Ao Seu Segredo Meu Coração.
5 Um acontecimento pode colocar tudo a perder
Notas iniciais
À noite tão esperada finalmente chegou e todos da família Alves se reunirão em sua mansão para comemorarem o seu natal. Renato e sua família eram os convidados especiais. Fernanda estava tão radiante naquela noite que mesmo que tentasse, não conseguiria esconder sua alegria. A notícia do inicio de sua relação com Renato se espalhara rapidamente nos últimos dias e surpreenderam a quase todos – devido à rapidez ao qual o casal havia iniciado a relação. Mas quanto a Jonas, uma exceção, já que ele aguardava por aquilo desde o primeiro momento em que Renato e Fernanda se viram pela primeira vez.
A casa estava perfeitamente arrumada para receber os convidados. Na sala, além dos enfeites pelas paredes e no teto, no canto havia uma árvore de natal bastante enfeitada, com alguns presentes ao pé. Renato estava parado na sala conversando com Jonas quando seu celular tocou. Do outro lado da linha, Adonias falou alegre.
— Onde vocês estão Renato? Perguntou Adonias. – Eu estive em sua casa, mas não havia ninguém lá!
— Eu estou na casa do Jonas, que eu lhe falei! Anunciou Renato. Ele deu uma pausa e depois murmurou baixo, certificando-se de que ninguém o ouvia. – Eu estou decidido a fazer esta noite!
Adonias estava sozinho dentro de um quarto e assustou-se ao ouvir o amigo.
— Tem certeza de que não esta sendo rápido demais?
— Para que esperar mais se eu e Fernanda nos amamos? Renato sorriu. – Não há oportunidade melhor do que esta!
— Tudo bem, mas eu quero estar ai quando isso acontecer!
— Ótimo, estou lhe esperando! Renato desligou o telefone.
Adonias estava dentro daquele quarto de hotel e ao desligar o telefone, ele virou-se para Ana Karen, sentada na cama.
— Nós aqui neste quarto de hotel, tendo que passar nosso natal escondidos enquanto o Renato esta lá, prestes a se tornar noivo! Adonias caminhou até Ana. Ela se levantou rapidamente ao ouvir aquilo.
— Mas como noivo? Quis saber Ana, demonstrando-se interessada demais.
— Ele já havia comentado comigo que pretendia pedir Fernanda em casamento, apesar de ser cedo, afinal eles começaram uma relação há poucos dias. Mas me parece que o Renato esta decidido, o que mostra que ele ama aquela mulher!
Ana permaneceu pensativa. Tudo se repetiu em sua cabeça.
“O Cláudio não lhe contou o porque que estamos nos casando?” “Vocês se gostam e a maior prova esta dentro de você!” “Desculpe pelo que vou dizer, mas agindo desta forma, os dois estão sendo inconsequentes. Não estão prejudicando a si próprios, mas também essa criança. – Renato se inclinou no banco, falando baixo. – Imagina o quanto essa criança ira sofrer futuramente convivendo num ambiente repleto de enganos e mentiras!” Ela não soube o que dizer. “Não sei se é correto lhe afirmar, mas se você mesma disse isto, é porque não quer se casar e certamente essa seria a decisão mais sensata numa situação como esta!” E Renato e Ana se beijaram.
Ela sentiu novamente o gosto do beijo. Ana desvencilhou-se das lembranças para ouvir Adonias.
— Acho um absurdo nós agirmos desta forma, ainda mais se tratando do Cláudio. Eu queria poder contar para ele que eu e você estamos juntos mas tenho medo! O que ele ira pensar de mim quando...
— Não vamos pensar nisto agora, esta bem!
Ana se aproximou e se sentou ao lado de Adonias, lhe passando às mãos pelo rosto.
— Quando tudo estiver pronto, vamos nos revelar a todos. O Cláudio terá que entender!
— E quanto a esta criança?
Ana não respondeu por alguns segundos, se recordando do dia em que chegou à cidade. Logo ela falou.
— Não se preocupe com isto, daremos um jeito!
Eles se beijaram. Em seguida Adonias levantou. – Tenho que ir, minha família esta me esperando na mansão do Sr.Del Sales. Foram todos para lá e eu não posso faltar. Sinto muito que você tenha que ficar aqui sozinha.
— Eu arrumo uma maneira de me distrair!
Eles se despediram mais uma vez com um beijo rápido e em seguida Adonias deixou o quarto. Assim que a porta bateu, Ana correu até ela e a trancou, girando duas vezes a chave. Ela retornou a cama e pegou o telefone. Segundos depois de discar um numero, ela anunciou.
— Aconteceram alguns imprevistos... Venha até aqui, precisamos conversar, mas seja discreto!
Ela bateu o telefone.
Na casa havia cerca de vinte pessoas, a maioria convidados e amigos, já que os parentes não fizeram tanta questão de comparecerem a reunião na casa da família Del Sales. Luiz Augusto tentava disfarçar em meio a sorrisos e conversas agradáveis e descontraídas com seus amigos e colegas, porem o medo e a angústia estava quase que estampado em seu rosto. Domingas veio até ele.
— Doutor – Disse ela. Luiz se afastou de algumas pessoas ao seu lado quando a ouviu. – Eu estive no quarto do Cláudio e a porta esta trancada. Ele esta lá há horas e não sai!
— E o que eu tenho a ver com isto?
— Como assim seu Luiz, é o seu filho. Até quando vocês vão ficar assim sem se falar...
“Parece que será assim para sempre” pensou Luiz. Domingas continuou.
— Esta é uma noite de alegria, de harmonização e vocês agem desta forma, como se fossem os maiores inimigos um do outro. São pai e filho, oras!
Luiz nada anunciou. Uma mulher bem vestida e atraente se aproximou dos dois e falou aos sorrisos.
— Olá – Ela segurava nas mãos uma taça com vinho. – o que esta fazendo Luiz, junte-se a mim!
Luiz olhou para Domingas e deu de ombros.
— Se o Cláudio prefere passar a noite em seu quarto, eu não posso fazer nada!
Domingas virou-se e partiu enfurecida. Segundos depois, subiu ao andar de cima da mansão e caminhou até a porta do quarto de Cláudio. Ela bateu várias vezes.
— Oh, Cláudio meu querido, abra a porta, junte-se aos convidados! Ela batia na porta enquanto falava. – Não faça essa desfeita comigo meu filho... Você não quer que eu passe esta noite sem você, logo agora que você voltou depois de tanto tempo!
Cláudio permanecia sentado em uma cadeira diante da escrivaninha. Ele se olhava fixamente no espelho, como se alguém além dele estivesse ali, pouco se importando com as palavras e batidas de Domingas que inundavam o quarto. A voz grossa e desagradável falava repetidamente em sua mente: “Por que permitiu que sua noiva fizesse isso com você?” “Você não tem ideia de quem é sua noiva. Ela o esta enganando com seu melhor amigo e você não pode permitir que a Ana prossiga com isso. Você se julga um sujeito esperto, mas não passa de um rapaz burro e ignorante!”
Cláudio não poderia acreditar naquilo, ele não queria. Uma voz desconhecida – provavelmente de propósito para não ser reconhecida. – acusar Ana daquela forma. Ela não seria capaz de fazer o que a estavam acusando. Era injusto. Num ato inesperado e disperso, sem a intenção, ele abriu uma das gavetas da escrivaninha. Havia vários papéis, a maioria sem utilidade alguma. Cláudio remexeu e encontrou no fundo um envelope com um selo e palavras do destinatário escritos em espanhol. Aquilo despertou sua curiosidade.
Cláudio abriu o envelope e retirou alguns papéis. Ele não sabia ao certo ler a língua espanhola, mas o tempo em que estivera no México serviu para ele ter uma base sobre a língua. Traduzindo mentalmente algumas palavras, ele leu aquele papel e se espantou:
— Ana Karen Esmaz... Depoimento... Distrito policial, Acapulco, Vagner Miranda... Morte de Henriqueta Marinho!
No mesmo instante, Cláudio se recordou do dia em que Domingas entrara em seu quarto trazendo nas mãos aquele papel. O seu comentário ainda veio nítido na mente de Cláudio: “Achava que esse negócio dos correios estivesse fora de moda, mas vejo que não, afinal, a senhorita esta a tão pouco tempo aqui e já lhe estão chegando correspondências!”
Em seguida, Cláudio se deu conta de que nunca mais havia visto aquele papel, e mais que isso, nunca ficara a par do que realmente estava escrito ali. A justificativa de Ana era simples: “Problemas de família. Terei de viajar o quanto antes!”.
A imagem veio clara como um filme que Cláudio assistisse: Ana chorando no canto do quarto perante os policiais e peritos espalhados pelo quarto. Ela parecia chocada com a cena de Henriqueta morta a sua frente. “Esta jovem deparou-se com esta senhora já morta quando acordou esta manhã e, imediatamente chamou pelos funcionários do hotel”.
— Não pode ser verdade! Murmurou Cláudio.
Naquele momento Domingas já havia se cansado de chamar na porta e havia deixado o local sem Cláudio perceber. Cláudio sentou na cadeira se olhando no espelho, querendo colocar em ordem seus pensamentos. Impossível. O som do telefone o assustou. Cláudio olhou para o aparelho pensando se atenderia ou não. Ele não se conteve, a voz do outro lado da linha foi a primeira a se anunciar.
— Esta me ouvindo?
Cláudio pensou em desligar ao ouvir aquilo, mas anunciou.
— Alô, aqui é o Cláudio. Fale!
— Quero que me encontre esta noite. Vou te passar o local e a hora. Não falte!
Ao anotar o endereço e a hora, Cláudio disse.
— Por favor, antes me conte o que sabe sobre a Ana Karen!
— Eu não vou lhe falar nada por telefone, vou lhe mostrar pessoalmente. Encontre-me no local e na hora marcada! A voz sumiu.
O champanhe estourou e a tampa da garrafa voou pela sala e caiu na escada. Renato acompanhou com os olhos e surpreendeu-se ao ver Fernanda descer pela escada, radiante. Ela usava um vestido longo preto com estampa branca, sandálias de salto alto e os cabelos presos para trás. Ela nunca estivera tão bela quanto naquela noite. Renato se aproximou e novamente a segurou pela mão, enquanto Fernanda descia lentamente aqueles degraus. Todos a assistiram calados e surpresos com sua beleza.
Jonas recordou rapidamente da primeira noite em que Renato e a filha se conheceram, naquele mesmo lugar e da mesma forma. Eles formavam um casal perfeito, e Renato era a melhor pessoa com qual Jonas poderia confiar sua filha. Fernanda se juntou a todos os demais convidados, se destacando com sua gentileza e suavidade. Minutos depois, Renato encorajou-se.
— Com licença a todos, mas poderiam me dirigir a atenção, por favor! Pediu ele, subindo alguns degraus da escada para poder ser avistado pelos convidados. Assim que todos se calaram e se viraram a ele, Renato iniciou. – Obrigado! Ele tremia. – Vocês devem estar percebendo pela maneira como estou falando que estou nervoso, até porque nós só passamos por uma situação desta uma vez na vida e...
O celular de Renato tocou no mesmo instante. Ele atendeu confuso e envergonhado. Os convidados riram.
— Alô? Disse ele.
Uma voz desconhecida e desagradável falou. – Não faça isso! Eu sei bem o que pretende, mas você não será justo com ela!
— Quem esta falando? Renato ficou ainda mais confuso.
— Você pode estar gostando da Fernanda, mas ela não poderá pagar pelos seus erros! Continuou aquela voz fria e ríspida. – Quero que me encontre a meia noite no hotel Donna América, o número do quarto é...
Renato se desvencilhou dos olhares curiosos dos convidados e descendo da escada, ele se afastou das demais pessoas. Fernanda viu tudo de longe e deixou surgir em seu rosto uma feição de desapontamento, percebido por Jonas.
— Quem esta falando? O que pretende? Insistiu Renato, enfurecido.
— Você ira fazer o que estou falando, ou senão todos saberão que você dormiu com a noiva de seu melhor amigo. – Ao ouvir aquilo, Renato apavorou-se. – Quero que me encontre no hotel Donna América no quarto de número vinte e seis...
— Você não pode provar o que esta afirmando. Não há provas que mostrem que eu tive alguma coisa com a Ana Karen.
— Experimente fazer do contrario ao que eu estou falando e ai você saberá se estou blefando!
— Você quer dinheiro para não contar aos outros tudo o que sabe sobre mim e a Ana?
— Ao menos não por enquanto. Só o que quero é que me encontre no quarto que eu lhe falei naquele hotel... Não brinque comigo, pois não hesitarei em lhe entregar para o Cláudio caso você tente qualquer graça. E quanto àquela história de provas contra vocês, não se preocupe, esta conversa foi gravada desde o inicio!
A voz se calou. Renato ficou mudo em meio aos convidados. Ele olhou ao redor e assistiu a todos os convidados, tentando perceber qualquer reação suspeita e se policiando para não cometer qualquer erro que o pudesse entregar. Renato caminhou por aquelas pessoas e olhou em seu relógio a hora, os ponteiros apontavam 11h 15min. Ele tinha quarenta e cinco minutos para resolver aquela situação.
A porta se abriu tão violentamente que Ana assustou-se com o barulho. Adonias entrou naquele quarto de hotel exasperado, suas roupas estavam rasgadas e sujas, em seu rosto cortes e ferimentos. Ele entrou e se jogou sobre a cama, sem forças. Ana apavorou-se e veio em sua direção. Ao se aproximar, Adonias se remexeu sobre os lençóis brancos e os manchou de sangue.
— Oh meu Deus, o que aconteceu? Perguntou Ana, inclinando-se sobre a cama.
— Assim que sai daqui fui abordado por dois rapazes que tentaram me roubar – Adonias fazia um enorme esforço para conseguir falar. – Eu reagi e acabei apanhando deles. Os dois ainda me seguraram e me prenderam por alguns minutos... Foi horrível!
Ana sentou na cama em sua direção e começou a tirar as roupas de Adonias.
— Acalme-se. Vamos retirar essa camiseta e limpar os ferimentos... Depois eu te levarei para um hospital!
— Não, você não pode sair daqui, ou irão descobrir que você não viajou!
— Eu não vou deixá-lo neste estado! Ana levantou e pegando o telefone, discou para a recepção do hotel. – Por favor, chamem uma ambulância!
Cláudio chegou e estacionou o seu veículo sobre a calçada do hotel, debaixo de algumas árvores. Ele desceu de seu carro ainda confuso, mas disposto a seguir com aquilo. Ao caminhar pelos degraus da fachada do prédio, ele avistou Renato caminhando em sua direção. Os dois se olharam confusos.
— Cláudio! Disse Renato ao se aproximar do amigo. – O que esta fazendo aqui?
— Eu que lhe pergunto, o que você esta fazendo neste hotel!
Renato nunca revelaria o real motivo que o fizera ir até lá naquela noite. Ele inventou uma desculpa.
— Meu irmão Felipe, trabalha aqui e como ele ainda não compareceu a festa, eu vim procurá-lo. – Renato estremeceu. – E quanto a você?
Cláudio ágil da mesma forma, confuso e amedrontado, não querendo revelar o que lhe ocorrera.
— Eu não estava me sentindo bem na presença de meu pai na mansão. Se ao menos a Ana estivesse aqui...
— Ela não ira mais voltar? Renato demonstrou-se muito interessado.
— Claro que sim! Cláudio aumentou o tom na voz. – Eu e ela nos amamos e vamos ter um filho juntos!
Nesse instante eles começaram a caminhar e logo chegaram à recepção do hotel. O atendente anunciou a Renato.
— Por favor, o seu irmão esta esperando no 26° quarto, um dos nossos hóspedes sofreu um incidente e o Felipe foi dar uma assistência ao médico que foi chamado. – Logo o rapaz virou a Cláudio, suas palavras foram mais atenciosas e agradáveis. – Há um quarto disponível no mesmo andar. Aqui estão as chaves. O sujeito estendeu a chave a Cláudio. – Tenham uma boa noite e feliz natal!
— Obrigado! Disse Cláudio e Renato.
Eles seguiram ao elevador e em alguns segundos já estavam no andar onde deveriam estar. Eles caminharam lado a lado quando chegaram ao quarto número vinte e seis. Renato parou na porta e aguardou alguns segundos para bater, encorajando-se. Cláudio parou ao seu lado. Decidido a acabar logo com aquilo, Renato bateu e uma voz anunciou:
— Entre, a porta esta aberta!
Cláudio reconheceu aquele tom jovem no ato. Ana Karen estava dentro daquele quarto. A porta se abriu e os dois amigos olharam a cena absurda: Adonias caído na cama e Ana ao seu lado, apavorada. Sem ver os dois sujeitos, Ana anunciou.
— Oras Doutor, até que enfim chegou... Meu namorado se feriu durante uma tentativa de assalto e esta muito ferido! Ana virou-se e viu Renato e Cláudio parados a assistindo. Ana se calou no mesmo instante e se levantou. Ela e Cláudio se encararam.
— O que esta havendo aqui? Perguntou Renato, caminhando em direção à cama. Adonias viu tudo e se assustou.
— Eu que quero saber! Cláudio pronunciou aquilo diretamente a Ana, que se mantinha calada. – Vamos diga!
Adonias sentou sobre a cama, ainda fraco.
— Cláudio, acalme-se, nós iremos explicar tudo!
— Eu espero que sim, apesar de que para esse absurdo que estou vendo não tem explicação. Eu não quis acreditar no inicio, mas agora vejo que me enganei com você Ana Karen. Sua vagabunda...
Cláudio alterou sua voz e caminhou rumo a Ana enfurecido, Renato veio em sua direção e o segurou.
— Fique ai! Acalme-se! Disse Renato.
— Segure-o Renato! Gritou Adonias, se levantando da cama.
— Como foi capaz de fazer isso sua cretina safada. – Continuou Cláudio. Ana ficou apavorada. – Eu confiava em você...
Adonias se aproximou do amigo. Num gesto rápido Cláudio empurrou Renato que caiu sobre uma mesa derrubando os objetos no chão. Cláudio pegou Adonias pelos braços e lhe falou olhando nos olhos. Ele parecia estar dominado por uma força maligna.
— Há quanto tempo esta me enganando seu filho de uma puta desgraçado? Cláudio berrou. – Fale!
— Eu me apaixonei pela Ana desde o primeiro momento em que a vi. Eu ia te contar tudo, mas estava esperando o momento certo!
— Cale a boca Adonias! Anunciou Ana. Ela estava decidida a acabar com aquilo. – Se querem saber de toda a verdade, vamos confessar aqui tudo! Cláudio a assistiu confuso. Adonias se soltou de Cláudio e se virou a Ana. Renato permanecia caído no chão, com a boca sangrando pela queda. – Esta na hora de toda a verdade ser revelada. Não fique ai calado Renato, você é tão culpado quanto a estes dois aqui!
Renato se levantou. – Pare com isso, não diga besteiras que acabara complicando ainda mais esta situação!
— Parar? Você não disse isso quando ficou comigo dentro daquele veículo quando nos conhecemos! Nesse instante Cláudio se virou para Renato e se recordou da noite em que estava na empresa e pediu a Renato que levasse Ana para a mansão. – Entre nós dois aconteceu um desejo repentino e incontrolável. Nada além disso. Já a minha história com o Adonias foi muito além que um simples desejo sexual...
— Não! Cale a boca! Ordenou Cláudio. – Eu não sou obrigado a ouvir isso. Você me traiu com meus melhores amigos e quer justificar isso. Não há explicação! – Ele olhou Ana fixamente. – Tudo que planejávamos acabou aqui. E não pense que é apenas por isso que fez comigo, se envolver com esses dois canalhas que eu julgava serem meus amigos, mas eu sei também tudo que você fez no México quando nos conhecemos. – Ele baixou o tom da voz e falou como se fizesse uma promessa. – E você ira pagar!
Ana ouviu tudo calada.
— Assim como você fez da minha, eu vou fazer da sua vida um inferno! Cláudio se virou para Renato e Adonias. – E quanto a vocês dois, cretinos inúteis, nunca mais quero tornar a vê-los, ou senão serei capaz de uma loucura!
Cláudio calou-se. Antes de deixar o local, ele lançou um olhar frio e carregado de desprezo para Ana. Aquilo fora uma tortura para ela. Cláudio deixou o local rapidamente, batendo violentamente a porta. Quando ele passou pelo corredor do lado de fora do quarto, avistou inúmeras pessoas curiosas que deixaram seus quartos para descobrir de onde vinham e o que significavam aqueles berros.
Perante Renato e Adonias, Ana não teve qualquer reação. Adonias veio em sua direção e tentou lhe falar qualquer coisa, mas Ana não deu importância. Logo ela pegou sua bolsa e correu para o lado de fora do quarto. Em alguns minutos ela estava na parte de fora do prédio, procurando desesperadamente Cláudio, mas ele já havia partido. Rapidamente ela tomou um táxi e partiu.
Ainda no quarto, Adonias não soube o que dizer. Renato o olhava calado, tentando entender como ambos tiveram coragem de agir daquela forma com um amigo. Se é que eram mesmo amigos. Tantas pessoas no mundo e os três foram se envolver logo com a mesma mulher. Pior era ela que se deixara envolver com os três ao mesmo tempo, sabendo que eles eram amigos. Renato se virou para a porta e deu alguns passos para deixar o local quando Adonias anunciou, virado de costas para ele.
— Como você pôde? Adonias permaneceu sentado sobre a cama. Ele falava com a voz baixa e áspera. – Como foi se deixar envolver com a Ana. Apenas por desejo sexual e...
— Cale a boca, você não tem o direito de me dizer nada. Ao menos não fui eu quem se escondeu num quarto de hotel com a noiva do melhor amigo! Ao contrario de Adonias, Renato já anunciava todas suas palavras com um tom alto e violento.
— Ao menos – ele ressaltou aquelas palavras. – eu e a Ana nos apaixonamos, nunca ficamos juntos apenas por sexo. O Cláudio nunca irá te perdoar!
— Ah, e a você sim! Renato debochou. – Cale a boca, o Cláudio nunca mais perdoara nem a mim, nem a você, muito menos a aquela vadia da Ana Karen.
Eles se encararam.
— Nós iremos ficar juntos. – Falou Adonias. – Custe o que custar!
— Quer saber de uma coisa, faça bom proveito. Só acho uma pena que você ira se lamentar e se arrepender depois por ter feito esta escolha. – Renato prosseguiu com um tom ameaçador. – Eu só quero deixar um aviso: se esta história abalar minha relação com a Fernanda, você e quem mais estiver envolvido irá me pagar por isso!
Renato se virou e caminhou até o corredor. Em seguida ele entrou no elevador. Adonias manteve-se no mesmo lugar, sentado sobre aquela cama, pensativo e amedrontado.
— Eu tenho que fazer alguma coisa!
A noite se seguiu tensa, quase que interminável. Cláudio voltou à sua mansão confuso e amedrontado, trancando-se em seu quarto. Ele sentou em sua cama sem saber em que pensar. Ele não conseguia organizar o turbilhão de coisas que lhe passava pela mente. A cena de Ana sentada ao lado de Adonias na cama lhe passava repetidamente na mente. A voz era nítida: “Oras Doutor, até que enfim chegou... Meu namorado se feriu durante uma tentativa de assalto e esta muito ferido”. Namorado? Desde quando os dois deveriam estar juntos? Cláudio não soube responder. E quanto a Renato? Será que os dois também tiveram algo além que uma noite juntos? Cláudio apavorou-se ao pensar em quanto Ana teria de ser cínica para se envolver com dois ao mesmo tempo. Não seria possível ela se envolver com os dois da mesma forma. Era algo absurdo.
Algumas batidas frenéticas se iniciaram na porta e Cláudio não respondeu. Ana falou.
— Cláudio, abra a porta. Precisamos conversar! Ela parecia angustiada.
— Vá embora. Saia da minha casa. Saia da minha vida! Ordenou Cláudio. Suas palavras saíram embaralhadas, segurando-se para não chorar; e não demonstrar aquilo para ninguém.
— Por favor, temos que conversar sobre o que aconteceu. Eu estou arrependida pelo que fiz. Perdoe-me... Ana deixou algumas lágrimas escorrer em seu rosto. Seu tom de voz diminuiu. – Por favor!
Lentamente, Cláudio caminhou até o armário no closet onde colocava alguns objetos pessoais como escova de dente, escovas de cabelo e cremes para o corpo – e retirou de cima uma pequena caixa preta. Ele abriu o objeto e tirando de dentro da caixa alguns objetos, ele abriu um fundo falso e retirou uma arma. Rapidamente, Cláudio se recordou do dia em que arrumara aquele revólver: no quarto de sua mãe Mada no dia em que ela havia morrido. Ele sempre soube que Mada nunca havia sido vítima de assalto algum, mas o maior culpado pela morte dela era seu marido Luiz Augusto. O verdadeiro assassino de Magdalena Del Sales, pois foi por causa dele que Mada resolvera num gesto infame retirar sua própria vida. Luiz era o assassino.
Cláudio se olhou no espelho e viu seu reflexo com aquele objeto nas mãos. Ele teria de ser rápido.
No corredor e cansada de insistir, Ana bateu mais uma vez na porta. – Por favor! Disse ela, mas de nada adiantou.
Quando Ana se retirava lentamente, ela ouviu o som da porta se abrir devagar. Ana entrou no quarto confusa, mas decidida demais para parar. Ao cruzar a porta, ela se viu cara a cara com a arma apontava em sua direção.
— Feche a porta! Ordenou Cláudio, frio.
Ana bateu a porta.
Na mansão da família Alves, algo questionava a todos: o sumiço repentino de Renato. Mais que curiosa em querer saber onde Renato se metera nos últimos minutos, Fernanda demonstrava-se desapontada com o gesto inesperado do namorado. Fernanda tentava se desvencilhar dos olhares curiosos e dos cochichos dos convidados demonstrando-se alegre e descontraída, mas era impossível negar que estava triste.
Augusto se aproximou da esposa Joana.
— Onde aquele infeliz do Renato esta? Disse ele.
Joana deu de ombros, sem saber responder. Eles olharam Fernanda por entre os convidados.
— Pobre garota. – Disse Joana. – Mas é bom isto estar acontecendo agora, para que ela não se arrependa depois!
— Porque diz isso Joana?
— Eu conheço bem nosso filho e sei que será melhor para a Fernanda não ter nada com ele!
No hotel Donna América, o telefone no quarto vinte e seis tocou constantemente sem ninguém atender. Na recepção, o atendente tentava de todos os meios ligar para o local, na esperança de saber se havia alguém no quarto, mas o telefone tocava sem parar. No local, a cama estava desarrumada, os lençóis ainda manchados com o sangue de Adonias, alguns objetos espalhados pelo chão devido à queda de Renato. Não havia sinal de ninguém ali.
O recepcionista desistiu, batendo o telefone.
— Não há ninguém no quarto! Disse o rapaz para Felipe que permanecia parado à sua frente.
— O Adonias esta lá. Eu não o vi sair! Anunciou Felipe.
— Estou dizendo, não há ninguém lá!
Felipe assentiu, confuso. Seria possível seu plano ter saído errado. Não!
De repente a música aumentou sozinha e Domingas correu até o rádio no canto do salão para diminuir o volume. Ela tentou descobrir quem fizera aquilo, mas não havia sinal de alguém ali. No mesmo instante, Domingas sentiu uma rajada de vento vinda da janela. Isso a assustou. Ela sentiu-se amedrontada, sentindo uma dor no coração. Era como se algo de ruim fosse acontecer. A música no rádio começou a falhar, como um disco riscado que estivesse tocando. Domingas desligou o aparelho e caminhou até o grande salão a procura de Luiz. Os convidados demonstravam-se entediados enquanto os cochichos por aquela fracassada comemoração se iniciavam.
Ao passar por algumas pessoas totalmente desconhecidas, Domingas avistou Ana descendo da escada que dava acesso ao andar de cima da mansão. Ela chorava sem parar. Domingas veio em sua direção:
— Meu Deus garota o que esta acontecendo?
Ana caminhou lentamente e quando ia dar mais um passo no último degrau da escada, ela desmaiou e caiu nos braços de Domingas, que a soltou no chão. Os demais convidados vieram ajudar.
— Oh meu Deus! Anunciou Domingas desesperada. – Alguém vá até lá em cima e chame o Cláudio... Outra pessoa chame um médico agora!
Os convidados se atrapalharam todos na tentativa de ajudar.
— Agora sim esta festa melhorou! Anunciou uma das convidadas ao amigo. Ambos sorriram.
— Por favor, ajudem! Gritou Domingas.
Luiz surgiu entre os convidados e assistiu aquilo.
— O que esta acontecendo? Disse Luiz agachando rumo a Ana caída no chão.
— Doutor, vá até lá em cima e chame o Cláudio. Sabe se lá o que aconteceu com esta menina, imagina se isso prejudica o bebê dela...
No mesmo instante, Luiz correu pela escada e seguiu pelo corredor rumo ao quarto do filho. A porta permanecia entre aberta e Luiz entrou sem bater. A cena foi absurda e aterrorizante.
— Oh, meu Deus! Murmurou Luiz.
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