desejado, ser querido é viciante demais para que Flávio, o garoto que Catarina é apaixonada, permitisse que ela deixe de querê-lo.

“Você é bem fofa. Podíamos sair qualquer dia destes.” Ele, um dia, escreveu. Ali iniciou o ciclo de Catarina.

Fora em um papel rasgado do caderno pautado. A letra elegante, as bochechas vermelhas e os olhos fixos nos rabiscos que a caneta fazia. A frente, o professor escrevia na lousa, os colegas copiavam a matéria em seus cadernos e a escola gemia seus incômodos característicos.

Era, ali, para ser um dia normal e pacato. Catarina chegaria à escola, encontraria os amigos, talvez conversaria algo banal com Flávio e voltaria para casa pensando que ele era bonito, mas inalcançável.

Não fora um dia normal. Não fora uma conversa banal. Tudo estava errado.

“Acho que sim”. Ela rabiscou com sua letra feia.

O papel retornou pouco depois.

“Acha? Eu preferia uma certeza.”

Catarina sorriu ao escrever sua resposta, mas quando foi entregar o papelzinho rasgado tremeu. Os olhos dele queimavam para ela. Havia a vergonha da timidez, havia um desejo que ela nunca saberia se fora genuíno ou maquiado. Havia o arco do cupido cuspindo a flecha envenenada. Havia o destino rindo do futuro que ela desconhecia.

E depois daquele dia, onde ela rabiscou “Só estou tentando ser fofa. Me manda uma mensagem para combinarmos melhor”, Catarina entenderia que, as vezes, nos apaixonamos pela pessoa errada. Seja esta pessoa um colega de trabalho, um vizinho, um parente.

Ao entardecer, a conversa fluiu através de mensagens trocadas pelo celular. Ele a queria naquela noite, mas ela não poderia ir. Depois ele não teve mais tempo. Tinha uma viagem naquele fim de semana, depois já tinha um compromisso. A resposta vinha demorada, horas ou dias depois. Viria algo como “Não dá, desculpa”.

E ela foi murchando. Desencanando, entendendo, aceitando. O coração, para aqueles que nunca se decepcionaram com a paixão, ia apertando, doendo (doendo mesmo, como se gravetos finos e gélidos o apertassem até quase explodir), esfriando.

Na escola, as coisas não mudaram. Ele sentava a frente dela ou atrás, raramente conversava algo trivial, vivia como se nada tivesse acontecido.

Como se não houvessem mensagens carinhosas gravadas no celular, como se no caderno não tivesse uma folha com um pedaço faltando. A vida, seguiu. O cupido foi picar outras pessoas. O destino, ali, não riu.

Ninguém riria.

Catarina, semanas depois, conseguiu seguir em frente. Aparentemente, o coração para de doer quando nada de novo acontece, quando o cérebro já cozinhou o assunto mais do deveria e quando as lágrimas ardem ao sair. Parece que, depois que você enlouquece, só há o caminho do desistir.

Foi assim que Catarina conseguiu erguer os braços e se esticar. Foi assim que ela conseguiu sentir o ar fresco de um novo dia, da esperança, da superação. Foi assim que, meses depois, ela, pouco depois de chegar em casa, puxou o celular do bolso e sentiu o coração parar.

Fávio tinha mandado uma mensagem, tinha tirado um segundo de seu dia para falar com ela, para dizer que, naquele dia, ela estava bonita.

Flávio, como qualquer ser humano, não queria ser deixado de lado. Não queria que deixassem de amá-lo, não queria perder seu estepe, sua rota de fuga, sua segurança. Ele queria a oportunidade em aberto.

Ele teve a coragem dos covardes.

Como uma vela que estava para apagar, ele protegeu a fagulha que ainda queimava, impediu que o vento extinguisse a chance que ainda brilhava, acariciou-a com suas palavras, beijou-a com um pouco mais de esperança. Flávio tirou a noite de sono de Catarina, naquele dia e nos próximos.

Marcaram, então, de sair naquele fim de semana. Só tinham que esperar um dia, aguentar por pouco mais de vinte e quatro horas. Para Catarina, que já tinha esperado por mais de um mês, não faria diferença.

Naquele fim de semana, ele não pode ir. Nem no outro. E devo dizer, que muito menos nas próximas semanas.

Como argumento, devemos deixar claro que o cupido é tolo, cruel e desastrado. Sem querer, sem esperar, sem controlar, Flávio se apaixonou por uma garota de outra turma. Ela era linda, extremamente compatível com ele e tinha beijos impecáveis. Era uma garota adorável, que ele queria mais do que uma simples ficada. Queria que ela fosse sua namorada, sua amiga e confidente. Flávio estava inflado por um sentimento que ninguém controla.

A paixão é algo lindo. São duas pessoas que sorriem uma para a outra, que se beijam num ritmo único, que abraçam, aspiram a essência daquele lhe faz companhia, se hipnotizam um pelo outro e colorem a vida com cores exclusivas.

A paixão é uma dádiva, Catarina percebeu.

Pois quando os olhos dela tiveram o privilégio de ver Flávio tão apaixonado, quando ela viu os lábios unidos, quando tudo aquilo lhe inflamou os olhos, ela se quebrou.

Possivelmente ela nunca tenha sido, para ele, mais do que um estepe. Um pneu que guardamos para quando outro dá problema. Talvez, tudo não tenha sido uma brincadeira, eles podem não ter sido mais do que duas peças diferentes e incompatíveis, talvez... Talvez... Talvez as perguntas nunca tenham um fim. Ela, por muitos anos, sentirá o coração sangrando, as garras perfurando, as pernas fracas, as lágrimas sem freios, a cabeça inundada em questões sem sentido e respostas.

Catarina, que sempre acreditou ter sido um estepe, agora se sentia um espelho. Daqueles que tem um efeito, que embelezam as pessoas que se olham por ele, que engrandecem os fracos, mas se despedaçam quando encontram uma marreta.

Flávio fora, desde o início, a marreta que destruiria Catarina. Independente da situação, do momento, do desejo. A ordem dos fatores nunca mudaria o resultado daquele problema: uma marreta sempre quebra um espelho fino.

Para este pequeno coração que jaz despedaçado, fica um recado:

Uma paixão tende a ser avassaladora. Ela domina um corpo regido pelo coração, mas nunca se mantém eterna. Quando se machuca assim, quando se despedaça, deve-se respirar fundo e juntar os cacos. Quando se vi até o fundo do lago, deve-se manter a calma e pegar impulso até a superfície. Quando se machuca, deve-se deixar sangrar para que não inflame.

Algumas pessoas nunca estarão disponíveis, mesmo que elas digam o contrário.

Então, quando se apaixona, deixe que o ardor passe, zere suas expectativas, ignore.

Para os dias negros, lembre-se que o amar não é apaixonar-se.

Amar...

Bom, amar é uma outra história que começa muito parecida com esta, mas tem um final mais gracioso.

Notas finais
O que fazer para apagar uma paixão avassaladora?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!