Ao Tempo
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POV KATNISS
Passo a cerca, travando o maxilar que treme de frio.
Cada pingo que passa pela blusa e escorre em minhas costas é uma tortura, mas preciso seguir adiante.
Caminho perdida, não ligo para onde vou parar.
Depois de muitos minutos, percebendo que passei pela mesma árvore duas vezes, me acomodo num tronco. Dobro os joelhos me compactando, o frio tritura meus ossos.
Foi um erro deixá-los, mas preciso de um tempo sozinha.
É isso que faço quando estou assustada, fujo.
Corro mais do que minhas pernas possam aguentar. Admitir é difícil, sou orgulhosa.
Reflito dos acontecimentos que me aborreceram, todos se resumem a Delly.
A amiga de Peeta, tão inocente que chega a me dar náuseas.
Desde a escola tenho uma desconfiança e por incrível que pareça isso só piorou hoje, mas não aceito a resposta do porque.
Essas crianças se tornaram importantes pra mim.
São meus filhos.
Um amor bem forte fluia entre mim e Peeta, eu não iria concordar em dar duas crianças ao mundo atoa.
Abraço meu próprio corpo, mordendo a parte interna da bochecha, sentindo minha mente faiscar de tanto pensar.
Peeta Mellark se tornou mais que importante pra mim.
E isso é extremamente perigoso.
Tenho uma tendência em fugir desse tipo de coisa, sentimentos fortes demais para minha mente fraca.
Não estou acostumada, mas dessa vez é diferente.
Peeta é minha base, nos ajudamos a superar e enfrentar os obstáculos dessa realidade.
Fecho os olhos inalando o cheiro sufocante da grama molhada, lambo os lábios sentindo o gosto da chuva, o vento gelado que passa pelas folhas e se choca contra mim.
Ficarei resfriada, começo uma sessão de espirros incontroláveis.
Levanto me atrevendo a dar mais passos enfrentando fortes ventos e pingos que machucam meu rosto, o casaco ensopato e as botas escorregadias.
O resultado so poderia ser um tombo, ao escorregar um monte de folhas, caio sem ter onde me segurar. Rolo até um tronco podre caído, seguro me amaldiçoando por ter tido essa ideia horrível de continuar.
Os anos passam e continuo fazendo besteira.
Deitada sob um grosso véu de pingos, levo meus pensamentos a Prim e meu pai.
Como não lembrar dele aqui?
Ao seu lado entrei a primeira vez na floresta, arremecei minha primeira flecha, aprendi a usar um arco, dei minhas primeiras braçadas sob seu olhar atento no lago, matei meu primeiro animal para comermos carne depois de meses.
Oh pai.
Ele amaria conhecer Willow e Rye. E Peeta.
Apesar que provavelmente ele teria visto o menino quando ia a padaria vender os esquilos ao padeiro. Já estava premeditado nosso futuro juntos?
Estou certa em fazer isso?
Posso amar outras pessoas quando acabei de saber que perdi Prim?
E se elas forem tiradas de mim?
Ergo o corpo com dificuldade, meu antebraço direito lateja me mostrando que um arranhão está provocando um incomodo. Passo a manga do casaco e volto a pressionar meus joelhos a ficarem firmes.
—Vamos lá.
Preciso voltar pra casa!- reclamo voltando a cair, minha cabeça parece rodar assim que minhas pupilas fecham.
Agarro num galho fino da pequena árvore a frente, é fato que a terra úmida acompanhada de folhas molhadas tornam minha caminhada mais difícil.
A bota de couro bom fica sambando na sola do meu pé, mas nada é pior que o frio.
O vento mais a baixa temperatura, tornam cada passo uma tortura.
Respiro demasiadas vezes antes de conseguir ver a cerca, abraço minhas costelas até finalmente chegar na Vila dos Vitoriosos.
Demoro bons segundos até ter coragem de dar o próximo passo.
Antes de subir os dois degraus a porta abre, uma luz forte e um calor convidativo aparecem.
—Por Deus, Katniss!
Na tentativa falha de subir, caio.
Não indo ao chão graças aos ligeiros braços de Peeta.
Sou içada do chão, aceito sua gentileza com prazer, já que provavelmente irei desmaiar se tentar me mover.
—Não faça mais isso. Você me assustou, mulher.- solto um riso fraco pelo seu jeito de falar, está entre agoniado e bravo.
Mas Peeta ainda sim consegue ser fofo, apesar de parecer irritado.
Mellark e seus mistérios.
—Des... Desculpa.
—Não fale, está tremendo de frio. Precisa tomar um banho bem quente.- ele sobe a escada, esfrego o rosto em sua camisa, não me importo de estar molhando-o.
Seu cheiro me inebria, não sabia que era tão gostoso.
—As crianças...
—Dormindo. Tomaram um leite quente e resistiram o quanto puderam, mas achei melhor colocá-los na cama.
Ele empurra a porta com o pé me deixando sentada sobre a borda da banheira, regula os jatos de água.
Tiro o casaco, a bota e meias.
—Vou fazer um chá pra você.
Seus pés estão quase passando pela porta quando o impeço, gritando seu nome.
—Peeta!
Seu rosto vira, atento as minhas palavras.
—Obrigada.
Seu sorriso me bate. Prova que não importa se tomo a atitude errada, ele estará lá.
Porque Peeta Mellark é assim, o bom garoto que conheci.
Depois de uma ducha bem quente e aromatizada de lavanda, dou uma revistada para ver quais possíveis machucados adquiri. Fico feliz em ver que apenas o arranhão do braço e um corte no maxilar.
Foram nada comparado ao que podia acontecer.
Fui irresponsável, abandonei minhas crianças e Peeta.
Preciso voltar a floresta, mas em condições boas e nada perigosas.
Com um par grosso de meias cobrindo meus pés, chego a cozinha notando o loiro debruçado sobre o livro que tem nos ajudado.

Toco em seu ombro despertando sua atenção, num pulo minha risada sai ao notar o azul maior que o normal.
—Te assustei?
—Você e esses passos de caçadora.
—Força do hábito.- ele da de ombros, vira me entregando uma caneca com chá fumegante.
—Hortelã, seu favorito. Certo?
—Sim.- abro um sorriso de lado, satisfeita em perceber que meus gostos são interessados por ele.
—O que está lendo?
Esquento meus dedos gélidos na cerâmica colorida, passeio os olhos pelas palavras e imagens.
—Eu fui telessequestrado.- suas palavras saem baixas.
—O que é isso?- movo meu rosto até ficar próximo ao seu, onde posso analisar cada expressão e a falta dela.
—Usaram um veneno de Teleguiada em mim e bem... leia.
Seus dedos empurram o livro pro lado, observo seu olhar perdido antes de entender o que aconteceu.
Ao analisar pinturas e palavras, tenho minha resposta.
E não gosto nem um pouco.
—Foi minha culpa.
—O que?
Não, Katniss. Snow fez isso.
—Porque ele achava que você me amava!- recuo meus passos assustada com o fato de ter provocado tanto sofrimento a pessoa que só me fez bem.
—E eu amo!
Outro baque.
Meu estômago provavelmente está caído no chão junto ao meu queixo, imagino até onde as supresas e verdades irão.
—Eu amo você, Katniss Everdeen.
Ele suspira alto, não preocupa em esconder seus sentimentos.
Deixo a caneca sobre a mesa, temendo que a tremedeida que voltou, derrube todo o chá.
—Desde meus 5 anos.
Isso só é novidade pra você, todos sabem.
—5 anos?
—Lembra na aula de música quando você cantou?- assinto, a memória bem fresca.
—Você estava com um vestido vermelho bem engomado, sapatos limpos e duas tranças presas com fita.- ele sorri passando os dedos entre os fios, fazendo uma tormenta.
—Então...- o restante das palavras morrem, assim como as defesas que me cercavam.
—Meu pobre coração ficou abobalhado, eu ficava de olho em você todos os dias. Te via voltar pra casa, ir caçar, ir para a cidade com seu pai, passear em frente a padaria com Prim.
A primeira lágrima caí, algo pula inacreditavelmente alto. Meu coração suplica para ser atendido.
—Você não sabia quem eu era até...
—O pão.- finalizo, sabendo que é a verdade.
Eu não tinha tempo para garotos, antes e depois da morte de meu pai.
—Você os queimou de propósito?- sua afirmação encerra uma dúvida que eu tinha há anos.
—Apanhei, mas não importou quando você olhou pra mim.
Tão confusa, envergonhada e estranha.
Não sei definir quais sensações me capturaram, são intensas e avassaladoras.
—Então algo deve ter acontecido nos jogos, pois Snow fez minha mente ficar confusa.
Agora sei porque tudo ficou estranho aquele dia e quase te ataquei, você na minha mente era um perigo e meu lado "transformado" queria te atacar.
—Mas você não fez.
—Porque nesse momento não lembro de nada, o amor que tenho por você está intacto.
Como era quando eu tinha 16.
Encaro o chão, assustada em saber que Snow fez isso, por eu ser a razão e sobre seu amor escondido.
—Não fique pensando besteiras.
Nada mudará o que aconteceu, só podemos pensar e mudar o futuro.
Dou um passo a frente, seguro seu queixo querendo seus olhos nos meus.
Somos íntimos o bastante para que toques sejam permitidos.
—Desculpa.
—Katn...
—Não. Por favor, preciso fazer isso.- ele afirma fechando os olhos enquanto passo meus dedos lentamente por cada pedaço de pele de sua face.
Da raiz dos fios claros, as marcas quase inexistentes de pequenas cicatrizes, as pintas sob seu maxilar, a linhas dos olhos, o contorno da boca.
Um sentimento forte me impulsiona, trata de mostrar para mim mesma que Peeta para mim é bem mais que aquele garoto que apertei as mãos na colheita.
Oh, não mesmo.
Peeta Mellark é o amor da minha vida.
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