Ante Mortem / Post Mortem - Interativa
15 Capítulo 15 - Dias de Agonia VI
Notas iniciais
Todos quase que simultaneamente viram-se após espantarem-se com um som escutado, um balde fora derrubado e a autora do som pode ser vista na porta do galpão, apoiando-se com dificuldades nas paredes e cambaleante tenta entender o que se passa após tamanha gritaria. É Deschen a figura que se revela nesse instante, ela apoia-se na parede se utilizando de sua mão esquerda, é a primeira vez que ela sai da cama desde o incidente na caçada.
Seu olhar é profundo, ela nada diz, seus movimentos também causam silêncio em todos ali. Ela dá alguns passos, seu corpo encontra-se um tanto curvado, como se ainda tentando se readaptar a caminhada. Se rosto não exprime tristeza, nem espanto, surpreendentemente ela apenas olha para todos com magnetismo, atraindo todos os olhares. A curtos passos Deschen segue andando, encosta os descalços pés na terra batida, e prossegue andando na direção do corpo exposto de Nae.
Emily se desloca até ela, tenta ajudá-la, mas é refutada com um gesto de mão. Ela quer fazer isso sozinha, mostrar que sua fragilidade tão inerente não existe mais, mostrar que apesar de suas visíveis dificuldades, ela continua sendo uma mulher forte e pouco abalável. A Des amargurada e com espírito de coitadinha não se encontra mais ali.
Nenhuma palavra é dita, nem uma lágrima sequer é derramada, ela se abaixa diante do corpo de Nae, passa as mãos em seus cabelos e rosto, não se importa em sujar-se com o sangue, muito menos sente nojo ou ojeriza em tocar um corpo mutilado. Para ela aquele ainda é o Nae, o garoto do grupo, simplesmente o Nae. Deschen fecha os olhos e levanta-se após esse breve momento.
̶ Eu ouvi a discussão e não pretendo saber o motivo pelo qual estavam brigando! Deixem isso para depois, em respeito ao Nae! Vamos fazer um funeral, depois vocês podem arrancar um a cabeça do outro... – Exclama Des deixando a todos ainda mais surpresos.
̶ Você tá certa! – Concorda Roxanne – O momento é de luto, não podemos desvirtuar... Vamos enterrar o Nae...
Issa caminha até a direção de Deschen e começa a ajudá-la a seguir de volta para dentro do galpão, Emily também faz o mesmo.
̶ James, você vai me ajudar a fazer a cova para ele... – Diz Ben apontando para o corpo – O restante de vocês vai esperar lá dentro, quando tudo aqui estiver pronto nós os chamaremos para realizarmos o funeral! – Completa ele.
Apesar da estressante manhã, todos preferiram reagir de forma pacata, era melhor que os desentendimentos fossem postos na mesa após o funeral de Nae, não seria justo ou respeitoso brigar enquanto o corpo dilacerado do garoto seguia estirado ao chão, como um pedaço poder de carne.
James deu um beijo da testa de Juliet que, ainda trêmula dirigiu-se como ordenado de volta ao galpão. Kate e Roxanne foram as últimas a deixarem o local, ainda encarando Benjamin com desprezo, talvez aquela tivesse sido a gota d’água para Kate. Ela que sempre respeitara a ele, considerou suas últimas atitudes deploráveis, no mínimo.
Após todos deixarem o recinto, Benjamin caminhou até a lateral do galpão, uma parede velha e já um tanto deteriorada, porém sua camada de concreto ainda a deixa aparentar estar bem firme. Recostado à essa parede encontram-se duas pás, enxadas, motosserras e vassouras, todos materiais utilizados para limpeza e encontrados pelo grupo de Ben logo que chegaram ao galpão. Benjamin toma nas mãos duas enxadas e volta caminhando até onde James se encontrava.
James recebe uma enxada e os dois se dirigem, ainda em silêncio, até a outra lateral, um pouco mais perto da mata, local esse onde Dave houvera sido enterrado tempos atrás. O túmulo ainda contém as pedras depositadas por eles naquele triste dia, dia esse que se repete na mesma intensidade.
Os dois começam a cavar, abrindo a terra cerca de dois metros ao lado de onde o corpo de Dave se encontra. A dura e alaranjada terra começa a ser cavada, o túmulo onde o corpo de Nae será depositado se encontrará pronto em breve. Enquanto rasga a terra com sua enxada, James começa a raciocinar e conjecturar sobre sua vida, sobre como tudo mudara nesses poucos meses.
James era um executivo, usava ternos alinhados todos os dias para trabalhar, tinha aquela típica maleta preta e como todo engravatado com alta patente, desviava dinheiro para seu bel prazer. Ele e Juliet moravam em uma bela casa em um bairro de área nobre, não tinham do que reclamar de suas vidas, além disso, os dois tinham uma bela filha de quinze anos de idade. Os dois não costumam falar de sua filha, pelo menos não mais. Pennelope era uma menina doce, muito carinhosa com os pais, passava longe do estilo “filha problemática”, gostava de estudar e para a alegria de James, tinha somente um namorado. Quando as pessoas começaram a deixar suas casas se dirigindo até os ilusórios Centros de Refugiados, James, Juliet e Pennelope colocaram o que puderam em um Cadilac e saíram, tentando chegar até um desses locais. Um acidente na 23 Avenue não deixou que isso se concretizasse, Pennelope não sobrevivera e seus pais foram obrigados a fugir, deixando o corpo da garota como almoço para um bando de mordedores que se aproveitaram do acidente para atacar.
Benjamin também revisava sua vida em pensamento, tentava racionalizar o porquê de ter se tornado o que se tornou, se o “poder” não lhe havia subido a cabeça e se as suas atitudes estavam mesmo levando o grupo para um futuro promissor. Ben entrara para o exército com dezoito anos, com o típico estilo jovem americano, o patriota que lutará pela nação. Natural do Texas, ele nunca havia viajado antes do caos se instaurar, mesmo quando serviu as forças armadas, já que o seu perfil nunca fora bem quisto pelo Tenente Skinners. Ele casou-se com pouco mais de vinte anos, assim que sua namorada, uma mexicana de sobrenome Martinez, engravidara. Mariah nascera saudável, com peso e tamanho ideal, porém foi a partir de seu nascimento que a vida de Ben começara a decair. Abandonado pela esposa, que fugira levando consigo sua filha para Houston, foi preciso uma ação judicial para ele pudesse visitá-la nos finais de semana.
O buraco cavado torna-se cada vez mais fundo, enquanto no céu nuvens chuvosas começam a ser lapidadas, cobrindo de vez o sol que aparentava ter uma duração maior naquela manhã trágica. O som das enxadas em contado com o solo só é interrompido por passos seguidos e familiares grunhidos. Um cambaleante homem vestindo um macacão azul, com dilacerações na face e esbugalhados olhos leitosos e purulentos, caminha desesperado na direção dos dois, seus braços esticados demonstram sua posição de ataque. James entrega a Benjamin seu facão e o mesmo se dirige lentamente até o mordedor que se aproxima.
Ben deixa o monstro perigosamente se aproximar de seu corpo, dá dois passos para trás e o golpeia no pescoço, parando apenas na cervical. A cabeça do mordedor fica presa a seu corpo apenas por algumas camadas de tecido epitelial, tombada para trás, a cena se mostra horrenda. O mordedor prossegue de pé, tentando com os braços agarrar Benjamin, que ainda o observando, desfere mais um golpe, dessa vez em sua perna esquerda, quebrando a tíbia e fíbula que já se mostravam em um avançado estado de decomposição. Após a criatura ter caído ao solo, Ben desfere o último golpe, partindo o crânio do homem morto na horizontal.
.
.
.
.
̶ Eu já disse que estou bem! – Afirma Deschen um tanto irritada com as inúmeras perguntas e verificações de Emily.
A grávida checara sua pulsação, sua pressão arterial e até a sua temperatura, queria certificar-se que a breve e inesperada caminhada naquela manhã não havia agravado o seu estado de saúde.
̶ Como você está sentindo o coto? – Pergunta Emily.
̶ Um fantasma – Diz Des sem animação alguma na voz – Às vezes eu até penso que posso me coçar com essa merda... – Ela passa a olhar para o braço ainda com o curativo – Não sei se vou tirar essa bandagem, acho que não quero olhar para o meu braço mutilado...
Deschen encontra-se sentada em sua cama, ao lado de Emily, mais ao fundo no quarto estão Roxanne e Kate, assim como Issa e Juliet que escolheram ficar em um único recinto após o triplo ataque do lado de fora.
̶ Você acha que seu marido pode estar certo? – Pergunta Deschen a Juliet – Quero dizer... Cada vez mais têm aparecido essas coisas por aqui... Isso não acontecia antes...
̶ Eu sempre apoio o James, se não fossem as decisões que ele tomou quando estávamos fugindo, eu, Rich e Emily não teríamos encontrado esse lugar!
̶ Ele seria um líder bem melhor que o Benjamin! – Exclama Kate – Ele não é autoritário, ouve as pessoas e não se deixou ser corrompido por dentro...
Todas ali se surpreendem, as palavras de Roxanne saem com decisão por entre os seus lábios e pouco a pouco começam viajar pela mente de todas. Ela prossegue:
̶ Olha o que aconteceu depois que ele instaurou a lei “quem manda aqui sou eu”! O Nae morreu e ele não teve a sensibilidade de dizer que foi uma fatalidade... Ele me acusou, acusou a Kate! Não podemos viver sobre o julgo desse cara!
Issa que permanecera quieta até aquele instante, levanta-se e no mesmo tom de voz começa a falar olhando para Roxanne:
̶ Roxanne... Pare para pensar um minuto! Ele saiu e deixou a responsabilidade da vigília sobre vocês duas – Ela aponta para Roxy e Kate – Você ficaram tomado conta do galpão? Não... Pegaram o furgão e saíram para sabe-se lá onde, voltando sem suprimento ou água! O que estavam fazendo? – As duas permanecem quietas – Eu sei que nada foi feito com intenção, mas você precisa compreender o lado dele, e compreender o quanto foram irresponsáveis!
Issa sempre fora uma mulher mais reservada, gostava muito de cozinhar e com uma panela na mão era bem falante, mas nunca havia se imposto dessa maneira, opinando com tanta sobriedade sobre um fato de suma importância para o grupo. Sua mente se modificara e naquele instante ela parece ter percebido que precisava dar um basta, ou pelo pelos se impor diante de algo que a revoltava. Na sua cabeça apenas Benjamin poderia ser o líder, pois ele era o único com pulso para tomar as decisões que mais ninguém teria coragem.
.
.
.
.
James apenas observara a uma distância segura os movimentos de Benjamin, ele parecia querer que o monstro sofresse, como se aquilo fizesse com que todas as suas frustrações fossem descarregadas de uma única vez. Benjamin bufava, respirava fundo enquanto olhava para o pútrido corpo estirado ao chão, cada vez que eliminava um mordedor sentia-se melhor, era como se estivesse vingando todas as mortes que tivera em sua jornada.
Ben deu às costas a criatura já morta e juntou a enxada que jogara no chão, se dirigindo calmamente de volta a escavação da sepultura. James o lançou um olhar de dúvida, queria entender o que se passava na cabeça de Benjamin que mais parecia um tabuleiro de xadrez quebrado. Sem conseguir se conter e diante desse novo fato, James manifesta-se novamente:
̶ Temos que deixar esse lugar! Não é mais seguro, você mesmo viu...
Benjamin joga a enxada no chão com rispidez e olhando em seus olhos, refuta:
̶ E ir para onde, hein?! Esse lugar é seguro! Eu tenho mantido esse lugar seguro! Podemos proteger o galpão, temos armas! – Ele se aproxima um pouco mais de James – Você acha que deixar o galpão e ir para a estrada vai ser mesmo melhor para todos nós? – Ele passa a o olhar por alto – Não me surpreende que com esse pensamento você estivesse perdido no meio da mata quando o Dave te encontrou!
̶ Eu soube conduzir a minha esposa com segurança até esse lugar, posso muito bem fazer isso de novo! – Exclama James.
̶ Você é fraco James! Ainda pensa com a cabeça de antes... Estamos literalmente em uma selva, e não somos mais o topo da cadeia alimentar!
James vira um pouco a cabeça e ainda encarando Benjamin de perto, responde:
̶ Se ser fraco significa não conseguir atirar na cabeça de um homem amarrado e vendado, e ainda por cima sem chance alguma de defesa... Bom, então eu devo ser mesmo fraco!
̶ Fraco é aceitar ficar sobre o comando do homem que atirou no outro sem defesa! – Diz Benjamin, que ainda continua – Se acha que pode mesmo levar o grupo em segurança, tenta convencê-los disso! Duvido que consiga! É melhor pegar a sua esposa e sair daqui... Você nunca deveria ter aparecido!
James nada diz, apenas larga a enxada e começa a caminhar para o lado de dentro do galpão, mensurando cada fonema pronunciado pelos dois no calor da discussão. Benjamin enxugara o suor da testa em sua camisa, coça levemente a barba e após observar por poucos segundos a caminhada de James, volta ao trabalho que se destinara a realizar.
A paz não é algo que perdura e naquele galpão parece nunca ter existido. Dois mordedores começam a se aproximar, vindos da floresta, caminhando em busca de carne fresca. São duas mulheres, uma se utiliza de calça jeans e blusa preta de alça, provavelmente deveria ter vinte e poucos anos de idade, deveria até ser bela enquanto viva, hoje não passa de um pedaço podre e fétido de carne ambulante. A segunda é uma senhora, setenta e poucos anos, veste uma bata que outrora deveria ser branca, hoje é uma mistura de lama e sangue que formam a tonalidade do tecido.
James virou-se quando ouviu o barulho, tirou da cintura sua inseparável faquinha e caminhou rapidamente na direção das duas, sendo seguido de perto por Benjamin empunhando o facão. James chegou primeiro e sem delongas cravou sua faca de caça entre os parietais da mais jovem, como se tivesse sido milimetricamente calculado. Benjamin se utilizara mais da força, jogando todo o peso dos braços juntamente com a lâmina sobre o crânio da outra mordedora, abrindo a lateral de sua cabeça.
Os dois se olham, porém não há tempo para coisa alguma ser dita, já que mais três mordedores começam a se aproximar. Benjamin olha pasmo para aquilo, nunca vira mordedores tão próximos do galpão, ele não queria admitir, mas talvez James estivesse mesmo certo, talvez o grupo esteja sofrendo um ataque. James olha para Benjamin receoso, aguardando alguma ação, porém ele prossegue parado, como se tudo o que defendesse durante todo esse tempo estivesse desmoronando diante de si.
̶ Ben... Benjamin! – Exclama James chamando sua atenção. Nessa mesma hora, os dois avistam mais três criaturas mortas vivas se aproximando, dessa vez pela lateral esquerda do galpão. Benjamin prossegue com os olhos arregalados e sem demonstrar desespero, apenas diz:
̶ Avisa para as garotas se prepararem, vamos deixar esse lugar em vinte minutos...
James não hesita, ao ouvir as palavras ditas, se dirige rapidamente para o interior do galpão, antes de entrar ainda consegue ver Benjamin buscando o rifle de caça que deixara ao solo e atirando nos mordedores que se aproximam.
Não há tempo para ficar observando, James corre e se dirige até os dormitórios, adentra com brutalidade e diz a todas:
̶ Peguem o necessário! Estamos sendo atacados, não temos muito tempo!
̶ O que? – Indaga Emily assustada.
James respira fundo, e na tentativa de ser mais sucinto, afirma novamente:
̶ Os mordedores foram atraídos para cá, provavelmente tem uma horda se aproximando, com centenas deles... Precisamos sair antes que esse lugar vire nossa tumba!
Issa e Juliet se dirigem até Deschen, ajudando para que a mesma se levante. Kate e Roxanne começam a pegar as suas mochilas e a jogar algumas peças de roupas que se encontravam espalhadas pelo chão. James olha para a atitude de todas e vocifera:
̶ Vocês não me escutaram?! Temos que ir agora! – Ele olha para Kate – Esqueçam as roupas, você e Issa vão até a cozinha e peguem o que conseguirem de mantimentos, encham as suas mochilas – Ele olha para a sua esposa – Querida, ajude a Emily com a Deschen, eu e Roxanne pegamos o que for necessário daqui...
Issa e Kate pegam suas mochilas e se deslocam rapidamente até a cozinha, Emily e Juliet começam a ajudar Deschen novamente que ainda se sente fraca e caminha com dificuldades. Enquanto isso, James e Roxanne começam a vasculhar nas coisas de todos, buscando rapidamente qualquer coisa que lhes sejam úteis. James começa a vasculhar em meio as coisas de Benjamin, mas não encontra nada que fosse indispensável de ser levado, em seguida começa a vasculhar as coisas de Kanato. Ele afasta uma mala preta, com apenas algumas peças de roupas, em baixo dela se encontra um pequeno baú, ele o abre e além de fotos de família e objetos pessoais, James surpreende-se ao encontrar uma arma, uma pistola nove milímetros em meio às coisas de Kanato.
James começa a pensar nas palavras de Benjamin, lhe dizendo que ninguém além dele próprio tinha acesso às armas, e que as mesmas se encontravam em um lugar muito bem resguardado. Passou a se lembrar também das palavras de Rich, jurando-lhe que não havia sido o autor do assassinato de Dave, de suas feições de medo e de como ele deve ter implorado pela vida, quando Benjamin o matou. Ele liga as peças, junta os cacos e consegue ver a imagem original muito bem delineada e desenhada, Kanato matara Dave, e a morte de Rich fora em vão. James nada diz, certifica-se que Roxanne não viu o que ele encontrara, guarda a arma na parte de trás da calça e segue fingindo que ainda buscava por algo.
̶ Vamos! Quanto antes sairmos desse lugar melhor! – Diz James alertando Roxanne.
̶ Espera, tenho que buscar o Kanato! – Exclama Roxanne lembrando-se de que o garoto ainda se encontra preso.
.
.
.
.
Benjamin ainda tentava afastar os monstros que se aproximavam do galpão, os seis que haviam visto inicialmente, transformaram-se agora em mais de vinte, e o número só crescia, uma horda se aproximava, e as poucas balas que ainda lhe restava não seriam nem de longe o suficiente para evitar que o lugar fosse tomado. A cada passo que ele dava para trás, mais mordedores se aproximavam, Benjamin começou a perceber que acabaria encurralado e rapidamente deslocou-se até o furgão, atirando em mais dois mortos vivos antes de adentrar o veículo e fechar a porta.
Olhando pelo vidro ele pode ver que agora os mordedores invadiriam o galpão plenamente, a porta estava escancarada e não havia mais ninguém para protegê-la, torceu para que alguém aparecesse, porém ninguém mais viera. Verificou seu rifle e viu que o mesmo continha apenas uma bala, começou a pensar em inúmeros planos, todavia na atual conjetura todos terminariam em um suicídio solitário.
Tateou pelo volante e viu que a chave havia sido deixada no contato, começou a pensar que havia a possibilidade de ligar o carro e partir naquele mesmo instante, deixando todos para trás. Benjamin balança a cabeça negativamente como que afastando a insanidade de sua mente. O carro já começa a ser cercado, diversas mãos que se debatem sobre o capô, vidro dianteiro e janelas, todos querendo um pedaço da carne de Ben.
Os mordedores começam a adentrar o galpão fazendo com que Emily, Juliet e Deschen que iam mais a frente recuassem. James se dirigira até elas e tomara a frente, com sua pequena faca eliminara duas das criaturas. Issa e Kate chegam de repente, com as mochilas contendo os suprimentos que nelas couberam. Todos estão no corredor a frente dos dormitórios, há cerca de dez metros da porta, que começa a ser tomada pelos mordedores. James olha para Kate, que parece espantada e pergunta pegando-a de surpresa:
̶ Eu sei que você sabe... Tenho certeza que ele já contou... – Onde o Benjamin guarda as armas? Precisamos delas...
A pergunta parece ter chacoalhado a cabeça de Kate, que se encontra sem ação. James vira o seu rosto e a faz olhar diretamente em seus olhos.
̶ Onde Kate...
̶ Está na sala ao lado onde o Kanato foi trancado...
̶ Vocês precisam sair daqui e correr para o furgão! Usem os seus facões! – James segura a mão de Juliet e diz – Toma isso... – Ele entrega a ela a sua faca – Se proteja meu amor! Eu vou buscar as armas, darei cobertura a vocês! Vão, corram!
Juliet dá um breve beijo em seu marido e começa a se deslocar para o lado de fora do galpão. Roxanne olha para ele e diz:
̶ Eu vou com você, tenho que ajudar o Kanato!
James encosta a mão em seu peito, impedindo o movimento da moça, olha para ela e diz:
̶ Eu cuido dele, quero que você proteja a Emily e a Juliet, use a sua faca!
Roxanne concorda e segue as outras mulheres que se deslocavam para o lado de fora da moradia. James começa a tomar o lado oposto, aprofundando-se no corredor, em busca das armas.
Issa e Kate partiram mais a frente, defendendo-se dos mordedores com chutes e empurrões, não havia tempo ou possibilidade alguma de travar uma luta com eles, o objetivo principal era abrir espaço para chegar do lado de fora.
̶ Eles são muitos! – Lamentou Issa.
̶ Não se preocupe, vamos conseguir! – Exclamou Roxanne.
Issa deu um breve sorrio ao ver o falso otimismo de Kate, ela não era burra, sabia que todos ali estavam na merda, e sabia que ninguém iria conseguir coisa alguma. Assim que as duas deram os primeiros passos fora do galpão, viram o quanto o lugar já estava tomado e que o furgão também estava cercado por eles.
̶ Temos que chegar até lá! – Gritou Kate apontando para o veículo.
Issa começou a correr mais a frente, porém cometera um grande erro. Ao sair do raio de cobertura de Kate, a simpática pedagoga que se tornara a cozinheira do grupo, fora pega por um dos mordedores, que a segurou pelo braço e a levou para o chão. Kate gritou seu nome, mas nada disso adiantou, o destino já estava traçado. Issa passa a ser dilacerada por quatro famintos mordedores, que a abrem por inteira, rasgando sua carne e expondo seus órgãos, uma horrenda e sangrenta, além de dolorosa morte da alegre garota.
Juliet, Emily e Deschen vieram logo atrás e viram tudo o que ocorreu, ninguém podia fazer nada por Issa, todos deviam agora prezar por suas vidas. As três aceleraram o passo deslocando-se para mais próximo do furgão, assim como Kate fizera. Os mordedores passaram a cercá-las também, já haviam tomado aquele território, o galpão pertencia aos mortos agora.
Juliet se utilizou da faca de James para cravá-la na cabeça de um mordedor que se aproximara das três, puxou de volta e viu que outro já se preparara para o bote, Segurando com as duas mãos, Juliet mais uma vez cravara a faca de caça na cabeça do mordedor, porém, não obteve força o suficiente para puxá-la de volta, a criatura então tombara por cima dela, jogando-a no solo. Como urubus atacando carcaças, os demais mordedores que se encontravam perto, partiram para cima de Juliet, que não teve defesa alguma, assim como Issa, o seu corpo passara a ser lentamente saboreado por mais de cinco mordedores, que aproveitavam cada centímetro cúbico de sua carne. Juliet também tombara.
.
.
.
.
̶ Onde está, onde está? – James repetia isso enquanto procurava pela porta da tal sala de armas.
Após caminhar mais um pouco pelo corredor escuro, ele finalmente encontrara a porta onde Kate havia contado-lhe sobre o paradeiro das armas. James deu dois chutes violentos na porta, arrombando-a. Precisava ser rápido, assim que entrou começara a vasculhar. O lugar era uma pequena saleta que servia de depósito, lá dentro havia algumas caixas com papel, roupas e uma grande estante. James olhou para o topo da estante e lá vira uma bolsa, onde o cano de dois rifles é visivelmente exposto.
Em apenas dois movimentos, ele esticara o seu braço e puxara a bolsa das armas, agora era só voltar e fazer a cobertura das garotas para que todos pudessem chegar ao furgão. James saíra de lá com muita rapidez, porém ao deixar o depósito, lembrou da arma que carregava as suas costas, lembrou-se de Kanato e de tudo o que ocorrera após a morte de Dave. Um ódio começou a tomar conta de si, ele nunca se sentira dessa maneira, parecia que sua cabeça iria explodir, era como se algo de ruim estivesse pronto para ser posto para fora. James começava a conhecer o seu pior lado.
Ele pensara em deixar o garoto preso ali, para apodrecer e morrer de fome, já que após tudo que ocorrera por conta dele, isso seria muito justo. Dirigiu-se até a porta da sala onde ele se encontrava e aplicou alguns chutes, até as trancas cederem e a mesma se abrir. A porta é arrombada e do lado de dentro encontra-se Kanato, seu pálido rosto se encontra extremamente assustado, seus olhos estão quase saltando das órbitas de tão arregalados. Ao ver James parado de diante de si, ele pergunta:
̶ O que tá acontecendo? – James apenas o encara, fixa os seus olhos em Kanato e responde com frieza na voz:
̶ Você está livre, pode sair, todos estão te esperando lá fora...
Kanato começa a levantar-se, sempre apoiando o eu ombro que ainda se encontra sem movimentos após o tiro levado, ele passa pela porta lentamente e começa a caminhar pelo corredor, sem dizer nada. James começou mais uma vez a pensar em tudo que ocorrera, em como que Rich pagara por um crime que ele não cometera, enquanto o verdadeiro assassino era tratado como uma criança especial. James não queria fazer isso, pensou mais de uma, na verdade pensara dez vezes, talvez.
James saca a arma que achara entre as coisas de Kanato, vê o garoto de costas se afastando dele, aponta e atira. A bala atravessa o occipital de Kanato, perfurando o seu cérebro e o matando instantaneamente. James acabara de matar um garoto pelas costas. Suas mãos trêmulas guardam a arma novamente na calça, e seus lábios embargados pelo medo e desespero sussurram:
̶ Foi por nós... Foi por todos nós...
.
.
.
.
Um disparo é ouvido seguido de uma voz que grita:
̶ Corram, venham!
Benjamin abrira a porta do furgão e matara um dos mordedores com sua última bala, após isso passara a utilizar o rifle como porrete, afastando os mordedores mais próximos e tentando abrir caminho para que Kate, Roxanne, Emily e Deschen chegassem até o furgão. As garotas correm até sua direção, afastando mais alguns pelo caminho.
A outra porta do furgão é aberta por Benjamin que segue dando cobertura o suficiente para todas entrem no veículo. Deschen chega primeiro e praticamente se joga dentro do carro, ela é seguida por Kate, Roxanne e Emily que também adentram rapidamente. Ben assume o banco do motorista e fecha a porta, por pouco não fora pego por uma daquelas criaturas. Com rapidez o carro é ligado e Benjamin começa a passar a marcha que todos partam daquele lugar.
̶ Espera, o James ainda tá lá dentro! – Exclama Roxanne.
̶ Ele já deve estar morto! O lugar foi tomado, os mordedores entraram no galpão! – Refuta Benjamin.
̶ Espera Ben! – Exclama ela novamente – Ele foi buscar o Kanato!
̶ Roxanne se ficarmos mais tempo aqui não conseguiremos mais sair! – Vocifera Ben.
Após a breve discussão entre os dois, tiros começam a serem ouvidos vindos de dentro do galpão, todos olham pelo vidro da janela do carro e veem James sair de lá, com a bolsa de armas nas costas e empunhando dois revólveres, abrindo caminho para chegar até o furgão. Os tiros disparados se mostram certeiros, assim como o seu objetivo, James consegue afastar um número de mordedores suficientes para chegar correndo até o furgão. Roxanne abre a porta lateral e ele se lança dentro do carro.
Benjamin pisa no acelerador e começa a tirar todos dali, alguns mortos vivos ainda são atropelados pelo caminho, porém o perigo maior já os deixa, após todo o sufoco, eles ainda conseguiram sair com vida. Roxanne olha para James que se encontra extremamente cansado, sua respiração é alta e seu tórax se expande com rapidez.
̶ Onde está o Kanato? – Seus olhos já se juntam demonstrando tristeza.
̶ Ele não conseguiu... – James começa a se lembrar do que fizera e essas imagens não saem de sua cabeça – Fomos atacados lá dentro... Ele não conseguiu...
Era muito difícil para ele estar mentindo daquela maneira, porém em hipótese alguma ele contaria a ela a verdade dos fatos, não se declararia como assassino do garoto diante todos. James passa as mãos nos cabelos enquanto ainda olha para o rosto de Roxanne, ao vê-la, tem um estalo, olha par todos os lados e não vê Juliet. Seus olhos se enchem de lágrimas, uma angústia muito grande começa a tomar de conta de si, ele não havia apenas perdido a esposa, havia perdido uma companheira para toda a vida. Sua trêmula e embargada voz indaga:
̶ A Juliet... Como?
Roxanne passa as mãos em seu rosto e responde igualmente desolada:
̶ Ela salvou a Emily e a Deschen... Mas não conseguiu se salvar...
James sentira como se uma faca tivera sido cravada em seu peito, sentia um nó na garganta, palpitações no coração e até a sua respiração parecia descoordenada. Juliet era o seu único motivo de viver, sua razão para agir da forma que agiu. Sem ela nada faria sentido, nada mais precisaria fazer sentido. James perdera o amor da sua vida, sem estar perto para tentar fazer algo, e isso era o que mais o partia por dentro.
Benjamin seguiu dirigindo o furgão pelo trecho de terra em silêncio, na realidade ninguém ali ousara pronunciar uma palavra sequer. Após chegarem à autoestrada, Benjamin seguiu ao volante, guiando o carro para um destino incerto, para um caminho que talvez fosse só de ida. Após mais alguns metros percorridos, ele para o veículo bruscamente, começa a respirar ininterruptamente e passa a vociferar enquanto soca o volante diversas vezes:
̶ Porque porra! Porque tá jogando toda essa merda na gente?! Por que porra?!
Fale com o autor