Anything But Ordinary: Contos
1 20 reais, fitinhas vermelhas & esportulianos
Mesmo no inverno do Rio em 2006, o sol pocava a pele de quem quer que cruzasse a orla da Praia do Leme. Beatriz, que se achava a pessoa mais friorenta do mundo, percebeu que talvez os cariocas fossem bem mais do que os capixabas.
Beatriz montava sua própria cena de novela na cabeça: comprou de coco na praia, seguiu até o Pontal e subiu ao Forte Duque de Caxias.
Na Lapa, fez amizade com um amazonense, uma paraense e um grupo de curitibanos e paulistas. Todos eram mil vezes mais simpáticos do que qualquer gringo do Hostel onde ela estava hospedada em Botafogo.
Pedro, seu mais novo amigo de Manaus, prometeu lhe dar um tour gratuito pela cidade quando Beatriz o visitasse, pagou pela porção de torresmo, e disse:
— Por que você não fica no nosso hostel, então? Lá até os estrangeiros são simpáticos. É um ambiente mais “ralé”.
Beatriz riu baixo. — A diária é muito cara?
Ana Júlia acenou para Beatriz. — Tá 18 reais. Promoção.
Não foi preciso dizer mais nada para convencer Beatriz a ser a 63º hóspede do Ipanema Hostel. Um hostelzinho assim meio escondido, quase em Copacabana, mas muito aconchegante. Cheio de almofadas coloridas, bandeiras de países, mochileiros jovens e idosos e mapas gratuitos da cidade.
Se pelo menos Beatriz tivesse se hospedado diretamente aqui, ela não teria andado de Botafogo até o Leme por conta do táxi caríssimo (e ela não era melhor pessoa pra imitar uma carioca ou pra negociar qualquer coisa).
Mas pelo menos ela fez novos amigos. Talvez eles nunca mais se vissem na vida, mas foram especiais naquele momento, a fizeram rir e se esquecer de que aquela viagem era pra ser só um respiro. Uma porta de escape.
Ela se permitiu delirar.
E assim que atravessou o corredor na direção do quarto, ela o viu. Loiro, olhos verdes, cabelo ondulado curto, a maior pinta de surfista gringo, com uma blusa laranja meio desabotoada, calça de linho apertada, nem muito malhado nem cadavérico (como ela escutou a vida toda sobre si mesma). Ele tinha saído direto de um dos sonhos dela, (ou de algum pesadelo bem ruim pra ela estar imaginando que teria alguma chance com um pedaço de mal caminho daqueles).
Não sabia se ele a tinha visto também, e torcia para que a resposta fosse não. Era melhor ele não ter percebido como ela o olhava, apertando forte as alças da mochila e empinando o queixo.
Ganhou um corpo depois da puberdade, mas só tinha 19 anos, e duvidava que aquele cara não tinha pelo menos 23, e muita experiência com as garotas mais bonitas da Europa. Beatriz não era negra como Ana Júlia e nem teve que sofrer o preconceito na pele como a amiga no bar, não saiu chorando pela forma como a garçonete a tratou, mas sabia que pros gringos, ela não era branca. Era a latina ideal. E doía ver isso refletido nos olhares dos gringos. Doía ver a desumanização da nova amiga, e os olhares julgadores.
Era como se nos olhos deles, ela fosse mais bonita que Ana Júlia, mas inferior à qualquer loira alemã.
Como se um cara daqueles fosse olhar pra ela, pro cabelo ondulado rebelde que ela escondia naquele rabo-de-cavalo-de-franja-lambidíssimo, que não iria julgar suas roupas básicas de tecido vagabundo e coloridas demais pra uma garota de personalidade tão sem graça.
Beatriz era mesmo idiota. Ela não poderia nem falar nada pra não parecer vitimista como a Margot sempre dizia: Já basta você ser órfã, você não precisa da dó de ninguém. Não fale pra eles. Não demonstre que você está sozinha. Não confie em ninguém.
Beatriz sentia falta de assistir televisão com irmã, de jogar vôlei na Praia dos Pescadores com a Laurinha e de ir na locadora com o Joãozinho.
Era pouco tempo pra tantas saudades. Mais um motivo pra Beatriz concluir que era mesmo idiota, ainda era dia 6, ela tinha chegado dia 5, e só iria embora dia 14.
Otária!
Bateu os pés, e depois de tanta insistência de Ana Júlia, se arrumou para a noite na Lapa. Se tinha uma coisa que Beatriz sabia fazer bem era sambar.
E sambou como ninguém naquela noite.
Seus olhos encontraram o do tal gringo, largado num banco de madeira, bebendo sua garrafa de Skol e rindo com os amigos.
Os dois pararam de rir. Ele se levantou, e ela parou de sambar.
O gringo veio em sua direção, mas seguiu andando. Cochichou algo no ouvido de uma loira, e em instantes a beijou.
Beatriz sentiu os olhos se enchendo de lágrimas. Por que criou expectativas com um olhar, e com um cara que nem conhecia?
Ela estava cansada de criar expectativas com todos esses babacas. Gael botou chifre nela na primeira oportunidade, Yago nunca a assumiu e Rodolfo espalhou boatos de que ela não quis transar com ele para sua rodinha de amigos.
Talvez fossem seus peitos, pequenos demais, por mais que tivessem crescido, não eram grandes como os garotos gostavam. Ela nem tinha bunda. Não sabia se maquiar, e a febre do batom lilás a deixou horrorosa. Nada que ela via nas revistas da Capricho impressionava os garotos, eram todos inalcançáveis. Nenhum restou.
Ana Júlia e Pedro a convidaram para subir o Cristo na manhã seguinte. Beatriz lembrou do porquê foi ao Rio. Para pedir que ela e Margot conseguissem aprovação na universidade, e finalmente se tornassem professora regente e arquiteta, respectivamente, e mesmo sem ter uma religião exata, ela esperava que Jesus a ouvisse.
Não era possível que numa cidade de seis milhões de pessoas, aquela era justamente a que iria cruzar a visão de Beatriz.
Perdida dos amigos, no meio da escada, encurralada pelos olhos claros do Jacopo, Beatriz se sentiu a pessoa mais azarada do mundo; Jacopo se sentiu a mais sortuda.
— Olá, gatiña!
Jacopo já tinha visto Beatriz passando pelo hostel, e o que lhe chamou atenção foram seus lábios em forma de coração, a saia jeans curta que desenhava suas pernas. Ela era totalmente o estilo dele: pernas longas, alta, cabelo volumoso e escuro e uma cara de quem não sorri nunca. Ele queria que ela sorrisse pra ele e queria beijá-la.
Aquela era a oportunidade perfeita de treinar seu portunhol, portuliano, espalianoguês… ou seja lá como se chamava aquela mistura.
— Mi nombre es Jacopo. Molto piacere!
Beatriz o deixou beijar sua mão, espremida contra a escada. Ele aproveitou a falta de espaço para tentar seduzi-la com sua voz grave e potente, atento ao movimento dos lábios dela, a forma como ela tentava decifrar o que ele queria com ela.
— Beatriz.
— Su nome es… estraño.
Beatriz torceu a boca. — O seu nome é magnífico. É Jacó em italiano? Nome de velho.
Jacopo soltou uma gargalhada. — Esse “velho” já foi um rapaziño de venticinque anos completamente innamorato di una brasiliana.
Beatriz revirou os olhos.
— Você… é solteira?
— Sou.
Ela só conseguia pensar em como ele era mulherengo. Igual a todos os outros rapazes. Que novidade.
— Vuoi baciarmi?
— Quê?
— Bei… Perdone… — Jacopo raspou a garganta. — Beijar.
Ela arregalou os olhos. — Ficou doido? Eu nem te conheço!
— Podes conhecer oggi!
— Você é maluco.
Jacopo jogou a cabeça pra trás. — Eu quiero tener una namorada brasileira… Uma garotiña que me diga a como beijar de verdade… A garota de ayer me dijó que yo beijava mal.
— Pois continue procurando. Ah, e veja se encontra uma professora de português também. Aqui tá cheio de garota afim de você. Você é o tipo de todo mundo.
— Mas tu é lamás bonita de todas.
Beatriz balançou a cabeça. — Não vou namorar com você só porque você me acha bonita. Vá atrás de outra idiota.
Beatriz se virou, esbarrando numa velhinha.
— Desculpa! — Tropeçou na escada.
Jacopo a segurou pela cintura por puro instinto. Vermelha da cabeça aos pés, ela o agradeceu. De perto, seu perfume era amadeirado. Seus braços eram fortes, e aquela polo de linho o deixava ainda mais bonito.
— Obrigada.
— Posso te segurar siempre que quiseres.
Beatriz riu. — Você é muito direto.
— Esto es… ruim?
Ela ficou vermelha de novo e tentou seguir se comunicando com ele por mímica, e um esportuliano ainda pior que o dele.
— Querem uma foto, tio? 1 real só, sangue bom!
O menininho registrou a foto. Lado a lado, Beatriz sorriu sem mostrar os dentes. O Cristo aparecia atrás deles, e Jacopo sentiu seu coração acelerar com o perfume de lavanda dela, combinava com a estampa floral da regata.
— Vuoi scommettere con me?
— Traduz. — Beatriz riu.
— Quieres… apostar… un bacio?
— Por que eu te beijaria?
— Porque l’Italia va a gañar il mondiale!
— E eu com isso?
— Eu… merito… um prêmio, non?
— O certo é eu “mereço”.
— Eu mereço!
Beatriz pensou por uns instantes. — Se a França ganhar, você vai ter que me dar 20 reais.
— Só isso? É muito pouco!
— Tá bom. Se a Itália perder, você me deve 20 reais!
— Só 20? É muito pouquiño!Pedi mais!
Jacopo pensava que seu beijo valia muito pouco, e Beatriz se sentiu mal por ele não ter percebido que para ela, 20 reais significava mais uma diária no RJ.
— Eu estraguei tudo. Desculpa.
Beatriz se enfiou no meio da multidão com os olhos cheios de lágrimas, sem se virar para trás.
De volta ao Ipanema Hostel, Jacopo esperava por Beatriz na recepção. Cansou de esperar por toda a noite, mas comprou-lhe um buquê de girassóis e lavandas.
— São pra você!
Beatriz empalideceu. — Como você conseguiu falar essa frase sem sotaque?
Jacopo deu de ombros. — No vas… aceptarles?
Beatriz cheirou as flores e as abraçou. Se sentou do lado de Jacopo, mantendo uma distância confortável entre os dois.
— Por que… veio acá?
Beatriz respirou fundo. — Fui demitida do supermercado onde eu trabalhava por causa do meu ex.
— Fala… devagar…
— Yo fui… — Beatriz deixa as flores do lado e faz sinal de chifrinhos. — Corna. Cor-na. Mi… novio… tuve sexo… con otra chica.
— Ah!
— Aí ele me perseguiu no trabalho. Fui despedida pelo meu chefe e juntei a grana… o dinheiro… do seguro-desemprego… de mi trabajo…
Jacopo só prestava atenção nos lábios de Beatriz, com uma mão no queixo, uma no colo e as pernas cruzadas.
— Entendeu?
— Sí! — Jacopo corrigiu a postura.
— Você veio pra curtir? Para… diversão? — Beatriz sinalizou um beijo usando seus dedos.
Jacopo riu pelo nariz. — Também. Yo quería… fugir de mi família.
Beatriz não precisou de traição. Queria dizer “pelo menos você tem de onde fugir”, mas já bastava a vergonha que sentiu mais cedo. Não queria que ele pensasse que ela era vitimista, chata, arrogante ou intrometida, então só sorriu.
— Do que você gosta?
— Moda. Costurar como vocês falam acá no Brasil.
Beatriz juntou as sobrancelhas.
Um homem… que costura?
Pedro e Ana Júlia acenaram para Beatriz.
Pedro parou para cumprimentá-la, sussurrando:
— É aquele seu amigo gay de ontem no Cristo?
Ela arregalou os olhos.
— Brincadeira. Ele só deve ser europeu mesmo. Vai com a gente na Lapa hoje?
— Não. Fui ao Cristo e ao Jardim Botânico hoje cedo.
— Então descansa. — Pedro beijou-lhe a bochecha e Ana Júlia lhe abraçou.
Jacopo limpou a garganta. — Não eras solteira?
Beatriz riu. — São meus amigos.
— ¿Quieres ir al Morro da Urca conmigo mañana averel sol irse?
Beatriz sentiu o rosto arder, mas confirmou. Foi dormir cheirando o buquê e se chamando de idiota.
Você não pode se apaixonar por ele. Você vai embora daqui a poucos dias.
Jacopo tinha uma risada graciosa, fofa e ridícula ao mesmo tempo.
Gostava de jogar pôquer. De jogar bola
Era o maior fã de Tolstói, de Shakespeare e de Senna.
No Rio, ficou vidrado no pancadão e em samba, e se apaixonou por Jobim, Elis e Os Tribalistas. Esteve num show do Nando Reis com a Marisa Monte no mês passado. A música e literatura brasileira só perdia pros poemas de Dante.
Beatriz abriu a boca. — Não acho! Mas! Peraí! Você já tá aqui no Rio tem um mês?
Jacopo balançou a cabeça.
Beatriz escondeu a vontade de perguntar o quão rica a família dele era pra que ele pudesse estar ali há tanto tempo sem se preocupar em acordar cedo no dia seguinte pro turno das 7h às 19h.
— Qué… você gusta de facer?
— Ouvir música.
— Rebeldi?
— Como você sabe?
— Todo mundo aquí es fan de ellos.
— Sim. Pena que eu não vou poder ir no show.
— Sinto muito…
— Você quer ir conmigo
Fazia piadas sobre a empresa da família e os costumes do irmão Alessandro que não sabia jogar futebol direito. A mãe Elena quase enfartou quando soube da viagem. O pai Carlo lhe deu todo apoio e disse pro filho trazer consigo muita cachaça.
Jacopo contou como visitar a comunidade da Rocinha o fez abrir os olhos pra vida, e ele prometeu voltar ao Rio todos os anos sempre que pudesse. Aquela era sua segunda vez ali.
— Então você já tem 24?
Ele balançou a cabeça. — 10 de agosto… faccio 25. Tu… és de onde? Daqui nonés… verdad? Pois não falas como ellos…
— Sou do Espírito Santo.
— No conheço.
— Claro, gringo só conhece o Rio e São Paulo, no máximo a Amazônia que vocês acham que é um estado.
— Dónde es?
— Pertinho daqui de ônibus. Oito horas. De avião é uma hora e pouco.
— Oito horas? Eso é muito!
— Eu sei, mas eu não tinha dinheiro pro voo. Eu nunca andei de avião.
— Nunca? — Jacopo arregalou os olhos.
Percebendo que Beatriz estava pálida e olhando pro céu alaranjado, ele segurou suas mãos. Continuaram caminhando em silêncio até o final da trilha, cobriram a pedra com a canga tricolor da Itália e se sentaram. O piquenique improvisado tinha só umas fatias de melancia que Beatriz catou do hostel, um suco de abacaxi, água e um pedaço de bolo de fubá.
Jacopo comeu tudo até lamber os beiços.
— ¿Cuál es el nombre de tu ciudad?
— Eu nasci em Costaré.
— Nome bonito. Cuándo te vas?
— Dia 14, e você?
— Voy a muchos hogares: Petrópolis, Paraty, Angra, Praia Grande… depois eu volto para l’Italia.
— Entendi. Como é a vida em Milão?
— Eu tuvemuchas facilidades por mifamilia, no puedo reclamar. Una vida muy confortable.
— Como é a neve?
Jacopo parou de respirar. — Santo Dio, che? Non l’hai mai visto?
Beatriz sentiu suas vistas pesadas por uma lágrima e secou as bochechas antes que Jacopo visse.
— Muita gente no Brasil não viu ainda. Mas não me olha com essa cara de pena, não. Por favor. Tem muita gente com fome. Eu lá quero saber se eu vi a neve, se não vi? Não tô nem aí!
Beatriz abraçou os joelhos e apertou o tecido fino da calça.
— Hai freddo? — Jacopo esfregou os braços dela.
As mãos dele eram grandes. Beatriz tentou disfarçar o arrepio, se agarrando no cotovelo dele.
— Sim.
Jacopo lhe cobriu com a jaqueta da mochila, era laranja, feita de um tecido grosso cujo nome era desconhecido por Beatriz.
— É… Parlami un po’ della tua vita nel tuo stato.
— Todo mundo fala que o Espírito Santo é tipo o irmão mais novo do Rio. Um irmão menos perigoso e mais feio, mais esquecido.
Jacopo ficou vermelho. — Talvez… el hermano más “esquecido” haga mi coração bater más forte.
Beatriz deu um tapa no ombro dele. — Você é muito cafona.
— E tu sei molto bella. Ora posso baciarti?
— Não! Ainda não, garoto apressado! O jogo é só amanhã às três da tarde! Não canta vitória antes da hora!
Ele fez cócegas nela, e os dois caíram na canga, com o pôr do sol testemunhando tudo. Beatriz dormiu no peito dele, com os dedos entrelaçados, Jacopo acariciava seus cabelos e beijava o topo de sua cabeça.Quando Fabio Grosso marcou o último pênalti, o coração de Jacopo saiu pela boca. Beatriz, que usava uma camisa da Seleção Francesa para irritá-lo, o abraçou e chorou junto dele. Queria ter tido essa sorte algum dia de ver o Brasil ganhando, mas enquanto não acontecia, podia comemorar pelo namorado.
Namorado não.
Seu sorriso morreu, mas voltou assim que Jacopo a beijou na bochecha e apontou pros lábios dela.
— Ho vinto!
— Tu… sei pazzo…
Jacopo abriu a boca, vermelho. — Você fala italiano muito bem.
— É. Eu estava guardando pra você. Era surpresa.
A pose não durou muito, ela logo ficou vermelha também.
Beatriz o puxou para longe dos gritos do hostel e pra perto da areia do mar de Copacabana. Achou um lugar mais vazio atrás da pedra e lhe ensinou a beijar como ele queria aprender, o deixando sem resposta.
— Gostou?
Jacopo sorriu e encaixou a cabeça no pescoço dela, segurando sua cintura.
— Eu vou casar com você.
— Sei pazzo!
— Yo te vi… y supe que iba a ser você!
Beatriz se afastou do abraço. — Isso parece um filme. Um daqueles bem ruins, eu é que não vou cair nessa!
— Nada es perfecto en la vida. Te mandaré cartas todos los meses hasta que yovuelva. Te voy a visitar en Costaré!
Passaram a noite num motel que Jacopo alugou, comemorando uma lua de mel que os dois inventaram na cabeça. Os anéis eram fitinhas vermelhas.
Beatriz não acreditou naquela promessa, mas decidiu aproveitar cada segundo daquela ilusão. Não se importou de transformar seus últimos dias no Rio numa lua de mel de verdade.
Eles foram assistir ao Código da Vinci no dia seguinte. Jacopo pagou pela pipoca e pelo guaraná, e falou durante o filme todo (e ainda saiu dizendo que a trama era sopravvalutata e que o livro era infinitamente superior).
No outro dia, eles fizeram um bate-e-volta pra Petrópolis. Jacopo não conseguia simplesmente admirar nada em silêncio, sempre tinha que comparar cada detalhe da cidade com a arquitetura italiana, sempre tinha que mencionar que Beatriz devia ir pra Milano com ele, conhecer o bairro onde cresceu, comer as comidas que ele amava e beber muito vinho, tomar muito gelato, que ele iria mostrar os lugares escondidos que ninguém conhecia, e que iria fazer dela sua esposa, eles iriam alugar um motorhome e viajar por toda a Europa, e…
Beatriz só revirava os olhos e segurava a vontade de calá-lo com um beijo (ou talvez uma porrada). Já não bastava o frio da serra, não queria aguentar o papo furado do Jacopo. Mas até se gabando que eles tinham inventado o pianoforte, aquele infeliz continuava lindo. Beatriz não queria admitir, mas Jacopo deixou sua viagem mais leve. O plano dela era perambular por todos os lugares gratuitos do Rio, tinha guardado dinheiro só pra ir Cristo e se comesse pouco, dava pra ir no Bondinho.
Por culpa de Jacopo, ela foi no Bondinho, no Forte de Copacabana e ainda fez um tour pelo Maracanã. Botafoguense roxa, teve que passar o vexame de ir com a blusa do Fluminense porque Jacopo adorava as cores e queria ir combinando com ela.
Como ele fazia o tempo passar tão depressa? E como fazia passar devagar? Como o dia dela de repente parecia ter 30 horas?
Foram bater perna no Centro, saíram com muitas bugigangas e fotos em Polaroid. Jacopo fez questão de dar um MP3 com suas canções favoritas pra Beatriz, dizendo que a faixa 5 era a sua favorita e que a faria se lembrar dele pra sempre.
Ela voltou pra Costaré com lágrimas nos olhos, ouvindo Dio, Come Ti Amo!
Margot já não aguentava mais sua irmã caçula parando todos os dias às 9h em ponto no Orelhão da Oi, na esquina do Banco do Brasil da Principal do Centro.
Atrasava o trabalho das duas. Fazia Margot desejar viver longe de Costaré pra sempre.
— Você só fala desse gringo ridículo.
— Não fica com ciúme, maninha. Eu não vou te abandonar nunca!
E lá se ia mais um cartão. E mais 3 minutos.
Quando Jacopo disse que ia transferir o dinheiro pras ligações, Beatriz relutou em aceitar. Tinha mandado um e-mail pra ele dizendo “Não posso aceitar seu dinheiro”, e Jacopo tinha respondido “Não é pra você, é pro cartão”.
Que abuso! Esse garoto aprendeu o básico do português e já se acha a última coca do deserto?
Mas até que ela sentia falta de ver ele sorrindo de perto. De sentir seu cheiro. De beijá-lo. Queria ter dinheiro pra ficar mais tempo com ele na webcam, mas a conexão na Lan House do Seu Rubem era bem fraca e caía toda hora. Os e-mails, torpedos e mensagens no MSN e no Orkut eram suficientes. Por enquanto.
Jacopo mandava roupas da Bergamaschi Tessuti, e Beatriz amava os tecidos, se sentia rica por uns instantes, se sentia importante. Margot era a voz da consciência que a lembrava que talvez a família de Jacopo não a aceitasse (as aceitasse, na verdade porque Beatriz não se mudaria de Costaré sem a irmã).
Querida Beatriz Carvalho (e futura Sra. Bergamaschi),
Se encontrares algum erro nesta carta, a culpa é dos dicionários. Levei um bom tempo para traduzir tudo isso e finalmente consegui expressar o que sinto por você. Tudo começou com um chiste, e a minha incontrolável atração pelos seus lábios em forma de coração. Você cheirava à lavanda, tinha o cabelo macio e só de escrever isso, eu já sinto o meu peito apertar com aquela emoção que você me ensinou.
Saudades.
Você é suficiente. Você é muito amada por mim. Sabe um segredo? Você não precisa fazer nada para merecer isso.
Você não precisa explicar seus sentimentos para mim, eu vou aguardar até o dia que eles estejam do tamanho dos meus, meio infinitos, meio inevitáveis. Eu nunca conheci alguém igual a você, que me fez sentir tantas emoções de uma vez, que tem uma sensibilidade que eu nunca conheci. O Jacopo antes de você achava que conhecia a vida, mas foi só metade.
Eu não quero só a metade do que eu posso ser. Eu quero a parte inteira, e ela é com você.
Estou rindo porque isso rimou em português.
Sim, estou fazendo aulas, se você quer saber. Todo dia, aprendo novas palavras. Um dia, eu ainda vou me declarar para você em português sem errar nenhuma sílaba. Você vai rir e me chamar de idiota. Eu vou dizer que eu te amo.
Quero trazer você para perto de mim. Estou falando sério.
Ainda não rompi a nossa fitinha vermelha. Vou cumprir minha promessa. Vou te encontrar de novo. Espero que você ainda tenha sua fita e seu coração livre, e que esteja me esperando.
Não beijei mais ninguém desde o dia em que te beijei pela primeira vez. Só existe um par de lábios que quero beijar pelo resto da minha vida: os seus. Você pode achar que sou sentimental; não me importo com rótulos. A verdade é que nunca vou te esquecer, nossas conversas, sua voz, seus olhos escuros, e o jeito como você me olhava me tornou uma pessoa melhor, com um pouco mais de esperança.
Se dependesse de mim, você viajaria todo ano, veria a neve e.. estaria aqui comigo agora. Usaria roupas caras, comeria só comidas deliciosas e estudaria e trabalharia perto de mim em Milano. Sei que só algumas coisas podem mudar por minha causa, e sei que há algumas que você não gostaria, como dizer adeus aos seus amigos, à sua irmã e à sua cidade. Não vou discutir com eles, mas espere por mim. Prometo que irei até você, morarei lá em Costaré. Nos casaremos e teremos muitos filhos barulhentos.
Se eu te contasse que eu nunca senti que meu coração era italiano, você acreditaria em mim?
Com amor,
Jacopo Bergamaschi.
Junto da carta, veio uma passagem impressa.
Beatriz o reencontrou no aeroporto.
Jacopo estava de regata laranja, cabelo bagunçado, olheiras terríveis e uma mala enorme no chão e uma mochila azul nas costas. No meio do expediente dela no novo emprego. Com uma aliança. Sem saber se iria durar ou se não iria. Ela ainda tinha uma novidade para contar pra ele, mas esperou seu aniversário em setembro e decidiu planejar uma viagem para Guarapari para comemorar com muita antecedência.
A primeira vez que ela andou de avião, Jacopo estava ali. A segurando. Eles dividiram o fone e Clocks tocou.
Beatriz esperava que Margot gostasse dele, e que a família dele gostasse dela. Independentemente disso, eles iriam passar aquelas duas semanas na Itália curtindo antes de decidirem o que fazer. Sabiam que estavam sendo um poço de inconsequência.
Mas também sabiam que já estavam unidos para sempre. Não pelas fitinhas vermelhas, pela Copa.
Pela semente do amor.
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