Preto. Branco. Duas palavras antônimas. Diferentes, porém iguais. Dizem que preto é a cor do medo. Ou que escuro é o que deveria nos remeter às trevas. E branco é a cor da paz, onde todos os males são inexistentes. Para mim, o preto é um refúgio.

Eu tenho medo. Medo de branco. O branco daquela sala acolchoada que me abriga. Só para mim. Lugar grande. Vazio. Branco. O branco de minha blusa que deixa meus braços em uma posição agonizante. Olho para a parede e tento ver o preto. Não acho. Só o maldito branco.

Dizem que não me encaixo na sociedade branca de hoje. Dizem que eu tenho o lado negro em minha mente. Mas acho que a sociedade é que não se encaixa em mim. O que tema cor preta? Não entendo. Isso não seria o que chamam de racismo? Aquele que vem vestindo branco com uma agulha na mão é negro. Não o julgam por isso. Por que sua cor não interfere?Devem pensar que sua alma é branca. Haha, esses brancos acham que por trás do preto, tudo é branco! Que ousadia!

Meu cabelo vive caindo sobre meus olhos. A única coisa preta que vejo durante horas. Não gosto apenas do preto. Vermelho é uma bela cor. Dizem que é a cor da paixão. Não entendo. Eu tirava o vermelho de dentro daqueles que eu amava. Era o amor escorrendo pela pele branca deles. Pelo meu facão. Até mesmo no chão. Paredes. Minhas mãos. Era tanto vermelho que não era possível ver o maldito branco. Usei o amor para cobrir o medo. Um cobertor vermelho por cima do frio branco. Minha recompensa veio logo depois. Fui jogada no branco. Uma sala almofadada branca.

Sou branca. Minha pele quase nunca viu o sol, mesmo assim, não me encaixo. Na verdade, tenho ódio de minha cor. Por isso, antes de deixarem meus braços presos nessa blusa branca, eu arrancava essa pele branca horrível e deixava o belo vermelho fluir. Ele chegava a embebedar o chão. Um espetáculo! Belíssimo de se ver! Mas esses brancos não entendem...

Cabisbaixa. O preto sobre os meus olhos, cobrindo o despresível branco. Não entendo porquê as pessoas se viciam em nicotina quando se tem o escuro. É um êxtase muito maior. Meu pensamento é cortado. Passos. Alguém vem vindo. Não levanto minha cabeça. O preto de meu cabelo é a minha droga. A mão me agarra. Estão me levando para fora. É cinza. Um caminho cinza. Sem uma gota de branco! Deve ser um degradê. Começou branco, deve terminar preto.

A porta é prata. Ela se abre. Tento correr dali. A sala é branca. Voltei para a estaca zero. Perdi o jogo dos brancos. Grito pedindo ajuda. Quem sabe dessa vez, alguém não me socorre? Mais pessoas vestidas de branco. Máscaras brancas. Roupas brancas. Luvas brancas. A blusa não deixa meus braços me defenderem. Arrastada para aquele inferno. Sinto os membros livres! Porém é por pouco tempo. Algemas? Não. Cordas de couro em meus pulsos e tornozelos.

Algo espeta-me. A dor é maior quando vejo o teto e o homem, ambos brancos. Minha visão vai ficando turva. É sempre o mesmo. Nunca ganho o jogo. Sempre voltando para aquela sala. Mas, em meio à visão embaçada, tudo fica vermelho e preto.

"Ganhei?" Me pergunto. Logo a escuridão me acolhe como uma mãe. Não vejo. Não sinto. Não ouço. Sei que é apenas um sonho. Um sonho perfeito. Onde o mundo tem paredes negras e eu posso espalhar o vermelho no chão. Não quero acordar. Mas sei que é ínevitável. Tudo será branco de novo. Temo a cor. Não abro os olhos. Quando acordar, terei de encarar os antônimos.

Notas finais
Epero que tenham gostado! Enviem uma mensagem para me dizer o que achou ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!