Notas iniciais
Olá! Fiz esta história para o concurso Memento Mori, em outra plataforma.
Caso veja este conto em outros sites publicado por Renatika ou Renata Lima, ainda sou eu :D

Espero que goste! ♥

— Segurem firme, vou desamarra-la.

Em pé na cadeira, ele levou alguns minutos para desfazer os nós do lençol áspero. Assim que conseguiu, as detentas da cela improvisada começaram a gritar, demonstrando orgulho do que tinham feito naquela manhã. Ele alcançou o chão com certa dificuldade sentindo um incomodo nas suas costas, enquanto os rapazes ajeitavam a pobre coitada na gaveta. Mesmo não sendo necessário a colaboração, segurou em uma das alças da caixa plástica, tendo uma visão clara do que fora um rosto. Não pôde deixar de imaginar se houve beleza ali algum dia, naquele estado era impossível saber.

Observar o término de uma existência é uma desgraça para mostrar a vulnerabilidade humana contra o tempo ou uma bênção, que implanta o conceito de que o fim da vida é para que ela tenha significado?

Após certificar-se que a nova passageira estava bem acomodada, começou a fazer seu papel no volante sem prestar muita atenção no que os colegas conversavam. Não foi preciso mais que 30 minutos para o veículo ocupar uma das poucas vagas no local de destino. Antes mesmo dele colocar os dois pés no chão, ouviu um choro alto e melancólico. Detestava dar falsas condolências nestes momentos, então acendeu um cigarro e deixou que os rapazes lidassem com o corpo.

8 horas diárias de sono parecem um desperdício imenso ao lembrar-se que a inércia um dia chegará de forma definitiva. Se o tempo concedido fosse maior, o período sugado pelo mundo dos sonhos não pareceria tão injusto. Em contra partida, qual poderia ser o preço de uma vida extensa? Talvez todos os dias carregar nas costas a própria casa, andando de forma bem lenta. Com a mobilidade afetada, provavelmente não seria uma vantagem ter muitos anos a disposição.

Ouvindo um soluçar se distanciando, decidiu entrar. Caminhando pelo ambiente olhou para a mulher que lidava com uma pasta cheia de papéis.

— Ei Zé! — com a empolgação costumeira ela formou um sorriso. — Pensei que já tinha ido almoçar.

— Daqui a pouco — respondeu colocando uma das mãos no bolso, encontrando o esperado molho de chaves. — Aqui tá meio parado hoje.

— Engano seu! Acabou de ter um reconhecimento.

— Eu ouvi. E lá dentro — fez um gesto discreto com a cabeça, desnecessariamente indicando a direção —, como tá?

— Vai lá dar uma olhada. — Ela voltou a dar atenção aos papéis, mas desta vez de uma pasta diferente.

Antes de ir para a divisão mais importante do instituto, parou em frente a geladeira, notando nas identificações se havia algum ocupante ainda desconhecido. Vislumbrar a morte tão de perto desperta o sentimento de urgência, a avidez de aproveitar os momentos de oxigenação para tornar cada dia importante, pois um deles será o último. Quem sabe levar os netos para um novo passeio no fim de semana tranquilizasse sua mente outra vez.

Encostou no batente da porta e chamou pelo médico, que o convidou a olhar qual seria a diversão para as próximas horas. O breve silêncio foi quebrado pelo barulho irritante vindo das recém colocadas luvas de borracha.

— Se eu ainda fosse jovem faria uma tatuagem maneira dessa — era possível perceber o deboche em cada palavra na voz aguda do médico.

— Olha doutor, amanhã se eu aparecer com um desenho desses e você rir de mim, vou ser obrigado a te dar uma porrada. — O sorriso amarelado do motorista foi sequencial a gargalhada do legista.

— Os mais velhos eu respeito Zé, na sua frente eu não falaria nada — rindo, começou a cutucar a face do adolescente despido na mesa, deixando claro o fim da conversa.

— Abusado! Aliás — Zé estava a caminho da porta quando interrompeu brevemente a marcha —, acho que seria bom dar um pontinho na boca da moça que chegou. Não sobrou muita coisa, mas ia deixar a situação menos feia.

Antes de ficar longe o suficiente escutou a voz alta declarando que se preciso a mulher ganharia até um sorriso. Chegando na recepção, parou diante da janela observando o muro branco, subindo o olhar era possível ver as pontas de algumas das cruzes na parte mais alta do terreno em frente. Sua atenção foi desviada para a televisão no suporte na parede, de onde era possível ouvir a voz do repórter comentando a exposição dos trabalhos científicos da universidade local.

Será invenção do ser humano a existência de um objetivo maior em sua breve passagem no tempo ou de fato é algo concreto? Independente da resposta, existem os que insatisfeitos com a condição universal buscam e conseguem a imortalidade. Mesmo que suas vidas já tenham se esvaído, é possível enxerga-las em suas obras de arte, livros, em receitas de bolo passadas por gerações.

Alma imortalizada ou não, para todo o sempre seria preciso que alguém desse fim a carcaça que fica para trás.

Notas finais
Obrigado por me prestigiar com sua leitura.
Abraços! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!