Antes do nascer do sol.

15 Teresa - a eternidade em um segundo.


— Meu apartamento é pequeno, mas o suficiente para mim, já que quase nunca fico aqui — Mariana fala ao abrir a porta, nos deixando entrar.

Realmente, é um lugar pequeno, porém o que mais me incomodou foi a falta de personalidade, toques pessoais, pequenas lembranças. Percebo como Lídia está desconfortável, talvez, pelo ambiente, talvez, pela conversa prometida.

Eu não me importo, pois não sou eu que estou aqui, passo a maior parte do ano fingindo ser outra pessoa, um personagem, para me reencontrar nas férias nos braços de um novo e fogoso amante, sendo assim, tenho a consciência que nada poderá me atingir.

— Sentem-se. Querem beber alguma coisa? Café ou chá? Bem, eu supondo que eu tenha chá — Mariana brinca, amenizando o clima.

— Não tem nada mais forte — Lídia pergunta, enquanto nos sentamos no pequeno sofá.

— Acho que tenho uma garrafa de vinho.

— Está bom para mim — Lídia dá de ombros, Mariana some pela porta, nos deixando sozinhas, escolhendo as palavras.

— Você vai ver a garota? — ela me pergunta.

— Eu não sei, é muito estranho para mim.

— Para mim, também, só de pensar em um pedaço de uma pessoa que conhecemos dentro de uma estranha.

— Pelo menos, tem um pedaço de Renato ainda vivo. Foi legal da parte dos pais dele fazer algo assim, apesar da dor que sentiam.

— Você foi ao enterro dele?

— Eu não pude por causa da cirurgia do quadril, fiquei 6 meses na cama. E você?

— Não tive coragem, mas, hoje, eu me arrependo, deveria ter indo, dado adeus — Lídia revelou com tristeza.

— Eu fui — Mariana entrou pela porta, trazendo uma garrafa e taças na mão, entregando a nós e nos servindo, colocou a garrafa sobre uma mesinha e se sento em uma banqueta. — Eu fui ao funeral, foi muito triste, mas os pais dele estavam mais conformados, devido ao longo tempo de coma. João estava lá também.

— João? Eu não ouço falar dele há bom tempo — Lídia falou, pensativa.

— Eu sei que ele foi embora, porque me disse, no dia do funeral. Falou que iria estudar fora.

— E agora, estamos aqui, só as garotas, as sobreviventes – digo, levando a taça a boca. — Ainda sinto dores no quadril, manco um pouco, mas não dá para notar.

— Eu sei como é, vejo a minha cicatriz, toda vez que tiro a roupa. Nunca vimos aquele nascer do sol — Mariana completa com certa nostalgia.

— Nunca mais fomos os mesmos desde que entramos naquele carro. Eu me lembro bem, que era para eu ter sentado na frente, Renato queria sentar atrás e vocês não deixaram — Lívia relembrou.

— Eu não queria que você sentasse na frente com Joaquim, porque eu gostava dele e ele gostava de você, e João queria sentar-se perto de Teresa, porque gostava dela — Mariana confessa, em seguida, leva a taça a boca e toma um longo gole.

— Eu queria me sentar junto a Renato, mas ele queria ficar perto de você, Mariana — Teresa completa.

— Era para eu estar no lugar de Renato, para eu morrer no lugar dele.

— Nem sabíamos se isso aconteceria da mesma forma, se tivessem trocado de lugares — Mariana pondera.

— Eu sei, foi o destino — Lídia dá um longo e resignado suspiro.

— Não banque a inocente, Lídia? — rebato, cheia de rancor.

— E do que você está me acusando, eu não fiz nada? — Lídia retrucou, com aquele ar de falsa inocência que eu conhecia muito bem e que odiava.

— O que você fez, Lídia ?! Você ficou ali, cantando, fazendo cara e bocas para o espelho retrovisor, querendo atrair a atenção de Joaquim, porque sabia que ele era muito a fim de você.

— Eu não fiz isso! – ela falou alto, com ar indignado.

— Sim, você fez. Por isso, Joaquim não estava olhando para onde devia! — afirmo, zangada, odiava aquele seu papel de boa menina.

— Pare com isso! Não dava para ele ver, o outro carro furou o sinal e nos pegou de lado, por isso, Renato foi o mais atingindo — Mariana argumenta, sei que ela está certa.

— Eu tenho que reconhecer, que estava cantando para o espelho, porque gostava do modo como Joaquim olhava para mim — Lídia confessa, ela já virou sua taça e a enche outra vez.

— Eu devia ter transando com Renato, naquela noite, mesmo sabendo que ele gostava da Mariana — As palavras saem da minha boca sem controle, minhas colegas me olham com ar de surpresa. — Por que estão me olhando assim? Já somos bem crescidinhas e isso era algo que gostaria de ter feito, pelo menos, ter dado um beijo na boca. — Tomo mais um gole do meu vinho.

— Eu beijei Renato — Mariana confessa, olhando para a sua taça, não posso acreditar, afinal, ela era a minha amiga e sabia como eu gostava dele. — Desculpe, Teresa. Mas, simplesmente, aconteceu.

— Quando?

— Durante a festa, no corredor, a gente se esbarrou, estávamos alegres e sozinhos, ele havia bebido demais, começamos a brincar e rir, então aconteceu, nós nos beijamos, uma única vez. E foi bom, mas havia você, Teresa, que era minha amiga. Então, sai correndo e o deixei para trás. Desculpe.

Não consigo tirar os olhos dela, sinto um aperto no peito, ciúmes, como se tivesse acabado de acontecer.

— Pelo menos, ele fez algo que sempre quis — Lídia fala com uma fria sabedoria. Mariana a encara indignada.

— Não, Lídia, tem razão. Vamos ser realistas. Ele gostava mesmo de você, Mariana. Ele deve ter ficado bem feliz com esse último beijo — declaro.

— É um pensamento mórbido, como se fosse o último desejo de um condenado — Mariana rebate, com tristeza e ela tem razão.

— Pobre Renato! — Lídia suspira.

— Muitas vezes, eu me pego pensando nele, como seria se tivéssemos ficados juntos, não estou falando de um compromisso sério, do tipo casamento ou amor eterno, só ficar, beijos e amassos, talvez, até transar— considero.

— Não pensávamos muito nisso nessa época — Lídia retruca.

— Não banque a puritana, Lídia. Nós só pensávamos nisso, éramos curiosas, queríamos saber como seria, cheias de expectativas e ilusão — rebato.

— Talvez, seja por isso que nunca encontrei alguém, acho que parei no tempo, ainda sou aquela garota romântica, esperando um grande amor — Mariana confessa, virando vinho de uma única vez e reenchendo a sua taça. Lídia faz o mesmo, todas nós queremos essa falsa coragem?

— Eu não tenho mais ilusão, não acredito nessas bobagens românticas que vendem para nós, nos livros e filmes, quero viver a emoção do momento das mãos de um homem sobre o meu corpo, me desejando mais que tudo naquele instante, sem essas tolices de amor eterno ou até que a morte os separem — admito em voz alta, elas me olham um tanto espantadas pelas minhas palavras duras, contudo é assim que me sinto, pois sei que a eternidade pode durar apenas um segundo, e todos os seus planos e anseios se perdem em um piscar de olhos