Antes do nascer do sol.
12 João - Obrigada, sua eterna amiga.
Abril de 2018— Eu acordo todo dolorido por ter dormido no sofá pequeno demais para mim, estico meus músculos travados, percebo que a manhã já ia longe. Então, me recordo da noite de ontem, a porta do quarto ainda está fechada, mesmo assim tenho medo que Sofie não esteja mais lá, apesar de saber que não poderei prendê-la por muito tempo. Eu já tentei e não deu certo, sobrando sempre a frustração e a tristeza. Dominando meus receios, vou até lá e entreabro a porta, na penumbra, mal enxergo o seu corpo mirrado escondido sob as cobertas. Fecho a porta devagar, para não a perturbar.
Penso que seria bom ter algo fresco para comermos, quando ela acordar, assim, me arrumo, visto o casaco para ir ao pequeno mercado na outra rua, mas eu tranco a porta e levo a chave comigo.
Trago todo que sei que ela gosta, pequenos brioches, queijo, pastrami, suco de laranja, fiz um café forte para mim, remetendo a minha terra, e espero, pacientemente.
Sofie dormiu quase 14 horas seguidas, como se não dormisse a dias, eu só velava seu sono, indo de vez em quando ver se ainda respirava.
Despertou no meio da tarde tediosa, eu assistindo mais um filme, quando ela saiu do quarto embrulhada no cobertor, que arrastava tal qual um manto, os olhos inchados, o cabelo em pé, mesmo assim estava linda.
— Oi! Boa tarde — eu disse em tom brando.
— Acho que dormir demais.
— Foi bom você descansar. Está com fome? — Ela sacudiu a cabeça afirmativamente — Vou fazer um sanduíche para você.
Fui para a cozinha, ela se sentou no sofá.
— Espero que goste. É pastrami — disse, do balcão, montando o sanduíche.
Entreguei o prato a ela, que recebeu nenhum entusiasmo, sentei-me ao seu lado e a observei comer sem vontade, procurei aquela garota por quem fui apaixonado anos atrás, ela não estava ali, era outra pessoa, destruída por todas suas escolhas erradas.
— Você está sendo muito legal comigo, eu não mereço, depois de tudo que eu fiz — ela coloca o prato com o sanduíche pela metade, sobre a mesa de centro e olhou direto nos meus olhos.
— Você não fez nada, tinha o direito de não gostar mais de mim.
— No entanto, você está aqui.
— Só quero ajudá-la — Alcanço suas mãos e a seguro entre as minhas.
— Obrigada. Você é meu anjo da guarda. No entanto, não pode me ajudar, ninguém pode — Sofie me dá um olhar desesperado, as lágrimas desciam pelo seu rosto.
Eu a puxei e a abracei, para acalentá-la, tal qual uma criança, ela era pequena e frágil nos meus braços.
— Para tudo tem um jeito — murmurei no seu ouvido, mesmo não acreditando nisso.
Ficamos assim por um longo tempo, ela só chorava nos meus braços, sentados no sofá da sala, até eu afastá-la com delicadeza.
— Vamos sair, andar por aí, podemos ir ao Central Park ou ao MoMA. Lembra-se, como você adorava ir ao MoMA, ficava me ensinando sobre arte moderna? Eu não sabia nada. Como ficamos horas diante da Noite estrelada de Van Gogh, imaginando o que o pintor estaria pensando, como se sentiu, sob a tempestade de estrelas — relembrei.
Ela me deu um sorriso que não refletiu nos olhos.
— Eu era feliz ao seu lado. Por que eu fiz isso, deixar tudo por uma ilusão?
— Você se apaixonou, só isso — digo de um modo falsamente casual.
— Mas, pelo cara errado. Por que não me apaixonei por você?
— Porque eu não era tão interessante quanto ele.
— Você já se apaixonou por alguém assim?
Sim, por você, pensei, mas não era o momento de tal revelação.
— Quando eu era adolescente, eu me apaixonei por uma garota chamada Teresa, mas ela gostava de um amigo meu, então não rolou. — Dei de ombros, como não me importasse com as lembranças tão dolorosas.
— Ela ficou com o seu amigo?
— Não, ele morreu em acidente de carro.
— Eu lamento muito — ela me disse, vi a sinceridade nos seus olhos.
— Já faz muito tempo.
— Posso ficar aqui com você? Será por pouco tempo.
—Claro, fique o tempo que precisar.
Naquela noite, eu e Sofie dormimos na mesma cama, não se engane, não houve sexo, só ficamos ali, cada qual em um travesseiro, olhando um para o outro, conversando, até que as palavras nos faltaram, nem sei o momento em que adormeci, com a alma mais leve, sentindo a presença de Sofie junto a mim, com a certeza que poderia salvá-la de si mesmo.
Acorde no meio da manhã, o outro lado da cama estava vazio, fui tomado por um temor imenso.
— Sofie! — eu a chamei, levantando, a procurando pelo meu pequeno apartamento, me recriminando por ter esquecido a chave na porta, mesmo sabendo que não poderia mantê-la ali para sempre, contra a sua vontade. — Sofie!
Ela não estava ali, passei a mão no meu rosto, imaginando possibilidades improváveis, mas a realidade me atingiu, quando encontrei um bilhete sobre a mesa, reconheci a sua letra:
Meu querido Johnny,
Gostei muito de passar essas horas com você, ajudou a apaziguar minha alma ferida. E apesar do seu coração bondoso, nem você nem ninguém poderá me ajudar, escolhi o meu caminho e sei onde ele vai dar, não quero ser um estorvo, assim estou voltando para Paul.
Obrigada, sua eterna amiga, Sofie.
Li e reli aquele bilhete um monte de vezes, para ter certeza que era verdade, depois o apertei entre os dedos até se transformar em uma pequena bola.
Por um momento pensei em Teresa e Renato, no meu amigo Joaquim, como ele estará?
Nomes perdidos do passado, que volta e meia retornam para me assombrar.
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