Danton terminou de ler a carta. Leu mais uma vez, e outra, a fim de certificar se não era um engano. Não era, e sentiu uma sensação desagradável que não pôde definir com palavras. Deixou o papel cuidadosamente sobre a mesa e, quando ergueu os olhos, viu os dois homens observando-o fixamente. Terminou de tomar sua sopa, que já havia esfriado, em completo silêncio, mas os homens não pararam de olha-lo, como se esperassem uma resposta, quem sabe uma solução para todos os problemas que ele havia acabado de ter o desgosto de conhecer. Como não se lembrava de nada? Será que morreu durante a pandemia ou sobreviveu? A dor de cabeça, sem duvidas, deixara seu lugar para infinitos questionamentos, e o rapaz não soube concluir qual era pior. O silêncio se manteve por mais alguns minutos, até que Danton se pronunciasse:

- Estão esperando uma resposta minha? — Disse, calmamente, devolvendo o olhar fixo aos homens.

- A carta esclareceu algumas dúvidas? — Sandro murmurou erguendo a sobrancelha esquerda e Danton pensou que talvez fosse um tique.

- Impressionante como algumas respostas só trazem mais perguntas. Essa foi uma delas. O que mais vocês podem me dizer? — O rapaz desviou os olhos para uma mulher baixinha e gorducha que passara atrás dos velhos homens segurando uma pilha de pratos sujos murmurando algumas palavras que Danton não identificou, mas deduziu que fossem reclamações. — Quero dizer, coisas que me esclareçam um pouco mais.

- Também estamos confusos, mas acho que podemos lhe dizer algumas coisas de como o mundo ficou. — Com o olhar vazio, Pedro suspirou por alguns segundos e deu continuidade. — O mundo de agora está um caos total. Começando pela escassez grave de alimentos e energia. A paisagem lá fora não é mais elaborada do que areia, deserto e cadáveres de animais, quando não são de pessoas, estirados no chão. Tive o cuidado de, pela primeira vez depois do ocorrido, medir a duração do dia. Montamos um relógio novo utilizando um modelo velho que já havia parado de funcionar, e concluímos que um dia tem a duração de exatas 17 horas e 3 minutos. Você está em um acampamento localizado no que era antes a Cidade de São Paulo. O trabalho foi grande para que conseguíssemos a localização antiga, mas através de um mapa guardado há anos em uma das casas aqui perto descobrir. Encontramos você em uma dessas casas, desacordado, momentos antes dela de ela desabar. Teve sorte garoto! No momento, isso é tudo o que temos.

Danton ouvia tudo atentamente. Custava a acreditar em tudo que ouvia, mas não tinha motivos para desconfiar daquele homem. Se o mundo estava realmente da maneira como narrava, todos estavam juntos na mesma situação e não haveria motivos para enganá-lo. Desejou ver com seus próprios olhos. Levantou subitamente.

- Preciso ver com meus próprios olhos. — Disse já dando as costas aos dois homens seguindo rumo ao corredor pelo qual viera.

- Siga até o fim do corredor e vire a esquerda. — Orientou Sandro, voltando os olhos para Pedro enquanto o rapaz se afastava. — Essa é a pior parte, com certeza.

- Se é. Mas ele parece ser um garoto forte, vai superar. — Respondeu Pedro, e os dois apenas esperaram quietos pelo retorno de Danton.

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O rapaz corria, enquanto seus cabelos castanhos escuro esvoaçavam no vento que ele mesmo criava. Tinha 1,85m, corpo atlético, olhos também castanho escuro. Aos 22 anos, nunca fizera sucesso com as garotas de sua idade mesmo sendo muito admirado por todos ao seu redor devido à sua personalidade. Apesar de não ter lembranças claras do passado, Danton ainda mantinha os mesmos atributos, sinal de que o tempo não conseguiu modificar as pessoas que decidiu, por sorte ou azar, manter vivas.

Chegou a uma grande porta de aço, semelhante àquela que havia em seu "quarto". Com muito receio, segurou a maçaneta e seu rosto barbado foi rapidamente inundado por uma claridade muito forte. Os olhos reclamaram, mas logo se acostumaram com a nova luminosidade. Quando conseguiu enxergar com clareza, viu nada mais do que o homem havia lhe dito: um mundo em decomposição. As coisas pareciam abandonadas a esmo, sem ninguém que cuidasse delas. O tom monocromático da paisagem unido ao vermelho febril do horizonte atingiram um profundo golpe em Danton. Não sabia se sentia pena, dor ou tristeza, talvez uma mistura dos três. Caminhou um pouco mais, e reparou no solo pobre, seco e gasto que se esfarelava em pequenos grãos menores a cada passo. O calor era insuportável, talvez pior do que aquele do primeiro aposento, e o suor inevitavelmente começou a escorrer pelas têmporas. Olhou ao redor e, além da instalação, não viu mais nada, apenas o panorama apocalíptico no qual o mundo havia terrivelmente mergulhado. Concluiu que precisava ir embora da instalação e ver o que tinha além daquilo que seus olhos podiam ver. Não podia ficar preso, não gostava de ficar preso. Voltou para o abrigo e encontrou os dois homens no mesmo lugar onde estavam.

- Vou embora daqui. Preciso de armas brancas e de fogo, pois não sei o que vou encontrar lá fora. — Respirou. — Cantis de água e algum alimento que possa resistir a esse calor infernal.

- Tem certeza que quer fazer isso? Escolheu a opção mais complicada. — Disse Pedro, indiferente.

- Não posso ficar parado aqui enquanto o mundo desaba em nossas cabeças! — Danton gesticulava incansavelmente.

- E você pretende fazer o que? Acha que vai conseguir mudar o mundo garoto? Reverter o que já foi feito? Se quiser ir, temos tudo o que pediu, mas fique avisado que não irá longe. — Sandro disse enquanto se dirigia a outro cômodo.

- Não sei o que vou fazer, mais seja lá o que for já é mais produtivo do que ficar aqui parado esperando a morte!

- Você é quem sabe. — Murmurou Pedro, parecendo distante e desolado.

Enquanto isso, Sandro trazia tudo o que Danton precisava. Três cantis de água, alguns bifes crus, um coldre com um revólver, uma caixa de munição e uma espada. O rapaz agradeceu, prendeu os cantis e o coldre na calça de brim que vestia, e, numa trouxa de pano também improvisada pelos homens, colocou os bifes e a espada. Estava pronto, pelo menos era o que ele achava, para enfrentar o mundo. Sandro e Pedro acompanharam Danton até a porta e ficaram ali, ninguém sabe ao certo quanto tempo, observando o rapaz ser engolido pela paisagem e desaparecer no horizonte em busca do que ninguém, nem o próprio Danton, sabia ao certo.