Any Other Day
2 Capítulo 2
Hoje é um daqueles dias dolorosos em que eu me isolo em casa e choro, me olho no espelho e vejo os meus olhos vermelhos e banhados por lágrimas, eu me encaro por mais alguns segundos e dou as costas para o espelho, assim que abro a porta dou de cara com o Scooby o pastor alemão capa preta que meu pai deu de presente para o meu filho e ele adorava esse cachorro assim como eu.
— Você também sente falta dele não é, Scooby? — ele também estava tristonho, eu aliso sua cabeça e volto pra sala ele me acompanha e pula para o sofá assim que me sento, eu pego um porta retrato e vejo a foto de John, ele está envolto em meus braços seus cabelos negros, cheios e esvoaçantes batem em meu queixo e seu sorriso banguelo de um dente preenchem a foto e aquecem meu coração. — Eu daria tudo pra vê-lo sorrindo de novo. — eu deslizei meus dedos pelo o vidro do porta retrato e o encostei contra meu peito. — Eu daria tudo o que eu tenho e o que não tenho pra te ter aqui, John. — deslizei meu corpo pelo o sofá fazendo do Scooby meu travesseiro e chorei até pegar no sono.
Algumas horas depois eu desperto, minha cabeça dói e eu não levanto de imediato demoro alguns minutos e quando eu olho para meu celular que estava na mesa de centro vejo a luz de led piscar o pego e ele vibra na minha mão sinalizando que tem mensagens ou chamadas perdidas ou os dois, assim que o desbloqueio vejo sim várias chamadas perdidas da minha mãe, da Elise a minha melhor amiga e do Robert o meu irmão, eu as ignoro e foco na única mensagem que recebi.
'' Sei que hoje é um daqueles dias em que a dor ganha uma infinita força, também sei que em dias como esse tudo o que queremos é estar só, mas se você precisar de alguém pra conversar, de um ouvinte ou apenas de alguém que vá te dar o ombro pra chorar você pode me ligar e eu vou voando.''
Adam.
A mensagem me comove e eu até penso em responder, mas me faltam palavras. Eu conheci o Adam em um grupo de apoio para pessoas que estão passando pelo o mesmo que eu, lá eu encontrei pessoas que compartilhavam da mesma dor que eu, a dor da incerteza de saber se meu filho está vivo ou morto, lá eu também encontrei pessoas que já tinham a certeza de que eles estavam mortos, Adam, fazia parte do grupo de pessoas que já tinha a certeza da morte do filho, ele era pai solteiro a mãe disse que não nasceu pra ser mãe e sumiu no mundo, Camile foi sequestrada por um sádico instalador de tevê a cabo que a viu brincando no jardim quando foi fazer a instalação na casa do vizinho de Adam, aquele monstro a manteve em cativeiro por meses e depois a matou e desovou o corpo na beira de um rio alegando que ela estava muito chata e que tinha crescido demais, Adam disse que resolveu entrar no grupo de apoio para ajudar e ser ajudado por pais que passaram ou passam pela a mesma situação que nós, ele se aproximou de mim e viramos amigos e em alguns momentos de fragilidade nós nos envolvemos intimamente estreitando assim nosso laço de amizade, ele é um bom homem e eu me sinto segura e até mesmo bem quando estou com ele, mas acho que nenhum de nós está pronto pra se envolver seriamente com alguém. Penso mais uma vez no que dizer, mas não consigo formular nada, bloqueio o celular e o jogo no sofá, fico de pé e antes que eu me mova pra qualquer lugar ouço a campainha tocar, cogito a possibilidade de ignorar, mas a pessoa é insistente e não solta o botão por um segundo sequer fazendo eu me irritar e Scooby latir, eu caminho apressadamente a fim de fazer o barulho parar e quando abro a porta irritada dou de cara com ele.
— Tony? — ele exalava um forte hálito de uísque e seu semblante era confuso e triste, ele entrou fechando a porta bruscamente e me abraçou eu apoiei a cabeça em seu peito e passei meus braços ao seu redor, ele não me diz nada apenas me aperta e passo a derramar minhas lágrimas, essa é a primeira vez em 6 anos e meio de separação que ele aparece na minha casa. — Vem, vamos sentar. — eu me desfaço do abraço, o puxo pela a mão e o levo até o sofá, Scooby se aproxima e roça o focinho nele.
— Ei, cara, quanto tempo, não é? — ele faz carinho no Scooby e em troca recebeu uma lambida. — Tinha esquecido o quanto você é hospitaleiro, Scooby.
— Você quer alguma coisa pra beber ou comer?
— Água. — responde ele hesitante, eu assinto e vou buscar sua água aproveito e também tomo um comprimido pra dor de cabeça e quando volto vejo ele encarando o porta retrato.
— Foi um dia perfeito. — relembrei e ele deu um riso fraco.
— Todos os dias antes do que aconteceu foram perfeitos. Até mesmo aqueles que eram cheio de cocôs. — eu ri, me sentei ao lado dele e entreguei o copo com água.- Como será que ele estaria hoje em dia?
— Tão bonito quanto sempre foi. Eu só queria que o fim chegasse.
— Mesmo que esse fim significasse enterrá-lo? — meu coração apertou e eu assenti.
— Pelo menos acabava de vez com as esperanças e tanto ele quanto nós poderíamos descansar. — nós ficamos em silêncio. — Hoje tá pior que na maioria dos dias, não é?
— A casa ganhou o triplo do tamanho e as lembranças também. Vocês estão lá sem estar lá. — eu entrelacei minha mão direita na mão esquerda dele e senti algo gelado entrar em contato com minha pele, olhei de lado vi a aliança e não entendi o por que de ele ainda usá-la, talvez seja comodismo. — Você lembra no dia em que ele nasceu...
— Como eu poderia esquecer o dia mais feliz da minha vida? — perguntei cortando-o e ele sorriu.
— Eu ia completar dizendo que fiquei indo no berçário de instante em instante pra saber se ele estava seguro ou se tinham trocado ele.
— Seu pai te imitando foi o mais engraçado. — eu sabia que Tony tinha tanto amor por ele quanto qualquer pai amoroso tem por um filho, mas nem sempre foi assim do mesmo jeito que nem sempre ele me amou quando ele descobriu que ia ser pai também não amou a ideia e muitos menos nosso menino, entretanto, depois que ele nasceu tudo mudou.
Nossa história começou há alguns anos, eu o conheci quando tinha 10 anos a primeira vez que o vi foi nas Indústrias Stark quando o meu tio que era a ponte entre o exército e Howard Stark me levou pra lá pra uma espécie de reunião relâmpago, quando entramos na sala, Tony, que já estava prestes a completar 15 anos, estava deitado no sofá reclamando de tédio e assim que me viu começou a implicar comigo pelo o simples fato de eu ter 10 anos, só que apesar da idade eu sabia muito bem lhe dar respostas que o faziam se calar por alguns segundos para ter uma resposta que na maioria das vezes não tinha muito fundamento e foi graças a isso que surgiu o apelido de Pepper e aos poucos nos tornamos amigos, logo eu passei a frequentar a casa dele e também a ser um de seus ouvintes o outro posto era do Rhodes nosso amigo, Tenente Coronel da Aeronáutica Americana e parceiro do Tony nesse mundo de super herói.
Conforme fui crescendo e entrando cada vez mais no mundo da adolescência eu me peguei tendo uma paixonite por ele que pegava todo mundo e só me via como amiga, Tony, sempre me procurava quando se metia em encrenca sejam elas fora de casa ou dentro dela eu sempre o aconselhava, mas ele nunca seguia os meus conselhos e depois reclamava arrependido por não ter me ouvido, era sempre assim, Tony era tão imprevisível que chegava a ser previsível, é estranho, mas é assim que consigo vê-lo.
Quando eu já tinha 16 anos e meio eu recebi a resposta de aprovação da UCLA e depois de muito comemorar eu me apavorei por que algumas amigas que já estavam na faculdade me disseram que os trotes não são nada perto das humilhações que te fazem passar quando descobrem que você é virgem, que não bebe ou que não faz qualquer coisa idiota que a maioria dos universitários fazem, e eu, mesmo me achando tão madura enfiei na minha cabeça que tinha de perder a virgindade antes de entrar pra faculdade e advinha quem eu escolhi pra me ajudar com essa questão? Isso mesmo o Tony, ele ficou boquiaberto quando eu contei e se contar já foi vergonhoso fazer foi ainda pior, o quarto estava escuro eu estava ansiosa e apesar de saber que Tony tinha toda aquela vasta experiência sexual o nervosismo tomou conta e a penetração foi bem complicada e bem mais dolorosa do que eu achei que seria, depois daquela noite nossa amizade se abalou um pouco ele nunca comentou com ninguém sobre aquilo, mas as coisas ficaram estranhas e nos afastamos ele continuou com sua vida desgarrada e eu foquei na faculdade.
Aos 19 anos eu já estava mais crescida mentalmente e fisicamente também, eu era mulher e uma mulher praticamente formada, trabalhava em uma multinacional, tinha um namorado que se chamava Paul ele era lindo e compartilhava das mesmas ambições e gostos que eu, mas o que eu não sabia era que eu também compartilhava ele com outra mulher, fiquei na foça por dias, Elise resolveu me levar pra sair e em uma das boates que fomos naquela noite eu encontrei com Tony que eu nem sabia que tinha voltado da Europa, bebida, música alta, lembranças, e um dos resultado foi uma noite de sexo alucinante, o outro resultado surgiu em fevereiro de 1996 quando eu descobri que estava grávida entrelaçando ainda mais nossas vidas. Quando lhe dei a notícia vi o brilho de seus olhos diminuir eu sabia que ele não ia gostar, mas ele não fugiu como o meu pai acreditava que ele faria e disse que assumiria nosso filho.
Embora ele conte pra qualquer um que ficamos juntos durante a minha gravidez nós não ficamos, ele saía com as mulheres que ele gostava de sair, ele bebia, dava as suas famosas festas de arromba e de vez em quando aparecia na minha casa, fingia interesse pelo o bebê e depois de 30 minutos ia embora, eu estava ciente de que só teria seu apoio financeiro e sinceramente eu nem queria, mas ele ou os pais dele insistiam nisso, quando John nasceu em novembro de 1996 foi que ele mudou, ele ia na minha casa todos os dias, insistia que fossemos morar com ele, vivia me chamando de amor e dizia que me amava, só que eu não acreditava naquilo e sempre achava graça quando ele falava essas coisas, mas depois de 6 meses de insistência eu cedi e fui morar com ele acreditando que voltaria semanas depois, mas para a minha surpresa terminamos casando e estar casada com ele era maravilhoso.
Algum tempo depois do 11 de setembro, Tony, foi sequestrado e passou 3 meses em um cativeiro, foi um dos momentos mais angustiantes da minha vida, John sofria tanto com a falta que ele fazia que chegou até a adoecer, quando ele voltou estava um pouco diferente tanto fisicamente quanto emocionalmente e acabou se tornando o super herói de identidade pública, Homem de Ferro, e eu tenho certeza que foi graças a seu alter ego que nós perdemos nosso filho.
— Não quero voltar lá. — falou ele me tirando das minhas lembranças.
— Não quer voltar pra onde?
— Pra casa. Não quero voltar pra lá, não agora, não hoje.
— Era difícil pra mim também.
— E aqui é mais fácil?
— Em nenhum lugar é mais fácil.
— E por que você foi embora?
— Por que... por que...
— Por que você foi embora e me deixou?!
— Por que eu não aguentava mais te ver naquele estado deplorável! Eu não tinha condições de lidar com as lembranças, nem de te manter em pé e muito menos me manter em pé, eu precisava sair dali... Eu só queria sumir! — eu soltei a mão dele e me levantei, andei pela a casa e me encostei na dobra de madeira da porta do meu quarto, eu podia ouvir seus passos na sala e achei que ele ia embora, mas logo ouvi seus passos no corredor.
— Eu vou em...
— Fique aqui. — as palavras saíram da minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar. — Por favor, fique aqui... Pelo menos hoje por que a dor...- a minha voz embarga e ele me abraça por trás. — Tá insuportável. — eu completo e não aguento caio em um choro copioso, a madeira me ampara na frente e Tony me segura e me acompanha em um choro silencioso, depois de algum tempo ele me leva pra dentro do quarto e nós nos deitamos.
— Me perdoa. — a voz dele sai embargada e eu choro ainda mais colando sua mão em meu peito.
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