Antes que a Luz me Esqueça
1 Keep Me
Notas iniciais
Assim que ele acordou, Sora imediatamente propôs a Roxas que deveriam passar o dia inteiro juntos em Twilight Town. Roxas desconfiou dele, e até ficou nervoso. Quer dizer, era Sora... ele esperava que suas emoções não fossem óbvias em seu rosto.
O garoto sonhador de Destiny Islands caminhou nas ruas banhadas pela luz dourada com a mesma alegria de sempre, embora ambos soubessem que aquele cenário pertenceu muito mais às recordações de Roxas do que às dele.
Eles só observaram crianças perseguindo pombos na praça e repartiram voltas de skate pelas ruas, competindo pra saber quem faria a manobra mais maneira. Depois Sora se mostrou entretido no tilintar dos bondes e até nas vitrines mais simples. Era impossível determinar se aquela alegria provinha de uma felicidade genuína ou da delicadeza de alguém que, conhecendo a brevidade das horas, recusava-se a perder qualquer instante com melancolia.
– Eu adoro esse lugar. – Sora disse.
– Hn. – foi tudo o que Roxas proferiu.
– O que? – Sora o olhou bem de perto. – Parece que você não tá se divertindo.
– Ah. – Roxas desviou o olhar.
— Você faz uma cara engraçada quando tenta parecer indiferente, 'Roxyyy' — Sora conteu um riso.
– Não fiz 'cara' nenhuma — Roxas retrucou. — Huf. Você insiste em apontar coisas que não te dizem respeito.
— Me dizem respeito, sim. Afinal, se trata de você.
Roxas desviou os olhos com um beicinho que só confirmou a acusação. Havia descoberto que nenhuma resposta espertinha lhe ocorria quando Sora falava naquele tom despretensioso, incapaz de distinguir o encanto da simples sinceridade. Tudo escapava diante do sol em sua frente cuja maior virtude consistia em jamais calcular o efeito das próprias palavras.
— Então... — Sora colocou as mãos dele atrás da cabeça. — O que a gente faz agora?
Roxas arqueou uma sobrancelha diante dele. — Você tá perguntando pra mim?
— É!
— Você é quem sempre viaja por aí entre mundos.
Sora suspirou. — É, mas normalmente alguém tá tentando me matar.
Roxas deu uma risadinha abafada. — Sempre tem alguém tentando nos matar.
Os dois caminharam por Twilight Town ao que o céu ganhou tons dourados mais intensos.
Era estranho. Roxas conhecia aquelas ruas como ninguém. Mas ele, Sora.... ele olhou tudo que nem uma criança visitou um lugar novo.
— Nossa! – Ele praticamente coloriu o rosto na vitrine da loja de doces. — Eles vendem sea salt ice cream aqui!!
— ...Você só viu agora?
Sora cruzou os braços dele. — Eu estava ocupado salvando mundos.
—Ah. — Roxas suspirou, notando que "mundo" estava no plural. — Tem razão.
Compraram dois picolés. Sora deu a primeira mordida e o rosto dele se contorceu. — É SALGADO!
Roxas não era de rir, mas diante da expressão bizarra do outro, não tentou se conter.
Sora esboçou um rostinho emburrado — Você tá rindo de mim!
— Você fez essa cara! –Roxas tentou imitar a expressão de horror dele. Ficou tão exagerado que o próprio Sora começou a rir.
Passaram alguns minutos até acabarem sentados na Torre do Relógio, o vento os agraciando com uma bagunça nos cabelos. Lá embaixo, os bondes cruzaram lentamente a cidade.
Para Roxas, aquele lugar em específico sempre fora um símbolo de saudade — uma gaiola dourada feita de esperança e incertezas. Mas hoje, enquanto estava sentado junto de Sora, o calor que o acariciava a pele só trouxe mais conforto.
Nenhum deles disse nada. Pela primeira vez em muito tempo... O silêncio foi confortável. Ao seu lado, Sora cantava uma melodia distraidamente, balançando as pernas no ritmo do vento.
— Engraçado... — comentou Sora.
— O quê?
— Parece que eu já estive aqui antes. Com você, quero dizer.
Foi só quando o crepúsculo começou a dissolver o ouro do céu em matizes violáceos que Roxas notou uma singular transparência envolvida na figura de Sora. A princípio julgou tratar-se de um capricho da luz. Depois veja que o contorno de suas mãos perde a nitidez, como reflexo desfeito sobre a água.
- Sora... — O chamado foi baixo, quase receoso. — Sora, eu...
O garoto balançou os pés para frente e para trás, até terminar o segundo picolé dele. — Hum! ~ É bem melhor na segunda metade.
- Eu te disse. — Roxas se sentiu um pouco frustrado.
Ele lamuriou. — Ainda prefiro doce.
Roxas soube disso quando estava dentro dele. — Eu sei.
O sol começou a desaparecer de vez atrás dos prédios. Roxas observou Sora terminar outra mordida do picolé sem a menor cerimônia, mesmo depois de dizer que preferia algo mais doce.
O loiro soltou um suspiro diante da visão adorável a sua frente. Sora com mancha de sorvete nos lábios. — Você conseguiu se sujar... com um picolé.
— Hã?
Roxas se aproximou, estendeu a mão e passou a ponta dos dedos pelo canto da boca dele, recolhendo um pequeno traço do creme claro que havia ficado lá. Ele olhou por um breve instante uma gota sobre a ponta dos dedos, até levar aos lábios e o lamber para limpá-lo. Seus olhos, entretanto, não abandonaram os de Sora nem por um segundo.
Sora virou uma estátua. — R-Roxas...
Sob a luz alaranjada do entardecer, tornou-se difícil dizer onde terminava o último reflexo do sol e onde começava o rubor que lentamente tingia as bochechas dele.
Roxas inclinou a cabeça. — O quê?
Sora abriu a boca, fechou outra vez e tossiu engasgado. —N-Nada.
Roxas continua encarando-o por mais um instante. Daí um sorriso travesso, raro e quase infantil, escapou-lhe dos lábios. — Você ficou vermelho.
— Claro que não! Não foi nada. É o pôr do sol. – Roxas não conseguiu conter uma risada. Sora reagiu com um biquinho emburrado. — Para de rir...
— Desculpa. — respondeu Roxas entre um riso e outro. — Mas a sua cara... valeu a pena.
Sora apoiou o cotovelo no joelho, observando Roxas rir. Era uma visão tão aconchegante, tão doce, muito melhor que aquele picolé nas mãos dele... Sora sentiu que ganhou um presente raríssimo. Então era esse cenário que Xion e Axel costumavam compartilhar diante de Roxas — o sorriso dele sob o entardecer.
O rosto de Sora voltou a esquentar levemente. —Lindo...
Roxas piscou. — O quê?
— Ah eu quis dizer-- obrigado por dividir o seu lugar especial comigo.
Roxas demorou para responder, fitando-o. – Tudo bem.
Para Roxas, Twilight Town sempre parece enorme. Cheia de memórias. Alguns felizes, outros nem tanto. Mas, naquele instante, ela pareceu tão... leve.
— Mas, é, tem razão — Roxas ponderou. — Acho que a vista é mais bonita quando se tem companhia.
Sora concordou, daquele jeito simples e aberto de sempre. — Então a gente pode voltar mais vezes.
Roxas fingiu pensar, semicerrando os olhos. — Hum...
— Por favor? —Sora pediu.
— Tudo bem. —Deu-se por vencido, não conseguindo conter um meio sorriso.
Roxas voltou sua atenção para o movimento lá embaixo, observando três crianças passando correndo pela praça. Por um breve instante, seu olhar acompanha a algazarra, e a lembrança de Hayner, Pence e Olette lhe abre o peito.
Foi tempo suficiente para Sora inclinar-se discretamente em sua direção. *Nhac!* Ele avançou e abocanhou uma generosa mordida do picolé meio derretido de Roxas.
O loiro voltou sua atenção para ele, completamente incrédulo. — Você acabou de morder o meu picolé?
Sora ainda mastigava, as bochechas dele infladas e sujas de azul. — Hum?
Roxas encarou uma enorme marca de dentes sem gelo. Depois, encarou Sora. — ...Sora.
— Foi sem querer. É que eu estava verificando uma coisa.
— Verificando o quê?
Sora indicou solenemente para o doce. — Eu queria ter certeza de que o seu tava mais gostoso.
Roxas estreitou os olhos. — E estava?
Sora abriu um sorriso completamente inocente. — Estava muito!
Roxas soltou um suspiro longo e pesado. — Ah, qual é...
Sora pareceu um pouco cabisbaixo diante da reação dele, até os ombros caírem levemente. — Você quer experimentar o meu?
Roxas olhou para o segundo picolé na mão de Sora, intacto, e depois para uma enorme cratera que faltava no seu. — Ah, agora você me oferece?
Sora corou. — Compartilhar é importante.
Roxas acabou rindo, levando a mão ao rosto em descrição. — Você tem uma audácia.
A risada do loiro, no entanto, foi morrendo aos poucos. Ele esconde os olhos por trás da própria palma, tentando fingir que não havia notado a transparência que começava a tomar conta da mão de Sora.
"Roxas. Você é você. Nós não somos o mesmo. Eu queria te dizer isso – que você merece ser sua própria pessoa tanto quanto eu."
Sora era o seu espelho, seu "original". A única pessoa em toda a existência capaz de compreender o estranho eco vazio de ser duas metades de um todo, tudo ao mesmo tempo.
— Você tá fazendo de novo. — A voz de Sora era leve, divertida. Ele virou a cabeça, encontrando Roxas com aqueles grandes e sinceros olhos azuis.
— Fazendo o quê? — disse Roxas, embora já soubesse a resposta.
— Me olhando. — Sora deu um sorriso de lado, daquele jeito torto e despretensioso que fazia o estômago de Roxas revirar. – Eu sei que você quer me dizer alguma coisa.
Roxas desviou o olhar, concentrando-se nas silhuetas distantes banhadas pelo fim de tarde. — É que... ainda parece estranho. Estar aqui. Com você. Sem o mundo acabando ou sem alguém tentando apagar a nossa existência.
Sora parou de balançar as pernas.
A leveza lúdica do momento deu lugar a uma serenidade mais densa, mais profunda. Sora se moveu um pouco no parapeito, até que seus ombros se encostassem. Era um contato simples, só que fez um arrepio percorrer a espinha de Roxas — semelhante a um fio-terra que finalmente o prendia ao presente.
— Eu sei que é estranho... — disse Sora, num tom baixo, permitindo que só Roxas escutasse. — Mas eu gosto. Gosto do fato de que enfim nós podemos simplesmente... estarmos juntos aqui.
Por um breve instante, Sora hesitou. Assim ele estendeu a mão, sutilmente, até entrelaçar seus dedos aos de Roxas.
Suas mãos eram quase idênticas: o mesmo formato, os mesmos calos deixados pelo tempo empunhando a Keyblade. Ainda assim, encaixaram-se iguais às peças de um quebra-cabeça que enfim haviam encontrado seu lugar.
Roxas apertou aquela mão de volta, com força. Temia que, se fraquejasse o aperto, a luz dourada desapareceria e ele despertaria outra vez, sozinho, naquela sala branca. O silêncio pesou, e o garoto loiro não aguentou mais guardá-lo para si.
— Você não faz ideia do quanto fez por mim, não é?
Sora o ergueu o olhar pra ele, confuso.
Roxas suspirou de um jeito cansado, quase envergonhado por finalmente dar voz àquilo que guardou por tanto tempo. Aquela afeição, antes silenciosa, havia se tornado ensurdecedora.
— Passei tanto tempo acreditando que eu era só uma sombra. — ele confessou, a voz sendo levada pelo vento morno. — Que tudo o que eu tinha era só um reflexo do que você sentiu. Que o vínculo com meus amigos, minha raiva- até mesmo minha felicidade... nada disso realmente era meu.
O espaço entre eles tornou-se delicado.
— Você me fez acreditar que eu poderia ser uma pessoa. Que minhas escolhas tinham algum valor. Que minha vida, mesmo incompleta, ainda era minha .
Sora crispou os lábios. Houve tristeza nessas palavras, mas nenhuma acusação. Apenas uma honestidade crua que carregava muito mais que qualquer ressentimento.
— Roxas... — O semblante de Sora tornou-se sério. Com delicadeza, ele levou a mão livre ao rosto do outro, envolvendo sua bochecha com a palma quente e levemente áspera. Fez com que Roxas o encarasse, obrigando-o a enxergar a absoluta certeza em seus olhos. Ele estava ouvindo. Cada palavra.
— Acho que foi por isso que comecei a procurar você em tudo e em todo lugar. Foi a minha escolha fazer isso — continuou Roxas. — Sempre que alguma coisa acontecia, eu pensei que queria dividir com você. Pensei que talvez você soubesse o que fazer. E você sempre soube. Sempre que eu me senti perdido... era de você de quem eu me lembrava. Porque, Sora... você sempre foi a minha resposta pra tudo.
Roxas respirou fundo, aceitando o toque de Sora. Confessar aquilo parecia exigido mais coragem do que enfrentar um exército inteiro de Heartless. — Eu sei que ter um corpo, uma existência física separada do meu Alguém, já é um milagre, mas ainda assim... eu ainda...
Àquela altura, o picolé já havia sido abandonado, derretendo lentamente sobre o relógio da torre.
— Meu último desejo é você. — As palavras deslizaram suaves no ar. — E tudo bem se isso não for possível.
Sora sentiu um aperto inesperado no peito.
Como poderia ficar indiferente diante de alguém que lhe oferece um sentimento tão inteiro, tão desprovido de qualquer exigência? Como poderia haver distância entre eles, quando Roxas conhecia de um vínculo que Sora, de algum modo, também sentiu pulsar, ainda que jamais tivesse aprendido a nomeá-lo?
Roxas sorriu diante dele com uma ternura resignada. — Não preciso que me responda. Só... Continue sorrindo. Percebi um pouco tarde que isso era uma das coisas que eu protegia desde que eu...
Os olhos de Sora tremeluziram. — Roxas...
Um calor terno subiu pelo seu pescoço, tingindo-lhe o rosto. Sora desviou o olhar dele por reflexo, levando a mão livre à nuca — até as orelhas dele estavam vermelhas.
Roxas soltou uma pequena risada, que soou mais triste do que divertida. – Desculpa. Acho que acabei de estragar o passeio.
— Não é isso! — Sora balançou a cabeça dele depressa, voltando a encará-lo. — É que eu... Eu quero que saiba que eu pude te sentir! E aqui, agora, eu consigo te sentir de novo. Quando estamos assim... eu sei exatamente onde eu estou e onde você está. Você não é um reflexo. Você foi uma parte de mim, sim, mas que aprendeu a ser forte sozinho. A parte que soube lutar pelo que acreditou e pelo que importou, mesmo quando todos os mundos não estavam ao seu favor.
Uma luz tênue começou a rodear o garoto de Destiny Islands, dissolvendo lentamente seus pés em partículas finas.
— Há muito tempo você não é mais o meu... – Sora tropeçou nas palavras. – M-mas eu gostaria que você... Continuasse comigo.
Sora ergueu o queixo, sustentando o olhar de Roxas. E, pela primeira vez naquele dia, foi sua voz que vacilou: — Então me espere. Não desista de me encontrar.
— Claro que não vou desistir. — Roxas estalou a língua num "tsc", uma expressão rapidamente tomada pela angústia. — Quem você pensa que eu sou?
O garoto de Twilight Town sentiu um gosto amargo na boca. Pela primeira vez desde que recuperou o próprio corpo, sentiu que aquela conquista era cruelmente incompleta.
— Isso é injusto... — ele murmurou. — Passei tanto tempo querendo caminhar com as minhas próprias pernas... provar que nós dois podíamos viver como pessoas diferentes... — Ele respirou fundo, lutando contra a falha na voz. — E agora que isso finalmente aconteceu... é você quem vai desaparecer?
Roxas soltou uma risada curta e amarga. O nó na garganta não o impediu de esconder a agonia.
Durante tanto tempo ele lutou para encontrar um lugar ao qual pertencesse, por um nome que fosse realmente seu. Ele procurou validação nas estrelas, nos picolés divididos, nos corações das outras pessoas. Mas aí Roxas compreendeu, claro como cristal: o único lugar onde realmente se encaixava era ali.
Bem ao lado de Sora.
Ele mordeu os lábios, incapaz de sustentar o olhar do outro por muito tempo. — Não era assim que devia ser. Eu nunca quis existir no seu lugar. Eu queria existir ao seu lado!
O vento levou o silêncio que se abateu.
— Depois de tudo... nós merecíamos um pouco mais de tempo — Roxas sussurrou.
Sora sorriu resignado. Aquele mesmo sorriso simples que prometia que, no fim, tudo ficaria bem. — Eu sei.
A luminosidade ao redor do corpo dele se intensificou. Pequenos fragmentos de luz se desprenderam de sua pele como luzes luminosas levadas pela brisa. Logo ele se tornaria uma mera lembrança de um calor efêmero.
Ainda assim, não havia arrependimentos em seu rosto. — Obrigado pelo passeio.
— Obrigado por escutar meu pedido egoísta — Roxas devolveu.
A boca de Sora ficou seca. Ele prendeu o fôlego quando os raios do crepúsculo incendiaram os cabelos dourados de Roxas, destacando a serenidade quase dolorosa estampada em seu rosto.
Um sorriso tímido surgiu nos lábios do moreno. — Foi bom... que, pelo menos por um instante, eu pude ter você aqui comigo.
Sora sentiu o coração querendo de um jeito diferente. Era um sentimento quente, intenso e familiar; uma memória enraizada que existiu antes mesmo de haver palavras para descrevê-la. Ele se levantou e deu um pequeno passo na direção de Roxas e entrelaçou seu dedo mindinho ao dele.
— Cuide deles por mim. Até eu voltar.
As partículas de luz aceleraram sua dança ao redor de Sora, desfazendo-o como folhas secas levadas pelo entardecer. Roxas compreendeu. O peito aberto de forma insuportável. Ele procurou ar com força, tentando gravar na memória cada milímetro daquele rosto.
— Sora.
— Eu estou bem aqui — Sora prometeu, a voz já soando etérea. — Tô te ouvindo.
— Me deixa ser egoísta... só mais uma vez.
A confusão tomou conta da expressão de Sora. — Como assim?
Roxas diminuiu um pouco a distância que restava entre eles. Já pude sentir o calor suave irradiando daquela luz — um calor que existia apenas para lembrá-lo de que logo se extinguiria. Devagar, ele estendeu a mão. Seus dedos hesitaram a centímetros do rosto de Sora, com o terror súbito de tocarem somente o vazio.
Mas os dedos encontraram uma pele quente.
Roxas acariciou a face de Sora com uma saudade antecipada. Sora acompanhou o movimento com os olhos, aquecendo-se sob o toque, curioso, tentando adivinhar o que se passava na cabeça do loiro. — O que foi?
Roxas soltou um suspiro raso. —Nada. — Afastou suavemente uma mecha castanha que caiu sobre os olhos de Sora, os dedos demorando-se na derme um pouco mais do que o necessário. — Só... fica parado um segundo.
Sora obedeceu, sem questionar.
Os dois resolvidos frente a frente, separados apenas pelo compasso de uma respiração. O vento soprou entre eles. Ao longe, o badalar do sino da torre ecoou cruzando a cidade laranja. Roxas tomou fôlego. Se não fizesse aquilo agora, passaria o resto de sua existência imaginando "e se".
Ele se inclinou e depositou um selar tímido na bochecha esquerda de Sora.
Sora estremeceu. O olhar de Roxas no meio do ato era de uma intensidade desconcertante. Suas bochechas ganharam um tom tão rubro que nem mesmo as cores do crepúsculo conseguiram mascarar. Seus olhos vacilaram por uma fração de segundo, e um sorriso acanhado, mas satisfeito, escapou de seus lábios. — Você... quer me pegar desprevenido toda vez?
— Com certeza. — Roxas deixou escapar um sorriso provocador. —Essa é a intenção.
Lentamente, como se movesse através da água, Roxas inclinou o rosto para frente mais uma vez. E Sora não recuou. Pelo contrário; inclinou-se para cortar a distância restante, encontrando-o no meio do caminho.
Roxas não fechou os olhos imediatamente. A proximidade foi tão súbita que ele sentiu o ardor do ar quente que escapou dos lábios entreabertos de Sora, batendo contra sua própria boca resfriada pelo doce gelado de antes.
Quando suas bocas se encontraram, foi um choque elétrico desajeitado. Veio junto do som das respirações entrecortadas, o roçar do tecido pesado das roupas, um suspiro que se desfez na garganta.
Os narizes se esbarraram, mas nenhum dos dois recuou. Roxas cravou os dedos no tecido grosso da jaqueta de Sora, puxando-o para baixo, ancorando todo o seu peso nele para não cair. O cheiro de sal marinho e a brisa de verão invadiam seus sentidos, enquanto o gosto remanescente de açúcar do picolé derretia na língua de ambos.
Não foi uma batalha explosiva entre dois mundos diferentes, mas um retorno silencioso para casa.
Sora correspondeu com uma urgência apaixonada. A mão direita dele, quente e calejada, subiu pelo pescoço de Roxas, o puxou e o acariciou com a palma traçando a linha do maxilar num carinho que enviou um arrepio violento por toda a espinha do loiro. O som do sino da torre distante, foi abafado pela respiração acelerada de Sora, agora misturado à sua própria.
Roxas agarrou a frente da jaqueta de Sora, os nós dos dedos ficando brancos de tanta força, e o deixou mais contra o próprio peito. Ele queria fundir os dois ali mesmo. Queria provar que era real, que aquele calor era real. Os lábios de Sora eram macios e respondiam com uma entrega que fez o coração de Roxas bater dolorosamente forte.
O garoto loiro distribuiu beijos rápidos e desesperados pelo canto da boca de Sora, descendo para o maxilar, querendo memorizar ele todo antes que o tempo acabasse.
— Roxas... — Sora sussurrou, a voz embargada, apertando os braços ao redor da cintura do loiro, colando seus corpos o máximo que a luz se desfazendo permitia.
O último selar foi longo, as testas coladas, os lábios mal se separando enquanto respiravam o mesmo ar. Parecia mais uma doce promessa silenciosa do que uma amarga despedida.
'Você é o meu primeiro desejo, e quero que seja o último.'
Testa contra testa, de olhos fechados, eles respiraram o mesmo ar.
— Eu tô com você — murmurou Sora, a respiração batendo quente contra a pele de Roxas. — Não importa aonde eu vá, nem o que aconteça. Eu sempre estarei com você.
Roxas soltou um suspiro trêmulo. Ele apoiou a cabeça no ombro de Sora, deixando que seus olhos admirassem a luz dourada de Twilight Town mergulhando devagar numa púrpura profunda e majestosa, no abraço da promessa de Sora.
Ele estava exatamente onde deveria estar.
Até que o calor começou a desaparecer. A pressão suave dos braços de Sora ao redor de seu corpo tornou-se cada vez mais rala, dissolvendo-se em uma névoa luminosa sob o céu escuro.
Roxas franziu a testa.
Não...
Suas mãos agarraram-se ao vazio. As últimas partículas de luz escaparam por entre seus dedos, varridas pela corrente de ar.
Sora não estava mais lá.
Quando abriu os olhos, Roxas levou os próprios dedos aos lábios. Ainda jurava ser capaz de sentir o toque tão caloroso. Um sorriso contido, carregado de melancolia e esperança, desenhou-se em seu rosto.
— Até logo...
O vento levou a promessa. Porque despedidas eram somente para pessoas que desistiam de buscar sua luz.
E Roxas sempre encontraria o caminho de volta para Sora.
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