Lucid dreams, I'm living in lucid dreams. I'm living on shortwave streams tonight. (Lucid Dreams — Franz Ferdinand)

- Eu sonho com o futuro.

- Sonha com o futuro? – ela arruma os óculos laranja em cima do nariz novamente.

- Isso mesmo. Todo dia. – eu suspiro.

Então ela começa com a primeira das três reações costumeiras, que todos os meus outros psicólogos já fizeram.

1) Incredulidade

- Você não pode sonhar com o futuro, Daniela. Essas coisas não existem. Ninguém pode prever o futuro.

- Bom, eu prevejo. – dou de ombros, me arrumando melhor no divã.

- Deixe de fazer essas brincadeiras sem graça, você não é mais uma criança. – ela fica séria, arrumando as cartelas manchadas em sua mão. – O que você vê nessa mancha?

- Alguém que prevê o futuro.

- Daniela, quer parar de brincar com coisa séria? – ela me encara muito seriamente, levando uma mão a cintura.

- Eu não estou brincando.

- O que você vê nessa imagem? – ela repete num tom mais grosseiro.

Eu tenho vontade de gritar MORTE! SANGUE! só de brincadeira, mas fico com medo de que ela me receite uma ida ao psiquiatra.

Ou ao manicômio.

Ao invés de gritar isso eu apenas junto fôlego para responder:

- Uma garota que prevê o futuro.

Ela joga as fichas na mesa, cansada. Diria quase que derrotada.

- Como foi sua infância?

- Ótima. – respondo. – Dissequei sapos vivos, tentei matar meu irmão várias vezes e atropelei alguns pombos com minha bicicleta. Digo, uma infância perfeitamente normal.

Obviamente eu estou sendo irônica. A verdade é que eu nem mesmo tenho um irmão e não faria mal nem a uma mosca.

Não quando eu sonho com as coisas que eu sonho.

- DANIELA! – ela me repreende de novo largando a prancheta onde planejava anotar sobre mim. – O que eu disse sobre brincadeiras?

- Eu não estava de brincadeira até a senhora não acreditar que eu vejo o futuro enquanto durmo! – eu reclamo quase gritando.

E eu ainda tenho uns truques na manga. Se ela continuar insistindo muito é hora de começar a tentar escalar a parede ou gritar algo como “Nave-mãe, abortar missão”. Sempre funciona.

Não que eu já tenha tentado.

Não mais de uma vez, pelo menos.

Seu rosto em choque começa a despontar os princípios da segunda etapa corriqueira:

2) Desconfiança

- Meu Deus, será possível? – ela levanta num pulo e corre para examinar as estantes repletas de livros a sua volta. – Prever o futuro! Eu nunca tinha ouvido falar de alguém que estivesse tão convicto que podia fazer isso. Não de alguém com credibilidade, pelo menos. Nunca li nada do tipo...

- Pois é, acho que sou um caso raro. – me permito fazer uma piadinha, enquanto ela corre o dedo pela estante, como se buscasse por algum livro em especial.

Ela puxa alguns, abrindo-os e folheando-os rapidamente. Está falando coisas totalmente incompreensíveis para meu ouvido leigo de futura advogada. Eu encaro o relógio antigo no topo da mesa dela, esperando mais alguns segundos para que se inicie a fase derradeira:

3) Escárnio

- No que eu estou pensando? – ela tem uma pequena crise de risos, agarrando-se a estante. – Estou ficando maluca para acreditar numa coisa assim! Prevê o futuro, HÁ! Essa é boa!

- Então com licença, Penélope. Eu já vou indo. – eu vejo a deixa perfeita pra me mandar.

Ela me responde com mais uma crise de risos as minhas custas. Dou de ombros novamente e me esgueiro para fora.

- Ué, já vai senhorita Pellegrino? – a secretária pergunta confusa. – Seu tempo ainda não acabou.

- Ah, é... Pois é. Não tenho mais o que dizer. – eu praticamente corro na direção da porta.

- Devo marcar a próxima consulta? – ela grita antes que eu consiga girar a maçaneta.

- Claro! – minto. – Eu ligo! – mentira de novo.

Balanço a cabeça negativamente enquanto pulo alguns degraus da escada rumo a calçada. Sempre acaba assim. Penélope não foi minha primeira psicóloga e nem será a última.

Culpa da minha mãe.

Não sou eu que fico implorando nos pés dela “ah mãe, por favor! Dane-se que os últimos VINTE psicólogos não tenham dado certo! Tenho certeza que essa conhecida da amiga da sua prima vai ser diferente. Vamos tentar de novo!”. A situação é totalmente inversa.

Nem a minha própria mãe acredita em mim. Até ela ri de mim.

A chuva fina toca meu cabelo enquanto eu controlo minhas lágrimas de frustração. Minha bota esparrama água da poça que eu piso acidentalmente, mas eu estou chateada demais para ligar.

Puxo o capuz do meu casaco para cima visando me proteger da chuva, enquanto me aproximo do ponto de ônibus. Por graça divina, ele já está vindo. Faço sinal e ele para, passando pela poça e me jogando água suja.

Maravilha.

Pago a passagem e vou me sentar lá no fundo. Estou com um pouco de sono visto que não dormi direito. Eu não durmo direito há uns bons cinco, seis anos. Então você pode imaginar o tamanho das minhas olheiras. Eu aposto que tenho as maiores olheiras de todos os tempos.

A não ser que existam outras pessoas que sonham com catástrofes. Porque esse negócio bonitinho de “prever o futuro com os sonhos” é só um eufemismo para dizer “sonha com a morte dos outros”.

Porque é basicamente com isso que eu sonho na maioria das noites. Não necessariamente com morte, mas com danos físicos. Pessoas sendo torturadas, machucadas. Praticamente Jogos Mortais dentro da minha cabeça. Certo, nem sempre é assim. Às vezes eu tenho sonhos legais como alguém sendo pedida em casamento ou coisas bobas como uma criança caindo do balanço.

Só que eu QUASE nunca sei quem são as pessoas dos meus sonhos. Nenhuma delas. E na maior parte das vezes eu também não faço a menor idéia de onde a pessoa está. Pode ser em QUALQUER LUGAR do mundo e isso dificulta muito. Não é como se o sonho viesse com uma localização geográfica ou temporal.

Acontece que quando eu consigo reconhecer o local onde o sonho está acontecendo, eu costumo tentar ir até o lugar para salvar a pessoa do seu destino (no caso de coisas fatais, digo. Não acho que uma futura noiva tenha grandes problemas em enfrentar esse tipo de destino). Depois de algumas tentativas, comecei a conseguir desvendar melhor meus sonhos. Por exemplo, os fatos que nele aparecem sempre acontecem no dia seguinte.

O sonho de hoje foi bem ruim. Tratava-se de um assassinato em algum país como Iraque ou Arábia Saudita. Não pude entender muita coisa, porque os diálogos eram em uma língua esquisita, porém a cena do fuzilamento dos três irmãos (ou pelo menos eu acho que eram irmãos... tão parecidos e em escadinha!) ainda está bem clara em minha mente.

Não sei até hoje exatamente de onde esse meu maldito dom veio, mas sei que convivo com ele desde a puberdade. A principio não sabia do que se tratava, obviamente. Acordava chorando todos os dias, preocupando meus pais. Já um pouco mais crescida, descobri que os adultos não entendiam essa minha peculiaridade e fui mandada para inúmeros psicólogos. Os freqüento desde que tinha uns quinze anos, mais ou menos depois de uns dois anos que comecei a ter esses sonhos.

No inicio tinha um relacionamento ameno com eles. Mantive a mesma psicóloga por alguns anos, mas não citei mais de duas vezes – nas primeiras sessões – meu probleminha. Achei simplesmente que era mais fácil desse jeito. Quando fiz dezessete anos resolvi que estava cansada de manter a mentira e falei pra minha mãe que não queria mais ir a psicólogos. Ela surtou e fez exatamente o contrário. De saco cheio, fiz questão de não me dar bem com nenhum dos que ela tentou me mandar.

Eu detesto ser anormal.

O ônibus vira na minha rua e eu faço sinal. Uma velhinha se levanta antes de mim e desce com toda lerdeza do mundo os DOIS degraus. Num dia comum eu teria me oferecido para ajudar, mas eu só conto até 10 para evitar dar uma voadora nela. Fecho os olhos por um segundo e enxergo o fuzilamento de novo.

Abro num susto.

A velhinha já terminou de descer e eu faço o mesmo, com mais rapidez. Ainda está chovendo, mais forte agora, por isso eu corro pra baixo da marquise o mais rápido que posso. Continuo correndo até a entrada do meu prédio. Seu João, meu porteiro, está dormindo de novo. Só pra variar. Ainda são cinco horas da tarde, será que esse cara fica acordado a noite toda?

- SEU JOÃO! – eu grito. Ele pula na cadeira, então levanta a mão em comprimento e me deixa entrar.

- Já de volta? – pergunta, curioso como sempre.

- É, a chuva atrapalhou meus planos. – minto.

- Está um tempo chato ultimamente, não? – ele olha pro céu. – Como se os anjos estivessem chorando pela humanidade.

- É, talvez. – eu concordo pensando que talvez meu porteiro seja aquele que necessita de uma psicóloga de óculos laranja. – Bom, boa noite.

- Boa noite Dani.

Aperto o meu andar e começo a criar uma desculpa para dar pra minha mãe. Não agüento mais essa coisa de pular de um psicólogo para o outro, não agüento mais... Eu até poderia sair de casa como se estivesse indo para a consulta e ficar rodando pela rua até a hora de voltar, mas o problema é que minha mãe tem essa mania de me perguntar absolutamente tudo sobre cada passo que eu dou e seria difícil manter essa mentira por muito tempo com uma mãe super protetora.

Então me ocorre uma idéia malvada, mas que parece ser a única opção.

Nem sempre é ruim ter pais separados.

Enfio a chave na porta, mas alguém gira a maçaneta e abre antes que eu consiga amadurecer minha idéia do mal.

- E aí, como foi? – minha mãe pressiona, piscando aqueles olhos azulados que eu não herdei.

Ringo, nosso Beagle e não Beatle, pula nas minhas pernas, mas só por hoje eu o ignoro.

- Ótimo! – respondi – Acho que finalmente estamos fazendo progresso!

Quase me sinto mal por mentir horrorosamente quando os olhos da minha mãe se enchem de lágrimas e ela abre um sorriso absurdo.

- Sério? – ela diz. – Ai, que bom Daniela! Estou tão feliz.

- Será que a gente pode conversar? – pergunto, tirando o casaco molhado.

- O que? Junto com a notícia boa vem uma ruim também?

- Mãe, eu só estava pensando... – me jogo no sofá para tirar a bota encharcada. – Talvez fosse melhor que eu me mudasse pra casa do papai.

Ela coloca a mão no peito, como se tivesse tendo um ataque do coração.

- O quê?

- É porque seria mais prático. – continuo, tentando não encará-la. – É mais perto da psicóloga, da faculdade, e até do curso de francês. Eu perco muito tempo no transporte público, já que você não me deixa dirigir aqui.

“O transito do Rio de Janeiro não é lugar para uma jovem como você”, ela gosta sempre de jogar na minha cara.

- Mas Daniela, seu pai é um lunático! Ele nunca conseguiria tomar conta de você do jeito certo.

- Mãe, eu já tenho 19 anos. Acho que não tem muito mistério, eu já sei usar o troninho. – tiro sarro de sua preocupação exacerbada.

Ela cruza os braços, indignada.

- Eu aposto que você não vai agüentar nem uma semana. Eu aposto que seu pai vai te enlouquecer em um mísero dia. – pragueja.

- Ainda assim acho que vale a pena tentar. – comento. – Sem falar que você sempre disse que eu sou igual ao meu pai. Isso quer dizer que eu te enlouqueço?

- Sim, parcialmente. Especialmente quando você tem seus surtos de menino do Sexto Sentido. – ela revira os olhos.

- Mãe, eu não vejo gente morta. Eu só sonho com o...

- Nem ouse. – ela bate o pé. – Realmente, pensando bem, você é outra lunática. Que vá morar com o crápula do seu pai, então. Não estou nem aí.

- Ótimo.

- Ótimo. – responde ela, virando de costas e se retirando da sala.

Segundos depois eu ouço a porta do quarto dela bater com força, e Ringo dá um pulo no sofá de susto.

Ok, provavelmente ela não vai mais falar comigo por um tempo, mas o plano foi realizado com sucesso. Uma parte dele, pelo menos. Eu ainda precisava convencer meu pai a me aceitar.

Arrasto-me para meu quarto, seguida por Ringo. Vou ter que leva-lo pra casa do meu pai, não consigo viver sem essa chatice peluda. Pego o telefone do gancho e encaro-o por um segundo. Qual é o número do telefone da casa do meu pai mesmo? Jesus, faz tempo que eu não falo com ele.

Puxo meu celular do bolso da calça e procuro por Rodrigo. Digito no telefone fixo e coloco no ouvido. Chama uma vez, duas, três... Nada. Olho o relógio. Oito e vinte da noite. Será que ele ainda não voltou do trabalho? Quatro, cinco, se...

- ALÔ?

- Oi pai.

- ALÔ? – ele grita.

- Pai? Sou eu, Daniela. – digo, afastando um pouco o telefone do ouvido.

- Ah filha, oi. – ele diz mais sossegado. – Eu estava meditando. Você sabe como eu odeio que me atrapalhem quando estou meditando.

Droga, tinha esquecido da sua meditação noturna.

- Ah é mesmo! Desculpa. Posso ligar mais tarde se você quiser.

- Não, pode falar. Você nunca me liga, deve ter algo importante pra dizer. Arrumou um namorado finalmente?

Você sabe que está oficialmente encalhada quando até o seu PAI – que deveria ser super protetor com a garotinha dele, coisa e tal – quer te ver namorando.

- PAI! Não!

- O que então? – ele pergunta meio impaciente. – Preciso voltar pra meditação.

Eu consigo ouvir Enya tocando do outro lado da linha. Meu pai é uma figura bizarra. É um hippie reformado que apesar de andar de terno o dia inteiro, ainda cumprimenta os outros com os dedos de paz e amor. Guarda a Kombi velha dele no nosso sítio (e eu tenho muito medo de ter sido concebida nessa Kombi) e daria tudo pra ouvir John Lennon ao vivo de novo.

É, ao vivo. É, de novo.

Não preciso nem dizer que foi ele que deu nome ao nosso cachorro, na época que eu o ganhei de presente e que meus pais ainda eram casados.

- Ah, eu queria saber se aquela proposta antiga deu morar com você ainda está de pé. – faço uma pausa, mas não longa o suficiente para ele responder. – Porque seria mais prático. Mais perto da faculdade, do francês e da minha psicóloga nova.

- Sua mãe ainda está te fazendo ir pra psicólogos? – ele pergunta num tom reprovativo.

- Está. – respondo, omitindo o fato de que eu não estou pretendendo continuar indo. – Então, ainda está de pé?

- O que?

- A proposta, pai. – eu repito me enchendo de paciência. Esse é meu pai. – Posso morar com você?

- Ah, isso. Claro que pode. – ele responde. – Seu quarto está aqui como sempre, é só trazer suas tralhas.

- Ótimo então! – digo animada. – Devo me mudar semana que vem mesmo.

- Sua mãe está sabendo disso?

- Claro né. Não está muito contente, mas está ciente. – respondo.

- Entendo. Ok então filhota, vou lá meditar mais um pouco. – ele termina a conversa. – Da próxima vez toma cuidado pra não me ligar no meio da meditação noturna. Nem chegar com suas malas nessa hora também.

- Pode deixar, pai. Obrigada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.