Anti-social

31 E o inferno se inicia


Fui obrigado a cortar a grama do quintal às 8 e meia da manhã, porque um certo homem estava "trabalhando". Ele dizia cuidar de alguns processos no computador, mas pude ver na tela que ele estava jogando um jogo de estourar bolinhas online.

Sarah ainda não tinha acordado. Parecia que estava se acostumando com o local, finalmente. E, aos poucos, eu me acostumava com ela também. "Pois é, provavelmente vai acordar agora" Imaginei, ligando o cortador de grama. O objeto fazia um barulho alto, e quanto mais cortava, mais alto ainda era o som.

Ouvi barulhos de algo caindo no chão do quarto de cima e ri. "Ela deve ter caído da cama."

─ O que é isso?! ─ Ela abriu a janela num susto, e, ao me ver, alivou-se um pouco.

─ Entregue seus pertences e ninguém sairá ferido. ─ Apontei o objeto para ela, e ambos rimos juntos. ─ Desculpa aí o barulho, pode voltar a dormir. ─ Avisei, e voltei ao trabalho.

─ Nah, eu já ia acordar daqui a pouco mesmo. Vou me arrumar e descer, espera aí. ─ Ela fechou a janela e algo em torno de 7 minutos depois ela cruzou o portão do quintal. Sentou-se com os pés na água ─ mas não entrou na piscina. Ficou acariciando Fênix, que tomava um banho de sol.

Depois de terminar, como estava sujo de grama, terra e suor, subi para um banho. Um banho demorado, mais ou menos 40 minutos. Sequei-me com a toalha, e deixei-a sobre os ombros, enquanto sem camisa, apenas com uma bermuda, como sempre fazia em dias quentes.

Desci até a sala e quase que no exato momento em que pisei no chão a porta da frente se abriu. Uma garota de cabelos loiros, 1 ano e meio mais nova que eu, com olhar desinteressado e seguida de meu pai, se mostrou.

─ Qual é, não vou poder nem almoçar em paz sem ter você aqui primeiro? ─ Reclamei, virando-me de costas para ela e pegando um suco na geladeira.

─ Não enche o saco. E põe uma camisa, não sou obrigada a te ver sem. ─ Ordenou, olhando-me com nojo.

─ Você está na minha casa, eu faço o que quiser. ─ Peguei meu copo e voltei para o quarto e Sarah, que estava lá em cima também, me barrou.

─ Aquela que é a Isabel? ─ Perguntou, olhando para o andar de baixo.

─ Eu costumo chamá-la de pirralha irritante. Pode chamar também, ela odeia. ─ Sorri comigo mesmo, e segui para a minha cama, eu queria ler alguma coisa. Deitei-me e peguei um livro que estava sobre a escrivaninha.

─ Ela não pode ser tão ruim assim... ─ Sarah falou uma última vez e foi até onde a garota estava.

Não demorou muito, e ela apareceu novamente na porta do quarto.

─ Ela é sim. ─ Parecia horrorizada. ─ Como alguém pode ser tão irritante?!

─ Eu te disse. ─ Olhei para a capa do livro ─ Afinal, de quem é esse livro? É ótimo.

─ Ah, é meu. Pode ler, eu já li umas 5 vezes. ─ Ela sorriu ─ Você gosta de ficções né?

─ É. ─ Confirmei, sorrindo de volta. Ela foi embora, e eu continuei minha leitura. Mais tarde, fomos obrigados a almoçar juntos, na mesa.

Sentei-me e fitei a garota com raiva. Mas não a mesma coisa quando o pai de Sarah estava aqui, já que por ele eu sentia vontade de assassiná-lo. Tudo bem que com Isabel também, mas é diferente... Não sei explicar. O que importa é que nos odiávamos. Sarah olhava preocupada, não querendo se intrometer e tornar as coisas piores.

─ Limpe sua boca. Está nojenta. ─ Ela ordenou mais uma vez, e, sem olhar para ela, respondi:

─ Fica quieta pirralha, suas mãos também estão sujas. Você pode ficar doente, mas até que não seria má ideia. ─ Sorri com o pensamento. Vê-la fraca, deitada na cama, seria um prazer. Aposto que ela sentia o mesmo por mim, também. Bom, não precisa nem dizer. A maneira que agia já dizia tudo.

─ Você está falante, ein? Que foi? Depois da crise de silêncio agora não consegue mais ficar calado? ─ Ela me provocou, com um sorriso maléfico no rosto.

─ Eu já disse que não quero brigas, então fiquem quietos. ─ Meu pai disse, estressado. Ele sabia como as coisas eram quando uma briga de verdade começava. Bufei e voltei a comer, em silêncio.

Fênix se aproximou da Isabel, de mansinho, e, sem que ela percebesse, pousou sua cabeça em suas pernas, pedindo comida. A garota tomou um susto.

─ Eca! Que vira-lata é esse? Ugh, tira esse saco de pulgas daqui! ─ Ela se afastou e eu, tentando me controlar, puxei Fênix devagar pela coleira, por baixo da mesa. Ele me olhou com o que podia jurar que era uma expressão de dúvida.

─ O nome dele é Fênix. ─ Deixei explícito, e voltei a comer.

─ Fênix? Hahahahaha! Fênix? Ele? Fênix é uma ave de um nível muito mais alto que esse vira-lata. Colocar esse nome nele é um insulto. ─ Ela ria, e eu me segurava para não cometer um crime lá mesmo. Terminei meu prato e me levantei, colocando-o na pia.

Em meu quarto, comecei a praticar ataques de judô, como à muito tempo não fazia. Eu usava o travesseiro mesmo, jogando-o no ar e tentando acertá-lo com a maior força possível(medida vendo o quão longe ia), com o pé ou mão.

Atirei o objeto em direção à porta e, no exato momento, ela se abriu. Em um movimento rápido, meu pai o pegou, e atirou de volta. Me observou por um tempo, naquele estado de luta.

─ Eu sei que é difícil para você, mas aguente um pouco, pelo amor de deus. Ela mal chegou e você já está agindo assim! ─ Me repreendeu, com uma expressão de descontentamento e desaprovação. ─ E espero que esses chutes e socos fiquem só no travesseiro.

─ Você viu como ela é. Eu não fiz absolutamente nada, e a primeira coisa que ela fez ao pisar dentro dessa casa foi reclamar. Quanto tempo a pirralha vai ficar aqui? ─ Perguntei, impaciente, retomando o treinamento.

─ Até o pai dela voltar. Mas não se preocupe, não é muito tempo. ─ Ele assegurou, apoiando-se na porta.

─ Espero que sim... ─ Esfreguei a cabeça e me sentei na cama.

Ele foi embora, e eu continuei a fazer o que já estava fazendo, porém não demorou muito tempo para a porta se abrir outra vez. Mas essa segunda pessoa não tinha agilidade suficiente para se defender à tempo.

─ Ai! ─ Sarah tirou o travesseiro do rosto. ─ O que está fazendo?

─ Eu jogo o travesseiro no ar e o chuto assim. ─ Repeti o processo, atirando outro daqueles em sua face, mas dessa vez ela pôs a mão no rosto.

─ Pra quê? ─ Ela olhou e viu o quarto todo bagunçado, com cobertor no chão, travesseiros espalhados etc. ─ Você arrumou seu quarto ontem e já está o bagunçando novamente?

─ Nah, depois eu arrumo de novo. ─ Falei com indiferença.

─ Agora eu entendo o que quis dizer quando se referiu àquela garota como "terrível". ─ Falou, observando um mosquito voar. ─ Mas ela não vai ficar muito, acho. Dá pra suportar.

─ É, acho que sim. ─ Concordei, enquanto mexia com o travesseiro.

Conversamos sobre mais algumas poucas coisas e cada um foi pro seu canto, tendo mais o que fazer. "É, vai ser uma loooonga semana."



Notas finais
Peço-lhes por obséquio que deixem um comentário ou crítica, no espaço reservado para isso.
~Aya