Antes Que o Céu se Rompa
2 Capítulo I - O Encontro
Ele todo garboso, como quem tem um reinado em suas mãos, que não se vê, mas se sente, inerente ao nada como um escudo que cortava qualquer vento que ousasse enfrentá-lo, e ainda assim havia um fundo quase que escuro, como se por trás dessa postura existisse um grande vazio, que nem mesmo ele entende, só sente. Mas, de repente, aquele que parecia anestesiado ao mundo, como se nada mais o tocasse, parado em si, ao vê-la, ela que não chega, acontece, como se tudo se abrisse sem perceber. Ela que trazia consigo uma claridade, que parecia o sol a iluminar a escuridão que ele tinha em si, e no olhar existia uma curiosidade, como quem buscava entender, e ao mesmo tempo que os olhos se abraçavam, deles se abraçavam mesmo sem que eles fizessem esforço para isso, os corpos receavam o encontro, porque havia uma inquietação que não cabia no peito nem encontrava nome, a mesma sensação da maré quando sobe, sem pedir licença, consumindo tudo ao redor, sem deixar tempo para entender nem recuar, como se cada passo da aproximação despertasse um calor contido que nem eles sabiam que existia dentro deles, um impulso que vinha e voltava sem motivo aparente, ou talvez sim.
O que parecia inevitável se torna concreto, ela apressa seus passos e vai ao encontro dele, como quem atravessa algo que não se vê, mas se sente, ao cumprimentá-la, o beijo na mão ultrapassa alguns segundos a mais do que o esperado, e aquele que sustentava uma postura firme treme por dentro sem entender o que com ele acontecera, se perguntando como alguém que controlava até o pensamento podia ser controlado pelos próprios impulsos, como se algo escapasse do controle sem sequer pedir licença. As palavras iam surgindo, mas o que importava eram os intervalos entre elas, em que os olhares se demoravam mais do que o necessário, e o respirar já não soltava apenas o ar que vinha do peito, mas um nervosismo vivo, uma paixão contida que desperta sem aviso e quer sair, como se o próprio corpo já não soubesse mais separar o que sente do que tenta esconder, e o fogo começa a subir inexplicavelmente, como se num instante parecesse que eles haviam sido criados para si, já não é apenas algo que incomoda, é algo que chama, uma paixão que não se assume, mas se revela pelo olhar, pela voz, na inquietação do corpo.
No meio da conversa, ele deixa escapar, quase que sem perceber, algo de um outro lugar, mas não como quem planeja, e sim como quem abre as portas para uma possibilidade, pois era inevitável que eles não queriam nem mesmo tirar os olhos um do outro, como dois espelhos colocados frente a frente, destinados a refletirem infinitamente um ao outro sem conseguirem se unir, sem saber o alcance que pode tomar, ela escuta aquele espaço que se abre com uma possibilidade, como portas que o próprio coração tenta fechar enquanto a alma silenciosamente já atravessa, e por um instante algo nela hesita, não por recusa, mas pelo peso do que pode vir, porque há uma atração que puxa de forma sobrenatural que ela não sabe explicar nem controlar, ela não afirma nem nega, sustenta o olhar quase que ofuscado, como quem aceita sem dizer nada, e naquele silêncio ensurdecedor, nenhum dos dois recua, porque é inenarrável como percebem que aquilo não foi um simples encontro, mas as pernas parecem que estão travadas e não permitem que avancem, e o que avança mesmo é a intensidade que não se explica, como se ambos soubessem que aquilo não terminava ali.
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