Notas iniciais
Esta história trata-se de um método para remediar minhas crises severas de ansiedade. Escrevi o que estou sentindo. É compreensível se alguém ler e não entender, nem eu mesma entendo, é muito complexo e intenso para pôr em palavras e eu não tenho o dom nem domínio sobre as letras para me expressar de forma mais clara.

Lamentarei do fundo de minha'alma se houver quem leia e se identifique. Sei o quanto é desesperador.
Ao final, tentem ser mais empáticos. Coloquem-se no lugar de quem sofre. Talvez o vilão seja assim por não ter tido um final feliz.

Todos os dias eu luto por uma distração. Tento arduamente controla-la. Calá-la. Ela sempre vence e sempre determina o que devo pensar e sentir. Ela comanda cada parte de mim. Sou sua eterna refém. Porém não há com quem lutar, ela sou eu. O monstro que me atormenta faz parte de mim, e sou submissa a seus desejos e imposições. Ela controla cada parte, começa dominando minha mente e então se espalha pelos meus nervos, chega a meu sistema gastrointestinal, sistema urinário, sistema endócrino, detém cada sistema e por fim se instala no meu coração. Ele (o coração) perde o ritmo habitual, acelera na mesma proporção que meus neurônios trabalham realizando sinapses e transmitindo impulsos com informações, que talvez sejam reais, talvez imaginárias.

Minha inimiga é muito habilidosa, é paranormal, excêntrica. Aparece em segundos e controla o presente, passado e futuro. Não existe algo que a supere. Todos os momentos bons são perdidos, as alegrias tornam-se insignificantes, só há algo que a consola e, de certa forma, abranda sua força avassaladora, são minhas lágrimas. Lágrimas não são uma ameaça, penso que possam ser mesmo o objetivo.

Pensei em desistir. Muitas vezes. Tenho sonhos com esses momentos. Em que nada mais pode me derrubar, eu livre e livre para sempre. Sem preocupações, sem dúvidas, sem medos, sem arrependimentos, sem vergonhas, sem solidão, sem vida para cuidar e manter. Somente o sono e a dormência. Livre de todo o sofrimento que meu oponente me causa. Meu oponente que sou eu mesma. A hospedeira desse monstro feroz que persiste desde a minha adolescência “trágica”, social e emocionalmente. E a única forma de abatê-la é destruindo a mim mesma, destruindo minhas defesas onde ela se instalou. Parasita. Aproveitou-se de minhas fraquezas.

Essa sou eu e não posso mudar. Totalmente quebrada e sem forças para se reerguer. Tenho vivido cada dia buscando um novo sonho, uma nova perspectiva e penso se realmente vale a pena. Por que mesmo eu continuo tentando? Por eles? E se eles me deixarem? E quando não houver mais ninguém qual será minha motivação? E eu sei que eles vão me deixar. A cada dia sinto que está mais próximo e não posso controlar isso também. É algo que está além de mim, nem minha vilã pessoal superpoderosa tem poderes sobre isso, tudo o que ela pode fazer é me avisar, a cada milésimo de segundo, sobre como eu vou estar sozinha e infeliz em pouco tempo, e ela vai fazer mesmo isso. Aliás, está fazendo. E então não terei motivos. O que mais o mundo tem para mim? Não consigo ver e tenho medo de descobrir sozinha, porque tenho horror a solidão, de andar sozinha sem ninguém para conversar e planejar comigo. Então também terei de ir com eles.

Em minha cabeça há momentos em que posso escapar. Desligo-me dessa realidade, aproveito, devaneio. Longe dela, de mim. Nesse momento sou outra pessoa. Uma garotinha de classe média deslizando no escorregador do parquinho do prédio em que mora com os pais, com o cachorro da família e dois irmãos mais velhos e ridículos que implicam com minhas maria-chiquinhas, e somos felizes. Em outro momento vivo dois séculos atrás: bem alí estou eu sentada num banquinho observando disfarçadamente meu irmão favorito e meu futuro quem-sabe noivo conversando sobre como as recentes chuvas indicam uma boa colheita, logo prosperidade para as nossas famílias depois de um longo período de seca, enquanto pinto flores amarelas e azuis, que são minhas favoritas, com traços grosseiros pela falta de prática e imagino um futuro com aquele que me observa de volta, com breves olhadelas pelo canto dos olhos. Outras vezes ainda consigo me transportar para o meio de uma floresta, na Idade das Trevas, lá estamos uma senhora de longos cabelos brancos e pele morena enrugada e eu pequena e franzina ruiva de olhos naturalmente arregalados, ambas fugindo do mal e da perseguição, a senhora me conta coisas de sua vida e aconselha sobre o futuro incerto que traçarei, mas eu inocente e vivaz sorrio pela perspectiva de mudança, pelas histórias e pela crença no fantástico como salvação para a alma. Entretando meus pensamentos não duram como eu gostaria, não preciso repetir que é ela quem está no comando e decide, na maior parte das vezes, o que devo pensar. Tira-me do refúgio da minha própria mente, de volta para ela.

Não sei como tenho vivido. Não sei se respirar, comer, falar e fingir conta como vida. Eu quero ser livre. Quero ser acompanhada. Quero muitas coisas, mas ela me diz até onde posso conseguir. E esse até onde não é um terço do que quero. É por isso que sei que não posso mais permancer como estou agora. Não posso comigo mesma. Ela sou eu. Eu sou ela. Mas ela me destrói. Por isso tenho de acabar comigo mesma para ser livre.

Você não existe.

Fui eu que te inventei.

É você quem está a minha mercê, não o contrário.

Você não pode impedir minha felicidade.

Mas eu sei que pode...

Notas finais
Que haja paz em nossos corações e mentes.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!