Antes da Névoa
2 Capítulo 2
— Minha princesa, não queria que tivesse visto isso. — Dez olha com uma cara triste para a filha.
— Papai, eu não entendo, o que aconteceu? — A menina perguntou assustada com a expressão do pai.
— Clari, meu amor, venha aqui. Sei que você é jovem, mas você terá de aprender um dia, e talvez eu não esteja aqui para lhe ensinar. — Sona chamou sua filha, com uma voz totalmente calma, porém um pouco pesarosa pela última frase.
— Amor, acho que não está na hora. — Dez sussurrou à mulher.
— Ela já tem doze anos, estamos adiando isso a meses, ela só tem mais três anos para se preparar, talvez nem isso. — Sona respondeu, ainda calma, mas com o humor um pouco alterado.
Dez não só sentia, mas podia ver quando sua mulher começava a se alterar, a energia que ela irradiava ficava mais forte e seus olhos bicolores começavam a mudar, se estava ficando irritada, o olho vermelho ficava mais vivo, como se pegasse fogo e o branco tornava-se cinza, como se algo estivesse manchando-o. Nesse momento, ele sabia que não deveria tentar argumentar.
— Vem Clari, mamãe vai te ensinar uma coisa. — Sona chama a filha, apalpando a grama ao seu lado, indicando o lugar para sua filha se sentar.
Clarity não demorou muito e logo sentou-se onde sua mãe indicara.
— Clarity querida, sabe que animal é esse? — Sona perguntou.
— Um cervo, acho que ainda é filhote. — Respondeu a menina um pouco entusiasmada por ter reconhecido o animal, apesar de nunca ter visto um.
— Isso mesmo. É um filhote de cervo. Ele foi atingindo por uma flecha de caçador, sabe o que isso significa? — Com o humor já restabelecido, Sona continuou.
— Isso significa que se não cuidarmos da ferida, ele não vai sobreviver? — Clarity estava meio indecisa quanto a resposta, o que fez sua mãe sorrir.
— Muito bem. Sabe o que devemos fazer agora? — Sona pergunta
— Cuidamos dele, mas não sei como. De todas as aulas que me deu, nenhuma falava sobre animais caçados por homens. — A menina respondeu desapontada.
— Não se preocupe, pois esse tipo de lição só pode ser aprendida na prática. Quero que preste atenção em tudo que eu fizer e repita. — Clarity sabia que quando sua mãe mandava prestar atenção era porque ela iria aprender algo importante. Foi assim todas as vezes.
Clarity apenas assentiu com a cabeça.
— Dez, cuidarei do servo com a Clarity, vá até a selva e encontre o caçador, traga-o aqui. — Sona disse firme ao marido.
— Sim querida. — Dez se aproximou de Clarity. — Papai já volta. — E beijou sua testa.
— Te amo papai. — Clarity disse com lágrimas nos olhos.
—Também te amo princesa. — Dez sorriu.
Algo dizia a Clarity que essa seria a ultima vez que se veriam, ela não sabia porquê, mas esse sentimento era forte e a deixou triste.
— Clari, preste atenção. — Sona disse firmemente retomando a atenção da filha.
Clarity, apesar de triste, não perdeu tempo e logo começou a fazer tudo de acordo com as instruções de sua mãe. Em pouco tempo, a flecha foi retirada do servo e a ferida foi limpa, chegou então a parte que Clarity julgou ser a mais complicada.
— Clarity, vê o cervo? Ele está limpo, então iremos ajuda-lo a se curar. Ensinarei a você uma antiga canção do nosso povo, quero que cante comigo, entendeu?
—Sim.
— Coloque suas mãos sobre a ferida do cervo, assim. — Sona disse posicionando as mãos da filha — Tudo bem, vamos lá. — Disse respirando fundo e se concentrando.
" Terra, doce e pura,
Terra que restaura e cura,
Nos trás segurança e prosperidade,
Que leva doenças e trás paz.
Terra doce e pura,
Terra que restaura e cura,
Terra de extremos,
Tanta alegria e dor,
Tanto ódio e amor.
Terra doce e pura,
Terra, restaure e cure,
Leve as dores e traga paz,
Leve o ódio e que deixe o amor.
Que a paz se estabeleça,
Que a segurança cresça,
E que a prosperidade se abrigue em nós.
Terra doce e pura,
Terra que restaura e cura,
Cuide do laço rompido,
Traga-o a nós novamente.
Ó doce e grande Terra!"
Ao começar a cantar com sua mãe, Clarity sentiu uma energia positiva vibrando em seu corpo, sentiu toda aquela energia passar dos seus pés à cabeça, sentiu fluir por cada extremidade do seu corpo, sentiu fluir, e viu que era diferente, era especial. Único.
Clarity viu, então, a energia sair de seus dedos e entrar no servo, a ferida começou a se fechar, se curar e, lentamente, o corpo do animal começou a reagir, começou com um leve movimento em sua Area vitale, e então a respiração cada vez mais viva.
Clarity sabia que o filhote de cervo viveria e sabia também que ela o tinha ajudado, era por causa dela que o filhote estava vivo. Naquele momento, Clarity sabia que era aquilo que queria fazer, ajudar quem precisasse, independente de ser homem, animal ou qualquer outra criatura.
Tomada por uma onda de felicidade, Clarity se levantou e saiu correndo casa a dentro rumo ao seu quarto.
— Mamãe, segura ele aí! Eu já volto! — Gritou à sua mãe, que retribuiu com um sorriso.
Em seu quarto, Clarity procurou por algo que pudesse amarrar no filhotinho, e mostrar que era seu, que ELA o havia salvado. Acabou encontrando em sua gaveta de laços, um laço laranja que acabou decidindo usar. Voltou correndo para o jardim, e encontrou sua mãe dando leite ao cervo.
— Mamãe!
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