Antes De Morrer
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Klaine :3
Tem um pássaro morto no gramado, com as pernas finas como palitos de dente. Estou sentado na espreguiçadeira debaixo da macieira olhando para ele.
– Ele se mexeu com certeza – digo a Sam. Sam pára de fazer malabarismos e se aproxima para dar uma olhada. – São vermes – diz. – Dentro de um cadáver pode ficar tão quente que os vermes do meio têm que ir se refrescar nas extremidades. – Caramba, como é que você sabe disso? Sam dá de ombros. – Internet. Ele cutuca o pássaro com o pé até a barriga se abrir. Centenas de vermes se espalham pela grama e ficam ali se contorcendo, ofuscados pela luz do sol. – Viu? – diz Sam, agachando-se para mexer neles com um graveto. – Um cadáver é um ecossistema próprio. Dependo das condições, um corpo humano pode levar apenas nove dias para apodrecer até os ossos. – Ele olha para mim, pensativo. – Mas isso não vai acontecer com você.
– Não?
– É mais quando as pessoas são assassinadas e deixadas ao relento.
– O que vai acontecer comigo, Sam?
Tenho a sensação de que o que quer que ele diga estará certo, como se ele fosse algum mágico poderoso detentor da verdade cósmica. Mas ele apenas dá de ombros e diz:
– Vou descobrir e te aviso.
Ele vai até o barracão pegar uma pá.
– Fique vigiando o pássaro – diz.
Suas penas se agitam à brisa. O pássaro é lindo, preto com reflexos azulados, como óleo derramado no mar. Os vermes também são bem bonitos. Estão em pânico sobre a grama; procurando o pássaro e também uns aos outros. É então que Blaine atravessa o gramado.
– Oi – diz ele. – Como você está?
Sento-me mais ereto na espreguiçadeira.
– Você acabou de pular por cima da cerca?
Ele faz que não com a cabeça.
– Tem um buraco na parte de baixo.
Está usando jeans, botas e uma jaqueta de couro. Tem alguma coisa atrás das costas.
– Toma – diz. Estende-me um buquê de folhas verdes silvestres. Entre as folhas há flores laranja brilhantes. Parecem lanternas ou mini-abóboras.
– Para mim?
– Para você.
Sinto um aperto no coração.
– Estou tentando não adquirir nada novo.
Ele franze o cenho.
– Talvez coisas vivas não contem.
– Acho que talvez contem mais.
Ele se senta na grama ao lado da minha cadeira e pousa as flores no chão entre nós dois. A grama está úmida. A umidade vai molhar sua roupa. Vai deixá-lo com frio. Não digo isso a ele. Tampouco lhe conto sobe os vermes. Quero que eles entrem nos bolsos de sua calça.
Sam volta com uma pá de jardineiro.
– Vai plantar alguma coisa? – pergunta-lhe Blaine.
– Um pássaro morto – responde Sam, e aponta para o lugar onde o bicho está.
Blaine se inclina na direção do pássaro.
– É uma gralha. Foi sua gata que matou?
– Não sei. Mas eu vou enterrar.
Sam caminha até a cerca dos fundos, escolhe um lugar no canteiro e começa a cavar. A terra está molhada como mistura para bolo. Quando a pá encontra pequenas pedras, emite o mesmo som de sapatos sobre cascalho. Blaine fica arranhado pedacinhos de grama e passando-os entre os dedos.
– Desculpa pelo que eu disse no outro dia.
– Tudo bem.
– Não saiu direito.
– Tudo bem, de verdade. A gente não precisa falar sobre isso.
Ele balança a cabeça, muito sério, ainda alisando a grama, ainda sem olhar para mim.
– Você vale a pena, sim.
– É?
– É.
– Então quer que a gente seja amigo?
Ele ergue os olhos.
– Se você quiser.
– E tem certeza de que vai adiantar alguma coisa?
Gosto de vê-lo enrubescer, da expressão confusa em seu olhar. Talvez papai tenha razão, e eu esteja me deixando levar pela raiva.
– Acho que vai – responde ele.
– Então está perdoado.
Estendo a mão e selamos a paz. Sua mão está quente.
Sam aparece todo sujo de terra, com a pá na mão. Parece um coveiro-mirim fora de si.
– A cova está pronta – diz.
Blaine ajuda-o a rolar a gralha para cima da pá. O pássaro está rígido e parece pesado. O ferimento é evidente – um talho vermelho na nuca. Sua cabeça pende, inerte, enquanto dos dois carregam-no até o buraco. Sam conversa com a ave enquanto caminham.
– Coitado de você, pássaro – diz. – Vamos, está na hora de descansar.
Enrolo o cobertor em volta dos ombros e sigo-os pela grama para vê-los depositar o corpo na cova. Um dos olhos do pássaro brilha para nós. Ele parece em paz, grato até. As suas penas agora estão mais escuras.
– Será que a gente devia dizer alguma coisa? – pergunta Sam.
– Tchau, pássaro? – sugiro.
Ele assente.
– Tchau, pássaro. Obrigado por ter vindo. E boa sorte.
Ele cobre o pássaro com lama, mas deixa a cabeça descoberta, como se o animar pudesse querer dar uma última olhada ao redor.
— E os vermes? – pergunta.
– O que tem os vermes?
– Não vão sufocar?
– Deixa um buraco pro ar entrar – proponho.
Ele parece contente com a sugestão, joga terra por cima da cabeça do pássaro e aperta com a mão. Usa um graveto para fazer um buraco para os vermes.
– Pega umas pedras pra gente poder decorar o túmulo, Kurt.
Obedeço e afasto-me para procurar. Blaine fica com Sam. Diz a ele que as gralhas são muito sociáveis, que aquela gralha deve ter muitos amigos, e que os amigos ficarão gratos a Sam por tê-la enterrado com tanto cuidado. Acho que ele está tentando me impressionar.
Encontro duas pedras quase perfeitamente redondas. Encontro uma casca de caramujo, uma folha vermelha. Uma pena cinza e macia. Seguro todos esses objetos na mão. São tão lindos que preciso me apoiar no barracão e fechar os olhos.
É um erro. É como despencar na escuridão.
Há terra em cima da minha cabeça. Estou com frio. Os vermes cavoucam. Capins e bichos-de-conta aparecem.
Tento me concentrar em coisas boas, mas é muito difícil rastejar para fora. Abro os olhos e me deparo com os dedos ásperos da macieira. Uma teia de aranha prateada e trêmula. Minhas mãos quentes segurando as pedras. Mas tudo que está quente vai esfriar. Minhas orelhas vão cair e meus olhos vão derreter. Minha boca se fechará para sempre. Meus lábios se transformarão em cola.
Blaine aparece.
– Tudo bem com você? – pergunta.
Concentro-me em respirar. Inspira. Expira. Mas a respiração tem o efeito contrário quando se presta atenção nela. Meus pulmões secarão como leques de papel. Expira. Expira.
Ele toca no meu ombro.
– Kurt?
Nenhum gosto, nem cheiro, nem textura, nem som. Nada para ver. Um vazio total para sempre.
Sam chega correndo.
– O que houve?
– Nada.
– Você está com uma cara estranha.
– Fiquei tonto quando me abaixei.
– Quer que eu vá chamar o papai?
– Não.
– Tem certeza?
– Termina o túmulo, Sam. Eu vou ficar bem.
Entrego-lhe as coisas que catei e ele sai correndo. Blaine fica. Um melro voa baixo por cima da cerca. O céu está malhado de cor-de-rosa e cinza. Respirar. Inspira. Inspira.
Blaine pergunta:
– O que foi?
Como posso contar a ele?
Ele estende o braço e toca minhas contas com a palma da mão. Não sei o que isso significa. Sua mão é firme e move-se em círculos lentos. Combinamos que seríamos amigos. É isso que amigos fazem?
O calor de sua mão atravessa a trama do cobertor, meu casaco, meu suéter, minha camiseta. Chega até a minha pele. Isso dói tanto que fica difícil articular qualquer pensamento. Meu corpo se torna só sensação.
– Pára com isso.
– O quê?
Desvencilho-me dele.
– Você não pode simplesmente ir embora?
Instantes se passam. O intervalo tem um som, como se algo muito pequeno houvesse se partido.
– Você quer que eu vá embora?
– Quero. E não precisa voltar.
Ele atravessa a grama. Despede-se de Sam e torna a sair pelo pedaço de cerca quebrada. Com exceção das flores junto à cadeira, é como se ele jamais houvesse estado aqui. Recolho-as do chão. Suas cabeças cor de laranja balançam, fazendo que sim para mim quando as estendo para Sam.
– São para o pássaro.
– Maneiro!
Ele as deposita sobre a terra úmida e ficamos ali em pé, juntos, olhando para a cova.
Notas finais
esses dois...
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