Answer
6 Parte VI
Parte VI
O show já tinha começado quando Tanya chegou ao The Truth. Sua irritação já havia começado na portaria, quando seu nome não estava na lista de convidados. Aquilo era um absurdo, e ela se sentiu como se fosse uma intrusa ou uma criminosa, barrada por um segurança na porta de uma boate.
Não que o pagamento do ingresso fosse algum impedimento. Ela só não conseguia entender o motivo de Edward ter tomado aquela decisão ridícula e catastrófica que a tirava de sua vida de uma maneira permanente.
Bem, permanente até a próxima vez que ele fosse atrás dela, porque, sinceramente, não era possível que Edward pensasse que os dois tinham tido um fim. Aquela ideia era absurda demais.
Ela mandou uma mensagem a Edward, dizendo que tinha vindo vê-lo. Ele provavelmente veria assim que o show terminasse, e os dois poderiam se encontrar para ir a outro lugar que não fosse tão cheio e nem cheirasse a suor.
Esbarrando incontáveis pessoas aglomeradas no bar, Tanya tentava abrir caminho até o palco. A tempo, ela entendeu que não seria possível alcançá-lo. Quer dizer, Edward devia estar mentindo. Não era possível que sua desculpa de sentir falta de eventos menores enganava algum dos membros da Answer, porque isto daqui definitivamente estava mais cheio do que semana passada!
Ou será que ela achava isso porque não teve que ficar no meio de corpos suados saltitantes na semana passada?
Ugh, eu eu preferia mil vezes o ar-condicionado do camarim.
Não que o ar-condicionado do camarim fosse dos melhores, mas qualquer coisa era melhor do que o cheiro de suor que vinha das pessoas que se agitavam pela música. E pelo álcool, ela pensou.
Edward não podia vê-la, mas ela conseguia enxergá-lo bem daqui. As pessoas pulavam ao seu lado, mas a estatura de Tanya a ajudava naquilo. Ele vestia uma camisa preta com uma estampa esquisita de uma banda que ela nunca ouviu falar e jeans pretas desbotadas com rasgos nos joelhos. Aquilo estava na moda ultimamente, mas Tanya creditava que devia se restrigir ao vestuário feminino. Edward ficava ridículo com aquele tipo de roupa. As veias de seu pescoço pulavam enquanto ele gritava ao microfone, cantando e se agitando no palco.
Era bonito de ver. Edward era lindo, e Tanya sentiu o coração acelerar ao vê-lo a distância. Sentia falta dele. Não tê-lo em sua vida era estranho, porque ele sempre esteve ali. E então algo acontece e, de uma hora para outra, ele desaparece.
Algo ou alguém, ela pensou.
Durante a semana que seguiu após a conversa que teve com Edward, Tanya pensou muito a respeito da razão pela qual ele terminaria algo tão importante quanto o relacionamento deles. Tinha que ser alguém. Alguém muito importante, que, de alguma forma, descobriu o que eles tinham e exigiu um fim. Edward devia estar encantado e, por isso, não mediu a consequência daquela razão e decidiu tirar Tanya de sua vida.
Grande audácia.
Ela foi até o bar e comprou uma cerveja, sem jamais tirar os olhos do palco. Edward agora cantava um dos covers que gostava de fazer, e a voz dele soava melhor assim. É claro que as composições da Answer tinham alguma qualidade, mas os covers sempre ficavam melhores, era o que ela pensava.
E então, ao fim, ela começou a cavar espaço entre as pessoas. A garrafa de cerveja que ela segurava ficou pelo caminho, mas ela não se importava com o grito de quem tinha os pés molhados ou cortados pelo vidro. Ela precisava chegar ao palco. No caminho, puxou o celular e mandou mais duas mensagens, perguntando se ele ainda estava no palco, pois ela estava indo se encontrar com ele.
No entanto, Edward já não estava por perto quando ela chegou. Não tinha ninguém lá. Só um segurança, que impediu sua passagem. Irritada, Tanya jogou o cabelo para o lado e disse:
"Meu nome está na lista."
O segurança franziu o cenho e conferiu a prancheta em suas mãos.
"E qual é o nome da senhora?"
"Tanya Denali. Por favor, você quer me dar licença? Edward está me esperando."
Ele conferiu a prancheta e negou com a cabeça uma vez.
"Não existe seu nome aqui, senhora, eu não posso autorizar."
Não era possível que Edward tinha tirado o nome dela do acesso ao backstage também...
"Não importa!" ela se irritou, "O meu namorado acabou de tocar nessa merda de bar e está me esperando no backstage!"
"Senhora, queira se retirar," o segurança interrompeu quando Tanya deu um passo a frente. Ela não se intimidou e ele esticou o braço esquerdo, impedindo a passagem dela. Com tal movimento, Tanya encostou a barriga no braço do segurança.
"Não me toque!" gritou, "Quero falar com o Edward agora!"
"Senhora, por favor, queira se retirar."
Tanya empurrou o braço do segurança para longe do corpo. Ela não perdoaria Edward por tamanha humilhação.
"Eu vou entrar aí de qualquer jeito. Saia do meu caminho agora, ou eu dou um jeito de demitir você deste lugar."
O segurança revirou os olhos e encarou Tanya sério.
"Eu não posso deixar a senhora passar daqui. Uma fã já conseguiu ultrapassar a barreira hoje e chamaram atenção do meu colega. E mesmo se a senhora conseguisse, não tem ninguém aí atrás. A banda já foi embora."
Será? Edward sempre ficava mais tempo nos bares onde tocava, especialmente na The Truth. Gostava de aproveitar a bebida gratuita que sempre conseguia e de receber o carinho das pessoas que gostavam da banda e das músicas tocadas.
O segurança poderia estar mentindo, mas também poderia estar falando a verdade. Ela levou um tempão para alcançar a beirada do palco, com certeza teria sido o suficiente para que Edward e Jasper saíssem do palco, tomassem a água ou cerveja de sempre e fossem para a área reservada.
A área reservada! É claro!
"Bom, que se dane então."
Ela não esperou resposta do segurança. Pegou mais uma vez o telefone e ligou para Edward. Ele não atendeu, então ela seguiu caminho até a área reservada para atrações. O acesso era dado por uma escada de vidro iluminada por pisca-piscas, algo extremamente brega e de mau-gosto. Tanya detestava a The Truth, era um verdadeiro antlo, que servia bebida barata e apresentava bandas ruins. Jamais entenderia o motivo de tanto carinho da banda para com o local, e já tinha dito a Edward mil vezes o quanto eles poderiam tocar em lugares melhores.
Tudo bem que a Answer não tinha nada de muito excepcional, mas eles tinham fãs o suficiente para se apresentarem em lugares melhor frequentados. Não era possível!
Ela então subiu as escadas, o barulho de seus saltos contra o vidro a deixando irritada. Olha, nem a música dava para ser ouvida aqui de cima, a distribuição de som era péssima! Que lugar horroroso…
Entretanto, já nos últimos degraus, ela conseguiu ver o movimento. A área de acesso restrito não tinha nada de restrita e nem nada de especial. Era só o segundo piso feito de madeira, que tremia a passos firmes. Uma parede de vidro cercava o local e dava visão para o restante do bar, e era super quente, porque o ar-condicionado daqui não dava conta do recado. Havia alguns sofás, que Tanya sinceramente não se atrevia a se sentar, porque deviam estar lotados de mofo, tinham um cheiro horrível.
Subiu o último degrau e viu Alice e Jasper sentados no sofá. Os dois conversavam baixo com um homem que Tanya não reconheceu. Ela se colocou na ponta dos pés para ver se enxergava mais alguma coisa e então viu as costas de Edward. O ar-condicionado daqui é mesmo uma merda, ela pensou, um frio desses e esse idiota sem casaco.
Discou o número de Edward mais uma vez, e, dessa vez, ela assistiu ao movimento: um desconhecido cutucou Edward no ombro, indicado o telefone. Ele se inclinou e pegou o celular na mesa, e finalmente atendeu. Tanya suspirou aliviada.
"Até que enfim você atendeu!"
O que veio a seguir foi silêncio. O sinal telefônico era mesmo péssimo neste lugar estranho.
"Edward? Responde!"
"O que foi?" ele disse ríspido do outro lado da linha.
"Estou aqui na The Truth! Assisti todo o seu show mas não consegui entrar, porque outra fã já tinha ido falar com você. Você tirou meu nome da lista?"
"Sim, porque não queria te receber aqui."
O peito de Tanya ardeu mais uma vez. Edward nunca falou naquele tom com ela. Era como se ele fosse outra pessoa.
"Eu não quero brigar, Ed… fala para eles me deixarem entrar na área reservada, por favor!"
"Cara, dá um tempo. Sério. Vai embora. Eu não sei nem o que você está fazendo aqui!"
'Cara'? 'Dá um tempo'? Nunca. Seu Edward nunca falaria daquele jeito com ela.
"Eu vim te ver! Se você não tem consideração pelo que passamos juntos, eu tenho! Sério, eu quero conversar com você, meu lindo."
"Para com isso! Não vou autorizar porra nenhuma. Boa noite pra você."
E ele desligou. Os olhos de Tanya se encheram de lágrimas pelo tom grosseiro e pelas palavras ofensivas. O que tinha acontecido com Edward?
Ela não desistiu. Encostou-se na parede e continuou a observar Edward do lado de dentro da área reservada. Ele ainda estava de costas e parecia conversar com a outra pessoa. Seria Alice? Não, ela conseguia ver Alice daqui. Uma fã qualquer? A garota que entrou no backstage?
Contudo, algo estranho aconteceu. Edward inclinou-se para frente, sua cabeça seguindo um ângulo suspeito. E então uma mão cheia de dedos percorreu os cabelos de Edward. E os agarrou. Com vontade. E a cabeça dele começou a se mexer, e ela teve certeza de que ele estava beijando alguém. Beijando a dona da mão, de quem vez ou outra ela conseguia enxergar a testa.
Tanya parou de respirar. É claro que ela sabia que Edward ficava com outras mulheres e até desconfiava que alguma era o motivo de ele ter terminado com ela, mas isso não significava que ela estava preparada para ver isso acontecendo. Além do mais, era só uma possibilidade que ele tivesse a trocado por outra pessoa! Ela jamais acreditou nisso verdadeiramente, porque ninguém mais poderia ser tão boa para Edward quanto ela mesma era, e ele sabia disso também!
O peito dela ardeu. Muito mais do que perder Edward, o que doeu e a fez ficar noites acordada foi ter seu orgulho ferido. A todo momento durante os últimos dez anos, Tanya sabia que Edward seria seu quando ela quisesse. Ela foi quem sempre o desprezou e pediu todos os tempos que eles deram. Tudo bem, ela sabia que um dia eles acabariam terminando de uma forma ou de outra, mas ela pensou que ela mesma terminaria. Tanya jamais contou com o desprezo, com a rejeição.
Ela nunca pensou que seria trocada por outra mulher.
E então ela vê algo assim. Tanya sentiu as orelhas esquentando e nem percebeu que tentava ultrapassar os seguranças. Ela não se sentiu sendo empurrada, nem percebeu que estava gritando. Ela só via Edward beijando uma desconhecida, e então se virando assustado. Ela não conseguiu ver o rosto da mulher, porque Edward já se colocava na frente dela, e mais seguranças surgiram, empurrando-a, fazendo-a gritar mais alto. E então Alice estava em sua frente.
"Mas que escândalo é esse, Tanya? Perdeu as estribeiras agora? Vai embora, sua louca!"
Alice. Num outro momento qualquer, ela ignoraria completamente a presença da amiga de Edward, mas hoje não era dia de controle de absolutamente nada. Tanya ainda não tinha engolido as asneiras que Alice proferira a seu respeito, junto à todas as acusações de mimada. Alice vivia envenenando a cabeça de Edward contra Tanya, e talvez ela tivesse conseguido daquela vez. Tinha que ser culpa de Alice.
"Isso é culpa sua!" Acusou. "Eu não sei o que você falou ao Edward a meu respeito, mas ficar fazendo intrigas na sua idade é ridículo, Alice! Você deveria ter vergonha!"
"Eu deveria ter vergonha?!" a outra respondeu, irritando-se, "Você apronta com Edward por dez anos e quer dizer que é minha culpa que ele tenha acordado para a vida? Ah, Tanya, por favor! Você tem que ser mais inteligente do que isso."
Tanya nem estava mais ouvindo. Tudo o que fez foi empurrar um segurança e partir para cima de Alice, preparando um tapa que viria com toda a força que ela conseguia manter no braço. A outra, entretanto, foi puxada para trás por dois braços, e Tanya teve os braços imobilizados por um segurança.
A gritaria agora era generalizada. À essa altura, já chamava a atenção de quem estava na pista comum da The Truth, assim como de outros seguranças e até do dono do local, que subia as escadas apressado para entender o que estava acontecendo.
"Vai embora, sua louca! Olha a confusão que você está fazendo aqui!" Alice gritou, e Jasper tinha que fazer força para manter a esposa em seus braços.
"Cala a boca, Alice, eu não falei com você!" Tanya devolveu.
"Sua mimada! Para de passar essa vergonha toda e vai embora! Anda!"
Tanya viu, então, Edward. Ele surgia em meio à confusão com a expressão séria e confusa. Parecia desacreditado.
Talvez aquilo fosse positivo. Quer dizer, Edward a conhecia muito bem, e sabia que ela não era uma pessoa dada a tamanhos escândalos, mas ela tinha feito aquilo por ele. Por causa dele. Poderia impressioná-lo, talvez, e fazê-lo se esquecer de quem quer que fosse.
"Eu só vou sair daqui depois de falar com o Edward!"
Edward a encarou. Sua expressão ainda era séria, vazia. O questionamento não estava mais lá, só algo que Tanya não conseguia distinguir, porque nunca esteve ali antes.
"Não sabe nem levar um fora! Vai embora, babaca, que ele não sente a sua falta!" Alice ainda gritava, mas Tanya não ouvia mais nada. Ela só tinha olhos para Edward, só tentava entender o que estava em sua expressão.
Ele parecia estar cansado. Decepcionado, talvez? Ela não soube dizer, especialmente quando ele coçou levemente a testa e negou com a cabeça. Lambeu o lábio inferior e deu um passo à frente.
Tanya quis chorar. Ela só queria que Edward a abraçasse e dissesse que esteve de cabeça quente e que não queria pôr fim a nada entre os dois. Tinha sido uma decisão impensada, apenas, e nada de ruim aconteceria a eles.
"Tanya, o que você está fazendo?" ele disse, se aproximando do segurança que ainda a segurava.
Aquilo era humilhante demais. Alguém a segurava como se ela fosse um animal arredio ou coisa do tipo, enquanto o homem que ela amava assistia como se ela fosse uma estranha. Moveu-se, tentando se desvencilhar do aperto do homem.
"Me solta!" Exclamou quando não obteve sucesso, "Me solta! Eu só quero falar com o Edward, me larga!"
O homem não se moveu e Edward não fez nada para ajudá-la. Magoada, Tanya sentiu as lágrimas descerem por suas bochechas.
"O que você quer, Tanya?" Edward perguntou.
"Quero falar com você. Por favor, eu só quero conversar com você."
"Eu não tenho nada para conversar," Edward negou com a cabeça. "Por favor, vai embora. Você está me prejudicando, este daqui é o meu trabalho, Tanya."
"Trabalho?!" Ela riu, irônica, "Seu trabalho envolve ficar se agarrando com qualquer vagabunda nessa merda de bar, Edward Cullen? É isso que você chama de trabalho?"
Tanya se arrependeu daquelas palavras no instante em que as disse. Não que elas não refletissem o que ela realmente pensava, porque Edward confundia sim trabalho com diversão. Há muito ele parecia não entender que ganhar dinheiro com algo não faz de tal um trabalho. Trabalho era carreira, trabalho era sacrifício. E, por mais que ele tenha dito mil vezes que abre mão de muita coisa para fazer o que "ama", ela ainda tentava entender qual era a parte difícil de ficar tocando uma guitarra ou um violão, cantando meia dúzia de besteiras para uma gente que não tinha o mínimo de senso ou gosto musical. Ainda era difícil compreender qual era o trabalho em ficar se agarrando com mulheres que o consideravam um ícone, um ídolo.
Entretanto, deixar Edward saber disso agora não a ajudaria a trazê-lo de volta a sua vida.
"Para de show!" ele disse mais alto, visivelmente irritado. "Sai daqui. Eu não quero falar com você, não temos nada a tratar. Por favor, você já fez muito escândalo. Vai embora."
O coração de Tanya se apertou mais uma vez. Ela não conseguia reconhecer aquela versão de Edward que era tão… avessa a ela. Ele costumava ser tão carinhoso, tão sutil… há poucos meses, bastaria uma expressão mais dócil ou manhosa, que Edward buscaria a lua por Tanya.
Pelo que conhecia seu namorado de tantos anos — porque, para ela, eles eram sim namorados... só porque eles não seguiam os padrões convencionais, não queria dizer que o relacionamento deles não foi verdadeiro -, Tanya sabia que ele estava irredutível esta noite. Realmente não quereria falar com ela. Talvez estivesse querendo fazer bonito para a garota que ele beijava, afinal, ela assistia à cena.
Todavia, ela não poderia ter passado todo aquele vexame à toa. De maneira nenhuma. Se ela não podia convencê-lo a falar com ela por bem, faria por mal.
"Eu vou," empinou o queixo e fungou. O segurança ainda tinha o aperto firme ao redor dela. "Mas, só se você me levar lá fora."
Edward revirou os olhos.
"Não vou. Os seguranças podem te levar, se você está com medo das pessoas te reconhecerem por esse escândalo."
Ela engoliu o choro e se remexeu nos braços do segurança.
"Se você não me levar lá fora, Edward, eu vou processar essa merda de lugar. Vou dizer que esse filho da puta aqui me assediou, porque estou mandando ele me largar! Eu sou influente, você sabe. Acabo com a vida dele e dou um jeito de fechar esse lugar nojento!"
As ameaças poderiam ser baixas, mas eram verdadeiras. Ela sabia que sua família era influente o bastante para fazer acontecer tudo o que ela disse, e estava disposta a arriscar.
"Tanya, isso é ridículo! Será que você não tem vergonha?"
"Quer pagar para ver?" ela desafiou. Então, aumentou o tom de voz e disse para os seguranças e para o dono da casa noturna, "Sou uma Denali, dona de metade dessa cidade de merda! Meu pai tem amigos que devem favores em todas as instâncias governamentais, inclusive de fiscalização sanitária. É só eu estalar os dedos e esse lixo de lugar está fechado!"
"Edward," uma voz masculina disse, alguns degraus abaixo de Tanya. "Vai lá com ela. Vamos evitar confusão."
Tanya conseguiu ver a mandíbula de Edward se mexendo. Ele apertava os dentes, como fazia quando estava muito irritado. O pomo de adão se moveu em sua garganta e ele suspirou fundo, lançando um olhar zangado na direção dela. Mas, Tanya não se deixou intimidar, e se manteve impassível, portando a mesma expressão autoritária de antes.
"Já volto."
Ele se virou de costas e caminhou para dentro da área reservada novamente. Tanya assistiu o movimento. Sentiu a raiva pulsar dentro de si novamente quando ele foi na direção da mulher com quem estava anteriormente. Ela ainda não conseguia ver o rosto da tal criatura, porque Alice a escondia, e Edward cercava o rosto dela com as mãos, tampando-a com seu corpo. Tanya perdeu a oportunidade de dar uma conferida em sua oponente durante o tumulto, e praguejou internamente por isso. Queria mesmo ver a cara da garota que teria seu coraçãozinho despedaçado em breve, porque ela com toda certeza convenceria Edward a voltar como era antes. Ou a namorar. A casar, sei lá. Tanya estava disposta a tudo.
Edward se inclinou na direção da mulher, que era notavelmente mais baixa do que ele. Pelo movimento, parecia ser um beijo na boca. Ela respirou fundo, irritada.
Só por enquanto. É bom que ela aproveite.
Edward então voltou. Tinha no rosto uma expressão azeda, tão séria quanto Tanya nunca havia visto antes. Era estranho ver Edward assim. Fazia seu estômago se revirar em tensão, porque Edward era segurança e previsibilidade. E aquelas duas coisas não poderiam estar mais longe do que ele representava neste momento.
"Vamos logo," ele disse baixo. O segurança então soltou Tanya, e ela ficou ofendida. Havia resmungado e tentado tanto se livrar do aperto do homem, e bastou um olhar de Edward para que conseguisse.
Ela arrumou as próprias roupas e afastou o cabelo do rosto. Tentou recuperar a pose e o orgulho, sabendo que, no fundo, jamais passara por tal humilhação. Edward devia desculpas a ela por tê-la feito passar por tudo aquilo. Ela só precisava consegui-lo de volta, e então o faria se desculpar por tamanho vexame.
Edward desceu as escadas na frente, não fazendo questão de esperar por ela. Ele nem olhou para trás, uma vez sequer. Suas atitudes revelavam o quanto ele não queria estar na companhia dela. Aquilo a fazia ficar com mais e mais raiva, pois se dava conta a cada segundo do que acabara de fazer, e Edward não valorizava seu gesto.
Tanya tentou agarrar o braço de Edward quando eles passaram pela pista movimentada da The Truth. Havia muita gente ali, e ela estava com medo de perdê-lo de vista, mas ele puxou o braço assim que sentiu os dedos dela tocarem sua pele. Irritada, ela se manteve firme ao lado dele até que estivessem fora do bar.
"Pronto," ele disse, olhando para ela pela primeira vez. "Pode ir agora."
Ela revirou os olhos e se aproximou dele. Estava frio aqui fora, e ela conseguia ver os braços nus de Edward arrepiados, mesmo sob as tatuagens.
"Até quando você vai posar de bem resolvido, meu lindo? Aquela mocinha que você está pegando hoje não está mais aqui. Não precisa fingir mais."
Edward revirou os olhos mais uma vez e bufou uma risada irônica. Tanya realmente não tinha a menor noção do que estava acontecendo.
"Não estou fingindo nada. Aliás, não estou entendendo nada. O que você quer? Que tipo de brincadeira você pensa que está fazendo?"
"Brincadeira?" ela franziu o cenho, "Não tem brincadeira nenhuma. Estou lutando pelo que é meu, como eu disse que faria."
A risada dele veio alta dessa vez.
"Disse que faria? Que eu me lembre, Tanya, tudo o que você fez foi chamar a minha vida de medíocre e fracassada. Mais nada."
Ela suspirou fundo e tocou a ponta dos dedos dele.
"Eu estava nervosa. Me perdoa, meu lindo. Você sabe que eu não te acho um fracasso. Na verdade, eu admi-"
"Não?! Você não me acha um fracasso?! E o que mais você disse agora há pouco mesmo? Ah! Que eu não trabalhava, não é? O que mesmo você disse que eu chamo de trabalho?"
Ele puxou novamente a mão para longe dela. Tanya engoliu a irritação a seco e continuou falando, mesmo que quisesse explodir agora. Ter sua vontade e seus argumentos contrariados eram coisas que ela odiava, mas ela precisava passar por cima dessas vontades para satisfazer sua vontade maior, que era Edward.
"Eu já disse que estava nervosa. E não tenta se fazer de vítima, Edward Cullen. Você gosta mesmo de se envolver com vagabundas enquanto está fazendo shows, isso não é recente."
A irritação cresceu no peito de Edward novamente.
"Cala a boca, Tanya. Cala a boca. Você não sabe o tamanho da merda que você está falando."
"Não, não sei?" ela dispara. "E não me manda calar a boca. Quem você acha que é?"
Edward mordeu a língua, morrendo de ódio. Sentiu a pele de seu rosto e pescoço esquentando, sinal claro de sua raiva, e respirou fundo.
"Não quero perder meu tempo com você. Chama logo a porra do seu motorista e dá o fora daqui, porque eu tenho mais o que fazer."
Tanya se deu conta da situação em que estava. Seu plano era atrair Edward para fora da boate para que o clima estivesse mais leve e ela pudesse fazer a abordagem que queria. Ao sair, entretanto, se viu gritando com quem deveria estar sendo carinhosa. E agora Edward queria voltar para dentro da boate, para junto da mulher e tudo por culpa dela.
Engolindo seu orgulho a seco e jurando que Edward ouviria todas as verdades que ela queria falar mais tarde, ela fechou os olhos para tentar pensar em algo.
"Meu motorista está de folga," ela disse de supetão. Era uma mentira, mas Edward não precisava saber disso.
Ele revirou os olhos.
"Problema seu. Liga para o seu pai. Ele vai vir salvar a filhinha indefesa num piscar de olhos."
"Não," ela negou com a cabeça, "Não quero o papai envolvido nisso. Não é você que vive dizendo que eu tenho 25 anos e não deveria recorrer ao meu pai?"
"Ah, agora você diz isso," ele ri, "Pede um Uber. Se vira, Tanya. Eu estou voltando lá pra dentro."
E então ele se virou de costa, caminhando na direção do bar novamente. Tanya sentiu o coração disparar em desespero, porque ela não sabia quando conseguiria uma oportunidade daquelas novamente.
"Edward!" gritou, "Edward!"
Ele não olhou para trás. Tanya se desesperou ainda mais.
"Edward!" ela correu em disparada, alcançando-o antes que ele retornasse, "Edward, espera! Me leva pra casa, por favor!"
"O quê?!" ele diz, e em seguida ri em tom sarcástico, "Você é louca mesmo, Tanya, só pode."
"É sério, me leva pra casa. Eu prometo que você nunca mais vai me ver depois disso. Prometo sumir da sua vida. Prometo!" Ela tocou com a ponta dos dedos a pele do braço dele. Irritado, Edward puxou o braço de volta, fugindo de seu toque.
"Você vai sumir da minha vida de qualquer jeito. Eu não vou te levar a lugar algum. Pede um Uber, se seu motorista está de folga e você não quer ligar para o seu pai."
"Não," ela sacudiu a cabeça e sentiu os olhos se encherem de lágrimas, "Por favor, Edward. Por favor. Meu celular descarregou… e eu não quero esperar um táxi passar por esse fim de mundo, está frio… por favor!"
Edward passou as mãos pelo rosto, irritado. Tanya já tinha lágrimas rolando pelo rosto, e sua vontade era de deixá-la aqui mesmo, no frio e na rua, por tudo o que ela tinha aprontado lá dentro.
"Eu peço um Uber pra você," ele procurou pelo celular no bolso da calça, "É o máximo que dá, porque-"
Contudo, o celular não estava em nenhum dos bolsos. Ele franziu o cenho, tentando se lembrar de onde estava o aparelho, e então…
"Ah!" estalou a língua, "Ficou lá em cima. Pede alguém pra te fazer esse favor, Tanya."
E então ele se virou de costas novamente. Ele estava indo embora. Tanya estava perdendo Edward. Ela não podia deixá-lo assim.
"Edward! Edward, me leva pra casa, por favor! Olha o que eu fiz por você hoje! Eu nunca fui tão humilhada na minha vida… eu abri mão de tudo por você, eu… eu te amo tanto! Por favor… eu só estou te pedindo para me levar para casa. É só isso."
Todo o ser de Edward gritava para que ele não fosse. Ele não queria ir. Bella estava lá em cima, ele havia prometido voltar logo.
Porém, ele também não podia deixar Tanya aqui fora. Se algo acontecesse a ela, ele não poderia se perdoar, porque, bem, ela estava certa, e táxis raramente passavam por aqui. Seu celular estava com Bella, e ele poderia ir lá buscar, mas havia uma chance de que Tanya fosse atrás dele e um novo escândalo aconteceria. Aro não queria Tanya de volta ao seu bar, e Edward não podia procurar confusão com alguém que o ajudou tanto.
Ele ainda poderia arranjar um jeito de avisar a Bella, ou levá-la consigo, mas a possibilidade de deixar a morena no mesmo ambiente de Tanya era simplesmente impensável. Bella não merecia os insultos que Tanya poderia proferir. A coexistência das duas era impossível.
Não restava alternativas. Mesmo não querendo, mesmo achando um absurdo, mesmo irritado, ele tinha mesmo que levar Tanya até sua casa. O lado bom era que não ficava longe dali, e em trinta minutos ele poderia voltar. Ele só precisava avisar a Bella e…
Droga! O celular.
"Preciso voltar e avisar que eu estou saindo."
Tanya sentiu-se vitoriosa. Tinha finalmente o convencido a levá-la pra casa, porque ela conhecia Edward o bastante para saber que ele nunca resistiria a vê-la chorando. Ele era uma boa pessoa, acima de qualquer coisa, e não suportaria a culpa de algo acontecer a ela. Ele ficaria preocupado, então se asseguraria de que ela estava em segurança. Ela e qualquer pessoa, na verdade, porque ele faria isso por qualquer um, mas Tanya gostava de pensar que ela ainda era especial naquele sentido.
Edward, no entanto, não via especialidade nenhuma naquilo. Estava, na verdade, irritado e frustrado. Dirigiria o mais rápido que pudesse, cortaria caminhos, voltaria o mais depressa possível. Nenhum segundo poderia ser desperdiçado.
Ele então voltou a caminhar na direção do bar. Tanya não entendeu, e só então recaptulou a última fala do outro. Voltar? Avisar? Avisar pra quem? Pra outra mulher?
De jeito nenhum!
"Edward, espera!" ela correu atrás dele mais uma vez. Os dois já estavam próximos do carro de Edward, estacionado a poucos metros da entrada principal da The Truth. "Espera!"
"O que é?!" ele se virou, irritado. "Será que já não foi o bastante ter arruinado a minha noite, me envergonhado no meu trabalho e me fazer sair daqui? Eu posso, pelo menos, avisar a quem veio comigo?"
"Pois se você for, eu vou junto!" ela apelou para a única coisa que manteria Edward ali. "Não vou sair de perto de você, Edward, e garanto que consigo fazer um escândalo ainda maior. E ainda aproveito para conhecer a vagabunda que você trouxe pra fingir que ocupa o meu lugar."
Edward sentiu a raiva esquentar seu peito novamente, mas não levou as ofensivas de Tanya a sério. Ela nem sabia quem Bella era, e provavelmente Bella não se deixaria intimidar com aquele tipo de situação, mesmo se passasse por ela. Ele fez bem ter contado a ela tudo o que Tanya representava — e agora não mais — em sua vida.
Mesmo assim, um encontro entre as duas continuava fora de cogitação, e Tanya continuava fora de si. Era realmente bem possível que ela fosse começar um novo escândalo e envolver Bella nele. Era melhor evitar.
Ele trancou o maxilar e pressionou os botões que desacionavam o alarme do carro. Tanya sorriu internamente, vitoriosa, e caminhou na direção do banco do carona.
"Como vai ser?" ela perguntou, desafiando.
"Entra nessa merda logo então!"
Edward entrou no carro e ouviu a porta do passageiro bater enquanto colocava o cinto de segurança no lugar e ligava o motor. Não observou se Tanya estava pronta para ir ou se já tinha posicionado o cinto, simplesmente deu partida no carro e os colocou em movimento, pensando em voltar o mais rápido possível.
Tanya, por sua vez, sentia-se satisfeita. Pelo retrovisor, conseguia ver alguém parada em frente à The Truth ficando cada vez mais longe. Pela posição da pessoa, devia estar querendo falar com Edward. Talvez fosse a mulher que esteve com ele hoje, mas a vida seria boa demais para dar a ela esse gostinho. Devia ser alguma fã, ou Alice. Bem, o cabelo era comprido demais para ser de Alice, mas Tanya definitivamente não se importava. Ficava para trás, e, mais uma vez, ela estava no carro de Edward. Com ele.
Tudo parecia mais fácil daqui, nesta atmosfera tão quente, que cheirava a Edward e a costume desde a sua adolescência. Ela suspirou fundo e encostou a cabeça no banco.
"Odeio brigar com você, meu lindo," ela esticou o braço e pousou a mão na perna direita de Edward, "Vamos acertar essa situação, por favor… esta semana foi tão ruim."
Edward se manteve em silêncio, mas revirou os olhos. Agarrou o volante firmemente com uma mão e empurrou a mão de Tanya com a outra.
"Não temos nada a acertar, Tanya."
"É claro que temos!" Ela teimou, "Temos muito o que resolver. Edward, nós temos uma história, um relacionamento tão longo… jogar tudo pela janela, assim, do nada... vamos nos arrepender, meu lindo."
"Para de me chamar assim," ele não desviou os olhos da estrada. O velocímetro mostrava 100km por hora, e ele achava pouco. "E eu não vou me arrepender de nada. Não me arrependo, Tanya, você sabe. Não foi do nada, eu pensei nisso por muito tempo."
Ela franziu o cenho. Aquilo era novidade. Quer dizer, é claro que ela percebeu a diferença no comportamento de Edward, mas não era tão intensa assim. Desde quando aquelas asneiras estavam habitando os pensamentos dele?
"E por que você nunca me disse?"
Ele olhou para Tanya por um segundo antes de se voltar para a estrada novamente.
"Eu disse na hora certa."
Tanya suspirou contrariada. Estava muito mais difícil do que ela pensou que seria.
"Quem é a garota?"
"Que garota?"
"A garota que você trouxe para o show hoje. A vagabunda da noite."
Edward bateu no volante.
"Fale mais uma vez desse jeito, Tanya, e eu te largo aqui na rua mesmo."
Ela ergueu as sobrancelhas.
"O quê? É sério isso? Defendendo uma mulher que você mal conhece? Preferindo ela a mim?"
"Deus do céu!" ele exclamou, aumentando a voz, "Eu não estou preferindo ela a você, porque você não é mais uma realidade, uma possibilidade na minha vida, Tanya! Será que está difícil de entender que acabou?"
Sim. Sim, estava muito difícil. Os olhos de Tanya se encheram de lágrimas pela provável vigésima vez na noite, mas agora o motivo era outro: frustração.
"Edward, você está me machucando muito," ela fungou, "Eu não consigo entender o que eu fiz pra merecer isso! Você está me tratando tão mal! Está me desprezando a noite inteira, como se eu fosse um monstro ou coisa do tipo! Isso me magoa, Edward, me machuca muito, porque eu te amo. Que se foda os absurdos que Alice disse de mim hoje, ou aqueles seguranças me agarrando. Nada disso me afeta, mas você me tratando assim… dói, Ed, dói muito!"
Edward lambeu os lábios. Olhou para o retrovisor, entediado. O discurso de Tanya era ensaiado, ele poderia prever palavra por palavra antes mesmo que ela as pronunciasse. Se aqueles dez anos tinham servido para algo, era para que Edward conhecesse bem a figura ao seu lado. Cada palavra de Tanya era meticulosamente analisada, com intenção de sensibilizá-lo, ele sabia. Assim como tudo o que ela fez para que ele a levasse em casa, tinha o mesmo intuito. Tanya o manipulou emocionalmente por anos, e ele, agora, conseguia perceber claramente suas manobras.
Anteriormente, ele faria qualquer coisa para não magoá-la. Hoje, porém, não se importava, porque sabia que a mágoa que ela sentia era superficial.
"Não demora a passar," ele disse simplesmente, "Você é capaz de superar."
"Mas, que droga!" Tanya gritou, frustrada, "Você mudou, Edward, você mudou muito! Eu não te reconheço mais, e tudo isso é culpa da Alice! Ela ficou fazendo a sua cabeça contra mim, e você é tão idiota que caiu!"
Edward se limitou a olhar para ela.
"Pense o que quiser," deu de ombros, "Não faz diferença."
O choro de Tanya foi compulsório, verdadeiro e de pura frustração. Tudo o que ela queria era convencer Edward a voltar, e ela esteve perto disso. Já o teve nas mãos e agora o sentia escapar pelos dedos.
O desprezo doía, a rejeição era humilhante. Mas, a frustração era o pior sentimento de todos e Tanya não sabia lidar com ele.
Ela chorou pelo restante do caminho. Soluçou, fungou, passou as mãos pelo rosto, espalhou as lágrimas, agarrou os próprios cabelos. Fez de tudo para chamar atenção; Edward se manteve impassível. E quando ele parou em frente à mansão, de faróis acesos, motor ligado, luz do painel acesa, ele nem desligou o carro, sem a menor intenção de demorar. Destravou as portas e continuou olhando para a frente.
"Então é isso?" ela fungou, "Você vai me deixar?"
Edward encostou a cabeça no banco do motorista.
"Terminamos há uma semana."
"Mas, eu quero voltar!" expôs diretamente, finalmente. "Eu estou disposta a namorar, Edward! A me casar, se você quiser. Eu largo tudo! Saio de casa, vou morar com você, trabalho com a sua banda, sei lá! Eu estou disposta a desistir da minha vida para viver com você."
Edward suspirou, cansado da voz de Tanya. Nada daquilo o atingia, ele mal ouvia. Só pensava que estava demorando demais e que precisava voltar à The Truth para encontrar Bella. Só isso.
"Vou passar. Obrigado."
"Injusto!" Ela soluçou, "Eu te odeio, Edward! Te odeio por me fazer sofrer, te odeio por tudo!"
No entanto, as palavras de Tanya foram contraditas por suas ações. Num átimo de coragem e desespero, ela agarrou o rosto de Edward com as duas mãos e se impulsionou para frente, pressionando a boca com gosto de choro contra os lábios dele. Assustado, ele se afastou imediatamente, passando a mão na boca, em seguida.
"Sai desse carro agora, Tanya. Entende que acabou. Por favor. Segue a sua vida, eu vou seguir a minha."
Entretanto, ela ainda não estava pronta para desistir. Saíra de casa naquela noite para voltar apenas com Edward consigo, e não havia santo que a faria desistir. Ela sempre conseguiu convencer Edward do que quer que fosse, agora não ia ser diferente.
Por esse motivo, ela cruzou os braços sobre o peito e firmou os pés no chão do carro. Edward observou a cena, achando graça na maneira como ela se comportava como uma criança birrenta. Arqueou as sobrancelhas.
"Está surda? Sai, Tanya. Sai agora."
"Não!" Exclamou. "Não vou sair! Não saio daqui sem que você pare com essa palhaçada e volte logo comigo!"
Porém, a paciência de Edward tinha chegado ao fim. Ele já tinha feito o suficiente, já não suportava aquela situação. A cada segundo sua aversão a ela aumentava.
Ele não disse uma só palavra. Apenas pressionou a palma da mão no centro do volante. A buzina alta fez Tanya pular de surpresa no banco.
"Edward! Para com isso! Você vai chamar a atenção da vizinhança inteira!" Mas, ele nem olhou para ela. Continuou pressionando a buzina.
Tanya se desesperou. Não tardaria até que seu pai percebesse o barulho e olhasse pelas câmeras de segurança o que estava acontecendo. Ele com certeza reconheceria o carro de Edward e nem mandaria os funcionários da casa no local; viria em pessoa.
"Edward!" ela gritou sobre o barulho, "Para! Agora!"
"Sai do meu carro."
"Ah, então você vai ser infantil desse jeito? Eu me recuso a sair e você começa a buzinar na porta da minha casa?!"
"Sim," ele trocou a mão que pressionava a buzina, sem deixar o barulho cessar, "Se estou lidando com uma criança, preciso ser infantil."
Ela ainda tentou retirar o braço dele da buzina a força, mas não conseguiu. Estava prestes a desistir e sair do carro quando faróis iluminaram todo o ambiente. Eles vinham de trás, de um carro que encostava atrás deles.
Um carro que era muito parecido com um já conhecido.
"Para!" ela se desesperou, "Para! É o meu pai!"
Aquele aviso teria feito Edward parar o que quer que estivesse fazendo em outros tempos. Hoje, contudo, não fazia a menor diferença.
Alguns segundos depois, uma pessoa batia no vidro do motorista. Edward sorriu e, ainda pressionando a buzina, baixou o vidro do motorista.
"Se não é o Sr. Denali! Como vai?"
"O que você pensa que está fazendo?" disse o homem bem vestido, com o cabelo grisalho perfeitamente cortado. "Para de fazer essa bagunça na frente da minha casa, seu muleque!"
Ele apenas deu de ombros. Tirou a mão da buzina e apontou para Tanya.
"Acredite, Sr. Denali, eu não queria estar aqui. Mas, a sua filha," apontou na direção de Tanya com o queixo, "me pressionou. Ela não está aceitando bem o fim do nosso relacionamento, sabe como é."
Ele franziu o cenho, enxergando Tanya dentro do carro pela primeira vez. A mulher estava vermelha como um tomate, segurando a bolsa no colo com força.
"Que relacionamento?"
"Ah!" Edward fingiu se lembrar e riu irônico, "Sempre me esqueço que o senhor não sabe. Pois é, Tanya e eu estivemos num relacionamento pelos últimos dez anos. Eu chamaria de namoro, mas não dá para chamar assim também. Mas, isso não importa, porque já acabou. Hoje ela apareceu lá no The Truth, onde eu estava tocando, para fazer o maior escândalo. Nem parecia filha de Garrett Denali!"
Garrett quis puxar Edward do carro e cobrir seu rosto de pancadas. Já não gostava dele, sempre quisera uma desculpa para fazê-lo. O foco de sua raiva hoje, no entanto, era Tanya. Ele não queria acreditar que o que Edward dizia era verdade, mas estava estampado no rosto de sua filha que os fatos narrados de fato tinham acontecido.
"Tanya. Saia daí."
Aquela era a maior humilhação de todas. O fato de seu pai pegá-la num carro com Edward não era assim, tão mal, porque ela sempre podia inventar uma desculpa mais tarde. Poderia falar que encontrou Edward por acaso, ou que ele estava insistindo muito para vê-la. Inventar desculpas para seu pai quando ele via o carro de Edward pelas câmeras, ou o via pessoalmente, era hábito.
Contudo, isso era demais. Se ao menos Edward tivesse ficado quieto, ela poderia inventar alguma coisa ali mesmo. Levaria apenas alguns segundos até que seu choque passasse, mas ela conseguiria pensar em algo. Só que Edward estragou tudo ao falar demais. Falar coisas absurdas, humilhantes.
"Vai, Tanya. Seu pai está te mandando sair do meu carro. Quem sabe você o escute?" Edward se virou para Garrett novamente, "Estou pedindo para que ela saia há um tempão, mas ela está teimando bastante. Tive que apelar para a buzina, sabe como é."
O homem estava vermelho de raiva. Suspirou fundo, pensando que não seria bom começar uma briga agora, porque daria material de fofoca para a vizinhança e para os tablóides. A coluna social do jornal estava precisando de novos escândalos e ele não precisava alimentá-los.
"Anda, Tanya," grunhiu. "Desce desse carro agora."
Ela estava dividida. Era ridículo ter que obedecer seu pai na frente de Edward, era ridículo dar razão a tudo o que ele sempre falava dela. No entanto, seu pai estava certo, sempre esteve. Edward não era para ela e essa situação não a levaria a lugar algum.
Engolindo o orgulho a seco, ela abriu a porta do carona. Edward sorriu vitorioso e aliviado, mas ela se virou uma vez mais antes de sair
"Você vai se arrepender."
Ele deu de ombros.
"Acho difícil." Virou-se para Garrett, "Bom te ver. Até."
Ele então fechou o vidro escuro. Tanya bateu a porta do carona e ele não esperou por mais nada. Arrancou o carro e, cantando pneu, seguiu o mais rápido que pode de volta à The Truth. Bella esperava por ele. O restante de sua noite compensaria essa parte horrível.
[...]
Bella não estava em lugar nenhum. Batendo recordes, Edward chegou ao bar exatamente oito minutos depois de deixar a casa de Tanya. Largou o carro na rua e entrou correndo pelo bar que, a essa altura, já estava mais vazio. Ao chegar à área reservada, porém, franziu o cenho.
Ninguém estava ali mais. Nem Alice. Confuso, Edward procurou um dos seguranças. Ao questioná-lo sobre o paradeiro dos ocupantes do local, porém, recebeu a resposta que o deixou confuso:
"Já foram. Há um bom tempo, na verdade."
Bom tempo? Que estranho.
Edward agradeceu e desceu as escadas. Procurou por algum sinal de seus amigos ou de Bella, mas eles não estavam em lugar algum. Ele tinha demorado, mas não mais do que quarenta minutos. Não era possível…
Ao procurar pelos funcionários da área da apresentação das bandas, recebeu a notícia de que Jasper havia colocado os instrumentos no carro alugado e despachado tudo há, no mínimo, meia hora.
Cacete, mas eu tinha acabado de sair daqui há meia hora…
Ele estava confuso. Precisava ligar para Alice e descobrir o que tinha acontecido. E onde estava Bella? Devia ter ido com eles, porque Alice não a deixaria sozinha aqui. Mas, por que ela foi? Os dois tinham combinado de deixar o bar juntos, ele tinha prometido voltar para buscá-la…
Avistou Aro a alguns metros e, sentindo-se na obrigação de se desculpar por toda a confusão, se aproximou.
"Oi, Edward," ele sorriu, apertando a mão do músico. "Conseguiu resolver o problema?"
"Consegui," ele assentiu, "Me desculpa, Aro. Nunca pensei que ela fosse fazer aquela confusão toda. Estou muito envergonhado."
"A culpa não foi sua," ele riu baixo, "Bem, você é quem está arrasando os corações da mulherada, mas não é novidade. Ex-namorada?"
"Algo assim," ele coçou a parte de trás da cabeça. "Terminamos. Sei lá o que deu nela. O pior é que ela veio fazer escândalo aqui, cara. Logo aqui. Sério, eu estou envergonhado pelas ameaças que ela fez. Foi ridículo."
Aro deu de ombros.
"Só não quero que ela cumpra o que ameaçou. Ela mencionou ser uma Denali, e eles são influentes."
"Não, ela não vai fazer nada. Pode ficar tranquilo. Me desculpa mesmo."
"Não se preocupa," ele apertou o ombro de Edward. "Ainda bem que aconteceu aqui, porque eu já conheço você, sei que foi uma situação chata que não foi criada por você."
Edward suspirou aliviado. Apertou o ombro de Aro de volta e sorriu.
"Obrigado, cara. Por tudo e mais um pouco." Lambeu os lábios. "Por acaso você não viu Alice e Jasper?"
Aro pensou por alguns segundos, erguendo as sobrancelhas e olhando para os lados. Depois tornou a fechá-los, apontando o dedo para Edward.
"Sim. Jasper veio se despedir junto a Alice e mais uma morena bonita."
Bella.
"Eles foram embora?"
"Foram," assentiu. "Algum problema?"
Espero que não.
"Não," ele negou com a cabeça, "Vou lá também. Obrigado, Aro. Boa noite pra você."
[...]
Ele bateu outro recorde ao chegar na casa de Jasper e Alice. Torcia para que Bella estivesse lá, era sua esperança.
Porém, quando Alice abriu a porta do apartamento, sua expressão mostrou o contrário.
"Por que vocês foram embora?" ele perguntou quando ela deixou a porta aberta e saiu andando. Edward entrou no apartamento e fechou a porta atrás dele. Buscou Bella com o olhar, mas não havia sinais de sua presença na sala.
"Por que você entrou no carro com a Tanya?"
Edward franziu o cenho. Como ela sabia disso?
"Como você sabe disso?" perguntou.
"Ah, Edward," ela disse irritada, "Para com essa conversa fiada."
"Conversa fiada?" ele estranhou. O comportamento de Alice era deveras estranho. Jasper apenas observava a cena, sentado no sofá. "Por que você está falando isso? Cadê a Bella?"
"Deixamos ela na casa dela, coisa que você disse que faria, mas resolveu levar a Tanya pra algum motel de beira de estrada. Na boa, Edward, vai embora."
O quê?
Choque percorreu o corpo de Edward. Se Alice estava falando isso, era muito provável que Bella pensasse o mesmo. O tom de voz de sua amiga não mostrava sinais de que ela estava brincando. Era sério. Muito, muito sério.
"Não!" Exclamou. "Não vou a lugar nenhum! Eu não fui pra motel nenhum com a Tanya, você pirou, Alice?"
Alice bateu o pé no chão.
"Você é quem pirou! Que vergonha, Edward! Eu achei que você tivesse acordado para a vida e dado um pé na bunda daquela vadia, mas é só ela aparecer pra você sair correndo atrás dela como um idiota! E o pior é que a Bella estava lá! A Bella viu!"
"A Bella viu o quê?!" ele se desesperou. "Não aconteceu nada!"
"Ah, não?" ela riu, "Ela deve ter alucinado você entrando no carro com a vagabunda da Tanya, não é?"
Edward arfou.
"Ela me viu? O que ela estava fazendo lá fora?"
"O que ela estava fazendo lá fora?! O que ela estava fazendo lá fora?!" A voz de Alice aumentou de volume. "É isso que você quer saber, Edward Cullen? Então o problema foi ela ter visto, e não você ter feito merda?!"
"Alice," Jasper se levantou e tocou o braço da esposa. "Calma."
"Ah, que se foda," ela se afastou do toque do marido. "Estou lá no quarto. Se você quiser ficar aí, Edward, que fique. Mas, eu não quero ouvir a sua voz, entendeu? Ah! Seu celular e sua jaqueta estão na mesa da cozinha."
Edward observou sua amiga sumindo pelo corredor. O barulho da porta do quarto batendo assustou aos dois amigos parados na sala e os dois se entreolharam.
"O que aconteceu?" ele perguntou, confuso e nervoso.
"Senta," Jasper indicou para o sofá. "Vou pegar cerveja. Temos muito o que conversar."
Edward franziu o cenho. Acompanhou Jasper até a cozinha e pegou o celular. Não havia mensagens de Bella, nem sinal dela.
"Nem pense em falar com ela," Jasper avisou e entregou uma cerveja a Edward. "Ela está bem puta. Agora senta naquele sofá e me convence de que ela não tem razão."
Edward prendeu a respiração, sabendo que Tanya o havia enfiado num problema enorme.
Fudeu.
As músicas originais da Answer correspondem às seguintes músicas do Dias de Truta:
Crying Soul: Na porta de um Bar
Butterflies: Babalu
Young Heart: Amor a Mil
Rascality: Patifaria
Blonde Field: Nos Campos Morena
Better Than You: Mereço um Alguém
It'll be better: O Último Presente
Light: Acorde o Sol
Presumptuous Guy: Sangue
Freedom: Sossegado
Piece of My Heart: Sincero Abraço
Smile: Caçarola
Colors: Rafaela
Not Your Business: Música do Sapo
For Her: Puro Amor por Ela
Flower: Flor Amarela
Prize of The Underground é também uma inspiração no projeto paralelo do guitarrista e do baterista do Dias de Truta, chamado Chapéu e Cabelo.
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