Ao Alvorecer, Tudo Pode Acontecer

1 Ao alvorecer, tudo pode acontecer


Notas iniciais
Gosto deste conto porque foi o meu primeiro, o mesmo que me deu coragem de escrever outros.

Alice acordou muito assustada e um tanto trêmula durante a alvorada escura e sinistra. Seu corpo suado estava grudado nos lençóis antes brancos, agora ensangüentados. Sentia uma forte dor no lado esquerdo do abdômen, havia um ferimento profundo ali...

Desesperada, deixou o leito e dirigiu-se ao banheiro. Com as mãos sobre o espelho tomadas pelo sangue escuro e misterioso, ela derramou lágrimas de dor e de sofrimento. Estava partindo, como em seu sonho.

Pensou em pedir desculpas aos pais que adormeciam por tudo aquilo que fizera nos últimos dias, mas seria pior despertá-los; quis ligar para o namorado para dizer que sentia muito ter terminado com ele por ciúmes, mas seria descortês atordoá-lo com mais essa triste notícia.

Sem mais nada a fazer, a jovem de lindos cabelos negros jogou-se no chão. Os ladrilhos úmidos e gelados foram aqueles que a consolaram. Um pouco mais calma, ela se levantou a fim de tentar curar-se, mas se espantou ao se olhar no espelho. Não era ela, era uma outra pessoa, pálida e com os olhos fundos e inchados. Sentiu-se tonta ao ver aquele seu horrível reflexo cadavérico, entristeceu-se ao perceber que o sangue ainda jorrava por suas vestes noturnas e um forte aperto em seu coração a alertava de que estava próximo aquele momento... Se morreria naquela noite fria e enlutada, tinha de o fazer da maneira correta. Lavou-se com uma água tépida e vestiu-se com o melhor vestido que possuía. Sentou-se sobre uma das cadeiras de madeira da cozinha e sibilou ao silêncio, em um tom calmo, sereno:

- Podes buscar-me, morte! Já estou pronta.

Uma lufada de vento entrou pela janela entreaberta, vultos negros e sombrios percorreram o cômodo ainda mais obscuro. Uma luz pálida começou a surgir sobre a imensidão de trevas, uma silhueta branca e sem face se aproximou da jovem, que a encarava com suspeitas. Estendeu uma de suas finas mãos para ela e Alice recebeu o cumprimento.

- Estás liberta! — disse aquela que seria a morte.

Alice não a entendeu, mas notou que o sangue que escorria por seus membros inferiores começou a voltar para o ferimento. Em uma fração de segundos, aquela ferida estranha e dona de uma forma abstrata desapareceu de sua pele, agora menos pálida que antes. Sentiu-se melhor. Seus olhos rejuvenescidos acompanharam aquele brilho se distanciando de sua pessoa.

O vento voltou para o lado de fora, trancando a janela com um baque agudo e repentino. A jovem fechou os olhos, satisfeita. Sorria e chorava por alegria...

Alice acordou muito assustada e um tanto trêmula durante a alvorada escura e sinistra. Seu corpo suado estava grudado nos lençóis brancos. Ela afagou o lado esquerdo de seu abdômen a procura daquele ferimento crucial que quase lhe tirara vida nos sonhos anteriores... Não havia mais anda ali! Percorrendo o seu cômodo mergulhado em plena escuridão, a jovem de cabelos lisos que serpenteavam pelo ar afundando-se pelos cantos negros abriu uma das gavetas de sua escrivaninha e retirou um papel amarrotado de seu interior. Segurou-o com as duas mãos e o rasgou em centenas de pedaços. Correu pelos demais cômodos acendendo todas as luzes. Não se importava mais se estava sendo rude ou grosseira.

Seus pais a encararam com ódio ao sentirem a luz forte tocando suas vistas sonolentas, mas ajuntaram-se à filha aos choros assim que esta exclamou em um tom alto e seguro:

- Estou liberta!

Em seu quarto, a escuridão ainda prevalecia, aqueles muitos pedaços de papéis dançavam pelo ar, papéis que demonstravam um passado distante e agora vencido. Um exame médico que não foi páreo àquela luz que Alice vira na cozinha ... Que não era a morte, mas sim, a vida.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!