Antagônicos

19 Algo sobre Ringo, Akemi e Medicina


Um mês depois

As coisas estavam pacíficas. Friedrich tinha reduzido as idas, estava tentando ajudar sua irmã num seminário escolar. Na última sexta, ela tinha aparecido com um pacote de fraudas e me dissera que só poderia pagar aquilo naquele momento, mas que estava juntando dinheiro para quando descobrir o sexo, comprar uma roupa. Eu tinha voltado a freqüentar meu emprego.

— Hoje nos vamos jantar fora. — disse Waxler.

Baixei um pouco a tela do computador e olhei-o por cima dos óculos, pensando “não esta vendo que estou fazendo uma matéria pra o jornal?”. Minha última matéria tinha sido adorada por Hugo e eu tinha me empolgado com os elogios.

— Daqui pra oito horas você já tem terminado isso. — ele apontou pra o notebook. — Cadê as meninas?

— Ué, trabalhando...

Ignorei o resto das coisas e voltei a escrever. Fazia uma semana que Wax estava tentando nos levar pra jantar para conhecer a tal da Akemi; vivia falando dela com Duda, mas falava como um homem que está encantado, porém, fingindo não estar.

No fim da tarde, as meninas chegaram. Ringo chegou assim que escureceu. Ele era o único que estava empolgado com a idéia de ir jantar com a Akemi, queria perguntá-la sobre as amigas, quais delas eram solteiras e quais estavam afim de sair com ele.

— Se forem inteligentes o bastante, todas vão sair contigo. — falei enquanto ele me dava à camisa dele pra lavar.

— Quer dizer que não sou inteligente o bastante? — riu-se Violet, lembrando que tinha dado bolo nele no colegial.

— Exatamente. Veja, Ringo é lindo, gosta de Beatles, é carinhoso, amigo e dá vontade de morder! — disse e apertei a bochecha dele, que rolou os olhos. — Se você tivesse uma barba como o Waxler, atrairia bem mais.

Wax piscou pra mim, eu ri. Se Ringo não fosse meu melhor amigo, eu estaria namorando com ele há anos. Além de ser quase idêntico a Tom Hardy (seria idêntico se tivesse uma barba cerrada), era o melhor ouvinte e me acobertava sempre.

Depois de muita insistência, cedemos. Friedrich não foi, ele e Andy estavam filmando cenas polêmicas pela cidade. Não me arrumei tanto, nem levei tanto dinheiro, pretendia voltar logo pra casa. Havia aderido ao conselho de Duda de vestir roupa apertada enquanto podia; uma calça preta apertada, que me dava até preguiça de urinar e uma regata dos Beatles.

Quando chegamos ao restaurante, tivemos que aguardar por ela quase quarenta minutos, foi o tempo de a comida chegar. Ela era ruiva, tão ruiva quanto Kimi. Agradeci por Friedrich não estar lá, pois a garota era linda. Sorri pra ela, que me devolveu com um sorriso de orelha a orelha, mostrando os dentes. Os dois dentes da frente eram levemente tortos e os olhos castanhos brilhantes.

— Oi! — ela sorriu. Ajeitou a saia de couro e sentou-se ao lado de Waxler. — Amei sua camisa.

— Amei a sua. — disse olhando a camisa do Slash que ela usava.

Ao longo do jantar, pareceu-me que eu tinha mais assunto com ela, do que o próprio Waxler. Eu ainda não fazia idéia de qual era o nome dela.

— Seu nome é mesmo Akemi? — perguntou Jane.

— Não, meu nome é Letícia. Mas eu prefiro que me chamem de Akemi.

— I came in like wrecking ball. — cantarolou Ringo baixinho. Duda riu mais alto do que todos.

— Eu acho que todos vocês estão lendo livros sobre mulheres grávidas. — ela disse, lembrando que todos eles pareciam mulherzinhas.

Ela também perguntou nossos nomes e por um minuto me pareceu mais interessada em Ringo, do que em Waxler, que aquela altura, tinha comido tanto que estava entupido.

— Você tem amigas?

— Tenho uma colega de quarto, a Zooey. Mas ainda não conheço muita gente, cheguei há pouco tempo.

— Ela é engenheira. — Waxler finalmente abriu a boca.

Parecia que quando estavam a sós, a conversa fluía mais fácil. Pedi pra ir embora e os dois ficaram lá, pois Akemi ainda estava comendo. Tínhamos ido no carro de Waxler, por isso, estávamos voltando a pé, não era tão distante.

— Não gostei da Letícia. — grunhiu Duda.

— Você é chata. — disse Jane.

— Eu? Ela que é chata.

— A Duda não é chata — Ringo falou, Duda agradeceu-o e o abraçou de lado. —, ela só é ciumenta.

Ela tossiu.

— Quê?! Por que eu estaria com ciúmes?

Ela foi salva pelo gongo. Ou melhor, por Friedrich e sua irmã que estavam saindo de uma loja, Friedrich segurava uma câmera de mão e uma maleta, Andy estava com os óculos de grau na ponta do nariz, lendo algo que ela tinha escrito.

Friedrich fez uma cara engraçada quando me viu. Como quando uma criança vê que seu desenho preferido vai passar a seguir.

— Vocês não deveriam estar com Wax?

— Achamos melhor vir embora. — respondi. Ele sorriu pra mim.

— Estamos de carro, querem uma carona?

Assenti com a cabeça e fomos em direção ao carro dele. Andy nunca havia entrado em nosso apartamento, pareceu encantada assim que o fez.

— Eu imaginava um chiqueiro. — revelou — Dois homens e ás vezes três, moram aqui e isso aqui é lindo!

— É... Olha, vai dar meia noite, acho que vamos dormir aqui. — Friedrich disse abraçando-me.

— Char, você pode me mostrar às coisas do bebê? Ou os planejamentos? Ou a lista dos nomes?

Ela me seguiu e ficamos as duas no quarto. Eu estava mostrando-a a lista de nomes, quando ela começou a cochichar. Friedrich não ouviria nem se quisesse, estava jogando Play Station com Ringo.

— Ele desistiu da faculdade de Direito e começou a fazer Odontologia, mas no último ano ele simplesmente desistiu de terminar o curso. Ele está tentando se empregar na empresa do papai, mas não é o que ele realmente quer, sabe? Agora que ele está parecendo uma garotinha, vive assistindo Grey’s Anatomy, e é isso que ele quer. Todos sabemos. Medicina.

— Mas o que o impede? — eu não sabia se queria ouvir a resposta, não queria que ela culpasse a mim e a Beaux, ela não fez.

— Ele se acha incapaz, ele diz que nunca passaria. Ele é inteligente, ele adora Matemática, não sei o que faz pensar que é incapaz de passar. — eu ainda não sabia onde ela queria chegar — Char, você pode ajudá-lo.

Como eu podia ajudar um cabeça-dura? Ele não gostava quando o pressionávamos, ficava dizendo que tinha dinheiro, que não precisava daquilo. Ele não me ouviria; Waxler já havia tentado fazê-lo entender que ele precisava cursar o que queria, mesmo que demorasse uma década.

— Ele escuta você e apenas você. E agora vocês tem nada mais do que um laço, ele pode lhe ouvir. Você precisa ajudar o Fred. — ela pôs ênfase no “precisa” — O... — ela pescou um nome na lista — Cedric precisa ter um bom futuro garantido.

— Beaux. — murmurei. — Eu vou tentar.

Ficamos conversando sobre o bebê até quase duas, Friedrich dormiu na sala. Andy prometeu que iria comigo no outro dia pra ultra-som e falou para que eu pedisse quando precisasse de algo, ela parecia-me bem mais madura que o irmão.

O irmão que agora eu tinha dever de ajudar. Medicina era realmente difícil, mais do que difícil. Mas não era impossível, levando em conta de que ele havia ganho uma medalha de ouro no primeiro ano do segundo grau por ser o melhor aluno da turma, depois disso, provocou sua própria queda de rendimento, pois não gostava dos outros pedindo cola no meio da prova. Eu só não sabia se eu estava preparada pra dialogar com ele sobre esse assunto, mas ia tentar, não apenas pelo Beaux, mas por ele.

Notas finais
Só pra tirar (o mínimo que for) do foco do bebê dshuiafklsdf beijos s2
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.