Antigo novo amor

3 Capítulo 3 - AS MÃOS..


Notas iniciais
... foi me enganando, foi me perdendo que entendi porque eu não esqueci você.

Ele volta nas malas e observa o estrago. As bolsas de grife estavam todas danificadas. Alças cortadas, fechos estourados. As joias pareciam ter sido quebradas com um martelo. Respira fundo e fecha as malas, colocando-as em um canto.

— Paula… — se volta para ela, abaixando-se no chão para olhá-la. Olha para mim! — segura a cabeça dela — O que você acha que aconteceu?

— Ele quebrou. Não tenho dúvidas! — as lágrimas escorrem.

— Vamos ligar para a polícia?

— Eu… — balança a cabeça negativamente — eu não sei o que fazer! — chora.

— Tudo bem! — vai até o lado dela e a abraça. Vai ficar tudo bem…

Apoia a cabeça dela em seu peito e acaricia seus cabelos enquanto a escuta chorar silenciosamente. Se preocupa com o estado emocional dela e sabia que não era os bens materiais, era a dor de saber que alguém que você também confiava foi capaz de fazer algo assim, somente para te atingir.

— Eu sai da minha casa… — se levanta do peito dele — eu abandonei meus bichos, meu lugar, meus amigos… Eu vivi o mundo daquele desgraçado para ele fazer isso comigo! — chora. Isso não é justo, Vitor!

— Não é!

— Posso comprar tudo aquilo de novo! — aponta para as malas — Mas ele não deveria ter feito isso. Ele sabia o quanto minha vida foi sofrida, o quanto batalhei por cada centavo, o quanto aquilo ali só foi comprado depois de muito planejamento e ainda assim, ele destruiu tudo! Tudo! — chora novamente. Ele destruiu as minhas coisas, ele destruiu parte da minha vida, ele me tirou 04 anos da minha vida! — deita no peito dele novamente.

Vitor a acolhe novamente. Ao olhar para frente, encontra André parado no corredor. Sinaliza com a cabeça que depois explica e ele se retira.

— Preciso ir embora! — levanta a cabeça de novo e enxuga as lágrimas.

— Não! — segura a mão dela. Não vou deixar que você entre em um avião nesse estado! Jamais.

— Eu estou bem! — se levanta.

— Não está! — faz o mesmo. Paula… Tudo isso que está acontecendo não é pouca coisa. Não tem ser humano que suporta tudo isso de uma vez… Me escuta, pelo menos uma vez… Ligo pra sua mãe, explico o que houve…

— Não! — encara-o. Minha mãe está tão bem na vida dela, ela não merece esse drama todo que está me acontecendo!

— Então liga você e diz que vai na segunda…

— Segunda? — olha para ele.

— Sim! Você precisa estar bem. Imagina chegar lá nesse estado, o que vai dizer a ela já que não quer que ela saiba a verdade? Você dorme aqui hoje, amanhã vamos na fazenda com as crianças e domingo você vai. Ah não ser que você queira estar em casa, aí vou respeitar…

— Não! — responde imediatamente — Não quero ter que explicar nada disso ainda. Não ainda. — senta-se novamente.

— Vou arrumar o quarto para você!

Ele se retira e ela deita no sofá, ainda inconformada com a situação.

Vitor organiza o quarto de hóspedes para ela e ajuda os filhos a se arrumarem.

— Preciso conversar uma coisa com vocês… — penteia o cabelo do João.

— A gente pode chamar a Paula de tia?

— Vivi… — olha para ela — Precisa perguntar a ela. Mas o que quero falar é outra coisa… — respira fundo e se senta, olhando para eles — a Paula não está muito bem, aconteceu algo chato com ela e por isso ela vai ficar aqui com a gente uns dias. Não quero que vocês fiquem perguntando o que aconteceu, o que quero é que vocês sejam como vocês já estavam sendo com ela, super legais. Chamem ela para desenhar, para pintar, mostrem os jogos de vocês, mas se ela não quiser, a deixem em paz, ok? Amanhã vamos para fazenda e lá vocês podem mostrar tudo para ela!

— Ok… Então é para gente distrair ela, mas se ela não quiser, deixar ela em paz?

— Exato! — ri.

— O que a gente vai jantar, pai?

— Ainda estou pensando…! — se levanta.

Quando escuta as crianças descerem a escada, se senta no sofá, enxugando as lágrimas.

— Oi Paula!

— Oi! — sorri.

— Queria te perguntar uma coisa… — se senta ao lado dela.

— Pergunte!

— Posso te chamar de tia? Meu pai falou que eu tinha que perguntar a você.

— Claro que pode! — ri. Vou adorar.

— Ela deixou? — desce correndo na escada.

— João! — Vitor vem atrás. Sem correr na escada, já falei.

— Desculpa! Não me machuquei.

— Não importa, não é para correr na escada!

— Nossa, tá bom!

— João Luiz!

— Desculpa de novo.

— Não corra na escada!

— A Paula deixou, João. Agora temos duas tias Paulas!

— Verdade! — riem.

— E você não pode correr na escada! — se levanta e vai até o irmão. Todo mundo aqui já cansou de falar, começa obedecer, pelo amor de Deus! — vai para cozinha.

— Uma mini Vitor! — olha para ele.

— Ah… — ri — Todo mundo diz. Mas é meio dela mesmo… Eles se cuidam muito, acho que é o fato de transitarem por duas casas com regras diferentes.

— Pode ser! Mas tenho certeza que isso não é um problema… São tão educados e amáveis que ambas as casas fazem bem a eles. Você e Poliana são ótimos pais, eles são o reflexo disso. — se levanta.

— Também acho! — sorri. Obrigado! Tenho certeza que você será uma excelente mãe também. É paciente, cuidadosa, dedica tempo. No fim das contas o que toda criança precisa é isso.

Paula sente as palavras como socos no estômago. Já tinha admitido para si que o tempo tinha passado e por mais que tivesse congelado os óvulos, não queria fazer isso sozinha. Vitor percebe que ela fica em silêncio e se sente culpado por ter tocado no assunto.

— Fui bem babaca agora! Óbvio que você não tem obrigação de ser mãe, isso não existe…

— Vitor — sorri, o interrompendo — está tudo bem! Preciso tomar um banho. Vou subir, ok?

— Vou pegar suas malas no outro carro!

— Verdade! Tinha me esquecido.

— Pode ir… Deixo na sua porta!

— Tá bom, obrigada!

Ela sobe e segue para o quarto que ele já havia mostrado no outro dia. Era o único quarto vago, já que André ocupava o outro. Vai na varanda e fica observando a vista, aguardando ele trazer as malas. Se perde observando o sol se pôr e quase não escuta ele na porta.

— Pode entrar!

— Oi… — abre. Suas malas! — coloca para dentro. Deixa eu te mostrar uma coisa… — segue para o banheiro e ela vai atrás — Aqui tem os sais, você pode usar a banheira, liga aqui… — mostra.

— Obrigada… Mas, não vou abusar! — ri.

— Abusar? Paula… Aproveita essa banheira, é relaxante!

Por uma fração de segundos ficam sem graça com a interação sobre a banheira. Ele se retira e a deixa pensativa, decidindo por fim usar a banheira. Aproveita o tempo submersa para relaxar. Pega o celular e manda uma mensagem sucinta para a mãe informando que foi convidada por um amigo para passar o final de semana em uma fazenda, que na segunda estaria em casa. Quando coloca o celular no chão para submergir na banheira, o telefone começa tocar.

— Oi… — atende.

— Onde você está Paula?

— Mãe… Creio que já passamos dessa fase, né?

— Ah Paula… Por favor! Estou preocupada. Você saiu daqui dizendo que ia gravar sem a Universal saber. Agora diz que está na casa de um amigo e volta só na segunda. O que está acontecendo?

— Nada! Gravei as músicas, ele me convidou pra conhecer a fazenda dele e eu vou.

— Quem é?

— Mãe… — fecha os olhos, respirando fundo.

— Paula, você não age assim!

— Mãe, eu não sou muita coisa mais.

— Você pode não ser o que for… Mas você não me esconde nada. Você não está bem e eu queria saber onde está, o que está fazendo. É errado me preocupar? Me desculpa me intrometer tanto em sua nova vida. — desliga.

Encara o celular por uns segundos, assimilando o que aconteceu. Coloca-o novamente no chão e volta relaxar, ciente que quando estiver em casa resolverá tudo. No andar de baixo Vítor conversa com André, não entrando em detalhes mais íntimos da vida dela, se limitando a dizer que ela teve uma surpresa desagradável e que não estava bem.

— Pai, vó Marisa vai estar lá amanhã?

— Vai! — se dá conta — Caramba, vai… — pensa. Vou ligar para ela! — pega o telefone e disca o número da mãe, que atende na primeira chamada — Oi!

— Oi filho, como está?

— Bem! Está em Uberlândia?

— Sim, mas amanhã cedo viajo para Belo Horizonte.

— Sério!? — sente-se aliviado. Eu vou para Uberlândia amanhã cedo com as crianças.

— Não acredito! Por que não avisou antes?

— Decidi de última hora…

— Por que está com eles? Não era semana que vem?

— Te explico por mensagem depois… Eles estão aqui! — olha os filhos.

— Sim. Você quer que eu fique para ajudar com eles?

— Não! Vai para a BH, aproveita o feriado.

Convence Marisa a seguir seus planos já que não queria que Paula tivesse ainda que se preocupar com sua mãe e não se sentir confortável. Quando desliga o telefone escuta ela descer as escadas.

— André! — sorri. Tudo bem?

— Tudo! — sorri.

— Quase não te vi hoje… — se senta.

— Quando venho meu filho não me deixa em paz… Toda hora tenho que buscar algo da natação dele.

— Ele compete?

— Sim! Ama competir. — sorri.

— Tia Paula, olha isso! — mostra uma foto no celular no pai. Eu queria ter um cachorro aqui também!

— Que fofura! — ri. E por que não tem?

— Porque nossos cachorros por parte de pai estão na fazenda.

— Eles são livres lá… — olha para elas.

— Isso é importante! Eles precisam ficar livres. A gente não pode deixar os bichinhos presos.

— Nem passarinho?

— Muito menos passarinho. Não é mais bonito ele voando e cantando?

— Sim!

Vitor prepara o jantar e eles comem. Após algumas horas de jogo de memória com a Paula, as crianças são levados por ele para dormir. André também se despede e só resta os dois na cozinha.

— Paula, deixa aí! Vou terminar.

— Não! Estou acabando. — continua lavando. O restante está na máquina.

— Obrigado! — abre a máquina.

— Eles já dormiram?

— Capotaram! — sorri. Ainda bem porque amanhã acordamos cedo. Vamos sair às 6:30, ok?

— Tá bom… — seca as mãos. A comida estava incrível, você está cozinhando muito bem! — riem.

— Obrigado! — sorri. Improviso.

— Vou subir… Nos vemos amanhã então… Boa noite! — se retira sorrindo.

— Boa noite! Durma bem.

— Obrigada! — sobe as escadas e vai para o quarto.

Finaliza a limpeza e sobe para se deitar. Enquanto toma um banho, pensa em Paula. Se questiona sobre o que estava acontecendo, o que estava sentindo, afinal? Por que ela ainda conseguia mexer com ele dessa forma? Não tinha dúvidas quanto ao sentimento que nutria por ela, mas sabia que isso já estava adormecido e que já haviam se resolvido, por mais que ela continuasse sendo inspiração de muitas canções. Não imaginava que poderia ainda haver paixão.

Sai do banho, arruma-se e se deita, mas logo escuta uns barulhos vindos do quarto ao lado. Percebe que é a porta da varanda que abriu e então decide se levantar e abrir a dele também. Observa ela por algum tempo, sentada no chão, de costas para sua varanda. Sorri sozinho. Volta-se para dentro e inconscientemente desce as escadas, pega um vinho, duas taças e retorna ao seu quarto. Vai na varanda do seu quarto e chama atenção dela.

— Insônia?

— Oi… — vira-se. Te acordei?

— Não! Não dormi também. Está tudo bem?

— Sim! É que achei tão bonita a vista do céu daqui… — ri. Sentei para ver! Olha quanta estrela. — aponta.

— Sim! — olha. São lindas.

— Flores no espaço! — riem.

— Quer vinho?

— Oi? — não entende.

— Vinho! Vou ai… — fecha sua varanda.

Paula levanta-se em um pulo. O que ele queria fazer? Vir até o quarto dela? Beber vinho? Na madrugada? A pior combinação possível, mas ainda assim estava ansiosa para isso. Ele bate na porta e ela abre.

— Olá… — sorri.

— Oi… — sorri. Entra!

— Toma! — entrega as taças pra ela.

Ela fecha a porta e vão até a varanda. Sentam os dois no chão; ele abre o vinho e os serve.

— Esse é ótimo! — bebe.

— Sim! É um vinho português.

— Muito bom.

— Você tem uma adega em BH?

— Tenho! Quero ver se levo pro apartamento novo.

— Já tem um?

— Não! O meu está ocupado, não sei se espero a pessoa sair ou se compro o que vi na semana passada. Mas o proprietário está fazendo uma com a minha cara… Só pode. Não quer vender de jeito nenhum. Falei com o corretor hoje e ele está irredutível. Já ofereci de tudo, não sei mais o que pode querer para que eu o convença a vender.

— Hum… — pensa. Onde é?

— Então… — ri — Você vai achar engraçado. É no Friedrich Nietzsche… Inclusive ele chegou a me mostrar o seu. Fui na intenção de alugar até que a cobertura esteja desocupada e passe por uma reforma. Mas, quando entrei naquele apartamento… A vista daquele lugar é surreal, consegui pensar em várias coisas.

— Eu também gosto de lá. Quando comprei aquele, o que eu realmente queria não estava disponível também. Depois ficou e eu decidi comprar.

— Então você tem dois lá?

— Sim… E minha mãe tem um. Colocamos os três para alugar. Mas, tem uma interessada que está tentando a todo custo comprar um do meus… E pelo visto ela está bem brava porque eu não quero vender! — coloca mais vinho na taça dela, que encara ele incrédula.

— Você está brincando!

— Não estou! — sorri.

— Você sabia que era eu?

— Claro que não! Só liguei os pontos agora. — ri. Você visitou semana passada e desde semana passada eu não tenho paz com um corretor me ligando…

— Meu Deus! — bebe o vinho de uma vez. Que vergonha!

— Por que? — ri.

— Tô aqui reclamando um monte do proprietário, quase falando que faltava me dar de corpo e alma para ele aceitar e você me vem com essa!

— Podia ter falado! É bem provável que ele aceitaria…

Paula fica sem graça e bebe o vinho de uma vez. Ele percebe e resolve mudar de assunto.

— Você consegue identificar as constelações ainda? — olha pro céu.

— Não… Ás vezes na chácara eu consigo, mas na cidade quase nunca. Eu deixei muita coisa para lá… Coisa tipo isso… olhar para o céu. Eu estava tão preocupada em deixar tudo organizado, perfeito, afundada na rotina ridícula que… — enche os olhos. Que eu fui uma besta…

— Não faz isso! — coloca a mão sobre a dela. Não fica se martirizando por uma coisa que já aconteceu. Já foi. Está no passado. Você vive o agora, está mudando isso. E mais, não é uma besta. Não repita isso! Você é uma pessoa sensível e que vive querendo se adaptar a tudo e todos para se sentir parte daquelas pessoas ou daqueles ambientes. Acontece que nenhum lugar e nenhuma pessoa que te faça sentir a necessidade de ser diferente vale a pena. Porque você é incrível e as pessoas precisam merecer estar com você.

Ficam em silêncio por um bom tempo, só ouvindo a noite. Paula sente o corpo todo se arrepiar em câmera lenta enquanto a mão dele acaricia a sua. Não podia ser. Não conseguia entender sentir tudo isso. Vitor percebe a situação e por mais que a razão falasse para retirar a mão e novamente mudar de assunto, ele não fazia nada disso. Continuava ali, alisando a mão dela delicadamente, imaginando aqueles dedos acariciando ele também. Se sentindo confuso com todos esses sentimentos e ao mesmo tempo se sentindo muito bem com toda a confusão.

— Está tudo bem? — resolve perguntar.

— Está. — continua olhando o céu.

— Vou te fazer uma pergunta… E por favor, não se sinta pressionada e só responda o que seu coração sentir.

— O que foi? — fica preocupada.

— Você está sentindo tudo isso? Parece estranho ás vezes… Não somos adolescentes. Mas… Não consigo parar de pensar. Se você fica perto demais as coisas ficam muito confusas. Se você está longe eu tenho a certeza que somos maduros e que podemos nos encontrar tranquilamente, que deixamos nossa história onde deve estar. Mas, se você chega perto… — olha para ela. Inconscientemente eu estou fazendo coisas que não fazia. Inconscientemente estou pensando coisas que não deveria. E está tudo muito intenso… Muito.

— Coisas…?

— Muitas coisas, Paula. Coisas que eu sequer tenho coragem de dizer. E está tudo bem se for só eu sentindo isso tudo. Não vai mudar em nada. Eu só precisava te dizer… Porque estou me sentindo maluco. Diz para mim que não sou só eu. Ou se sou só eu… — se levanta — Na verdade, deixa para lá… Finge que eu não disse nada. Saímos cedo amanhã… Não perca a hora! — pega o vinho do chão e as taças. Durma bem! — fecha a porta.

Paula o observa sair do quarto, ainda paralisada com o momento que passou. Se levanta e anda de um lado pro outro quarto, respirando fundo para retomar o mínimo de consciência que lhe restava e não fazer nada imbecil que fosse se arrepender no dia seguinte. Mas, é em vão. Abre a porta e sai rumo ao quarto dele. Bate delicadamente para não acabar acordando ninguém e ele abre, usando um roupão, com o cabelo molhado. Ela entra sem pedir licença e ele fecha a porta atrás de si.