Notas iniciais
David volta às aulas e revê Alice, sua amiga, a mesma lhe apresenta Luke um novo habitante de Louisville.

Louisville, Colorado, EUA. O sol está surgindo, amanhecer. Como sempre as manhãs em Louisville são belas, a cidade é rodeada de montanhas e o ar é puro. David acordando, o cheiro quente do café recém passado de sua mãe chegava até seu quarto que era próximo à cozinha. Como de costume, a primeira coisa que David fazia era pegar o telefone e ver se tinha novas mensagens, enquanto se levantava para ir até a cozinha tomar café com a família, constituída por sua mãe Nora, seu pai William e seu irmão mais velho Derek. A família Bronwen, o que aos olhos dos habitantes de Louisville era um exemplo de família. Taxados de certinhos, filhos prodígios, pais exemplares.

Lá estava ele, David, passando pelo corredor que dava acesso do seu quarto à cozinha. Ele via vultos passando pelo cômodo da cozinha, o cheiro gostoso do café estava ficando mais forte e mais gostoso, já que David adorava café. Ainda estava de pijamas, meias nos pés, sem camisa e com um shorts bem curto. Enquanto caminhava coçava os olhos e escutava conversas bagunçadas e aleatórias de seus pais. Pelo que estava ouvindo, Derek ainda não estava acordado. David dividia o quarto com seu irmão, mas saiu com tanta vontade de tomar o café de sua mãe que não percebeu se ele já havia se levantado.

A cozinha, o lugar preferido de Nora, uma excelente cozinheira. David chegou até a cozinha, à mesa onde normalmente faziam as refeições estava, em parte, vazia. Quatro lugares, apenas seu pai sentado tomando café lendo jornal. Típico de William, rotina de toda manhã. Sua mãe estava em frente ao fogão preparando algo para comer, até então parecia ser... Sim, eram panquecas. David fechou os olhos e respirou profundamente. Pode sentir o cheiro de café e panquecas. Foi em direção à mesa, quando sentou.

– Oh! Bom dia, garotão.

– Bom dia, pai.

As manhãs na casa de David eram comuns, simples e monótonas. Nada de especial acontecia. Os papos que rodeavam a mesa eram sempre os mesmos: “como vai à escola?”, “você viu o jogo de ontem?”, “soube tem olheiros de faculdades grandes na cidade”, entre outras coisas desse tipo. Tudo tedioso, para David. Estava sentado, seu pai não retirava os olhos do jornal. David passou os olhos pelo corredor de onde veio e nada tinha lá. Seu rosto se virou olhando para sua mãe, estava ainda preparando as panquecas. David ainda estava em estado pós-sono, um pouco sonso, olhos pequenos. Seus olhos voltaram ao corredor e lá estava seu irmão, Derek. Diferente de David, Derek estava já vestido. Bermuda jeans, camisa xadrez vermelha, cabelo arrumado, tênis no pé. Preparado para um dia de escola.

– David? – Derek viu David ainda com as roupas que havia dormido. – Não vai se preparar pra escola?

– Escola?

– David! Hoje é o primeiro dia de aula. As férias de verão acabaram, mas o ano letivo ainda não.

– David, melhor se preparar. – resmungou William. – Porque não pode ser como Derek?

– Talvez por que... – David se levantou bruscamente da mesa, seus olhos estavam abertos, estava com raiva, respirava profundamente e seu olhar passava ironia. – ...eu não queira ser como Derek?

David foi ao corredor indo para seu quarto. Nora observou seu filho, com raiva, ir até o quarto. Tudo o que seus pais ouviram foram o bater da porta do quarto, bem forte. David furioso, odiava ser comparado com alguém, ainda mais com seu irmão mais velho. O perfeito Derek. Era o último ano de Derek no colégio local em Louisville, faculdade para ele já estava garantida. David ainda tinha, além do atual, mais um ano para concluir. Furioso ele sentou em sua cama e botou a mão no rosto tampando. Ansioso, novo dia de aula, iria rever os amigos. Iria rever Alice, contar novidades, além do que já haviam compartilhado durante as férias. Alice e David eram inseparáveis, grandes amigos, de infância. Já os chamaram até de namorados, mas não chegou a ser isso. Tudo apenas amizade. Amizade profunda o bastante para guardar segredos ocultos. Tão ocultos que ninguém além dos dois sabia.

Rapidamente David se levantou da cama, arrumando-se para ir à escola. E depois de um tempo, a porta do quarto se abriu e David estava pronto para enfrentar as feras. Novamente pelo corredor caminhou, escutando seus pais conversarem. Sem esquecer Derek, que também estava à mesa. David foi até o encontro deles, sentou-se à mesa e pegou uma xícara de café. Apenas isso, café. Era tudo que David precisava.

– Olha David – iniciou William. –, não quero que fique chateado com o que falei.

Antes que pudesse terminar, David interrompeu o pai. Todos olharam para ele, que estava concentrado em sua xícara de café quente.

– Está tudo bem.

– Bom, melhor se apressarem. – Nora tentou um diálogo mais saudável. – Vocês dois acordaram tarde. Uma xícara de café será o suficiente David?

– Sim. É tudo o que eu quero. Obrigado, mãe.

David se levantou primeiro. Derek, logo atrás, seguindo David até o quarto para pegar sua mochila. Os dois então foram para a escola, pacificamente, sem nenhum tipo de conversa. Os dois, calados durante todo o percurso.

********

Colorado High School, Louisville. A escola de volta às aulas, fim de férias, alunos por todo o imenso campus. A escola era grande, várias alas, salas, campos de futebol, vôlei, diversos clubes, e muito mais. David estava de volta à sua vida escolar, o que era chato, como sempre achou. Nada estava bem nessa escola, o que tinha de bom era apenas sua amiga.

– Alice! – gritou David, acenando para Alice que estava debaixo de uma árvore. – Até a saída Derek.

David saiu de perto de seu irmão, que foi ao encontro de seus amigos, os populares. David chegou até Alice, debaixo da árvore. Uma sombra boa, o dia estava ensolarado. David se aproximou e deu um longo e apertado abraço em Alice.

– Oh! Até parece que não nos vimos durante as férias.

O abraço se foi, Alice não estava sozinha. Havia um garoto com ela. Luke, bonito, sério, com estilo de rebelde. O que não encaixava no ‘grupo’ de David, que era um garoto normal com notas medianas altas. Onde Alice encontrou esse garoto? Como fez amizade com ele? Como ela não contou nada pra ele sobre Luke? Tudo isso passava na mente de David.

– David, este é Luke.

Os dois se olharam. Balançaram as cabeças se cumprimentando. Sorrindo um para o outro. Luke mais tímido que David.

– Hm, então, Alice. Como conheceu L... Luke, certo?

– Sim, Luke. – respondeu o garoto.

David olhou novamente para ele, Luke o observava até que mudou o olhar de direção.

– Conheci Luke há poucas semanas, somos vizinhos. Ele acabou de se mudar pra Louisville, mas não sabia que ele iria estudar aqui. E o encontrei hoje.

– Oh, sim. E Luke está gostando da cidade?

Luke olhou novamente para David, de alguma forma ele tentava evitar troca de olhares.

– Sim. É muito bonito aqui. Estou gostando.

Estava tudo bem, até o sinal da escola tocar. Estava na hora das aulas, as mais longas aulas. Mais um dia tedioso em um prédio de escola. Tudo o que David e Alice queriam era as férias de volta. E quem sabe outra coisa, ou, pessoa. Dentro do colégio, os três, Alice, David e Luke estavam indo na mesma direção. Aparentemente todos tinham as mesmas aulas. Alice e David iriam de fato estudar juntos novamente, mas Luke não. Ele desviou seu caminho, mudando de corredor sem que David pudesse perceber até virar-se para procurar o garoto.

– Ok, ele se foi.

– Não vai ter as mesmas aulas que a gente.

– Alice porque não me contou sobre ele?

– Havia necessidade?

– Claro que havia!

Os dois riram. O riso dos dois era feliz, amigos eternos. Enquanto atravessavam o corredor, indo para a sala ao qual teriam aula, David e Alice se deparam com uma cena constrangedora e humilhante. Uns caras do último ano cercaram um garoto do primeiro ano. Aparentemente era um novato, David não tinha certeza se já o vira na escola antes.

– Qual o problema deles? – sussurrou David para Alice.

– São maníacos, loucos. – respondeu Alice, em sussurro.

– Vamos lá, sua bichinha! – os valentões gritavam para o garoto do primeiro ano. O cercaram, deixando-o completamente amedrontado.

David e Alice nada podiam fazer, seguiram seu caminho, mas sempre olhando para trás para ver o que estava acontecendo e se manter informados sobre o ocorrido. Provavelmente aquilo não duraria muito tempo, o sinal havia tocado, os inspetores da Colorado High School logo vasculhariam os corredores e iriam tomar uma providencia. David e Alice viraram em um corredor não podendo mais assistir ao ato, e entraram na sala de aula. Aulas chatas vieram a seguir.

********

Após torturantes aulas, intervalo. Na verdade mais torturante do que as aulas era o intervalo. Sim, era ruim ver tanta crueldade. Aquilo no corredor antes das aulas? Apenas um aperitivo para o que estava por vir no intervalo. Alice e David saíram da sala indo para o pátio principal, como sempre fizeram desde que se conheceram.

– Pelo visto suas férias foram interessantes, não?

– Nada de interessante, David.

– Melhor nos apressarmos para pegarmos uma mesa. – estavam indo em direção a porta do prédio da escola que dava saída para o pátio principal onde tudo ocorria. – Sabe como são esses brutamontes dessa escola.

Eles se apressaram e no caminho para a saída encontraram-se com Luke que estava saindo também. Luke estava á frente de Alice e David, ele saiu primeiro do prédio. Logo depois Alice e David. O pátio principal, um lugar grande. Com várias pessoas, aquilo parecia um formigueiro, cheio de gente. Mesas ocupadas. Haviam pessoas sentadas até no chão. A escola na volta às aulas estava mais cheia do que antes. David e Alice, já do lado de fora, observaram toda aquela multidão.

– Como um novato faz para almoçar e sentar um lugar confortável por aqui? – era a voz dele, Luke.

Ele estava do lado de Alice e David, todos os três observando a multidão que estava em Colorado High School. Como se eles tivessem uma conexão entre si, apenas observando tudo, até a ficha cair. Era Luke que estava ao seu lado!

– Aah! Sim, bem... – David tentou ser amigável com o novato, mas nada saia.

– Oh, Luke. Melhor se acostumar. – completou Alice. – Se bem que está muito cheio hoje.

– Talvez fique assim pelo resto do ano letivo.

– Se ficar assim não será difícil fazer amigos. – Luke.

Luke olhou para David, Alice e David olhavam para Luke. Os três sorriram. David sentia algo diferente ao olhar para Luke. Uma atração, sim, isso. Luke era bonito, parecia pouco rebelde, e sua melhor amiga o conhecia. David não poderia dar pinta para Luke, a não ser que ele quisesse, mas era arriscado fazer tal coisa em Louisville.

– Ok. Vamos ficar debaixo de uma árvore perto do campo. – disse Alice, já segurando a mão de David o puxando para que ele o seguisse.

Os olhos de David não se desgrudavam de Luke. David então se viu sendo puxado e balançou a cabeça como forma de “acordar” e sorriu novamente para Luke o chamando, com a mão. Luke atendeu ao chamado e seguiu Alice e David. Enquanto iam em direção ao campo de futebol, David novamente viu algo. Dessa vez Luke estava perto para também observar o tipo de coisa que rola em Colorado High School. Os mesmo valentões, que cercaram o garoto do primeiro ano, estavam agora em uma mesa onde havia dois garotos tímidos. Os mesmos insultos, preconceito. Tudo isso rolava nessa escola. Luke, enquanto seguia David e Alice, pode observar claramente o que acontecia na mesa com os dois garotos. David e Alice conheciam os dois garotos, pois já haviam estudado com eles. Passaram rápido por perto da crueldade e foram para debaixo de uma árvore perto do campo de futebol. Não havia ninguém ao redor, mas quem estivesse no pátio principal poderia observá-los sem dificuldade.

– Aqui parece ser um bom lugar. – Alice finalmente soltou a mão de David e se sentou na grama mesmo debaixo da árvore.

– Sim, é um ótimo lugar. – respondeu Luke, como forma de se enturmar.

Alice já estava sentada, David foi o próximo e logo depois de dar uma volta em torno da árvore, Luke sentou ao lado de Alice. Os três retiraram lanches de suas mochilas, algo simples como sanduíches, biscoitos recheados e suco.

– Então, vocês dois... – Luke estava, de certa forma, constrangido.

– Nós dois? – rápido e direto, David queria conversar com Luke.

– É que Alice pegou em sua mão, o puxando. – Luke mexia as sobrancelhas, revirava os olhos, estava constrangido, tímido. – Vocês ficam juntos o tempo todo, bem, eu pensei que vocês dois fossem...

– Namorados?! – ironizou Alice. Ela sabia sobre David, sabia que David era gay e que um relacionamento com ele nunca passou pela sua cabeça.

Alice riu alto, de forma a deixar David realmente constrangido com toda a situação. Luke ficou sem entender o que estava acontecendo, mesmo depois daquela risada ele suspeitar.

– Obrigado, Alice.

David olhou para Alice, parecia com raiva. Ela, então, parou de rir, respirou fundo e olhou para Luke novamente.

– Não. Não somos namorados. David e eu somos apenas amigos, só isso.

Luke olhou para David, queria perguntar, mas tinha medo. Alice olhou para David, ele olhava para seu lanche, estava quieto. Alice olhou para Luke. Ele olhava para David, até perceber que Alice o olhou então redirecionou seus olhos para o pátio. Algumas pessoas pareciam olhar para eles, outras estavam apenas fazendo o que faziam de melhor: humilhar os outros.

– Então, aquilo que vimos quando vínhamos para cá.

– Você diz o preconceito? – interrompeu David. – Acostume-se, aqui as coisas agem dessa forma. E se você for gay, melhor não se assumir.

– O quê? – Luke ficou afobado, nervoso.

Alice e David olharam para Luke, olhares sinceros.

– Eu não sou gay!

– Oh. Desculpe, é que... Bem, esquece, desculpa.

– Não o culpe. – Alice tentou corrigir. – David fala essas besteiras o tempo todo. Ele é tipo um bom samaritano, odeia todo tipo de preconceito.

– Aah, diga que você também não odeia? – David cutucou Alice, ambos sorriram.

Alice voltava para seu lanche, sanduíches. Enquanto comia, Luke soltou:

– E com toda razão de odiar preconceito.

David e Alice olharam imediatamente para Luke. Ele, Luke, por sua vez olhava para o pátio. Mas parecia olhar para o além.

– O preconceito é algo cruel que destrói tudo por dentro da pessoa ofendida. Sabe, eu também odeio todo tipo de preconceito. É algo burro, banal, idiota. E, para mim, quem faz esse tipo de coisa tem algo maior para esconder.

Alice estava de boca aberta. David olhava Luke com olhos diferentes agora, sorria lentamente. Novamente houve troca de olhares entre os dois, Luke tirou seus olhos do nada e olhou nos olhos de David. Vinte segundos, foi o bastante. Luke voltou ao seu lanche. David também, como se aquilo não tivesse acontecido.

********

O sinal tocou. Saída da escola. David estava perto do portão principal do prédio, perto do estacionamento, esperando por Derek. Era comum não encontrar Derek na escola, já que tinham ideologias e grupos de amigos diferentes. Estava sozinho, Alice já havia partido para casa. Sozinho no estacionamento, o sol estava alto, era quase quinze horas. Estava quente, bastante quente.

– Sozinho?

Havia alguém atrás de David, ele reconheceu aquela voz. Luke, estava bem próximo a ele, David poderia sentir sua respiração que foi se afastando. Luke parou em sua frente, sorrindo. Eles se olharam, novamente um no olho do outro.

– Sim, sozinho. – respondeu David, tímido. – Estou esperando meu irmão. Às vezes ele demora um pouco pra sair, está no último ano.

– Um irmão, legal.

– Nem é tão legal quanto se parece.

– Hm, bem. Gostei de te conhecer, e queria lhe entregar isso.

Luke retirou um pedaço de papel do bolso, parecia um bilhete. Entregou a David que pegou sem pensar duas vezes, e quando ia abri-lo.

– Não.

David parou. Olhou novamente para Luke, olho no olho.

– Abra quando chegar em casa.

Um carro que estava na rua buzinou. David não pode ver quem estava no carro.

– Bem, eu tenho que ir. É minha mãe.

Luke olhou novamente para David e sorriu, ele foi em direção ao carro e entrou. Logo depois Derek chegou até David, colocando um de seus braços em volta do irmão.

– Quem era? – perguntou Derek.

– Um amigo. – respondeu, sem hesitar.

Rapidamente David colocou o bilhete no bolso. Ele e seu irmão foram para casa, agora diferentes de quando foram para a escola. Desta vez estavam de bem, conversando.

********

Como de costume, após a escola David sempre se trancava no quarto e ligava seu notebook para fazer trabalhos escolares, ler livros, às vezes apenas navegar na internet ou fones de ouvido e uma boa música. Derek trabalhava depois que voltava da escola, e o quarto ficava todo para David. Mas era diferente desta vez. Ele havia chegado da escola, se trancado no quarto e retirado o bilhete do bolso para ler. O que falou com seu irmão durante a volta para casa foi inútil, a única coisa que pensava era no bilhete que Luke havia lhe entregado e o que havia escrito nele.

“Nós não nos conhecemos direito, mas acredito que você é um grande amigo. Vi você com Alice, parecem se dar muito bem. Poderia me encontrar no lago da cidade às 18hrs? Quero que veja o pôr-do-sol comigo. Eu estarei te esperando, mesmo se você não for.”


O lago da cidade. Um lugar protegido, não se pode entrar nos arredores do lago. Mas pode-se admirá-lo de um pequeno pátio que se tem em sua entrada. Um lugar bom para se ficar, ótimo lugar para lazer. Não teria problemas para David ir até o lago às 18hrs. Teria uma desculpa para dizer aos seus pais, mas para quê desculpa? David sentia uma necessidade por não contar que iria se encontrar com Luke, o garoto que conheceu algumas horas atrás.


David tinha tempo até a hora marcada. Como de costume, ligou o notebook. Alice online, os dois não se desgrudavam. Além de ficarem sempre juntos, quando ambos, online conversavam sem parar. E foi quando começaram. Conversando, conversando, como se não tivessem se encontrado na escola e já não tivessem conversado o bastante. Meia-hora, era o tempo que faltava para 18hrs. Os pais de David estavam em casa, Derek iria chegar em breve. David precisava sair.

– Alice, tenho que sair. – ele enviou.

– Amanhã quero te dizer uma coisa. – David recebeu no bate-papo.

– Eu também vou lhe dizer algo amanhã. Mas agora tenho que sair.

Ele desligou o notebook rapidamente, se aprontou num instante. Passou pelo corredor, sua mãe estava na cozinha. Tentou passar despercebido, mas não obteve sucesso.

– Aonde vai? – sua mãe o parou.

– Estou indo ao lago, com a Alice. – improvisou.

– Você e a Alice ainda vão se casar. – sua mãe sorriu, tentando arrancar algo de David.

David sorriu para não fazer com que sua mãe perdesse as esperanças e saiu rapidamente de casa indo até o lago. Ele foi a pé mesmo, não era tão distante de sua casa, com meia-hora poderia chegar se apressasse. E foi o que fez, estava quase que correndo. O sol já estava se pondo quando chegou ao lago. Procurou por Luke nos arredores do pequeno e vazio pátio. E lá estava ele, Luke, escorado na grade que protege o lago. E o sol se pondo ao fundo, o brilho laranja dava um retorno de paz e tranquilidade, de que tudo ficaria bem.

– Ei! – gritou David, indo ao encontro de Luke.

Luke se virou, olhando para David e sorrindo. Esperou que David fosse até ele, quando, ao se cumprimentarem, Luke avançou dando um abraço em David. Sem jeito, com vergonha, David retribui e o abraçou. Não era um abraço comum de amigos, foi intenso, duradouro, apertado. Seus rostos estavam juntos, suas bochechas se encostaram. Podiam sentir o calor um do outro.

– Você veio. – disse Luke, deixando David mais a vontade, separando-se dele e afastando.

– É, eu vim. – David se sentia incomodado depois do estranho abraço.

– Então, gosta de pôr-do-sol?

– Ver o pôr-do-sol não é um de meus programas favoritos, mas eu curto.

Eles se olharam, sorriram um para o outro e se encostaram à grade do lago. O sol brilhava atrás da montanha, o brilho alaranjado era forte e lindo. Era como um degrade de alaranjado e o límpido azul do céu. Tudo lindo.

– Então, me chamou aqui para ver o pôr-do-sol? – perguntou David, olhando para Luke, que não tirava os olhos do brilho alaranjado.

– De certa forma, sim.

– Oh, bem, se for falar sobre hoje. Desculpe, ok? Não queria dizer que você se parece ou é gay, é que essas coisas da escola...

– Sei como é. – interrompeu. – Não estou ofendido ou coisa do tipo. E você não namora Alice, estranho estão sempre juntos.

– Bem, é que nossa amizade é mais forte.

– Já tive amizades assim.

Na casa dos Bronwen, William assistia televisão, o telejornal local. O que era seu programa favorito. Derek estava no quarto, lendo o bilhete que David deixara de qualquer maneira jogado pela cama, pela pressa de poder sair de casa. Nora junto a William, assistindo ao telejornal. Quando veio a notícia de que o corpo de um garoto foi encontrado pouco depois das 18hrs. Isso foi o bastante para que Nora surtasse.

– David.

– Nora? O que tem David?

– David saiu, preciso encontrá-lo! – estava desesperada, lágrimas, gritos.

Derek saiu do quarto, rapidamente, para acolher a mãe.

– O que está acontecendo?

– Derek, sua mãe, ela viu o noticiário local. Um garoto foi encontrado morto.

– E...

– David! – gritou Nora, saindo dos braços do marido que a tentava acalmar.

Nora correu para fora de casa, indo em direção ao lago. O lago de Louisville, onde David e Luke estavam. Onde David não conseguia parar de olhara para Luke. Onde tudo poderia começar a mudar. E lá eles estavam, encostados na grade, com o pôr-do-sol no fim.

– Você parece ser do tipo fechado, que não conversa muito. – disse David.

Ambos riram. David não tirava os olhos de Luke. Ele estava lindo com o sol, praticamente, iluminando-o. Luke, por sua vez, apenas admirava a brilhante luz laranja atrás das montanhas.

– Sim, sou desse tipo mesmo. Não gosto de me enturmar, tenho dificuldades em fazer amizades e de contar segredos. Confiar em pessoas é difícil pra mim.

– Eu entendo. Também tinha dificuldades, até encontrar Alice. Você vai encontrar um amigo, talvez possa ser eu e Alice, o que acha?

Luke tirou os olhos do pôr-do-sol e olhou diretamente nos olhos de David. E por alguns segundos eles ficaram se olhando, apenas se olhando, nenhuma palavra saiu. Os olhos se encontrando, como se pudessem ver a alma um do outro. E talvez pudessem.

– David...

Luke avançou, pegando na mão de David e logo depois o beijando. Estavam próximos demais. Várias coisas passaram na cabeça de David. O que pensariam se vissem os dois ali se beijando? Seria o fim dos tempos para os Bronwen. Mas nada mais importava, David deixou se entregar. E os dois se beijaram, profundamente. O sol se pôs, os postes nas ruas se acenderam, perto do lago a iluminação era escassa. O beijo pareceu durar horas, quando na verdade foi apenas durante um mísero minuto.

– Você... – David tentava dizer algo, mas não conseguia.

Luke estava em seus braços. Ele estava nos braços de Luke. Os dois se abraçaram novamente, tudo parecia perfeito. Tão perfeito que não parecia ser verdade. Dessa vez o abraço parecia ser mais longo, mais profundo, mais apertado. Tudo poderia ser perfeito, se Nora não estivesse assistindo toda a cena. Poderia ser menos doloroso para Alice se ela, também, não estivesse ali perto do lago passeando com seu cachorro. Os olhos de Nora se encheram de água, sua vontade era de ir até lá onde estava David e fazer uma besteira.

Notas finais
Gostou? Deixe comentários, fale sobre os personagens, favorita, divulgue, sábado tem mais!