Lia

Lia acordou cedo naquela manhã chuvosa. Seria seu último dia em Chicago. Última vez que veria seus amigos, aqueles que cresceram com ela, última vez que veria a neve. Levantou da cama e colocou uma roupa quente. Penteou os cabelos negros, que contrastavam com sua pele quase transparente, e atravessou a porta do quarto. Desceu as escadas e ignorou quando os pais lhe desejaram bom dia e a chamaram para o café da manhã. Era tudo culpa deles. Desde o início, a culpa foi deles. Se eles a tivessem alertado para não namorar aquele babaca, nada disso estaria acontecendo. Ela teria sua vida de volta, seus amigos de volta, sua popularidade de volta, e o melhor, sua virgindade de volta. No fundo, Lia sabia que a culpa era sua, mas a raiva a consumia, e ela não conseguia assumir isso. Precisava descontar em alguém.

Quando chegou na varanda, pegou um enrolado de maconha e o acendeu. Tragou-o lentamente, enquanto observava a neve cair sentada numa cadeira nada confortável.

–Já aprontou sua mala?- perguntou o pai, tapando o nariz para não sentir o cheiro exalado pela droga.

–Não vou precisar de nenhuma das minhas roupas no Arizona. Lá é quente que nem o inferno.- respondeu ela, rispidamente.

O pai voltou para a cozinha e abraçou a mãe. Os dois eram jovens, Elizabeth engravidou com 17 anos. As olheiras entregavam que ela não havia dormido direito durante dias. Não seria fácil para ninguém a saída de Lia da cidade.

Em apenas 5 horas terei uma nova vida, pensou ela. Uma nova família, novos amigos, nova escola. E tudo isso porque um idiota me enganou e me usou. Lia sabia que esse não era o motivo principal da sua mudança, era seu apelo para as drogas. Elizabeth e James não sabiam como lidar com esse tipo de situação, então acharam melhor para todos que Lia fosse morar por uns tempos com a irmã mais velha de Lizy, Amber, numa cidade pequena do Arizona chamada Dilkon.

Lia terminou seu cigarro, mas permaneceu sentada. Enquanto admirava os lindos flocos brancos que despencavam do céu, uma lágrima escapou pelo canto de seu olho esverdeado. A única forma que seu corpo encontrava para descontar todo aquele estresse que a consumia, todas as dúvidas e problemas, mas também as esperanças e espectativas. Tudo que se formava dentro de sua mente se resumindo a apenas uma pequana lágrima, que agora se fora.

Seu corpo foi obrigado a levantar-se, mas sua mente ainda vagava em um lugar branco e puro. Quando se deu conta, estava na cozinha, preparando seu café. Lia comeu em silêncio e voltou para o quarto, onde seu celular tocava.

–Lia? Você está ai? Ah meu Deus, Lia! Você não me responde a dias! Você ia embora sem falar comigo?

–Não, Mary, é claro que não. Eu ia ligar para você e para a Sue agora mesmo. Vamos nos encontrar daqui a uma hora na lanchonete?

–Claro! Eu ligo para a Sue. Até mais.

Lia desligou o celular e jogou-se na cama. Fechou os olhos e obrigou-se a acreditar que era tudo um sonho e que ela ia ficar bem, mas tudo não passava de uma doce ilusão. Ela não ficaria bem, sabia disso. E o pior, nada disso era um sonho.