Ao Chi no Tenshi

1 Capítulo 1 - Abandonados pelos Deuses


Não venha aqui, não é isso que você procura, tenho certeza! Se está atrás de uma história sobre sangue e genocídios apenas para alimentar sua infantilidade, volte por onde veio — não precisamos de você. Porque o sangue não é terror, e tal nunca foi visto com tanta beleza. Rubro, forte, corajoso e como toda beleza, cheio de sentimentos. Ele vaga por todo o mundo e por toda nossa história, contém todos nossos segredos, tudo que se vai, e que vem. Ele retira de você a força, sem se importar com seus gritos por clemência, sem se importar por quantas lágrimas serão derramadas. E dessa mesma forma, ele lhe abençoa, como uma divindade maior que podemos ver, ouvir e sentir. E ele também lhe entrega, ou melhor, "devolve" tudo aquilo que foi retirado. Você não vê isso, porque não está pronto, ou porque é ignorante. Mas ele está lá, e sempre estará.
Porém, também iremos retratar do metal em sua forma mais pura. Leal, galante, simples, afiado, traidor. Jamais foi desvalorizado, jamais foi jogado de lado, mas não vemos sua verdadeira perfeição se não olharmos para ele da forma que ele realmente é. O metal é romântico como nenhum outro, uma verdadeira figura de respeito, e sempre fiél a sua esposa. Ele é usado como fonte de conhecimento, como salvador e maldição.
Sangue e metal, foi um casamento maravilhoso. Até mesmo os Deuses tiveram ciúmes de tanta beleza, mas não deixaram de se fascinar e aplaudir. Divino! Divino! Nunca foi visto canto tão belo, em qualquer parte do mundo. O casamento perfeito entre o sangue e o metal estava feito. E sem prévias, seu teatro estava montado. Apresentando o filho do casal, o único capaz de mover as peças e mudar o roteiro, para que não termine em uma tragédia da mesma forma que começou.
A lenda da Ao Chi no Tenshi está pronta para ser imortalizada!

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– O que achou, Yukiko? — perguntou o mais velho, fascinado com si mesmo de forma que chegava a ser engraçada — ou ridícula. Mostrou à garota sua mais nova invenção: um pequeno cabo de madeira polida, com uma concha na ponta. Um tanto mal feito, mas era fascinante aos olhos dele. — Eu a chamo de craco!
A garota não escondeu a gargalhada, nem mesmo tentou segurá-la. Soava natural e vinha aos montes, nem ligando para a expressão do homem a sua frente, que acabou por desanimar com aquela risada repleta de deboche.
– Ora, para que serve isso, afinal? — questionou a garotinha, recuperando o fôlego aos poucos.
– Para comer, é claro! — pegou um recipiente repleto de grãos, e usando a parte curva do "craco", levantou uma quantia de grãos e jogou novamente no recipiente.
– E você acha mesmo que não criaram isso ainda?
O homem levantou-se e colocou a invenção "genial" sobre uma bancada de madeira, guardou o recipiente sob os cuidados de um pano velho, junto com todos os outros mantimentos. A garota, por sua vez, continuou sentada sobre suas próprias pernas.
– Bom, achar eu não acho. Mas só uma mente muito genial pode criar uma coisa dessas, que vai facilitar tanto a forma de comer. Pense só, não precisaremos nem usar as mãos!
– Para mim é perda de tempo completa. — e agora se levantou, arrumou o único tecido que cobria seu corpo e a protegia da neve, forçando o laço que o sustentava.
Agora, ambos estavam se sentando na parte da frente da carroça. A garota cruzou os braços e se encolheu na proteção do maior para se esconder do frio. O homem a abraçou com um braço, e com as mãos, segurou as rédeas dos cavalos. A cidade estava próxima, e deviam chegar a ela antes que a noite predominasse. Yukiko queria mesmo que o frio fosse embora, assim como aqueles que ela amou também foram — pelo menos foi isso que Gregor tinha dito a ela -, mas não passava de um desejo de criança. Ela sabia que não iria. Que aquele frio iria congelar a todos em pouco tempo.
O inverno caiu no norte de Bravician por anos, e nunca se esvaiu. Alguns diziam que era a fúria do espírito do gelo, que era detestado por matar muitos homens e por isso, as pessoas usavam agasalhos para se esconderem dele. Outros diziam que a alma do sol desistiu deles, e sem seu calor só sobrou o frio. Yukiko não acreditava em nenhum dos dois lados. Acreditava mesmo que o frio só iria embora quando cada um mudasse o modo de ser, o modo ignorante, quando voltassem a ser humanos. Ela era inteligente e apesar de ter doze anos, tinha visto apenas um inverno, e nenhum outono, nem verão, nem primavera.
Mas quando falamos de Yukiko, não podemos esquecer sua fé. Fé em si mesma que tendia a crescer mais a cada dia. Yukiko nasceu com seis anos. Todos os seus anos anteriores foram esquecidos devido a um acidente grave com uma flecha no crânio, que teria sido mortal para qualquer um. Deveria também ter sido mortal para ela, mas ela se recusou a morrer, pois pensava que só morre quem quer. Apesar de viver por apenas seis anos, Yukiko já viu muita coisa e já conhecia o mundo como ele era: perigoso e traiçoeiro. Pensava que existia salvação dentro de cada um, e é atrás dessa salvação que ela acredita tanto em si mesmo. Essa é a verdadeira fé.
Ao contrário de Gregor que só encontrava um motivo para viver: proteger Yukiko, e nada mais. A fé dele já tinha acabado a muito com a morte de sua esposa e de seus filhos. Ele dizia "Se você tem motivos para sorrir, valorize-os. Os meus se foram a muito tempo". Portanto, passou a inventar coisas, criar bonecos de pano e estátuas de madeira. "Talvez, se eu amar algo que não tenha vida, não criará tanto impacto quando for embora". Isso antes de conhecer Yukiko e adotá-la. Apesar de Yukiko não gostar, ele diz ser pai dela, mesmo que de consideração, e vivia pedindo para que o chamasse dessa forma.
Mas diferente da garota, Gregor não tinha os olhos rasgados como o povo daquela região. Isso era a maior denuncia de sua origem estrangeira, o que lhe custava preconceitos e olhares desconfiados, mas ele não ligava: só ligava para Yukiko, e para o bem dela.
E foi assim que, desde que "nasceu", a garotinha e o mercador passaram a viajar juntos em busca de sobrevivência e da venda de suas invenções. Falharam, mas não desistiram. Eram pobres, mal tinham roupas para vestir ou recursos para se alimentar. Tinham a si mesmos, tinham o amor pelo outro e isso era o que os motivava a ir além. "Nosso destino horrível foi abandonado pelos deuses. Se não temos o amor dos Deuses, podemos seguir em frente amando a nós mesmos."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.