Ante Mortem / Post Mortem - Interativa

23 Capítulo 23 - Planos Interrompidos V


Notas iniciais
Planos Interrompidos (05/06)...

̶ Como é que é?! – Indaga Benjamin, tentando digerir a última frase dita por James.

̶ Você me entendeu bem... – Suspira James enquanto pensa em tudo o que está fazendo – Eu atirei no Kanato... Atirei nele pelas costas! O deixei sair da sala que você o havia prendido, o deixei ter esperança... Ele achava que estava livre, que tudo daria certo... E então eu atirei... Na cabeça dele, assim, certeiro!

Benjamin arregala os olhos e abaixa a cabeça levemente, suas mãos se dirigem as têmporas, e sua mente parece um baralho bagunçado, com todos os naipes fora de ordem. As palmas de suas mãos deslizam por sobre a sua face enquanto ele ainda tenta entender o que se passara. Ao mesmo tempo, mil pensamentos vêm a sua mente, todas as decisões tomadas, todos os atos mal concluídos, tudo parece retornar como a sintonia de um rádio, repetindo diversas vezes em seu interior.

̶ Você é louco?! – Exclama Benjamin desnorteado – O que você fez?! Que porra você fez seu filho da puta?!

James ainda parece sereno, apesar de estar vomitando todas essas malditas verdades, ele segue agindo como se soubesse muito bem o que estava fazendo e como se o seu ato não trouxesse para si nenhum sentimento de arrependimento.

̶ Eu fiz o que fiz... Assim como você matou o Rich...

Benjamin levanta o indicador direito, arregala ainda mais os olhos e visivelmente exaltado, refuta com fervor:

̶ Não! Não! Aquilo foi muito diferente! – Ele bufa enquanto segue apontando o indicador para o rosto de James – Eu matei o Rich para proteger o meu pessoal, o meu grupo! – Ele bate a mão no próprio peito de forma efusiva – Eu só eliminei o Rich porque ele havia matado um dos nossos!

James dá um breve sorriso descompromissado, balança a cabeça negativamente e sem levantar o tom de voz, volta a falar:

̶ Não foi o Rich... – Benjamin se mostra ainda mais espantado – Enquanto arrumávamos as coisas para deixarmos o galpão, eu encontrei no meio das coisas dele uma arma... A arma que ele roubou do seu depósito e usou para atirar na garganta do Dave!

̶ O que você... – A indagação de Ben é interrompida:

̶ O Kanato matou o Dave! Eu consegui descobrir isso... Eu apenas corrigi a merda que você havia feito!

̶ Isso é mentira... – Ben balança a cabeça negativamente – Isso só pode ser a merda de uma mentira! – A última frase fora desferida com um alto grito, que ecoou pelo vazio e frio condado.

James demonstra segurança em seus atos e palavras, apesar de estar confessando algo que talvez devesse permanecer às escuras, ele manteve-se se comportando como se tudo aquilo fizesse parte de um plano, como se estivesse feliz em finalmente dizer toda a verdade.

̶ Nós dois temos sangues nas mãos agora... – Volta a falar James ainda encarando Benjamin.

Ben arrepia os cabelos, desliza as mãos por toda a face ainda tentando mensurar o que parece ser imensurável, um nó toma conta de sua garganta, seu coração acelera e sua respiração diminui. Um sentimento muito ruim passa a se apossar de seu corpo, um misto de arrependimento, culpa e ódio. Se o seu coração pudesse mudar de cor, com toda a certeza ele estaria negro agora.

̶ Você não podia... Não podia... – O tom de voz de Benjamin diminui.

̶ E o que queria que eu tivesse feito? – Exclama James.

̶ Deveria ter levado até o furgão, lá nos decidiríamos o que fazer!

̶ Eu fiz o que você cuspiu mil vezes que faria! – James aponta para si mesmo – A regra vale para nós dois Ben... A diferença é que eu não matei um homem inocente! – Benjamin o olha nos olhos – Você não deu essa chance ao Rich... Você não deu chance alguma a um homem inocente...

Ben nada diz, ainda está atordoado e indignado com tudo que acabara de descobrir, o sentimento ruim parece se ampliar em seu peito de forma crescente. Ele pensa novamente no que fez, nas decisões que tomara, nos equívocos, nos acertos. Tudo parece tomar uma proporção muito maior do que anteriormente, e Benjamin começa a perceber o grave erro que cometera. Se pudesse, passaria uma borracha no passado, porém isso é impossível, essas lembranças o perseguirão para sempre.

Ele sabe que tem que tomar uma decisão, uma imediata e inadiável decisão, o futuro do grupo e desse ‘segredo’ está em suas mãos. James ainda o fita, parece aguardar o seu próximo passo, a sua próxima cartada. Já Benjamin bufa, respira como um asmático em uma crise e tenta reorganizar o seu já quebrado cérebro. Eles parecem ter chegado a um limite, um final, um ponto onde os dois não podem mais ultrapassar, pelo menos não juntos. Pelo menos não mais.

̶ Você vai embora! – Diz Benjamin ainda apontando, porém redirecionando o seu olhar para o solo – Não pertence mais a esse grupo... – Os olhos de Benjamin se encontram novamente com os de James – Na verdade acho que nunca pertenceu! Você segue por conta própria daqui pra frente...

Benjamin conclui calmamente a sua frase, vira de costas e segue na direção do trailer. James parece não se surpreender com o que acabara de escutar, era como se tudo aquilo já fosse esperado por ele, talvez até fizesse parte de seus ‘planos’. Ele observa o seu algoz se dirigir rispidamente em direção ao veículo.

James sabia quais seriam as consequências de seus atos, afinal, ele conhece muito bem o ‘espírito’ de Benjamin e sabe que ele não o aceitaria após tudo ser revelado. Ele respira fundo, fecha os olhos enquanto ainda houve os duros passos das botas de Ben, e repete em sua própria mente: “Agora seremos só nós dois meu amor... Como sempre deveria ter sido...”.

Do lado de dentro do trailer, pouca coisa poderia ser ouvida, na verdade, ninguém ali prestava atenção no que ocorria do outro lado. Deschen vestiu-se e recolheu-se na parte de trás do mesmo, encolhida sobre os próprios joelhos, ainda exprimindo a mesma cara de choque. Matt correra para abraçar a sobrinha, que sorriu de orelha a orelha assim que se encontrou com o seu tutor. Apesar de não recebido atenção, Emily seguia alimentando a sua pequena, o mundo para ela se resumia aquele momento de ternura.

Benjamin adentrara tão bruscamente o trailer, que o som da porta batendo fez com que Lillyan se assustasse. Seus pesados passos pelo chão do veículo se dirigiram até os pertences de James, que foram pegos de qualquer forma e lançados para o lado de fora – não que fossem muitas coisas, se resumiam a três ou quatro peças de roupas , algumas fotos de famílias e sua maleta. Todos olharam exacerbados para os seus atos, parando imediatamente o que estavam fazendo. Benjamin então olha para os demais e exclama:

̶ O James está banido do grupo! Ele tomará o seu caminho sem nós agora!

Emily o olha espantada e questiona:

̶ Deus, o que aconteceu Ben?

̶ Ele... – Benjamin para um instante para medir suas palavras – Ele está louco, vai colocar o nosso grupo em risco! O melhor para todos é que ele vá embora!

̶ Mas Benjamin... – Tenta argumentar Emily, Ben amplia ainda mais o seu tom de voz:

̶ Acho que há algum tempo ficou bem claro quem está no comando aqui! Essa é minha decisão final e não será contestada! – Ele respira fundo – Amanhã de manhã cedo, coletaremos o que for preciso de mantimentos... Faremos isso rápido, pois esse lugar não é mais seguro... Depois disso seguiremos viajem... Com ou sem Kate e Roxanne! Essas duas ultimamente só tem me dado dor de cabeça!

Matt abraçava Lisa, que se encolhia entre os braços do tio, assustada com aquele homem gritando tais palavras. O bombeiro olhou pra o ex-militar e tentou apaziguar a situação:

̶ Calma cara...

̶ Calma é o caralho! Você não opina aqui! – Vociferou.

Matt nada disse, apenas voltou o seu rosto para o da sua sobrinha, abraçando-a ainda mais forte, a lateral de seu rosto ainda se encontrava suja de sangue.

James juntou sua mala que fora lançada sobre a neve, a mesma mala que carregava junto a Juliet quando ainda vagavam pela floresta. Ele olhou para o céu, que ainda se encontrava sinistro, aparentemente carregado, talvez uma nevasca caísse naquele meio de madrugada. James suspirou ao olhar para o trailer, ainda pensando em tudo o que já havia passado junto ao grupo, tudo o que já havia enfrentado, e todas as perdas. Ele não se sentia triste, no fundo, talvez desejasse aquilo, sua mente se encontrava bagunçada demais para ‘querer saber’ alguma coisa. Só o que ele realmente sabia, era que estava só daquele momento em diante.

Seus passos foram acompanhados pelo olhar de O’Donnell, que ouviu toda a discussão enquanto verificava sua Davidson. Ele não tinha a menor intenção de se meter ou opinar, na verdade mal sabia sobre o que se tratava. O porém da situação era que ele ‘considerava’ muito mais James do que Ben, o achava mais corajoso – principalmente após o incidente no bar -- e talvez mais preparado para ser um líder. O motoqueiro deu alguns breves passos na direção do executivo e disse o olhando por alto:

̶ E então, foi chutado mesmo? – Ele parece não dar a mínima à gravidade da situação.

James arqueia uma sobrancelha:

̶ Acho que esse ciclo já chegou a final... – Ele olha para o céu – Eu e Benjamin não podemos conviver juntos no mesmo recinto...

̶ Esse cara é um cuzão, um perdido! – Diz Lance ainda tranquilo – Todos sabemos que uma hora ou outra ele vai descobrir da pior maneira que sempre esteve errado!

̶ Porque você não se impõe? – Indaga James curioso.

̶ Eu não atendo ordens de ninguém cara, não importa o que esse cara diga! Eu só estou seguindo, sobrevivendo... Aprendi com a vida que em bando você sempre se dará melhor do que sozinho! – Ele começa a apalpar o seu casaco – No dia em que eu achar que tudo vai explodir, acelero essa belezinha e me mando!

̶ Você tem visão... – Diz James – É um exímio sobrevivente!

̶ Toma! – O’Donnell retira do bolso do casaco um charuto que mantinha escondido – Provavelmente vai morrer de frio, então fume isso nos seus últimos instantes!

̶ Eu prometi a minha esposa que pararia... – Ele dá um breve sorriso – Acho que é um bom momento para recomeçar...

̶ É... – Lance dá as costas e começa a calmamente caminhar de volta ao trailer.

James guarda o charuto em sua pequena mala azul, cobre-se com um casaco com capuz e começa a caminhar em meio à neve que pouco a pouco cai sobre a cidade. A madrugada esfria, enquanto sua bota desbrava o solo esbranquiçado. Seus pensamentos voam, são muitas coisas a se decidir e com certeza muito a caminhar. Ele terá uma longa viajem, seja para onde ele decidir ir.

O trailer já começa ficar distante enquanto ele segue pela rua principal em direção ao desconhecido, sem olhar para trás, um sorriso surge em seu rosto e ele começa a falar:

̶ Vai ter que me aturar todo o tempo agora... É, eu sei... Nunca teria dado certo!

James segue se distanciando sobre o solo frio, enquanto pronuncia palavras desconexas em uma esquizofrênica conversa com sua esposa morta. Mais e mais passos são dados até ele sumir em meio a neve que já tapa a visão de quem tenta enxergar.

.

.

.

.

̶ Você tá bem?

̶ Sim... Obrigada!

Kate e Roxanne estão a frente da agência dos correios do condado, o local está bastante escuro, com a exceção de um poste que teima em piscar sua única lâmpada. Roxanne partira caminhando sem rumo após o incidente dentro do trailer, o frio a fez se desorientar, e ela acabou se perdendo. Kate, que a seguira, encontrou-a cercada por três mordedores, a mesma os eliminou, salvando Roxy.

Roxanne está sentada ao solo, ofegante, ainda sobre o efeito do ataque surpresa. A seu lado estão três corpos de mordedores que ousaram sair de seus ‘esconderijos’ durante aquela fria madrugada. Kate se encontra de pé, a frente de Roxy nas mãos segura uma barra de ferro, a mesma fora utilizada para massacrar os monstros há poucos instantes.

A mão direita de Kate é estendida na direção da que se encontra no chão, Roxanne aceita a ajuda e se levanta, suas roupas agora se encontram levemente sujas de neve.

̶ O você acha que tava fazendo? – Indaga Kate de forma amistosa enquanto a ajuda a recompor-se.

̶ Fugindo de você... Fugindo do mundo... – Diz Roxy séria enquanto limpa as suas roupas.

̶ Olha eu sei que... – Kate é interrompida.

̶ Você ficou louca! – Exclama Roxanne olhando em seus olhos – Eu não te reconheço mais... Você não é mais aquela Kate...

Kate balança a cabeça negativamente, toca a mão esquerda coberta pela luva no rosto de Roxanne e diz:

̶ Todo mundo passa por momentos difíceis... – Ela suspira – Tudo vai voltar a ser o que era... Eu prometo!

Um suspiro frio é dado por Roxy, ela ainda quer crer que tudo realmente dará certo, ou voltará ao normal, sua fé ainda não se esgotou, pelo menos não nas pessoas. Kate mudou muito desde o grande trauma no galpão, sempre fora alguém muito forte, bem mais do que Roxanne que costumava a usar como um cajado. As duas se envolveram de uma forma inesperada e isso era o que mais doía em Roxanne, ela não conseguiria perder Kate, principalmente para a loucura e insanidade.

Roxanne a olha com compaixão, ainda está muito assustada, principalmente com as notáveis mudanças de humor de Kate, ela aparenta estar muito instável emocionalmente, e talvez deva ser apoiada e ajudada. As duas se abraçam com ternura, suas respirações intensas podem ser sentidas uma pela outra. Kate desliza suas mãos pelas costas da ‘amiga’, enquanto a mesma corresponde ao espremer o seu corpo ainda mais contra o de Kate. O frio parece passar, tudo ao redor se torna inexpressivo, os batimentos cardíacos das duas parecem bater em sintonia, como uma orquestra.

Roxanne pensa a todo momento “Por favor, que isso não seja passageiro, que ela não enlouqueça”. Ela não quer perder a sua confidente, a sua amiga-amante, se pudesse manteria aquele momento para sempre. As duas se olham nos olhos, uma lágrima escorre pela parte lateral de um dos lacrimais de Roxanne, ela fita Kate e diz quase em um sussurro:

̶ Eu te amo...

Kate sorri, direciona os seus lábios e encontra com os de Roxanne em um apaixonado beijo, onde as línguas parecem brigar por espaço dentro de suas bocas. As mãos passeiam pelos corpos cobertos por todos aqueles tecidos, o mundo pareceu ter parado naquele instante.

Um cheiro podre toma conta do local, um cheiro que as mesma já se acostumaram a sentir nesses cinco meses de jornada, o cheiro da morte. As duas ainda se encontram abraçadas e aproveitando aquele momento quando um mordedor começa a se aproximar, os seus tornozelos afundam na neve fofa e seus movimentos são lentos. Ele é negro, tem a pele bastante resecada e parcialmente descolada de seus músculos, o mesmo veste uma roupa de entregador de pizzas.

A criatura se aproxima cada vez mais, seu bafo já pode ser sentido na nuca das duas que ainda entrelaçam os lábios. Um grunhido é ouvido, a criatura estica os braços exibindo as afiadas unhas já cobertas por tecidos mortos de outras vítimas, seus olhos leitosos se arregalam ainda mais e sua mandíbula se dilata, na expectativa da primeira mordida em sua presa.

O som seco dos dentes da criatura sendo cravado sobre a pele humana soa como um vegetal sendo cortado por uma faca, um grito é ouvido, o beijo é separado e agora o sangue começa a escorrer pela escápula daquela que fora atacada. O tecido se desgruda e passa a ser repuxado, enquanto a criatura saboreia o sangue por entre os pútridos lábios. Um corpo cai ao chão, seu tecido epitelial começa a ser arrancado, o sangue passa a jorrar ainda mais enquanto outros gritos são ouvidos. A vida começa a deixar aquela que fora brutalmente atacada. Com os olhos abertos e uma lágrima descendo pela face, Kate desfalece repleta por sangue enquanto ainda segura a mão esquerda da desesperada Roxanne.

Notas finais
(Longo suspiro) E então, gostaram? Esse capítulo foi uma preparação para a parte seis, que terá novos fatos e que tenho certeza que irá surpreendê-los... Queria é claro agradecer ao Will pela maravilhosa (e digo isso sem puxação alguma de saco) personagem Kate, que nos deixou nesse capítulo... Obrigado cara! Me desculpe se a personagem não ficou da forma que queria ou se algo nela feito por mim o desapontou! Eu me esforcei ao máximo para fazer dela uma das melhores personagens... Muito obrigado! Estou aguardando a sua nova ficha, pode me enviar por MP... Bom, nos vemos nos comentários, até!