Ante Mortem / Post Mortem - Interativa

22 Capítulo 22 - Planos Interrompidos IV


Notas iniciais
Planos Interrompidos (04/06)...

Os passos dados pelas botas de James ecoam no solo engordurado e grudento de sangue e mofo, como badaladas à meia noite em uma escuridão soturna. Seus pés caminham lentamente, como se quisesse que cada segundo valesse a pena. Nas mãos ele ainda segura a .12, porém, ela será a sua última ferramenta na seção “acerto de contas” que se sucederá.

Em seu interior, nos confins da sua mente, as imagens dessa tarde/noite passeiam de um lado a outro, como em um slide. Cada momento, cada humilhação, todas essas etapas só fizeram o ódio no peito daquele homem se ampliar. James se sente como se estivesse prestes a explodir, algo semelhante a uma bomba programada, e aquele seria o momento da detonação.

O homem loiro que fora o primeiro a ser atingido pelo golpe da machete de O’Donnell, acabara falecendo no mesmo instante, apenas o sangue proveniente do ferimento escorria pela fenda localizada entre os seus olhos, que permaneceram arregalados mesmo após morto. O outro homem que abusava de Deschen, também sucumbiu após ter o seu pênis decepado, o mesmo entrara em choque e depois de uma convulsão, morreu afogado em uma poça de sangue e baba.

Liderando o sórdido grupo até pouco tempo atrás, o homem careca de feições ameaçadoras, foi ao solo após o golpe de machado desferido pelo próprio James. A pancada no meio de seu peito não foi suficiente para matá-lo imediatamente, apenas dilacerou o seu osso esterno, fazendo com que alguma costela perfurasse um de seus pulmões. Isso acabou o impedindo de respirar normalmente ou falar algo. No momento ele se encontra jogado ao solo, cuspindo sangue e apenas observando os movimentos de James.

̶ Eu não fiz nada com a sua garota! Sou só um velho! Eu não fiz nada! Me deixa ir embora!

É, James já ia se esquecendo do velho que ainda sobrevivera, na verdade o maldito fora o único dentre todos que tinha lesão alguma. Após ser rendido por Matt, ele passara a suplicar pela merda que ele costumava chamar de vida, nada além de um grande pedaço de inutilidade vagando pela terra, um verme sem função ou benefício algum, um velho homem meramente descartável.

Os passos do ex-executivo passaram a ser direcionados para o velho, um, dois, três passos pelo chão do bar e os dois já se encontravam frente a frente. James apontou o cano da arma para o joelho do homem e sem pensar ou conjecturar, atirou. A bala atravessara a patela como se fosse um pedaço de papel, o osso esfacelou-se e o sangue passou a jorrar por sua perna em meio aos seus gritos de dor e pedidos de piedade. James se dirigiu até o homem careca que ainda se encontrava vivo, tomou de suas mãos a pequena faca que ele utilizara para arrancar parcialmente a orelha de Matt, e novamente foi até o velho que agora chorava de dor.

James se agachou e a lentos movimentos, começou a desabotoar a calça do homem, que tentava impedi-lo, porém o seu destino já se mostrava eminente. As calças foram abaixadas, seu órgão sexual fora exposto, e após olhar nos olhos do velho homem, James ergueu sua faca e passou a desferir violentamente diversos golpes no pênis, testículos e virilha do homem. Provavelmente os seus gritos ecoaram por todo o condado, talvez tenham atingidos decibéis maiores que o parto de Emily ou os primeiros choros de Lillyan. O homem passou a se debater enquanto James, sujo pelo imundo sangue de seu inimigo, apenas se deleitava com sua lenta e dolorosa morte.

Após a morte do velho negro ter sido comprovada, ainda havia um sobrevivente que precisava acertar algumas contas. Ao se dirigir até o balcão do bar, James tomou nas mãos uma garrafa de vodka Finlandia, abriu-a, deu um longo gole e em seguida caminhou – ainda sem nada dizer – até o careca que seguia o acompanhando com os olhos. O líquido fora derramado sobre o homem, principalmente em seus olhos, fazendo-o fechá-los por conta do ardor.

Ele fora revistado e em sua cintura havia uma faca e uma pistola antiga, de uma fabricante desconhecida por James, porém parecia eficaz. Com algum esforço, o careca fora virado de bruços, a movimentação em seu corpo o fizera cuspir uma grande quantidade de sangue. James abriu as suas calças, abaixou-as, e após respirar fundo, passou a executar a sua “justiça”.

Lentamente, com medidos e calculados movimentos, a garrafa de vodka passara a ser introduzida no ânus do homem, rasgando-o e violando-o. Após alguns movimentos ela já estava quase que totalmente introduzida no reto do homem, que apenas debateu-se no início, já que estava fraco demais para qualquer ação ou reação que não essa. Os olhos de James passearam pelas imagens naquele bar, o sangue, os corpos, a tortura imposta por ele, tudo aquilo parece o ter anestesiado. Por mais incrível que pareça, ele sentia-se bem após tudo isso.

O som gelatinoso de seus passos por sobre o pastoso sangue que tomara conta de quase todo o piso do bar, pode ser escutado pelas três pessoas que teimaram em esperar por James do lado de fora. Apesar de terem ouvido de seus próprios lábios um “vão porra, eu me viro”, O’Donnell, Matt e Deschen continuaram do lado de fora do lugar, aguardando o que todos já previam que acontecesse.

Deschen permanecia em choque, e não era de se esperar algo diferente, o cheiro dos malfeitores ainda insistia em permanecer em sua pele, se pudesse, ela arrancaria sua camada epitelial, como uma serpente, na esperança de que outra couraça nascesse no lugar. Matt coçava os cabelos como se quisesse chegar a sua calota craniana, como se pudesse pescar algo dentro da sua cabeça com os dedos, a culpa e o sentimento de covardia extrema ainda o dominava. Lance aproveitava as nuanças de seu último cigarro, que, portanto, deveria ser muito bem tragado e ‘digerido’, o som dos gritos dos homens que ele atacara a poucos instantes ainda assombram a sua cabeça. Ele sempre sentira uma enorme dificuldade em matar os ‘vivos’ por assim dizer, diferente de seus antigos amigos do Pagan’s.

A porta do Puppets é aberta, o som metálico parece ser mais alto do que o normal, os três que se sentavam na sacada do lugar olham para trás e veem James, sem camisa, sujo de sangue no rosto e o peito, ofegante, suas dilatadas pupilas transpassavam o sentimento que praticamente não cabia em seu peito. Ele passa as mãos brevemente nos cabelos, jogando-os para trás e manchando suas claras mechas com o sangue podre dos homens que ele terminara de liquidar. O’Donnell retira o cigarro de entre os lábios por alguns instantes e pergunta aparentemente calmo:

̶ E então? Tudo terminado?

James apenas acenara com a cabeça, naquele instante ficou claro o que havia acabado de acontecer. Matt fechou os olhos brevemente tentando entender como o mundo virou isso que ele está vendo no momento, como que matar a sangue frio se tornou algo correto.

Deschen seguiu sem nada dizer, talvez não conseguisse. O nó que se encontra em sua garganta mais parece uma extensão de seu coração que palpita em altas frequências, quase atravessando sua caixa torácica. Naquele exato momento ela sente um alívio, um sentimento que não consegue ser maior que o da humilhação e impotência, além de nojo de si mesma. Ela tenta se aconchegar nas roupas cedidas por James, tentando passar o cheiro dele para ela, anulando assim qualquer presença daqueles monstros em sua pele.

̶ Precisamos ir logo... – Diz James tentando retomar o seu tom de voz habitual após o período de silêncio – O Ben ficou sozinho com a Lisa e as mulheres, podem precisar de ajuda caso haja algum problema!

Matt engole a seco as palavras ditas, arregala os olhos e pronuncia outras olhando diretamente para James:

̶ Acha que pode acontecer alguma coisa no trailer? Alguma coisa com a pequena Lisa?

James o olha fixamente, se aproxima aparentemente irritado e vocifera quase encostando o seu nariz no de Matt:

̶ Que tipo de ‘coisa’ você é?! Se diz preocupado com a Lisa, mas iria entregar a localização do nosso grupo pros cara agora a pouco! – Matt apenas o observa, abaixando os olhos brevemente – Se você quer mesmo proteger a Lisa Matt, tem que ser mais forte... Isso não é uma recomendação, é uma obrigação! – Ele respira fundo e prossegue – Eu perdi a minha filha e perdi a minha esposa por ser fraco! Se eu tivesse tido a coragem ou tomado as atitudes certas, como eu fiz agora – James aponta na direção do bar – As duas ainda estariam vivas! Não seja fraco como você foi hoje, ou então a sua Lisa não terá a menor chance!

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Um sorriso tomou conta de Benjamin assim que tomou Lillyan nos braços, logo após a belezinha ser retirada das entranhas de sua mãe. Ele a olhava com ternura, um olhar que não emitia há muito tempo, já que sua vida de bosta não o deixava sorrir. O soldado endividado e mal tratado no pelotão, o mau marido, o pai ausente, esses eram os títulos mais constantes de Benjamin, mas dessa vez tudo era diferente, estranhamente diferente.

A suada e maltrapilha Emily ainda observava a perplexidade de seu “parteiro” ao segurar e aninhar a sua cria, seu sorriso também ia de orelha a orelha, e a ansiedade de ver o seu rostinho só aumentava a cada segundo. Ela esticara os braços na direção do soldado e disse sem disfarçar a sua emoção:

̶ Me dá... Deixa eu ver a minha princesa... – A voz embargada e enfraquecida, saiu em meio às lágrimas que se misturavam ao suor frio de seu rosto.

Benjamin entrega a garota nos braços de sua mãe, ela a envolve em seu colo e após limpar a sua testa ainda manchada de sangue, olha fixamente para a sua face. Ela é branca, porte normal para um recém-nascido, um ralo cabelo claro, provavelmente loiro, os cabelos da mãe. Os olhos de Lillyan eram mais escuros que os de Emily, os mesmo do pai, o capitão do time de futebol americano da faculdade, um robusto e simpático rapaz, porém um péssimo quarterback. Emily preferia pensar que os olhos foram puxados o avô, um australiano que trabalhava como guia ecológico em Brisbane, o mesmo passava mais tempo em um barco do que com a própria família.

̶ Tá com fome meu amor? – Sussurrou Emily nos ouvidos de sua criança, a mesma ainda com os olhinhos fechados, mexia os braços, ainda se acostumando ao ‘lado de fora’.

̶ Eu vou buscar alguma coisa para cobri-la... Ela vai precisar com todo esse frio! Não pegamos nenhuma roupa de bebê...

Benjamin ergue o corpo e se dirige até os fundos do trailer, onde passa a fuçar em meio a amontoado de roupas imundas, a procura de algo para cobrir a nova vida. Lisa ainda estava lá, agachada, com as mãos sobre os joelhos e ainda visivelmente espantada por conta dos gritos que Emily produzira. Ele olha para a menina que mantém a mesma feição enquanto o vê revirar as coisas de todos.

̶ Ei! – Benjamin chama a atenção da menina que o olha – Tá tudo bem... A Emily tá bem... A filha dela nasceu! – Ele se aproxima um pouco mais de Lisa – Permaneça aqui, daqui a pouco eu te levo pra ver a Lillyan, tudo bem?

Lisa balança a cabeça positivamente, Ben vira as costas, mas sente a barra de seu casaco ser puxado pelas delicadas mãos da menina. Ele olha para ela e aguarda a mesma se manifestar.

̶ Eu quero o meu tio Matt... – Diz ela baixinho e chorosa.

Mesmo sem jeito, Benjamin passa as mãos nos lisos e longos cabelos de Lisa e diz tentando confortá-la:

̶ O seu tio já vai chegar... Tudo vai ficar bem!

Benjamin levantou-se e deixou a menina no mesmo lugar, naquele momento ele passou a se preocupar com Matt, James e os outros, eles haviam saído a tarde, e até aquele momento ainda não haviam retornado. A ideia de que todos podem ter sucumbido já começa a tecer teias em seu cérebro. Talvez seja a hora de mover mais uma peça nesse tabuleiro de xadrez quebrado.

Ao se deparar novamente com Emily, pode ver que a sua felicidade só havia se ampliado, a menina mamava em seu seio esquerdo, como se sugasse a vida por aquela macia esfera repleta de leite. Benjamin entrega alguns tecidos que juntara a Emily, que cuidadosamente começa a embrulhar a sua Lillyan, protegendo-a do frio daquela noite.

̶ Acho que tivemos muita sorte... – Manifesta-se Ben, ainda observando a amamentação.

̶ Sorte? – Indaga Emily sem tirar os olhos de sua criança.

̶ Um parto nessas condições... Tudo deu estranhamente certo! – Benjamin se mostra sério – Se existe alguém aí em cima, bom, ele deve ter um senso de humor muito peculiar!

Emily o olha brevemente, Benjamin prossegue:

̶ Todas as vezes que alguma coisa parecia que iria dar certo... Quando as chances daquelas decisões estarem corretas eram de quase que cem por cento, BUM, tudo dava errado! Foi assim com o galpão... O perdemos de forma estúpida, perdemos um lugar perfeito, nunca iremos encontrar algo parecido com aquilo... – Ele olha para o lado de fora, tentando ver algum resquício no céu enegrecido pela pequena janela – Esse parto tinha tudo para dar errado, porém, deu tudo certo! A Lillyan nasceu de parto normal, feito por alguém que não assistiu o dá própria filha... Ela nasceu sem problemas, aparentemente saudável! Quando tudo parecia que iria dar errado, BUM, estranhamente tudo deu certo! Acho que vou desistir de tentar entender...

Emily não quis prestar atenção nas lamentações filosofadas por Benjamin, estava concentrada demais em sua nova e apaixonante tarefa, a de ser mãe. Ao ter sua filha nos braços, todos os pensamentos de “seria melhor a criança não nascer ao viver nesse mundo” foram exterminados. Ela só queria que aquele momento de calmaria se estendesse por muito mais tempo, talvez para sempre se pudesse.

̶ Vamos ter que nos planejar agora que temos a pequena aí... – Voltou a falar Ben – Além de roupas vamos precisar coletar remédios, fraudas, ou qualquer outra coisa que um bebê precise... Além disso, há o choro dela, vamos ter que acampar sempre perto da estrada e deixar alguém de vigia, em turnos...

Emily interrompe a falácia:

̶ Eu também pensei em chamá-la de Courtney, era o nome da minha avó, ela era dona de um restaurante em Brisbane... – Ela demonstra estar ignorando qualquer coisa dita anteriormente por Benjamin – Eu sou de Queensland, mas toda a minha família é de lá, com exceção dos Norwich, essa parte é de Melbourne...

Ben sorri, entende a mensagem e diz amistosamente:

̶ Acho que Lillyan é um nome mais bonito... – Emily apenas sorriu e balançou a cabeça positivamente, aceitando a sua sugestão.

Um barulho interrompe o momento, o som de uma moto se aproximando corta o ar de dentro o trailer, qualquer som mais alto emitido, parece ecoar por milhas. Benjamin se levanta, toma nas mãos a pistola .38 que tomara de Lance quando se conheceram, abre a porta do trailer e sai cuidadosamente. A luz do farol aceso acusa os ocupantes que se espremem nesse pequeno meio de transporte. O’Donnell, Matt, James e Deschen deram um jeito de voltar na mesma moto, ou então morreriam de frio a pé.

Matt é quem desponta mais a frente, acompanhado por Des, que passa por Ben direto para o trailer sem nada dizer, a largos passos. O’Donnell permanece na moto, verificando o estado da mesma, olhando algumas peças. James caminha lentamente na direção de Benjamin que ainda olha para a situação abismado.

Ele para exatamente a um metro de Ben, o mesmo parece aguardar por respostas, uma simples explicação sobre o que os atrasara e qual o motivo de terem retornado sem mantimento algum. Benjamin então resolve manifestar-se primeiro:

̶ O que aconteceu? Eu passei um sufoco aqui, a Emily...

James o interrompe:

̶ Fomos atacados em um bar, encurralados... Quatro homens nos renderam, nos torturaram e... – Ele hesita – Eles estupraram a Des...

Benjamin exibe uma feição de desolação, dá dois passos para trás, arrepia os cabelos e retorna o olhar para James enquanto balança a cabeça de forma negativa seguidamente. Ele ainda continua:

̶ Eu lutei, mas não foi o suficiente... Eles fizeram tudo na minha frente e eu não podia fazer nada... Eles iriam nos matar se o O’Donnell não tivesse aparecido! Foi por conta dele que estamos aqui!

̶ Eu não sei o que dizer... – Diz Ben.

James respira fundo, parece tomar coragem para seguir falando.

̶ No final, quando tudo parecia que tinha terminado, eu... Dois deles sobreviveram, e eu os torturei... Os torturei antes de matá-los... Eu gostei do que fiz! – Desabafa James.

Benjamin tenta retomar o seu posto de seriedade novamente, olha para James e diz em seguida encostando a mão direita em seu ombro esquerdo:

̶ Não se culpe... Eu sei que matar um ‘vivo’ é mil vezes mais difícil do que exterminar um ‘cabeça oca’, mas foi preciso... Eles mereceram, não se culpe!

̶ Mas... – James parece insistir em dizer tudo o que o aflige – Essa não foi a primeira vez que eu matei um vivo... Eu... – Ele engole a seco a sua própria saliva antes de confessar – Eu matei o Kanato! Eu o matei e eu também gostei de fazê-lo!

Notas finais
E então, o que acharam? Queria dizer que eu leio todos os comentários, me desculpem se às vezes não os respondo como deveria, é que eu ainda estou tentando otimizar o meu tempo. Vocês sabem, é preciso levar a vida pessoal em conjunto com a fic... Continuem comentando, pois eu adoro as suas sugestões, opiniões e conjecturas, me divirto com a reação de vocês a cada capítulo... Enfim, fico extremamente feliz ao ver suas participações... Prometo que irei respondê-los decentemente! Até o próximo!