Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
14 Capítulo 14 - Dias de Agonia V
Notas iniciais
Uma delicada mão de pele branca recosta-se sobre um vidro retangular que compõe uma janela, de lá é possível ver boa parte de uma cidadezinha, abandonada e entregue a própria sorte. O frio que fazia naquela manhã, apesar do sol, não impede que aquela mesma mão deixe uma pequena marca de seu contorno no vidro, muito por conta da umidade que aquele recinto demonstrava ter. A delicada mão vem acompanhada de um rosto, rosto esse que quase gruda no vidro semi embaçado, tentando observar ao longe, como se estivesse tentando enxergar o futuro.
O rosto é belo, sua expressão é um enigma, talvez demonstre dúvida, talvez arrependimento, ou talvez apenas esteja viajando em pensamentos indecifráveis. Esse rosto é de Roxanne, ela está de pé de fronte à janela de um quarto de motel abandonado, veste apenas uma lingerie branca e olha para a cidade abandonada como se realmente esperasse ver algo diferente de carros tombados e ruas vazias.
No interior do quarto, há alguns poucos metros da janela está Kate, deitada sobre a cama, seu corpo nu é coberto parcialmente por um lençol, apenas seus seios encontram-se a mostra, ela observa com desejo a visão de Roxanne praticamente debruçada sobre o vidro.
̶ O que foi, algum mordedor? – Indaga Kate calmamente.
̶ Não... – Reponde Roxanne sem encará-la – Tudo tão tranquilo com sempre esteve...
As feições de Kate começam a se modificar, ela percebe que Roxanne se encontra atormentada por algo.
̶ Pensando no Kanato? – Pergunta ela novamente.
̶ Também... Pensando em muitas coisas ao mesmo tempo... – Responde Roxanne vagamente.
Kate cobre-se inteiramente com o lençol, recosta o corpo mais perfeitamente, sentando-se na cama.
̶ Ei, olha pra mim...
Roxanne vira-se, ainda aparenta estar preocupada, dá alguns passos em direção à cama e começa a falar:
̶ Eu ainda estou muito confusa Kate... – Kate sorri brevemente e interrompe o discurso que se iniciara:
̶ Não se preocupa com nada! Eu sei que isso pra você não passou de uma nova experiência... – Ela pronuncia as palavras de forma serena – Eu não espero nada disso, foi só sexo! Nós transamos três vezes, isso não significa que estamos namorando! Por Deus, eu não seria babaca o suficiente para esperar ou pedir uma coisa dessas de você! – Ela olha nos olhos de Roxanne e prossegue – Você não gostou? Não sentiu prazer?
̶ Claro que sim... – Responde Roxanne um pouco envergonhada. Kate retoma:
̶ Isso é o que importa! Não se preocupe, eu entendo que você esteja confusa e nunca vou te cobrar nada... Nossa relação permanecerá da mesma maneira!
Roxanne dá um breve suspiro e diz:
̶ Que bom que pensa assim...
̶ Roxanne, foi só sexo! Todas nós sentimos desejo e depois que o mundo acabou, é normal querermos descarregar tudo isso... Foi a carência... Poderia ter sido com Benjamin, com o James, com o Nae... Apenas proporcionamos prazer uma para a outra!
Kate começa a vestir-se, Roxanne senta na beira da cama, ainda parece preocupada, porém o seu foco agora era outro.
̶ Ainda estou pensando no Kanato... Ele nunca vai se recuperar depois de ter passado tanto tempo preso...
̶ Quando chegarmos vamos dar uma olhada nele... Não se preocupe, tenho certeza que tudo está normal por lá! – Diz Kate tentando ser reconfortante.
̶ Espero... – Suspira Roxanne – É melhor irmos, o Ben pode dar falta do furgão e não quero que ele nos encha de perguntas querendo saber onde estávamos!
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James e Benjamin caminham pela mata, os dois pisam com muito cuidado por sobre as folhas e vegetação nativa. Ben caminha mais a frente, carrega nas mãos um rifle, semelhante ao que Dave utilizava em suas caçadas. James posiciona-se logo atrás, na cintura trás uma machadinha e nas mãos um facão coberto por sangue seco, o mesmo já fora utilizado algumas vezes contra mordedores.
Um barulho é ouvido, algo como um “click” vindo das árvores. Os dois olham para cima e ainda em silêncio, posicionam-se para seja lá o que pode aparecer. Ainda esperando por algo, James olha para Benjamin e pergunta sussurrando:
̶ O que foi isso? – Ben o olha e responde seguindo o mesmo tom de voz:
̶ Não faço ideia... O Dave faz muita falta agora, ele conseguia identificar todo tipo de som, sabia quando era de castor, veado...
Um novo barulho é ouvido, dessa vez vindo das costas de Ben, o mato revira-se com muita ferocidade e antes que Benjamin pudesse se virar, um mordedor o agarra por trás, jogando-o ao solo. O mordedor era um homem, trinta e poucos anos e visivelmente tinha problemas com sobrepeso, de sua face escorre uma baba amarelada, de olhos leitosos um forte odor pode ser sentido.
Ao cair por sobre Benjamin o mordedor começa a aproximar sua boca do rosto de Ben, seu hálito fétido pode ser sentido enquanto o mesmo tenta com os braços impedir que o monstro que se encontra sobre seu corpo, consiga morde-lo ou arranha-lo.
Um som seco é ouvido, o barulho de um único golpe de facão sobre o occipital da criatura, se tivesse desferido com maior força, talvez James conseguisse partir a cabeça o mordedor em duas. O corpo podre cai por cima de Benjamin que, com as roupas sujas pelos corrimentos da criatura, começa a levantar-se após um ataque tão inesperado.
James estende sua mão e ajuda o homem ao qual acabara de salvar a vida. Benjamin olha para o cadáver do mordedor e exclama com desprezo:
̶ Gordo filho da puta! – Ele olha para James e mesmo a contragosto, diz – Obrigado! Se você não tivesse matado esse puto eu estaria fudido! Não sei se iria conseguir me levantar daí!
James balança a cabeça e após um leve toque no ombro de Ben, fala:
̶ Não foi nada, eu apenas...
Um grito é ouvido, pelo que percebem o mesmo vem da direção do galpão. Os dois não hesitam, correm com todas as suas forças de volta ao lugar, ultrapassando com velocidade o mato e as árvores que se encontravam como obstáculos para eles.
James desponta mais a frente, ouve a voz de sua esposa, gritando, pedindo por socorro. Ele corre com o facão nas mãos, já pensa no pior, começa a imaginar que sua Juliet possa ter sido atacada.
Os dois chegam ao local de onde o grito fora produzido, e se deparam com uma cena no mínimo horrenda. Nae está sendo dilacerado por dois mordedores, seu abdome está completamente aberto, com o seu intestino jorrando organismo a fora. Sua perna esquerda também encontra-se completamente destruída, seu osso femoral está exposto e o sangue que jorra por sua artéria começa a formar uma poça ao redor. O terceiro mordedor que deveria estar se alimentando de sua carne, partira para cima de Juliet, que sem muita habilidade com armas brancas gritava por socorro enquanto tentava se afastar da criatura.
James correu na direção da sua esposa, e com um único golpe, decepou a cabeça do mordedor, fazendo com que a mesma caísse cerca de dois metros distante de seu corpo. Benjamin se utilizara do rifle para eliminar os outros dois restantes, se agachara diante do corpo de Nae, que apenas cuspia sangue bela boca, seu rosto também fora parcialmente mordido.
Benjamin fechou os olhos, passou as mãos nos cabelos do garoto e começou a pensar em tudo que enfrentaram juntos. Ben sempre pensou que o garoto poderia se tornar um líder mais a frente, que ele tinha potencial, e que apesar de algumas atitudes um tanto infantis, ele estava esforçando-se para amadurecer e encarar de frente o novo mundo que se mostrara para ele.
O garoto segue definhando, sofrendo, seu corpo estremece enquanto o sangue jorra por toda a parte. Benjamin ergue o corpo, posiciona o rifle e após fechar os olhos, dispara contra a cabeça de Nae, acertando entre os olhos e acabando com todo o sofrimento do jovem rapaz.
James abraça Juliet que chora copiosamente, no mesmo instante que tudo acontecera, Issa e Emily correram para o lado de fora, visivelmente assustadas.
̶ O que aconteceu?! – Indaga Emily com os olhos arregalados.
Issa caminha alguns passos para o lado de fora e vê o corpo de Nae completamente dilacerado ao longe. Lágrimas começam a escorrer de seu rosto e a mesma pergunta não querendo acreditar:
̶ Não me diz que... É o Nae?! – Ela começa a chorar – Nae?! Não... – Issa cai de joelhos e cobre o rosto com as mãos, inteiramente entregue a tristeza e ao desespero.
Benjamin se aproximando de todos, deixa o rifle cair de suas mãos e pergunta visivelmente perplexo:
̶ Onde está a Kate?
̶ Eu não sei... – Responde Emily bastante espantada.
̶ Onde está a Kate?! – Benjamin repete a pergunta, dessa vez vociferando com bastante fervor.
̶ Ela pegou o furgão e saiu junto com a Roxanne, não me disseram onde iam... – Responde Juliet ainda chorosa – Foi logo depois que você e James saíram para a caçada...
̶ Eu... – Benjamin passa as mãos nos cabelos – Eu disse para ela tomar conta do galpão... Ela só precisava tomar conta da porra do galpão! – Complementa ele com um raivoso grito.
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̶ Quanto tempo acha que vai durar essa caçada dos dois? – Pergunta Roxanne a Kate, as duas estão no furgão, dirigindo de volta ao galpão.
̶ Tempo suficiente para dois orgasmos... – Responde Kate, Roxanne balança a cabeça negativamente, Kate volta a falar – Não se preocupe, já estamos chegando, ninguém vai perceber que saímos!
̶ Obrigado Kate! Aconteceu muita coisa em pouco tempo... – Desabafa Roxanne – Eu estava me sentindo muito só, principalmente depois do que o maldito do Benjamin fez com o Kanato... – Ela coloca as mãos por sobre o ombro direito de Kate que se encontra ao volante – Obrigado por cuidar de mim... Só acho que não deveríamos ter ido para a cama, nunca achei que transaria com uma mulher! – Complementa ela com um breve sorriso.
̶ Você é quem sabe, precisando...
As duas riem, o clima parece mais ameno, a tensão diária que as duas enfrentam no galpão, parece ter sumido durante aquele tempo em que estavam juntas. O ato pareceu uma grande fuga, fuga da realidade, dos problemas, além de ser uma forma de esquecer o quão na merda todos se encontram. Momentos como esses aliviam o sentimento de que a qualquer momento alguém irá morrer.
O carro segue firmemente dirigindo-se pelo caminho que se acostumara a fazer, da autoestrada para a floresta. A terra batida dá ritmo a suspensão daquele veículo que pode até ser considerado parte do grupo, já que enfrentara desde o começo todos os problemas junto com os integrantes do galpão.
Kate e Roxanne chegam a seu destino, porém, de forma alguma esperavam encontrar o “porto seguro” da maneira que encontraram. O carro aporta, as duas saem lentamente do furgão e se deparam com pessoas aos cacos. James está sentado ao chão ainda abraçando sua esposa, Issa está ajoelhada diante de algo que aparenta ser um corpo, coberto por um lençol ensanguentado.
̶ Deus, o que aconteceu? – Indaga Roxanne completamente espantada.
Benjamin caminha rapidamente na direção das duas e começa a falar:
̶ O que aconteceu?! – Questiona ele de forma irônica, o mesmo caminha na direção de Issa, chegando lá, puxa o lençol revelando o corpo de Nae às duas – Foi essa porra que aconteceu!
Kate dá alguns passos na direção do corpo, recua um pouco e diz sem acreditar:
̶ É o Nae...
̶ Sim Kate, é o Nae! – Vocifera Benjamin – Você só tinha que ficar aqui! Onde vocês duas estavam?!
̶ Não importa onde estávamos! – Exclama Roxanne – Foi uma fatalidade...
Benjamin se aproxima dela, e a encarando profundamente volta a falar:
̶ Não, não foi uma fatalidade! – Ele balança a cabeça negativamente – A culpa da morte do Nae é de vocês duas! – Ele aproxima ainda mais o rosto do de Roxanne – A culpa da morte dele é única e exclusivamente de vocês duas!
James levanta-se e corre da direção de Benjamin, impedindo que o mesmo cometesse algum ato impensado. Ele o puxa pelo ombro e diz:
̶ Precisamos ir embora desse lugar!
Tal frase surpreende a todos, Benjamin é o único que expressa sua incompreensão:
̶ O que?! Tá maluco?! – James retoma:
̶ O Nae foi atacado por três mordedores praticamente na porta do galpão! No meio da floresta você foi também foi atacado... Eles estão cada vez mais próximos e eu não...
Um pequeno estrondo o interrompe.
̶ O que foi isso? – Indaga Benjamin.
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