Ao Acaso do Destino
1 A primeira vez que nos falamos...
Notas iniciais
Um vento frio balançava a copa das árvores no pátio escolar, correspondendo ao céu nublado e escuro, indicando a possibilidade de uma tempestade. Reparando mais fixamente, era possível ver relâmpagos se espalhando pelas nuvens. O dia havia começado claro, ensolarado e de bom humor, mas agora já estava mal humorado. Assim como Jack também estava, sentado solitário no banco, à espera de sua mãe vir buscá-lo, mas ela já estava demorando demais.
Seus olhos azuis observavam todos os outros alunos saindo do portão acompanhados de seus responsáveis. Outros, independentes o suficiente para entrarem no ônibus. No entanto, ele permanecia sentado, esperando o que parecia uma eternidade. A escola começava a esvaziar e ele estava com medo de ficar ali sozinho.
O vento balançava seus cabelos loiros, desarrumando o belo penteado que sua mãe havia feito pela manhã. Também fazia seu corpo arrepiar de frio, fazendo-o se lembrar que não havia levado nenhum agasalho além da blusa fina que vestia. Estava com frio e fome. E, no fundo, também estava com vontade de chorar.
A sensação era de abandono. Jack não sabia quando sua mãe iria aparecer para buscá-lo e se iria aparecer. Talvez ela estivesse muito brava com ele e desistiu de ir atrás dele. Ele deve ter feito algo de muito grave para sua mãe abandoná-lo naquela escola vazia e fria. Então, ele começou a pensar em todas as vezes que fez bagunça ou aprontou sapequices ou respondeu mal a mãe, tentando encontrar um motivo para ser abandonado. Porém, não tinha nenhum. Ele estava comportando-se bem nos últimos meses. Estava até ajudando sua mãe a arrumar a casa, mesmo que em troca de doces.
Foi inevitável pensar no pai naquele momento. E se sua mãe fizesse o mesmo que seu pai e não o quisesse mais? Seu pai havia ido embora porque não o queria, mas Jack não sabia o que fez de tão terrível para que seu pai não o quisesse. E agora sua mãe parecia ter feito o mesmo. Talvez ele fosse um menino mau e não merecesse ter pais, por isso nem seu pai e sua mãe o queriam mais.
Transtornado, Jack cansou de esperar pela mãe que não viria ao seu encontro. Assim como seu pai, ela foi embora e não iria voltar. Entretanto, se foi abandonado, Jack não teria para onde ir e sabia que não poderia viver na rua, pois era perigoso. Então, teve uma ideia. Se voltasse para casa, talvez conseguisse convencer sua mãe a não abandoná-lo, pois ele não tinha para onde ir e não queria ficar sozinho. Talvez ela se arrependesse e até o fizesse um bolo de chocolate.
Ele precisou esquivar-se dos olhares dos coordenadores para conseguir escapar pelo portão. Eles nunca deixavam crianças saírem sozinhas sem a permissão de seus responsáveis, mas como explicar a eles que estava sendo abandonado? Eles não acreditariam. Assim, Jack esperou eles se distraírem na conversa que estavam tendo e acelerou pelo portão sem ser visto.
Era a primeira vez que caminhava para fora do quarteirão da escola sem sua mãe. Parecia um mundo novo sem ter a companhia de um adulto, prestes a ser explorado. Apesar da curiosidade infantil, Jack também sentiu medo ao olhar o tamanho das infinitas ruas e a quantidade de carros e pessoas que passavam ali. O medo aumentou quando um trovão prolongado roncou no alto do céu, fazendo-o se encolher. Mesmo assim, ele respirou fundo e se concentrou. Era um rapaz crescido e devia ser corajoso, então continuou andando.
∾
O céu estava cada vez mais irritado. Os trovões estavam ficando mais frequentes e barulhentos. Relâmpagos iluminavam as nuvens, causando clarões arrepiantes. Aquela noite seria acompanhada de uma tremenda tempestade, mas Jacob não parecia se importar. Era seu tipo de tempo ideal. Adorava o barulho dos trovões, os clarões dos relâmpagos e a visão dos raios cortando o céu. Sentia-se calmo em dias de tempestades furiosas.
Um suspiro escapou de seus lábios carnudos enquanto ele terminava de arrumar a mesa em que ele e a mãe haviam tomado café juntos, há alguns minutos atrás. Já fazia algum tempo desde a última vez que viera visitá-la e, embora se sentisse culpado, sua mãe parecia compreender. Ele estava se esforçando em seu novo emprego, em um bar mais sofisticado no centro da cidade. A vida nunca foi fácil para ele e sua mãe sozinhos, então dedicavam-se a toda e qualquer oportunidade que pudessem ter.
Sua mãe, Rose, já estava envelhecendo, mais rápido do que ele gostaria. Por isso, ele não gostava de tê-la morando sozinha em uma casa tão longe da sua. Já havia tentado convencê-la a morar junto de si, pois também estava sozinho, mas ela sempre recusava. Dizia gostar de estar sozinha e sempre completava dizendo que as mulheres não gostavam de saber que os rapazes ainda moravam com suas mães. Porém, Jacob não se envolvia com mulheres há um longo e triste tempo.
Terminando de arrumar a mesa e guardar os talheres limpos, Jacob caminhou até a sala, onde encontrou sua mãe observando a janela. Uma mulher baixinha, de pele negra e longos cabelos trançados. Era bem parecidos, exceto pelo tamanho exuberante da altura e dos músculos de Jacob, mas isto ele havia herdado do pai. Rose sempre dizia que seu pai foi um homem belo, mas que ele era ainda mais.
— É melhor ir, Jacob. A tempestade não tarda a vir. — ela alertou, ameaçando acender um cigarro, mas foi interrompida pelo próprio filho.
— Acho melhor ficar com a senhora. — disse, quebrando o cigarro entre os dedos enquanto olhava para ela com ar de reprovação.
— Eu não preciso de uma babá. Além do mais, você trabalha pela madrugada, é melhor ir e descansar enquanto pode.
Ele não pôde discordar, pois ela estava correta. Talvez, ela aproveitasse deste detalhe para usar de desculpas e poder ficar sozinha, fumando quantos cigarros desejasse. Sem argumentos contrários, Jacob se aproximou de sua mãe, beijando-a no topo de sua cabeça para se despedir.
— Fique bem, mãe. Não fume demais.
Ela sorriu e tocou seu rosto, admirando suas íris tão escuras quanto sua pele. A barba e o cavanhaque bem aparado deixavam-no tão belo que era quase um pecado.
— Quando irá me apresentar uma nora?
Ele riu, se afastando até a porta.
— Quando eu tiver uma.
— Você está trabalhando em um local de fácil socialização, já passa da hora, meu filho.
— Se cuide, mãe. — terminou o assunto o mais rápido que pode, recolhendo o casaco cinza de moletom do cabideiro e saindo pela porta.
O ar frio que temperava a tempestade o recebeu quando saiu da casa. Inúmeras folhas rodopiavam pelo asfalto, criando uma cena agradável de assistir. Ele poderia ficar observando, mas decidiu correr para o carro e seguir o caminho de sua casa, do outro lado da cidade.
Por causa da ameaça da chuva, as ruas já estavam bem desertas e o trânsito fluía tranquilo, por isso permitiu-se acelerar mais um pouco, poupando mais tempo, que resultaria em uma soneca maior até o horário de seu turno.
Pensou em ligar o rádio, mas estava tão distraído ao volante que esqueceu de executar a ação. Estava ansioso para chegar em casa e descansar o suficiente. Depois tomaria um banho e se arrumaria muito bem, pois a noite seria longa. E, talvez, sua mãe estivesse certa. Trabalhar em um bar podia facilitar uma paquera e já fazia algum tempo desde a sua última. Não que estivesse desesperado, mas não faria mal conhecer uma mulher e dividir bons momentos ao seu lado.
Seus pensamentos continuaram perdidos de forma que ele quase não percebeu uma criança atravessando a rua, fora da faixa de pedestres, sem prestar atenção no trânsito. Pisou no freio de supetão, causando um impulso violento em seu corpo. A criança não pareceu ser atingida, mas o susto a fez cair no chão e começar a chorar. Também afetado pelo susto, Jacob estava ofegante, com os olhos arregalados em direção ao garoto na estrada.
Depois de cinco segundos da paralisação do susto, Jacob saiu depressa do veículo e foi até o garoto, sem se importar de estar no meio da rua. Ele não parecia machucado, apenas assustado, com lágrimas manchando seu rosto. Aproximou-se com cuidado, evitando assustá-lo ainda mais. Quando ele não pareceu recuar, Jacob se ajoelhou em sua frente:
— Ei, rapazinho, você está bem? Eu te machuquei?
Ele fungou o nariz e balançou a cabeça negativamente.
— Achei que ia morrer. — disse baixinho.
Jacob arqueou as sobrancelhas, concordando.
— Eu também, rapazinho, eu também. — com cuidado, Jacob apoiou uma mão em seus cabelos loiros, tocando-os de forma amigável. — Por que está sozinho, amigo? Está acontecendo alguma coisa?
Os olhinhos azuis dele pareceram brilhar com aquela demonstração de carinho.
— Estou perdido, com frio e com fome. — seus lábios formaram um beiço triste e seus olhos voltaram a lacrimejar. — E minha mamãe me abandonou.
Jacob arregalou os olhos.
— Sua mamãe te abandonou? Como assim?
— Eu estava esperando ela me buscar na escola, mas ela não chegava nunca!
Mais aliviado com aquela resposta, Jacob compreendeu. Provavelmente, ela havia se atrasado. Conhecia bem aquela sensação, passou por esse mesmo momento mais do que gostaria de contar.
Estava prestes a explicar a situação para o garoto, mas um carro atrás do seu começou a buzinar, mostrando que aquele não era o lugar ideal para uma conversa. No entanto, Jacob não poderia deixar aquele garoto sozinho naquelas condições.
— Olha, por que você não vem comigo e eu te ajudo a encontrar sua mamãe? — sugeriu com pressa.
— Mas ela disse para eu não confiar em estranhos. É perigoso.
Ele tinha razão, afinal. Jacob também não confiaria em um sujeito desconhecido sugerindo que o acompanhasse em seu carro. Estava feliz ter sido ele a encontrar aquele garotinho e não alguém com más intenções. Tentando pensar em alguma solução o mais depressa possível, Jacob estendeu o dedo mindinho ao garoto.
— Eu sou Jacob e eu prometo, de dedinho, que não vou fazer nada de mal com você.
O garoto o encarou por alguns segundos, fazendo Jacob ficar aliviado com a desconfiança dele. Sua mãe o ensinou corretamente. Porém, ele estava nervoso com as buzinas do outro carro. Por fim, o garoto também estendeu o dedo mindinho e envolveu no de Jacob.
— Eu sou Jack. E confio em você. — ambos sorriram.
Sem mais delongas, Jacob o acompanhou até o carro, acomodando-o para enfim partirem. O homem do outro carro pareceu xingar pela demora, mas Jacob não deu atenção. Só partiu quando Jack estava confortável.
Iria fazê-lo as perguntas sobre onde morava e onde estava sua mãe, mas percebeu que ele estava tremendo.
— Está com frio, Jackie? — perguntou e quando ele acenou, Jacob retirou o próprio casaco de moletom que vestia e entregou a ele. — Pode usar meu casaco se quiser.
— Obrigado.
Jacob sorriu com o agradecimento e o observou vestir a peça de roupa, que ficou imensa, como era de se imaginar.
— Onde você mora, Jackie? Eu te levo em casa.
Nesse momento, ele pareceu frustrado.
— Eu não sei onde fica, são muitas letras e números.
Jacob riu, concordando com ele.
— Tudo bem. E onde sua mamãe trabalha? — novamente, Jack não tinha a resposta. — É, eu devia imaginar. Pois bem, acha que consegue lembrar o caminho da sua escola?
— Depende.
Jacob franziu o cenho.
— Do quê?
— Estou com muita fome para lembrar.
Uma risada gostosa de Jacob preencheu o carro, fazendo Jack ficar a vontade e rir também.
— Você tem toda razão, garotinho Jackie.
∾
Os primeiros pingos de chuva começavam a despencar, afugentando todas as pessoas da rua como se fossem feitas de açúcar. Entre elas, uma mulher alta e com longos cabelos loiros soltos esvoaçando conforme corria. Ela também estava com pressa, mas não para fugir da chuva. Precisava buscar seu filho na escola, pois já estava atrasada uma hora.
Nada daquela situação estaria acontecendo, se o chefe de Amber não houvesse inventado uma reunião de última hora e a prendesse no escritório por ser sua secretária. O tempo todo, durante a reunião, Amber olhava para o relógio da parede, preocupada com o horário de buscar seu filho. Pensou em ligar para a escola e avisar sobre seu atraso, mas seu chefe sequer a deixava sair da sala. Por isso, ela corria desesperadamente pela chuva, para encontrar seu filho.
Não se importava com suas roupas umedecendo ou de ter que tirar os sapatos sociais para correr melhor. Muito menos de se aventurar pelas ruas, através dos carros. Tudo o que precisava fazer para chegar até seu filho e se desculpar, ela faria.
Não era fácil ser mãe solteira. Tinha de criar seu filho sozinha e também bancá-lo, mas para isso precisava trabalhar fora de casa e, por isso, deixá-lo sozinho. Precisava dar toda atenção ao filho, mas também precisava dar atenção ao seu trabalho para conseguir dar de comer a ele. Era quase impossível conciliar todas as suas responsabilidades e, para ser sincera, Amber não sabia como conseguia estar viva no fim da noite.
Ainda que fizesse das tripas um coração por criar seu filho sozinha, jamais preferia dividir sua vida com o pai de Jack, pois a única coisa boa que aquele homem fez em sua vida, foi dar a ela o filho que tem. Só de imaginar chegar em casa, encontrar o sujeito e ter que dar satisfações, o coração de Amber tinha palpitações. Ele não era um homem bom e jamais seria um bom pai. Jack não merecia ter um homem como aquele sendo seu pai. Portanto, Amber nunca fez questão de esconder quem era seu pai e o motivo dele tê-los abandonado. Apesar de nunca colocar seu filho contra o pai, sempre foi sincera.
Deixando para trás as inconstâncias de sua vida, Amber correu ao atravessar a rua, esquivando-se de um carro por muito pouco. Seu coração pareceu quase saltar boca afora, mas não foi o suficiente para fazê-la parar. Não via a hora de encontrar seu filho, abraçá-lo e pedir perdão pela demora.
Se houvesse algum tipo de competição de mães solteiras, desesperadas para encontrar seus filhos, Amber certamente teria batido todos os recordes, pois chegou à escola em uma velocidade admirável. Estava acabada quando agarrou ao portão. Os belos cabelos loiros estavam molhados e desgrenhados. Sua face alva estava avermelhada pelo esforço da corrida e ela estava ofegante. Suas roupas sociais estavam respingadas e geladas. Os pés descalços no chão sujo e os sapatos pendurados pelas mãos junto com a bolsa.
Dois coordenadores vieram a seu encontro, aparentando uma apreensão que não agradou a Amber.
— Onde está meu filho?
Um deles abaixou a cabeça, o outro tentou manter a pose.
— Ele estava aqui agora, senhora, mas então sumiu. Ninguém mais o viu.
Ela levou as mãos ao rosto, desesperada. Podia cair em prantos ali mesmo.
— Eu sinto muito, senhora. Nós deveríamos...
— A culpa é minha. Eu me atrasei. — interrompeu-os. Sabia que eles dariam o suporte necessário caso algo acontecesse, portanto não tinha motivo para discutir com eles, mesmo que a raiva queimasse em seu rosto ruborizado.
Ela caminhou de um lado para o outro, sem se importar com a chuva aumentando. Precisava pensar no que fazer, mas não por onde começar a procurá-lo e nem como. Era uma cidade imensa, lotada de pessoas e muitas delas perigosas. Com todo aquele tempo de atraso, era imprevisível o que estaria acontecendo com seu pequeno Jack. Não queria pensar em possibilidades negativas, mas era impossível para o coração aflito de uma mãe.
Os coordenadores observaram a mulher nervosa, andando de um lado para o outro. Seus olhos azuis seguravam as lágrimas com força para não demonstrar fraqueza. Eles estavam tão preocupados quanto ela, pois se algo acontecesse a culpa seria da escola que não deu necessária atenção.
— Por que não entra e sai dessa chuva? Nossos outros funcionários estão procurando pela escola, talvez ele tenha se escondido. — sugeriu um dos homens. — Qualquer coisa, acionamos a polícia.
Ela pareceu considerar a sugestão, decidindo passar pelo portão. Podia soar como um absurdo ficar parada, mas não havia muito o que fazer em uma situação como aquela. Estava prestes a se sentar embaixo de uma marquise quando seus ouvidos captaram, como um cão de guarda, o barulho do freio de mão de um carro a estacionar na entrada da escola. Desesperada o suficiente para se agarrar a qualquer esperança, Amber disparou para o portão, esperando reencontrar seu filho.
Um homem negro, alto e musculoso saltou do carro, mas não pareceu notar a presença da mulher aflita. Ele foi até a porta do outro lado e a abriu. Daquele carro saltou um garotinho loiro, saboreando um pacote de salgadinhos. Nesse momento, Amber fechou os olhos, que derramaram lágrimas de alívio.
Depressa, ela correu até o filho, que também pareceu aliviado ao vê-la. Ainda com o pacote de salgadinhos na mão, ele abraçou forte sua mãe.
— Meu querido, me desculpe, me desculpe! Eu me atrasei naquela porcaria de trabalho. — disse, exasperada. Beijou o alto da cabeça dele e acariciou seus cabelos úmidos. — Eu fiquei com tanto medo de perder você.
— Eu achei que tinha me abandonado.
— Nunca! Escute bem, nunca!
O homem observou a cena com um sorriso simples. Junto com eles, os coordenadores aliviados.
Depois, Jack se afastou e voltou para o homem forte. Amber se levantou, respirando mais aliviada.
— Mamãe, esse é o Jacob, meu novo amigo. Ele cuidou de mim enquanto você se atrasou. — Jack parecia orgulhoso do novo amigo que encontrou. Segurava-o pela mão e o puxava de encontro a sua mãe.
— Eu não fiz nada além da minha obrigação.
Foi impossível para Amber não sorrir para aquele homem que cuidou de seu filho, mesmo sem conhecê-lo. Em um mundo com tanta gente má, uma alma como aquela era admirável.
— Na verdade, você não tinha obrigação alguma. — ela manteve o sorriso ao conduzi-los para debaixo de uma marquise, a fim de evitar a chuva. — E eu agradeço muito. Tudo o que eu puder fazer para agradecer, por favor, me diga.
Jacob tocou seu braço, evitando aquela súplica.
— Não se preocupe, senhora. Estou feliz que eu tive a chance de cuidar dele e não outra pessoa, com más intenções.
Jack estava agarrado na perna de sua mãe, terminando de comer os salgadinhos. Amber olhou para baixo, tocando os cabelos dele com cuidado.
— Deve estar me achando uma péssima mãe...
Jacob comprimiu os lábios, fitando o garoto.
— Você é mãe solteira, não é? — questionou, tornando a olhar para os olhos azuis dela, tão semelhantes ao do filho. Era uma mulher nova, não deveria passar dos vinte e cinco anos.
Amber pareceu engolir a seco, mas assentiu.
— Sim, eu sou.
— Então, a culpa não é sua. — respondeu sincero e viu os olhos dela brilharem diante da resposta. Foi inevitável sorrir para ela. — Eu também sou filho de mãe solteira. Sei como é difícil.
Ela abaixou o rosto, sentindo as bochechas ruborizarem. Dessa vez, não era pela pressa ou por estar ofegante. Era pela delicadeza daquele homem tão imponente.
— Vocês tem como voltar para casa sem ser na chuva? — perguntou, ainda fitando o doce semblante da mulher. — Posso dar carona a vocês.
— Ah, eu não quero mais te dar trabalho e ocupar seu tempo, você já fez muito por mim.
Ele meneou, tornando a sorrir.
— É sério. Não vai me custar nada. E eu prometi levar meu novo amiguinho em segurança para casa, não é, Jackie?
Jack ficou extasiado.
— Por favor, mamãe, por favor! Jacob é tão legal!
Ela concordou.
— É, eu sei que ele é.
Juntos, eles adentraram no carro. Estavam todos bem úmidos e com frio, o carro estava agradável e acolheu-os muito bem. Dessa vez, Jack sentou-se no banco de trás enquanto Amber sentou-se no banco do carona e Jacob tornou a tomar o volante.
— A propósito, me chamo Amber. — apresentou, logo que ele deu partida.
— Prazer, Amber. — ele sorriu e ela correspondeu.
O caminho começou silencioso, mas Amber sentia-se inquieta diante daquele homem. Aquela cidade deveria ser mesmo grande, pois nunca se deparou com um homem feito ele. Ou talvez tenha se deparado, só não se recordava. Não. Ela se lembraria, com certeza.
No banco de trás, Jack acomodou-se e acabou dormindo. Então, só restava os dois. Agoniada com o silêncio, ela estalou os lábios.
— Disse que é filho de mãe solteira. Ela costumava te esquecer na escola também?
Jacob riu, exibindo um belo sorriso.
— Mais vezes do que posso contar.
— Obrigada por não me julgar. Tem sido difícil...
Ele anuiu e permaneceu em silêncio por um momento, até que olhou-a nos olhos.
— Se me permite me intrometer... Não esconda dele o pai que ele tem. — aconselhou, revezando olhar para a estrada e para os belos olhos azuis dela. — Não tente amenizar a situação que o pai dele criou. Minha mãe tentou me fazer ter uma visão agradável do meu pai quando, na verdade, era o oposto. E eu quebrei a cara. Se ele foi um homem bom, conte a ele. Se ele foi um covarde, conte mesmo assim. Não deixe que ele descubra sozinho.
Amber prestou atenção em todas as palavras de Jacob, sem remover o olhar de sua face. Parecia emocionado ao dizer aquilo. Seus olhos brilhavam, mas não era por um bom motivo. Era por um coração quebrado.
— É bom escutar isso. Algumas vezes, me sinto culpada por mostrar a verdade a ele e magoá-lo.
— Não se sinta. Ele vai te agradecer quando for mais tarde. — pelo retrovisor, Jacob observou o garoto dormindo no banco de seu carro. — E, acredite, você tem feito um ótimo trabalho.
Os sorrisos mútuos foram o suficiente para completar o assunto, sem que o silêncio incomodasse mais. O restante do caminho foi composto por algumas olhadelas, mas nada demais. Quando o fim do percurso chegou e Amber apontou a casa, foi difícil se despedir.
— Não quer entrar? Posso fazer um café para te agradecer. — sugeriu enquanto acordava Jack.
— Eu agradeço, mas preciso ir me arrumar para trabalhar, daqui a pouco. — ele sorriu, observando-a abrir a porta.
— Bem, espero te ver de novo, então vou deixar o convite disponível.
Ele curvou a boca, sem saber o que dizer. Jack não deixou que o silêncio de Jacob se tornasse esquisito e foi até ele se despedir.
— Mamãe ensinou que devo sempre agradecer. Obrigado por cuidar de mim e ser meu amigo.
— Não precisa agradecer, foi bom fazer um novo amigo.
Eles fizeram um cumprimento de mãos, batendo uma palma na outra. E então, Jacob buzinou e deu partida, deixando os dois na porta de casa.
Amber olhou para o filho e percebeu um moletom imenso, vestindo-o como uma manta. Provavelmente, era de Jacob. Mais do que depressa, ela ergueu as mãos para fazer sinal ao carro.
— Você esqueceu... — tentou gritar, mas o carro já estava longe. — Esqueceu o seu casaco.
— Ele vai voltar para buscar, mamãe. Nós somos amigos.
Amber sorriu e começou a conduzir Jack para casa, mas antes de entrar, ele tornou a falar.
— Desculpa por ter confiado em um estranho, mamãe. Você não está brava, não é?
Ela acariciou seus cabelos e desceu a mão até o moletom.
— Está tudo bem, querido. Ele não é um estranho. É um homem bom. E seu novo amigo.
Fale com o autor