Antes Que o Céu se Rompa
4 Capítulo III — A Noite
A noite caiu sem pedir licença, intensa, pulsante, quase viva, como se respirasse junto com eles, como se não houvesse mais nada além deles e o brilho da luz, onde o vento era frio, mas parecia estranhamente quente, ele chegou primeiro, inquieto, andando de um lado para o outro como quem tenta fugir de algo que mora dentro de si, o peito subindo rápido, os olhos acesos, não era espera, era pressentimento, então ela surgiu silenciosa com os olhos que acompanhavam o brilho da lua, de onde resplandecia uma doçura e uma coragem inexplicável, e quando pararam e se olharam, era inegável a energia pulsante que se transformava em personagem, a alegria contida que os olhos e o sorriso não sabiam esconder, ele ainda tentou resistir dizendo que ela não devia estar ali, mas não havia força em suas palavras, e ela, com um sorriso sarcástico e singelo de doçura imensurável, apenas respondeu que ele também não, já se aproximando, pois parecia que algo os puxava, se dentro deles houvesse um ímã que procurava um ao outro e agora se encontrava, e tudo ao redor parecia que recuava como se tudo entendesse que naquele momento não se permitia sequer uma interferência, e que o que ali acontecia era mais forte que um eclipse, quando a lua consegue, mesmo sendo menor, esconder o sol por um instante.
Ao sentir o calor do corpo dela próximo ao seu, assim como a luz do sol banha a praia no pico do meio-dia, ele tentou recuar, mas já era tarde demais, pois ele não sentia mais suas pernas, sentia apenas o toque das mãos serenas dela em seu rosto, como quando uma pena toca a pele, sem peso e sem pressa de ir embora, e como uma explosão, aquele fogo que já não se continha agora parece que transborda, nada acontecia descontroladamente, mas também não acontecia com tanta delicadeza, como se o tempo parecesse passar rápido demais para esperar, ele segura a mão dela com uma força estranhamente delicada, tentando conter algo que, como um rio que avança e já não se pode conter, ambos não recuam, como marés que se encontram sem voltar atrás, onde o controle já não se sustenta, cede aos poucos como quem tenta resistir, mas não encontra onde se firmar, ele desiste de se segurar e, como quem é levado, se deixa encaixar no abraço dela, como chama, que quando vem o vento se inclina para onde ele vai, avançando como quem já não espera uma resposta para agir, enquanto nela o corpo já responde mesmo antes do pensamento, numa entrega que não é queda, mas é como se fosse uma continuidade de algo que já havia sido escrito para eles, antes mesmo de eles saberem o seu próprio nome.
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