Antes da colisão

1 Minha maior verdade


Notas iniciais
Boa leitura :3

Um dia vi a frase “O mundo é tão estúpido que eu não posso te amar”, e achei um absurdo. O amor supera tudo, não é mesmo? Mal sabia eu que o mundo me provaria que ele pode sim ser tão estúpido a ponto de eu não poder te amar.

— Você acha que vou conseguir? – perguntei para Anne, minha amiga.

— É claro que vai, que bobagem! Entra logo e faça seu melhor. ­ – respondeu ela, me empurrando porta adentro.

Eu estava meio nervosa. Era minha primeira apresentação em público. Acho que mais da metade daquelas pessoas nem me conheciam, apesar de dividirem comigo o mesmo corredor todos os dias, por anos. E eu gostava de ser uma desconhecida. Essa apresentação não mudaria isso, mas deixava um frio em minha barriga porque, pela primeira vez, cerca de 450 olhares estariam voltados para minhas mãos se movendo naquelas teclas.

Quando entrei e me sentei ao piano, percebi que muitos olhavam não para mim, mas para telas de celulares, alheios ao que acontecia em volta. Suspirei, uma mistura de decepção e alívio. Menos pessoas prestando atenção em mim.

Fechei os olhos e permiti que minhas mãos tomassem o controle da situação, ouvindo os sons preencherem o auditório. Os burburinhos foram aos poucos se silenciando, ao menos em minha mente, e a apresentação acabou tão logo começou. Levantei-me, sorrindo e sentindo minhas bochechas quentes de vergonha. As palmas cessaram e eu saí, encontrando Anne, que me abraçou e parabenizou.

Nesse dia, ele me viu de verdade pela primeira vez. Não fazendo comentários numa aula de história, nem na fila do refeitório, mas sendo eu mesma.

A verdade é que eu nunca prestei muita atenção no que acontecia a meu redor. As pessoas eram vultos passageiros, mudando tanto a cada dia que eu não conseguia processar. Poucas pessoas podiam ser consideradas próximas, e apenas Anne me conhecia fora da escola. Quando ele me parou, não o reconheci imediatamente, mas acabei lembrando do dia em que o vi entrar na sala para entregar algo a outro aluno. Não sabia seu nome, mas seus olhos negros eram calorosos.

— Parabéns pela apresentação, você é muito boa. – foram as primeiras palavras que ouvi dele.

— Obrigada. – respondi sorrindo, sem saber se devia dizer mais alguma coisa.

Então ele saiu andando, e eu ainda não sabia seu nome.

Lembro que eu espirrava muito enquanto passava pelo corredor, devido a minha alergia. Ele passou meio apressado, mas ainda assim disse “Saúde”, e então só pude ver sua mochila balançando enquanto ele corria para a sala. Os espirros pararam e o sinal tocou, mas eu ainda não sabia seu nome.

Estava com Anne na sorveteria, logo depois da escola. Acho que tomava um sabor menta, já que ainda hoje continua sendo um dos meus preferidos. O atendente saiu de detrás do balcão, passando pelo recinto e indo embora. Quando fomos pagar, ele estava lá. O garoto sem nome. Contava o dinheiro distraidamente, mas nos notou logo. Sorriu e disse o valor, que pagamos prontamente, fazendo uma pequena confusão na hora de dividir a quantia. O dinheiro espalhava-se pelo balcão, e ele resolveu ajudar. Nossos dedos encontraram-se brevemente, algo imperceptível. Mas até hoje lembro que essa foi a primeira vez que nos tocamos.

Os dias passavam devagar, embotados numa névoa de cansaço. No último ano do ensino médio, eu vivia implorando pelos fins de semana. Porém, mesmo sendo um sábado, tive que comparecer a um evento da escola. Era o dia do 3º B apresentar seus projetos da Feira Social. Assuntos variados eram abordados, fiquei sabendo. Hoje sinto falta da Feira Social, da qual só participei nesse ano.

Eu andava pela quadra, visitando os estandes enquanto esperava Anne, que tinha o marcante costume de se atrasar. Então cheguei ao dele, cheio de cartazes explicativos com notícias do mundo. Várias pessoas ouviam a apresentação, ele falando sobre telejornais com voz firme, mas melodiosa. Por fim, parabenizaram e agradeceram, se dirigindo a próxima tenda. Eu permaneci, lendo um folheto, e disse a ele:

— Você tem cara de jornalista.

No momento, pareceu algo adequado a se dizer.

— Ainda bem, porque quero ser um.

Esse foi um dos nossos primeiros diálogos de verdade, uma conversa que levou a outra e mais outra. Nesse dia, eu soube seu nome.

Victor. Victor que queria ser jornalista e tinha olhos negros e profundos. O mesmo Victor que soube que eu era alérgica antes mesmo de saber minha idade. Conversamos bastante naquele dia e acabei descobrindo que era seu primeiro – e último – ano naquele colégio. Quando ele me chamou pelo nome sem querer, olhou em meus olhos como se tivesse invadido meu espaço, sabendo de algo que eu não sabia. Anne chegou o cumprimentando com um “Oi, Victor!”, o que me surpreendeu um pouco, visto que ela nunca havia demonstrado conhecê-lo.

Na semana seguinte, nos encontramos no corredor e ele me convidou para um passeio depois do colégio, pois queria me contar algo. Andamos a esmo pelas ruas e ele me disse que havia conseguido um estágio no jornal da cidade. Fiquei feliz, não só por ele, mas também por mim. Porque ele havia sentido vontade de me contar algo, justo a mim, uma quase desconhecida.

Acho que foi nesse dia que eu comecei a me apaixonar por ele, mesmo sem perceber.

Algumas coisas acontecem sem que percebamos. Meu sentimento por Victor não foi uma dessas coisas: eu estava bem consciente dele criando forma dentro de mim. Então, eu tive medo. As consequências poderiam ser desastrosas, eu sabia. O que eu não sabia era o que fazer com aquilo. Nunca antes havia sentido algo naquela proporção. Os sentimentos e amores antigos pareciam tão distantes e fantasiosos se comparados àquilo.

Cinco meses pode parecer pouco tempo, mas eu já achava que o amava. Hoje sei que, àquela altura, o achismo já estava para trás, e o que eu sentia não poderia mais ser ignorado ou abafado.

Nesses cinco meses, eu o vi chorar e gargalhar. Minhas mãos formigavam, armazenando a vontade que eu tinha de acariciar seus cabelos e sua barba por fazer. Quando ele chorou e eu segurei sua mão, prestando atenção pela primeira vez a sua marca de nascença no dedo mindinho, ele sorriu enquanto olhava minhas pequenas mãos entrelaçando as suas, bem maiores.

Ainda hoje não sei dizer o que nele tanto me marcou, ou o porquê de eu não conseguir esquecê-lo. E tudo nessa cidade me faz lembrar nós dois, então talvez eu devesse ter ido embora. Mas eu não pude, ele o fez primeiro, e eu tive de permanecer, porque aqui, ainda estou com Victor.

– Bom dia, minha futura arqueóloga – ele me cumprimentou.

Apesar da paixão pelo piano, eu não via aquilo como uma possibilidade profissional. Meu desejo era descobrir coisas novas, desvendar o passado. Por isso, queria cursar Arqueologia, e Victor apoiava minha vontade.

Nessa época, eu já me sentia dele, mesmo que dizer “minha arqueóloga” não tivesse nenhum significado nesse sentido. Porém, os pedacinhos de mim sentiam que pertenciam a ele. Durante esses momentos, eu jamais cogitei a hipótese de que, alguns anos depois, eu ainda me recordaria dele e doeria tanto. Minha vida tomou rumos diferentes dos que eu esperava, mas lembrar-me dele trazia o gostinho dos meus sonhos, da garota que eu fui. E apesar da felicidade que eu sinto agora, é como se algo – aquela pequena parte – ainda faltasse. Sim, cada pedaço meu pertencia a ele, e ainda hoje eu sinto que há um pedacinho que ainda o aguarda.

Todos os “eu te amo” ditos foram verdadeiros e estão frescos em minha memória, incluindo aquele último, um eu te amo com gosto de adeus, dito em meio a algumas lágrimas. Acho que foi nesse dia que o dito pedacinho de mim se arrancou e foi levado por ele.

Eu espero que essa lembrança acabe por se tornar mais doce que triste.

Estar em um relacionamento sério era pra nós apenas uma nomenclatura: a intensidade do que tínhamos é que ditava a importância e a grandiosidade de nosso tempo juntos. E talvez por ter sido tão grandioso, nunca me deixará. E o tempo que durou é o menos relevante de tudo; dias, meses ou anos, nem há como dizer, porque em meu coração ainda não acabou.

Mesmo que naquele dia, quando tivemos A conversa, ele tenha dito que a grande oportunidade aparecera. Que ele iria e me levaria com ele, mesmo que não em presença. Que milhares de quilômetros não seriam suficientes para nos distanciar. Mas todos sabem que a distância é cruel e que o tempo não deixa barato. Que a vida encontra formas de mudar nossos rumos, nos coloca em novas estradas, e na maioria das vezes não há o que fazer a não ser seguir em frente.

Não posso dizer que não tentamos. Que não insistimos em nosso amor. Porque, se teve algo que fizemos com afinco, foi tentar. Porém, em determinado momento, nos cansamos de tentar manter algo fadado a não ser mais. E você pode até pensar que, se fosse realmente de verdade, estaríamos juntos até hoje. Mas eu digo que, exatamente por sido a maior verdade da minha vida, eu não consegui, nós não conseguimos, vivenciá-la pela metade.

Talvez algum dia a gente se encontre. Pode ser que finjamos não nos conhecer, ou que estejamos tão diferentes a ponto de não nos reconhecermos. Talvez o momento seja mais apropriado e possamos florescer juntos, ou mais uma vez, colidamos e espalhemos a poeira de nossas lembranças por aí.

Você foi para mim, Victor, a maior verdade do mundo.

Mas você teve que ir embora, e eu culpei o mundo, pra não ter que te culpar.

Notas finais
Tenho outra história nesse mesmo universo, sobre esse casal, deixarei o link para quem tiver interesse.
O que acharam? Obrigada a você que leu :3

https://fanfiction.com.br/historia/659381/Colisoes/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!